sexta-feira, 30 de maio de 2014

QUAL especialidade?

ERA mais uma manhã no Corpo de Alunos. Alvoroço geral com aqueles dois milheiros de alunos saindo de suas respectivas esquadrilhas, correndo para entrar em formação. Como era o previsto para a semana de segunda a sexta-feira, a imensa tropa, mais uma vez, fracionava-se em grupos menores conforme as salas de aula ou galpões de especialidade. Cada grupo com seu respectivo comandante, o aluno escalado como xerife para o dia, para cuidar que todos estivessem em seu lugar no devido tempo e na necessária ordem, exigindo de todos vivacidade, silêncio, imobilidade, pois ali não era lugar para molóides. Este aluno, o xerife, tinha que ser o primeiro a chegar ao local de formatura.

– Rápido, moçada!
– Entrou em forma, não mexe mais!
– Posição de descansar correta!
– Mãos coladas à coxa,  cabeças erguidas, dedos unidos. Polegar também é dedo!
– Imobilidade! Vou apresentar ao aluno de dia.

Em torno dessas pequenas tropas, outros alunos também escalados de serviço, os alunos patrulhas, orientados a avistar algum aluno em atraso ou se mexendo – estes eram a maioria – e outros que faziam vistas grossas a alguma possível transgressão de seus colegas – a minoria. Cada aluno, comandante de cada pequena fração de tropa, depois de comandar sentido, cobrir, firme e descansar, sentido novamente, cobrir, firme e descansar, numa repetição enervante até que desse a alunada por pronta, e, outra vez, sentido, recomendando imobilidade total, fazia a apresentação ao aluno de dia ao Ceá, o aluno mais antigo escalado para o dia.


Mais um dia de rotina no Ceá

Por sua vez, o aluno-de-dia, o todo-poderoso, uma vez recebidas todas as apresentações de rotina, dizia ao corneteiro os toques que deviam ser dados: reunir, sentido, cobrir, firme, descansar, até, finalmente dar outra vez sentido para a apresentação ao oficial de dia ao Ceá presente. Dava a tropa pronta para que seguissem destino. A partir de certo ponto, cada grupamento se desmembrava do todo, seguindo destino próprio, sob o comando de cada aluno comandante de grupamentos, e estes encaminhavam seus colegas comandados para a respectiva sala de aula, no caso as turmas de primeira e segunda séries, ou galpão de instrução, no caso das especialidades de terceira e quarta séries. Todos, exceto aqueles possuidores de dispensa médica do esforço físico, seguiam marchando em passo ordinário, disciplinadamente.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

MINHA chegada a Guaratinguetá

DIRIGI-ME ao guichê da Viação Sampaio e comprei o bilhete para o ônibus das dezoito horas, destino a Guaratinguetá, e voltei em seguida ao banco de espera a fim de descansar do longo dia que ainda se prolongaria pela noite. Ainda faltavam cinquenta ou quarenta minutos para o embarque. As incertezas perseguiam-me a mente; no bolso, pouquíssimo, quase nenhum dinheiro. O cansaço me pegava, relaxei...

Não demorou muito e despertei daquele cochilo que já virava um sono pesado com a mão do bilheteiro em meu ombro:

- o seu ônibus tá saindo em cinco minutos, rapaz.

Não havia conseguido controlar o sono, resultado daquele dia comprido e cansativo, que não fazia parte da minha rotina de vida. Nem lembro se agradeci à gentileza daquele senhor, cuja feição a memória não guardou e cujo nome nunca soube. Bem provável que não, falha que credito à timidez de adolescente. Foi um gesto muito bonito da parte dele, uma caridade que jamais terei como pagar: abandonar seu posto de trabalho para me alertar do horário. Por cinco minutos e provavelmente nunca mais Guaratinguetá, nunca mais Escola de Especialistas, nunca mais Força Aérea Brasileira. O que teria sido da minha vida? Muitas vezes na minha existência quedei-me a perguntar a mim mesmo. Sozinho no Rio de Janeiro, sem rumo, sem destino, algumas cédulas de cruzeiro no bolso, suficientes talvez para mais apenas uma refeição. Convenci-me com o tempo da bondade de Deus, que usou o coração daquele homem como instrumento de seu amor, levando-o a acordar-me daquele sono que me vencia. O que seria de mim ali, sem parente nem derente? Um pedinte, um mendigo, um indigente. Obrigado, meu Deus; obrigado, meu anônimo amigo bilheteiro, meu herói daquele final de tarde que jamais esqueci.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

SE você...

SE VOCÊ sabe o que quer dizer Errepeeme, que não seja aquela conhecida expressão estudada em Física; 
Se você sabe o que quer dizer muvuca, sem ser aquele programa antigo da Regina Casé;
Se você sabe e já andou de Pássaro Marrom;
Se você sabe quem era o Caveirinha, o J. Carlos, o Egito, o Magalhães, o Bonin e o Arrais,
Se você sabia qual o apelido do sargento Tarcísio;
Se você já ouviu falar em Romão, e muitas vezes;
Se você até precisou trocar de uniforme no armário alugado do Romão, porque era obrigado a sair de quinto da Escola;
Se você também já ouviu falar no Mar de Rosas;
Se você já usou o gorro sem pala e bico de pato;
Se você já precisou tomar banho frio no inverno;

terça-feira, 27 de maio de 2014

CONTO de escola

Raimundo tirou a moeda vagarosamente e mostrou-me de longe
A ESCOLA era na Rua do Costa, um sobradinho de grade de pau. O ano era de 1840. Naquele dia - uma segunda-feira, do mês de maio - deixei-me estar alguns instantes na Rua da Princesa a ver onde iria brincar amanhã. Hesitava entre o morro de S. Diogo e o Campo de Sant’Ana, que não era então esse parque atual, construção de gentleman, mas um espaço rústico, mais ou menos infinito, alastrado de lavadeiras, capim e burros soltos. Morro ou campo? Tal era o problema. De repente disse comigo que o melhor era a escola. E guiei para a escola. Aqui vai a razão.

Na semana anterior tinha feito dois suetos e, descoberto o caso, recebi o pagamento das mãos de meu pai, que me deu uma sova de vara de marmeleiro. As sovas de meu pai doíam por muito tempo. Era um velho empregado do Arsenal de Guerra, ríspido e intolerante. Sonhava para mim uma grande posição comercial e tinha ânsia de me ver com os elementos mercantis, ler, escrever e contar, para me meter de caixeiro. Citava-me nomes de capitalistas que tinham começado ao balcão. Ora, foi a lembrança do último castigo que me levou naquela manhã para o colégio. Não era um menino de virtudes.

BARÃO de Mauá, diretamente do Além

A caminho da fundição


ANDO muito preocupado com a situação das coisas. Em um ano eleitoral e com a persistente crise mundial, acho muito importante pensar nos milhares de mauazinhos que estão perdidos por aí, tentando iniciar seu negócio próprio. Conheço as dificuldades desse mundo, fui empreendedor durante o período no Brasil Império, época que o empreendedorismo não desfrutava do prestigio que tem hoje. Criei, por exemplo, a Companhia Fluminense de Transporte. Sem apoio da Unimed e sem apelar para o STJD.

PERDERAM um cliente

QUANDO tudo parecia correr às mil maravilhas, eis que o aluno Quinze Setequatro é surpreendido com tal problema. E que problemão! Não bastassem a dificuldade nos exames, agora essa de ser acusado de uma arruaça que não praticara. Quanta injustiça! Acusado e punido sumariamente sem nenhuma chance de defesa. Uma só cópia de folha de caderno valia mais que a minha palavra proferida mil vezes. A dona do bar não estava disposta a levar prejuízo diante da impossibilidade de identificar os brigões. Mais fácil seria imputar a um aluno, cujo comandante certamente mandaria fazer carga no salário, de nada resolvendo este jurar inocência. Um grande ato de covardia, decerto. 

segunda-feira, 26 de maio de 2014

A CULPA é do aluno

À TARDE, num raro intervalo de folga, coisa que ocorria quando muito uma vez a cada mês, alguns alunos aglomeravam-se lá em baixo, à sombra do prédio. No centro deles, a julgar pela risada, estava o sargenteante, que contava uma piada. Enquanto as nuvens que se formavam ao longe não se transformavam no denso aguaceiro que prometiam, desci lá para ver.

- ... então na sala de estar dos sargentos lá no prédio do Ceá, fizemos uma vaquinha e compramos uma geladeira. Cada um guardava ali frutas, refrigerante, queijo, iogurte e outros alimentos, pra serem consumidos ao longo da semana, nos intervalos das instruções. Com o tempo notei que as maçãs e iogurtes que eu trazia sumiam assim, misteriosamente. Eu comprava uma bandeja de iogurtes, seis, e consumia um, dois, e quando via, tinha só um. Com a maçã, também acontecia isto. Perguntei pra um e pra outro, também perceberam a mesma coisa. Alguém, que não estava contribuindo, estava comendo o que os outros deixavam lá na geladeira.
Só podia ser o Abreu, que não quis colaborar. Resolvi prestar atenção nos seus movimentos.

A turma, para saber o final daquela história, mantinha-se atenta à anedota.

domingo, 25 de maio de 2014

O PIOR estava por vir

ACORDEI num leito de hospital, com um dos braços ligado a um frasco de soro. Foi quando fiquei sabendo que estava hospedado ali devido à ingestão excessiva de bebida alcoólica. Traduzindo: tomei um tremendo porre. O aluno-de-dia chamou a ambulância. Isso explica o som de sirene que ouvia durante o pesadelo. Como consequência da embriaguez, caí da cama e rolei para baixo dela e toda aquela escuridão sugeria para mim um caixão, dentro do qual eu fora posto ainda vivo. Dias antes havia visto na tevê o que ocorrera cinco anos antes ao ator Sérgio Cardoso, que estaria revirado no caixão quando as autoridades decidiram reabrir o ataúde diante das suspeitas da família de que o ator teria sido sepultado com vida. Foi um pesadelo simplesmente horrível, mas não comparado ao sofrimento infligido ao infeliz ator.

Recebi a visita do Martinelli, que assim demonstrava ser um amigo de todas as horas. O capelão também foi-me visitar, aproveitando para me dar alguns conselhos. Jamais me esqueceria disso.



Chegava o dia da prova de Matemática

Graças à minha irresponsabilidade, o plano de usar o sábado e o domingo para estudar Matemática tinha ido por terra. E naquele estado em que encontrava nada eu podia fazer, a não ser torcer para me darem alta a tempo de me integrar à rotina de segunda-feira, e depois, naturalmente, aguentar a zoação da turma. E olha que a zoação da turma ainda estaria de bom tamanho comparada ao sentimento de culpa que me atormentava a cabeça pelo fiasco apresentado. Grande mico; micaço.

Mas o pior ainda estava por vir.

Chegara, finalmente, o dia 'D'. O friozinho na barriga, comum a qualquer prova em razão do desconhecido, parecia nessa ocasião mui especial em mim multiplicar-se (para usar uma expressão matemática numa espécie de homenagem irônica à matéria cujo primeiro teste naquela manhã aconteceria). O pesadelo da madrugada de sexta para o sábado apresentava-se a mim, naqueles instantes que antecediam à prova de Matemática, como um inofensivo gatinho frente a um imenso e faminto tigre, uma fera que eu não tinha outra saída senão enfrentá-la. 

Ora, convenhamos, o sábado e o domingo anterior, ainda que fossem plenamente aproveitados para a Matemática, mesmo assim resultariam insuficientes para deixar-me minimamente preparado e confiante para aquela batalha fatídica. Agora era tarde; por imprudência ou falta de experiência de vida, deixei tudo para o tal fim de semana, quando o Martinelli iria me dar uma força em Álgebra e em Geometria. Os sábados e domingos anteriores, as cepadas no campo de futebol, no cassino, na capela, na cama antes de dormir, também não me davam a suficiente  segurança para alcançar, pelo menos, a nota mínima. Agora, nenhum tempo mais me restava ao não ser encarar o tigrão. 

Confiança! - Animava-me o Martinelli. - Força, Quinze! - Dizia-me o Brito Dias. Eu agradecia aos amigos pelo ânimo. 

O sargento dava as orientações prévias, como de praxe, dizendo as palavras que já conhecíamos de cabeça. A prova estava ali, na carteira, de costas para mim. À ordem do fiscal, viraria o teste e só então estaria autorizado começar a resolução do mesmo. 

Conforme o que nos era recomendado, começaria resolver primeiro as questões fáceis para depois tentar resolver as difíceis. Numa primeira vista, tive a impressão de que o tigre não era assim tão brabo como eu temia. 

Continuei a ler as questões e infelizmente a impressão de que não eram difíceis foi apenas impressão. Fui lendo as questões, uma a uma. Da primeira passei para segunda, que ficou também em branco à espera de uma luz. Somente na oitava questão, que era de Geometria, me animei a resolvê-la; a nona, também resolvi. Das trinta questões eu me garantiria com dezoito, mas, correndo daqui e dali, segurança mesmo tinha somente em dez, talvez onze. Era muito pouco. Tinha de resolver mais sete, pelo menos, o que me daria a nota seis. Não, eu não poderia entregar a prova com somente onze questões respondidas.

Voltei às sete primeiras questões que deixara em branco na esperança de achar resposta para três ou quatro delas. Era possível que sim; consultando o relógio que estava à parede, constatei que ainda faltavam vinte minutos para o término da prova, findo os quais, ser-nos-iam dados mais cinco para o preenchimento do formulário de respostas. As questões estavam complicadas e não me animava nem ao menos eliminar duas de quatro, pois com duas que restassem ficaria mais fácil chegar à verdadeira. Tentei a tática de aplicar as respostas ao problema, invertendo a resolução. Aí teria de contar com a boa sorte, pois se a resposta certa fosse a 'A' ou a 'B', ganharia tempo, sem me preocupar com as 'C' e 'D'. A primeira questão estava fora de alcance, a não ser que desse muita largura no chute, pois nem a fórmula do problema eu lembrava. Decididamente, eu não era um bom chutador. Fui à segunda, e nessa eu sabia da fórmula, mas me embatuquei no meio da operação com a troca de um sinal, não lembrando se era negativo ou positivo. Então, fui à resolução inversa, explorando a alternativa 'A' para ver se dava no problema proposto no enunciado da questão 2. Não era a 'A', então bem que poderia ser a 'B'. Mas também não era essa. Olhei à parede e o ponteiro grande corria; era o tempo que conspirava contra o aluno despreparado - pensei. Aumentava-me a transpiração e o coração me parecia bater mais forte. A resposta 'C' daquela questão encaixou bem, mas não lucrei muito porque, por questão de eliminação, em caso de não ser esta a correta, somente restaria a 'D' para não me preocupar; também perdi muito tempo aí. Agora iria à seguinte, que resolvi pular, passando à quarta questão. Nessa tive melhor sorte, pois a resposta 'A' encaixava-se plenamente à problemática enunciada. Legal, desta vez ganhei tempo. Fui à próxima, que tratava de calcular a área de duas circunferências inscritas numa terceira, ou melhor, tinha de calcular a diferença de área das duas circunferências em relação à terceira, a maior delas, e essa resolução envolvia vários cálculos. Muito complicado, pulei, mas aí perdi bastante tempo até chegar à conclusão de que não dava. Que droga! Por que não passei direto à questão seguinte? Faltavam somente dois minutos e o sargento me tomaria a prova; estavam na sala somente eu e mais um outro aluno (não me lembro o nome dele, pois o olhei de relance temendo que o sargento interpretasse esse gesto com o ato de colar). Fui então pelas probabilidades, fazendo uma continha rápida; das respondidas com segurança - quinze - seis delas a alternativa certa era 'C', depois a 'A', que aparecia em quatro questões, a 'B' também em quatro questões, e 'D' em apenas uma questão. Era grande portanto a tentação de chutar simplesmente a alternativa 'D' na maioria das questões remanescentes, de sorte que, pela lei da lógica, haveria ainda mais umas cinco ou seis letras 'D' como resposta nessas questões. O meu raciocínio era simples: se eram quatro alternativas, e o número total de questões era trinta, então logicamente dava uma média de 7 e meio para cada uma delas. Estavam certamente distribuídas de forma que existiram naquela prova sete ou oito 'A', das quais eu já tinha achado quatro; oito ou sete 'B', das quais quatro eu tinha certeza; sete ou oito 'C', das quais seis já estavam encontradas; e oito, sete ou seis 'D', das quais somente uma eu havia encontrado entre as quinze questões respondidas com segurança. Consequentemente, decidi, sob risco calculado, atribuir a alternativa 'D' como resposta de quatro questões que faltavam responder.

Que fosse o que Deus quisesse. Contava com a bondade divina que costumava me agraciar em situações difíceis. E aquela certamente era uma situação difícil.

Preenchi cuidadosamente o formulário de respostas e, faltando um minuto para a o término do tempo, chamei o sargento.


"Devemos aprender a viver juntos como irmãos ou perecer juntos como tolos." Martin L. King

AMAI-VOS uns aos outros como eu vos tenho amado.

(com base no BLOGUE do Valentim, postagem de 23set.2011)

quinta-feira, 22 de maio de 2014

COISA boa o que é?

O MAIOR pesadelo para alunos despreparados, como eu, era sem dúvida a possibilidade de não concluirmos o curso, fracassando na missão, ficando pelo caminho. Não importava a razão do insucesso, fosse ela insuficiência intelectual, doença ou questão disciplinar. Havia um letreiro que, mais ou menos, dizia assim: "Os covardes nem tentaram, os fracos ficam pelo caminho; só os fortes vencerão".

A sexta-feira sonhada chegou!
No Ceá o medo era uma coisa intencionalmente disseminada entre a alunada, creio eu. Tinham lá as suas razões, a que atinei somente algum tempo depois (como eu era lento!), que eram as de fazer o aluno esforçar-se, levando a sério as suas atividades e os estudos. Responsabilidade é uma condição sine qua non para um bom sargento especialista, e que deveria ser praticada desde sempre. Naqueles primeiros dias nós não tínhamos tal visão, e para mim aqueles caras estavam ali somente para tornar a nossa vida bem mais difícil. Míope!

quarta-feira, 21 de maio de 2014

O ÚLTIMO semestre

ENTRAMOS finalmente naquele último semestre, o primeiro de 1979. Marchamos firmes naqueles meses, faceiros e orgulhosos dos desafios vencidos. Em julho, na manhã de um dia 13, sexta-feira, faríamos o juramento, recebendo aquelas cobiçadas insígnias, de branco, conforme dissera no primeiro semestre o professor de Educação Física, cujo nome jamais soube. 

Curioso a noção de tempo, não é? Como a cronologia é relativa diante da natureza humana! Quando se está no seu início a caminhada parece interminável, tudo vago e distante diante da expectativa sobre o que virá, tornando-se um grande desafio, o temor do desconhecido, as dúvidas sobre a nossa capacidade de ultrapassar tais obstáculos, tudo prenunciando um pesado fardo. Já no seu durante, luta, suor, lágrimas; quando, porém, se chega ao final, tudo o que passou parece ter ocorrido tão ligeiro, tudo tão simples, fácil, fazendo-nos esquecer das dores da luta, permanecendo em nosso coração um quê de nostalgia. O homem é um ser que precisa ser desafiado a cada dia, sob pena de estagnar ou mesmo definhar, ficando a vida sem sentido algum. 

De interessante, além, naturalmente, da formatura, haveria a Sexta olimpíada do Corpo de Alunos, que foi realizada em maio daquele ano. Antes, em abril, tivemos o jantar dos cem dias, a partir do qual nós todos os dias riscávamos o calendário, representando mais uma jornada vencida, e menos uma a nos separar da data tão almejada. Naquela ocasião o comandante da Escola dirigiu-nos uma mensagem de felicitações pela vitória sobre os obstáculos que já havíamos superado, alertando-nos, ao mesmo tempo, para a constante necessidade de amar a pátria e com ela repartir os frutos do nosso trabalho. Era a contagem regressiva para a grande formatura daquela sexta-feira, 13. 

Jantar dos 100 dias: Começava a contagem regressiva
A 14 de maio de 1979, o major Pacheco, comandante do Ceá, apresentava os atletas ao comandante da Escola, dando início a mais uma olimpíada. Depois do juramento dos atletas e do desfile de abertura, um fato marcante dessa competição foi a presença da equipe juvenil do Sport Club Corinthians Paulista, acompanhado do presidente, o folclórico senhor Vicente Mateus, numa sensacional partida contra a equipe da Escola.
O comandante da Escola homenageando o Corinthians, na pessoa do presidente Vicente Matheus




Corinthians x EEAer na VI OCA, 1979

Em breve finalmente viriam a cabo aqueles dois anos, os dois mais longos anos da minha existência. Muita luta, muitas lições para a vida.




"Manter o desejo de ser criativo conserva a criança dentro de si, não importando o quanto se envelhece." John Cassavetes
(BLOGUE do Valentim em 20nov.2011)

terça-feira, 20 de maio de 2014

NOVA semana se inicia

NO SEU íntimo o arataca aqui bem sabia que o sábado e uma parte do domingo eram tempo precioso na batalha contra aquela dúzia de enormes apostilas que esperavam por mim, guardadas lá no meu armário.

E o domingo, em especial, prometia ser curto para aquela porrada de apostilas, tarefa maçante porém necessária em face dos testes que se aproximavam. Era impossível assimilar tudo por osmose, sob pena de depois vir a chorar o leite derramado, alegando que não tive tempo suficiente para estudar. Essa explicação, no Ceá, em geral era respondida com uma pergunta bem sacaninha: E o que você fazia da meia-noite às seis da manhã?

Cuidaria com um pouco mais de profundidade o apostilão de Cegeá, procurando fixar na caixola as teorias sobre a dinâmica de voo e tantas outras sobre os princípios elementares do avião; também mergulharia na parte teórica básica das tecnologias, lendo, relendo, anotando e rabiscando os primeiros assuntos constantes da apostila de Tebê; não deixaria de fora a Língua Portuguesa, embora não tivesse tanta dificuldade nessa área, algo raro ali na Escola. Passaria certamente pelos volumosos compêndios que versavam sobre os diversos regulamentos e leis, que nossos superiores julgavam imprescindível conhecermos. Ainda bem que o grande terror, o bicho-de-sete-cabeças fora deixado para a semana subsequente - a Matemática, assunto que sempre me causou aversão, medo, dificuldade, e cujo trato fui empurrando com a barriga por quase toda a minha vida escolar anterior. Os números, na vida, realmente nunca foram meus amigos, como o futuro veio a provar. Agora não, não tinha como evitá-los, o confronto era inevitável; era saber, nem que fosse o mínimo suficiente para camburar o ensino básico, ou fracassar no objetivo.

No momento deixaria de pensar na tal Matemática, pois essa preocupação de nada me adiantava agora; cada preocupação à sua época. Tinha de dedicar-me às disciplinas mais urgentes e teóricas, cujos testes estavam marcados para a próxima quinta e sexta-feira. Uma batalha de cada vez. Então, mergulhei nas teorias, disposto a não dar chance ao azar.

Um lugar tranquilo para os estudos se fazia necessário. Um dos meus preferidos era a capela, e quando esta fechava, dirigia-me ao campo de futebol, na arquibancada à sombra de uma árvore. Filhos, a capela é o único lugar da Escola que não tem chamada, dizia-nos sempre o capelão, o velho padre Sebastião. Essas palavras eu guardava a sério, e, além das orações, incluía as horas de estudos. Um lugar tranquilo onde reinava silêncio e paz.


Uma piscina caía bem!
Duas horas e alguns minutos, e a mente não absorvia mais nada que fosse, sendo inútil insistir, mais inútil que peito de homem, que não serve pra nada. Era tempo de parar, ouvir uma música, ver televisão, quem sabe mais tarde correr ou, se permanecesse ensolarado o dia, dar uns mergulhos na piscina. À noite, voltaria aos estudos, mas desta vez não mais na capela nem no estádio. O próprio cassino dos alunos era meu lugar de estudos preferido para depois que o Sol se punha lá por trás da Mantiqueira.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

MAIS um final de semana

É MAIS uma sexta-feira no Ceá. Dois mil alunos mais uma vez ali formados naquela tarde nebulosa que prenunciava uma chuva torrencial para talvez meia-hora ou menos. Trajavam o impecável quinto uniforme para a tradicional revista, leituras e avisos diversos.

Enquanto os sargenteantes e oficiais comandantes de esquadrão faziam a revista de uniforme dos seus respectivos comandados, o adjunto ao Ceá lá em cima na sacada do prédio da Tarjeta Azul chamava a atenção de um dos alunos, que se mexia:

- Não se mexe, guri!!!

Feita a leitura do boletim e dados os avisos e recomendações de praxe, o adjunto ao Ceá, capitão Nunes Reis, fez uso do microfone. 

- Atenção, corrrrpo de alunos! - Começou o gordo adjunto com seu vozeirão de cantor de rádio, fazendo destacar os erres. Falava dos atos de indisciplina ocorridos no Ceá durante a semana, destacando o caso de um aluno que informou ao anotante um número inexistente na tentativa de livrar-se da punição certa. De nada adiantou pois foi mais tarde reconhecido, para o agravamento da sua situação. - Isso é falta de hombridade!!! Não podemos admitir tamanha falta de ética num futuro sargento da Aeronáutica, alguém que vai fazer a manutenção de uma aeronave, alguém que vai escriturar o nosso pagamento, alguém que vai cuidar dos nossos doentes, alguém que vai controlar nosso tráfego aéreo... Como vamos confiar num profissional assim? - continuava o Sapão, naquele sermão interminável, uma tortura que prolongava por mais tempo a permanência incômoda de todos em posição de descansar correta e imóveis ali no grande pátio do Ceá. Mandou ler a sentença dada ao infeliz aluno que carecia de hombridade, cabendo-lhe a rigorosa pena de vinte dias de detenção, ficando ele pela bola sete, ou seja, qualquer pentelésimo de punição a mais e seria impiedosamente desligado por indisciplina.

domingo, 18 de maio de 2014

DANILO, um grande herói brasileiro (parte final)

Um piloto brasileiro atrás das linhas inimigas



(Continuação da postagem do dia 16maio2014)





A CASA era tecnicamente muito grã-fina para partisanos. O Inglês frisara bem que era muito mais provável encontrar quem o ajudasse entre as pessoas mais simples, que, regra geral, constituía a maior parte dos partisanos ou da resistência. Mesmo que não o fossem, eram fascistas por necessidade, para se manterem nos seus empregos de acordo com a política da terra, e, muitas vezes, eram pessoas contrárias ao regime que vigorava na época. Pela pinta, aquela senhora nada tinha de partisan, muito pelo contrário, sua casa era das melhores da cidade, tudo indicando que era do outro lado. Mas a fome do gaúcho era maior do que a lógica e do que as razões do Inglês. O esfomeado olhou longamente para aquela senhora que, domesticamente, fazia o seu trabalho de agulhas. Talvez uma dor mais aguda no seu estômago vazio tenha feito com que decidisse pedir-lhe o que comer. Levantou a pesada bicicleta ao ombro e subiu os dois compridos lances de escada que o levariam ao segundo andar. A porta da moradia na qual pretendia bater já estava aberta, e nela a senhora, numa expectativa que ele não podia compreender, como que a sua espera. Desconfiado, no seu trôpego italiano um tanto brasileiro, parte “GI” (pouco instruído), e ainda conseguido com as primeiras vassouradas em Roma, dirigiu-se a ela com o mesmo refrão das vezes anteriores. Bem ou mal, ela conseguiu compreendê-lo, confessando-lhe mais tarde, que o italiano dele tinha sido o melhor que ouvira até então, da parte de quem a procurava. Ouviu toda a sua história cortesmente. Deu-lhe para comer o macarrão habitual e um colchão de palha que era tudo o podia oferecer, mas que era muito mais do que o gaúcho esperava. Disse-lhe a senhora que poderia ficar ali até o dia seguinte, e que à noite seu sobrinho chegaria do trabalho, não devendo se preocupar, mas não entrou em detalhes. Enfim, o Índio nada mais esperava do que comida e dormida, em segundo plano. Sentia-se capaz de passar mais outras noites ao relento frio do inverno. Sua caveira, mesmo não sendo do tipo muito recente, ainda satisfazia amplamente. No seu colchão de palha dormiu profundamente. Estava muito cansado para pensar, até mesmo para desconfiar daquela acolhida inesperada.

Na manhã seguinte foi acordado pelos seus novos protetores: a senhora e seu sobrinho. O rapaz queria ouvir sua história mais outra vez. Repetiu toda a sua lenga-lenga, agora muito melhor ensaiada que a ele já parecia muito boa e que a sua lingual mal cicatrizada muito cooperava. O sobrinho da boa senhora que o acolhera não interrompeu a narração. Ofereceu-lhe até mesmo um cigarro, daqueles lambidos, com uma dose de fumo suficiente para matar um cavalo, mas que o jovem italiano tirava enormes tragadas sem esforço, com prazer, e que ele, o gaúcho, apesar de não ver um cigarro há muito, não conseguia aspirar nem um pouquinho. Fumou como lhe foi possível. Ao terminar a sua conversa, o seu novo amigo, polidamente, vagarosamente, para que melhor o entendesse, disse-lhe que esquecesse tudo aquilo. De agora em diante, não precisaria contar mais aquela história. Uma vez mais, aquelas excelentes botinas americanas o traíram, para sorte sua. Finalmente tinha sido encontrado. “Encontrado!” Mesmo sem o admitirem, aqueles dois italianos o encontraram. Ficou decidido que ele permaneceria com os dois até o dia seguinte, quando o levariam à casa de uns outros “primos”, que eram partisanos. Ali sempre o próximo é que era partisan.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

INTEGRANTE da Turma 171 da EEAer é vencedor de torneio de xadrez

Aeronáutica vence Campeonato Brasiliense das Forças de Segurança

José Waldir, da 171ª turma da EEAer, foi o campeão de xadrez em Brasília



FOI realizado no dia 10nov.2013, na sede da DIREF (Associação dos Servidores da Polícia Federal do Distrito Federal), o I Campeonato Brasiliense das Forças de Segurança 2013. O torneio, fruto da parceria entre a Diref e a Federação Brasiliense de Xadrez, foi idealizado pelo Presidente da FBX, Flávio Sposto Pompêo, e pela presidente da Diref, Leontina Adriano.

Na disputa do título, três enxadristas terminaram empatados com 3 pontos. José Waldir Silva de Jesus, representante da Aeronáutica, obteve o melhor critério de desempate e foi declarado Campeão Brasiliense das Forças de Segurança 2013. Em segundo lugar, ficou Wellington Bonfim de Souza Lago, da Polícia Civil, e em terceiro, Antonio Fernando Rabelo, da Polícia Federal. Ari Alves de Sousa, integrante da Polícia Federal e que atuou como diretor do torneio, ficou em quarto lugar, com 2,5 pontos. Na quinta colocação, ficou o militar do Exército Leonardo Lourenço, com 2 pontos. (Fonte)

O BLOGUE parabeniza a atuação do colega Waldir, nosso contemporâneo da Branca, no período de 77 a 1979 na Escola de Especialistas de Aeronáutica, Guaratinguetá - SP.  

DANILO, um grande herói brasileiro (3ª parte)

Um piloto brasileiro atrás das linhas inimigas




AGUARDAVA a resposta do italiano. Se era bem acolhido, o que geralmente acontecia, pois aquela boa gente raramente negava um cumprimento, continuava com a conversa. Se não, prosseguia o seu caminho. Na primeira hipótese entrava com a história.

- Por favor, um copo d’água.

Aquela gente raramente usava este líquido, a menos que fosse para tomar banho. Davam-lhe sempre um copo de vinho, que algumas vezes (quando o estômago estava muito vazio) fazia com que exagerasse no seu papel de italiano, como em uma das vezes em que, depois de beber o vinho, resolveu fazer a barba em uma barbearia da vila. Entrou, encontrando alguns oficiais subalternos alemães, que também aguardavam a vez de serem barbeados. Esperou a sua, fez a barba, assustando-se muito mais tarde com o que fizera. Depois, naturalmente, que o efeito do vinho passou… 


Voltando à história da “aproximação”. O gaúcho pedia a seguir um pouco de pão. Contava que a sua casa havia sido bombardeada pelos ingleses – para aqueles camponeses todos os aviões ou outra coisa que bombardeasse era inglesa. Ignoravam, na maioria das vezes, a existência de outras forças aliadas na Itália, o que a propaganda inglesa em muito contribuía, sem considerar o formidável serviço subterrâneo inglês por trás das linhas alemães – que ele era um pobre diabo, arruinado, perdido naquele caos de guerra, mostrava a língua machucada, o que muito comovia aqueles bons camponeses. Os seus documentos haviam sido perdidos no incêndio de sua casa, e agora ia para Bolonha onde tinha parentes (a cidade onde tinha parentes movia-se constantemente para o Sul). Ao terminar a sua história, geralmente já tinha pousada para a noite quase garantida. Mais uma vez nesse manhã, às margens do Pó, conseguiu o almoço, tomou uns copos de vinho de fabricação doméstica, fruto da tradicional hospitalidade campesina, e, confortado com a refeição, prosseguiu o seu caminho.

Ainda não tinha achado um meio de atravessar o Pó. Conta ele, muito ingenuamente, que teve o seguinte raciocínio, que mais parece anedota, mas que é fato. Resolveu seguir aquela margem do rio, sempre pelo lado norte e sempre para oeste, rumo à nascente do rio, onde naturalmente ele seria muito mais estreito, e então atravessá-lo seria facílimo. Talvez com um pulinho… E o Pó nascia quase na França… Para ele isso tudo eram “pequenos detalhes técnicos”… Com este propósito, foi caminhando para a nascente… Caminhou um bom pedaço naquela direção. Os seus joelhos doíam. A distância começou a parecer maior. Sentiu-se cansado e a nascente não aparecia… O dia terminava. O almoço não tinha sido grande coisa, o estômago reclamava, o frio parecia aumentar. No dia seguinte começaria mais cedo. Havia uma aldeia próxima, e ele seguiu naquela direção. Na terceira casa à beira da estrada, estava um italiano, igual a milhares de outros, rachando lenha. Achava a sua lenha e ato contínuo empilhava-a ao seu lado. O Índio, cansadíssimo, caminhara todo o dia, com a moral abatida, desanimado, sentou-se ao lado do monte de lenha rachada, a observar o italiano por longo tempo. O machado subia e descia compassadamente e os pedaços de lenha iam sendo jogados para a pilha ao lado. Aquele mister doméstico fê-lo recordar os seus, lá no Rio Grande do Sul, que cada vez mais tinha dúvida se iria revê-los, mas que ao mesmo tempo davam-lhe forças para lutar contra aqueles obstáculos. Além disso, o dia do pagamento aproximava-se… Tinha de chegar a tempo.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

AS PRIMEIRAS avaliações

DORMI um sono tão pesado que nem me dei conta da zona que faziam cariocas e paulistas, principalmente os primeiros, quando chegavam de madruga na volta de casa. Acordei-me com o toque da alvorada e o imediato acendimento das lâmpadas no grande alojamento. O Almeida Pinto sempre ligava o radinho de pilha, normalmente na mesma emissora de rádio. Guará tinha duas emissoras, mas acho que era a rádio Liberdade, a Jovem Li. Eternizava-se na memória o patrocinador do programa matinal. A alunada aproveitava para fazer rima pesada: "Café Cocaio, aquele que é bom pra cascalho!" A moçada se divertia com a sacanagem, como um arrefecimento prévio da dura a rotina semanal que ora se iniciava.

Era primavera
Diferente da minha terra, onde os dias tinham o mesmo tamanho durante o ano, notei que com o passar daqueles dois meses, as jornadas guaratinguetaenses começavam cada vez mais cedo e terminavam cada vez mais tarde. Era o charme da primavera que dava as caras na região, tornando mais bonitos os dias e as árvores, mais floridas. No Cea, o corneteiro tocava a alvorada e mais alguns minutos depois o Sol raiava na Escola, com a passarinhada festejando a chegada de mais um dia. Assim mesmo ainda era necessário o uso da japona como proteção contra aquele friozinho que que fazia nas manhãs de outubro, e que ainda judiava de nós, mormente os alunos oriundos da região norte brasileira.

Ordinário marche, cantando o esbelto infante, que a Deí nos esperava com as primeiras provas. Seja o que Deus quiser!

DANILO, um grande herói brasileiro (2ª parte)

(Continuação da postagem de 14maio2014)




Um piloto brasileiro atrás das linhas inimigas



DEVIDO à missão de que se ocupava na ocasião, metralhamento de composições ferroviárias num entroncamento fortemente defendido, devia ter saltado à baixa altura, o que não nos encorajava a prognósticos muito otimistas acerca de sua caveira. Sentiu-se a falta do gaúcho, mas a guerra continuava, e se não tivesse sido ele seria um outro qualquer de nós. Não havia tempo para lamentações. Talvez por respeito, por sentimento, ou qualquer outro motivo, suas anedotas não eram mais contadas, mas lembradas com um cunho de saudades. Sua voz estridente não era mais ouvida na garagem, e penso mesmo que os praças que comandava sentiram a falta de suas ordens aparentemente gritadas, na maneira características que todos gozavam. Ele não voltou naquela manhã de inverno. O que teria acontecido? Era a dúvida de todos. Os dias se passaram e logo o pessoal se conformou, e a alegria foi até maior quando da sua volta, após sua fuga excepcional, que só ele mesmo conseguiria realizar com êxito.

O gaúcho foi abatido, por armas automáticas, muito distante de nossa base, Pisa. Aproximadamente uma distância equivalente entre as cidades de Rio de Janeiro e São Paulo, ou talvez mais. Saltou a baixa altura e, como Deus também é gaúcho, chegou ao solo com felicidade, nada mais lhe acontecendo do que um corte na língua, que mais tarde lhe foi providencial. Conta ele que, ao chegar ao chão – o que aconteceu muito rápido, pois o pára-quedas apenas se abriu, ele sentiu o tranco e logo em seguida tocou ao solo, mordendo a língua neste momento –, ficou um pouco desorientado, sem saber qual atitude a tomar. 


Venceu a indecisão inicial. Colhe rápido o pára-quedas e afastou-se do local da queda. O campo em que caíra estava coberto de neve. O trigo já havia sido colhido e sua palha empilhada para servir de alimento ao gado durante o inverno.

Ao lado de seu irmão major-aviador Nero Moura,
futuro Ministro da Aeronáutica


Encontrava-se em campo aberto, sem saber o que fazer. Recordou-se, disse ele, das aulas do inglês, dos macetes (Serviço Secreto), e ainda, sem saber o que fazer, ocultou-se no primeiro monte de palha, pois alguém se aproximava. Era um italiano, camponês, aparentemente inofensivo. Entretanto, naquela situação, não podia confiar em ninguém. Tinha que ter certeza. O inglês havia ensinado assim. O homem do campo aproximou-se, e ele ficou na indecisão de "pregar-lhe um tiro na cara” ou conversar com o paisá. Decidiu-se pela última alternativa. Esperou. O italiano falou-lhe primeiro e, ainda desconfiado, com muito medo, dispôs-se a ouvir o italiano, que na sua simplicidade, no isolamento em que vivia, nunca poderia imaginar o quanto esteve próximo de levar um tiro na cara. É necessário que se faça uma ressalva para louvar a coragem, o desprendimento desinteressado daqueles camponeses italianos, que, mesmo sem ignorar as conseqüências – os alemães não faziam mistério das represálias e castigos que infligiriam a todos que ajudassem os Aliados -, ofereciam a sua ajuda a estranhos, da mais nobre maneira, dentro de suas limitadas possibilidades. O nosso gaúcho estava frente a um destes heróis anônimos. Este lhe perguntou, na sua maneira simples e substancial: inglês ou americano? O fabiano prontamente respondeu: "Americano". O bom homem não entrou em pormenores. Escondeu-o mais ainda no monte de palha, cobrindo-o todo, dizendo-lhe que voltaria mais tarde.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

DANILO, um grande herói brasileiro (1ª parte)

Danilo e seus irmãos Nero Moura (FAB) e Osmar Moura (EB)

DANILO Marques Moura era filho de Gilberto Moura e de Maria Emília Marques Moura. Foi  piloto de combate, nome de guerra "Danilo" tendo ido para a Guerra como Aspirante Aviador da Reserva Convocado; treinou no Panamá, Suffolk e Itália com o 1º GAvCa da Força Aérea Brasileira. Em 28 de outubro de 1944 foi promovido ao posto de 2º Tenente.

Segundo Brigadeiro Rui Moreira Lima no seu livro "Senta a Pua!" ... "Danilo Marques Moura foi, no 1º Grupo de Aviação de Caça, um dos exemplos mais vivos do que pode o homem fazer quando tem vontade, perseverança, coragem, esperteza e, sobretudo, patriotismo."




Danilo fez ginásio em Porto Alegre (RS), Colégio Rosário, se sobressaindo na turma pelo bom senso, bom humor e rapidez ao tomar decisões. Por influência do irmão Nero Moura, oficial dos mais distintos da antiga aviação de Exército, mais tarde comandante do 1º Grupo de Aviação de Caça e Ministro da Aeronáutica na nova FAB, resolveu ser aviador. O irmão lhe financiou o curso no Aeroclube do Rio Grande do Sul e, em meados de 1941, recebia o brevet de piloto civil. Nesse ano mudou-se para o Rio, empregando-se no Ministério da Agricultura, onde assumiu o comando de uma aeronave de aerofotogrametria.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

DE VOLTA ao front

Desembarquei daquele Pássaro Marrom.
DESEMBARQUEI daquele Pássaro Marrom e cruzei a pracinha. A Escola estava deserta, sendo eu um dos primeiros a voltar; talvez o primeiro. O sol daquele final de janeiro estava na posição de três da tarde.

Aquela calma, aquela paz, me fazia retroceder aos seis meses anteriores, com o filme, nem sempre em sequência cronológica exata, da minha vida, evidenciando a mim mesmo os momentos mais dramáticos, por isso mesmo marcantes, desde os exames de admissão até a notícia de que o comandante havia reconsiderado a minha reprovação. Relembrei da chegada naquela noite fria em que dormi na companhia Igê, do dia seguinte e das providências de alojamento, armário, material escolar, uniforme e papeladas de alistamento na Fab e matrícula no Curso de Formação. Relembrei também as brincadeiras da turma, tanto com relação à minha pessoa quanto a todos em geral. As dificuldades, as minhas em particular, e as de muitos, em especial, a expulsão dos colegas que foram surpreendidos consumindo droga, fato extremamente marcante que até hoje é comentado entre nós.

sábado, 10 de maio de 2014

HOMENAGEM do BLOGUE a todas as mães!


Dona Maria, minha mãe, e eu em 1977


Minha mãe e eu em 2013
 
Dona Alice e sua filha Bernardete


FELIZ dia das mães.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

A ESQUADRILHA da fumaça

O portão  da EEAer, Guaratinguetá - SP

DIFERENTE do que era até então, na minha esquadrilha o comportamento da maioria em relação a dificuldades como a minha mudou radicalmente. Até os críticos mais mordazes como o Martins, se não ajudassem, pelo menos guardavam silêncio, dando uma trégua nas gozações e até mesmo nas eventuais ofensas. E isso já era um sinal de mudança de comportamento, uma concordância tácita destes à maioria, que se mostrava solidária.

Não que a a maioria da turma apoiasse a gente de forma ostensiva, mas a solidariedade já se fazia visível a olhares mais atentos, sempre aparecendo uma alma boa disposta a ajudar neste ou naquele assunto. Isto não era somente comigo, era com qualquer outro colega que, por ventura, estivesse em alguma dificuldade. O mesmo se dava de mim para com outros que me procuravam com alguma dúvida em Português, área em que eu me garantia. Com relação à parte intelectual, todos procuravam se ajudar. Não havia concorrência; se todos os quinhentos alunos obtivessem as médias mínimas exigidas, todos se formariam e ninguém seria prejudicado com isso.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

quarta-feira, 7 de maio de 2014

ESTÁ todo mundo louco!

Boatos na internet, intolerância e medo que levam à morte


"VOCÊ já viu o que está circulando na internet? Tem foto e tudo. Estou com medo de deixar filho meu sair de casa"

"Vi agora no Facebook que vai faltar água e luz, a inflação vai explodir, a coisa está feia".

Quem ainda não ouviu ou recebeu um e-mail com este tipo de comentário? É assim que surgem os boatos e se alastram como pólvora na grande rede, nos táxis, nos ônibus, nos botecos, no boca a boca por toda parte, criando um clima de medo e intolerância, revolta e ódio, mau humor generalizado, pessimismo, o caldo de cultura que acaba levando à morte, como aconteceu quando mais de 100 pessoas lincharam até a morte a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, no último domingo, no Guarujá, em São Paulo.

Quando li a notícia sobre mais este crime hediondo fiquei tão chocado que não sabia nem o que escrever. E começo a me perguntar: adianta escrever alguma coisa depois de ver o vídeo desta barbaridade promovida no balneário mais chique dos paulistas? São tantos os casos de violência extrema acontecidos ultimamente que já deveria estar anestesiado a esta altura do campeonato da vida de jornalista, mas ainda reajo com o inconformismo do início da carreira e procuro entender primeiro o que está se passando na alma dos brasileiros, aquele povo outrora chamado de cordial por Sérgio Buarque de Holanda.

terça-feira, 6 de maio de 2014

TICIANA, a âncora bilionária


Jornal da Band e a âncora bilionária


Altamiro Borges

O VÍDEO acima causou agito nas redes sociais – além de traumas familiares e no local de trabalho. Nele a âncora do Jornal da Band, Ticiana Villas Boas, esbanja sua fortuna. Casada com o empresário Joesley Batista, dono da Friboi, ela fala das suas gastanças. “É bom ter dinheiro, não fazer conta, sair para jantar a hora que quiser no restaurante que quiser, poder reformar sempre a casa, ter funcionário na casa... Eu chego em casa, meu carro já está abastecido, meu motorista faz isso. Outro dia me perguntei quanto era o litro da gasolina. Eu não sabia”, afirma a jornalista bilionária. Segundo vários sites de notícia, a ostentação causou mal-estar na TV Bandeirantes e até problemas domésticos.

Em reportagem publicada nesta segunda-feira (5), o Portal Imprensa relata que o parceiro de Ticiana Villas Boas na bancada do Jornal da Band, o veterano Ricardo Boechat, ficou irritado com o vídeo e também com a entrevista à revista Veja. “Boechat estaria fazendo campanha para que a jornalista fosse substituída por Ana Paula Padrão, que está sem contrato. O problema, segundo ele, é que a saída poderia gerar perda de anunciantes no canal. Além da Friboi, [Joesley] Batista é dono da Neutrox, Seara e dos sabonetes Francis”.

Já segundo a colunista Fabíola Reipert, no seu blog de fofocas sobre celebridades, “Joesley, marido riquíssimo de Ticiana (uma das empresas dele é a Friboi), ficou muito bravo com a entrevista da mulher contando sobre a vida luxuosa que leva depois que se casou com ele. Isso caiu como uma bomba. Ele não quer saber de ostentação, muito menos de exposição. Além de se irritar com as coisas que Ticiana falou, Joesley detestou ver na revista uma listinha com parte de seus bens, como um jato Legacy avaliado em 25 milhões de dólares, um imóvel em Nova York e uma casa em Angra dos Reis... Ela poderia ser mais discreta, né”.

O mundo da mídia privada, principalmente das emissoras de tevê, tem muitos segredinhos. Ticiana apenas foi sincera e “indiscreta”. Outros figurões midiáticos preferem não revelar suas ligações com empresários ricaços e caciques políticos. Há muitas “calunistas” com íntimas ligações com tucanos e demos, mas eles ficam na moita fazendo os seus discursos “imparciais” sobre a escandalização da política. Alguns, inclusive, devem ter ajudado a divulgar a falsa e criminosa história de que o filho de Lula é dono da Friboi. Ticiana poderia esclarecer o assunto!

RENATO Aragão

Renato Aragão demite funcionário que o chama de Didi…



Didi é estressado (Foto: Daniel Delmiro/AgNews)

TODA aquela meiguice e espírito de solidariedade que Renato Aragão tenta passar diante das câmeras, principalmente no Criança Esperança, não passam de interpretação. Ele apenas faz a linha bonzinho.

Mas, na vida real, o humorista é completamente diferente (Dedé Santana que o diga...).

Renato é conhecido por sua arrogância.

Ele teve a coragem de dispensar um de seus motoristas que o chamou de Seu Didi. Virou para o funcionário e disse: "Não é Seu Didi, é Doutor Renato". E mandou demiti-lo em seguida.

Ui... (fonte)

Leia mais:

http://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/fofocas-nao-atingem-meu-coracao-diz-renato-aragao-sobre-boato-de-demissao-de-manobrista

http://entretenimento.r7.com/famosos-e-tv/noticias/empregados-de-renato-aragao-sao-obrigados-a-levar-marmita-diz-jornal-20120827.html?question=0


http://www.bloguedovalentim.com/2013/09/que-pais-e-esse-hipocrisia-de-renato.html

http://www.bloguedovalentim.com/2012/09/didi-moco-ja-morreu-e-esqueceu-de-cair.html



domingo, 4 de maio de 2014

BRANCA de rasgar!

Turma 171 da EEAer - 13jul1979


Q EA AL


Antônio CARLOS Cândido da Silva - SP
Bernardo da Silva BARREIROS – PA
CLÁUDIO Cruz dos Santos – RJ
Eduardo Ferreira Queiróz FONTES – RJ
Francisco Carlos de Melo FREITAS – RJ
Francisco VALDERILO Barbosa – CE
HÈLVIO Marinho – SP
Jorge LUIZ PEREIRA – RJ
José NORMANDO Cavalcante Aires – CE
JOSUÉ Lima Martins – RJ
MOISÉS Correia Lima –
OSVALDO Dechen Filho – SP
Paulo Roberto de SOUSA – RS
Pedro CENDRON – RS
RICARDO Rodrigues de Lima – PE
ROBERTO Vasconcelos Barbosa - BA
ROGÉRIO dos Passos Silveira – RS
SÉRGIO Cruz Silva – RJ
Wilson Ângelo CATALDO – RJ

Postagens relacionadas:

Era uma vez
Polegar também é dedo
Tarjeta Branca
A fina flor da juventude


Q AR

sábado, 3 de maio de 2014

REMO 4, Independente 0

RATINHO, a substituição que mudou o rumo da partida



Ratinho, autor da assistência para o primeiro gol e
 dono do segundo e terceiro gols contra o Independente neste 1º de maio 

A CURTA participação do meia Ratinho foi simplesmente fundamental para a construção da goleada azulina. O “roedor”, apesar de ter permanecido apenas 36 minutos em campo, esteve presente em três dos quatro gols, sendo dois de sua autoria, e o primeiro, após cruzamento certeiro na cabeça do atacante Rony. A bela atuação, porém, acabou antes do fim da partida, porque Ratinho deixou o campo após sentir dores no músculo adutor da coxa.

Não seria exagero admitir que o desempenho do meia foi o melhor em todas as suas participações no Parazão. Sozinho, ele impôs uma vibração diferenciada em toda equipe, fazendo inclusive jogadores antes modestos, despertarem. Foi inevitável, nas considerações do treinador, reverenciar o futebol do meia, que mostrou resultado em apenas 30 segundos após entrar em campo.

“Precisava de um homem como o Ratinho, que arrisca sem medo. Disse a ele: ‘chuta para fora, mas chuta. Pode colocar na minha conta. Só não tem medo de arriscar’”, lembra o técnico, que fez do velocista a arma principal no segundo tempo, quando iniciou com três gols de desvantagem e consciente de que dificilmente reverteria o placar sem a mudança.

“O Athos não tem condição para 90 minutos. O Ratinho também não tinha. Então, tinha que fazer a mudança certa. Se começasse com ele, estaria apostando todas as fichas de velocidade que tinha. Por isso, a opção, essa ‘bala na agulha’, que fez a diferença”, comemora.

A saída precoce e não programada, entretanto, não tirou o brilho do atleta, que luta há meses para recuperar-se de uma lesão na coxa. “Não é fácil. Vim de uma lesão que deveria ser recuperada em seis meses, mas nada disso tira o brilho da nossa vitória. Estou muito feliz e agradeço a Deus por essa oportunidade de ajudar o Clube do Remo”, desabafa o meia azulino. (Remo100%)