sexta-feira, 27 de junho de 2014

AZAMBUJA em Cachimbo (2ª parte)


UM DIA perguntei a Azambuja o porquê de seu profissionalismo. Para mim -- e essa era a ideia que eu tinha antes de conhecê-lo -- bastava fazer o previsto, deixando o que fosse de extra para depois. Afinal, para que se matar trabalhando se o salário ao final do mês não vai se alterar. Minha teoria era guerra, sombra e água fresca.

-- Meu jovem amigo -- respondeu-me ele --, eu não trabalho assim somente por causa do salário extra no final do mês, até porque, como bem diz você ele não vai sofrer aumento por causa do meu trabalho extra. Nem porque serei bem avaliado ao final do ano - e isso também vai depender da visão que têm de mim meus superiores. Também não me esforço apenas para ser promovido ao cabo de alguns anos; a promoção poderá vir ou não, de nada adiantando meu empenho. Faço assim para satisfazer meu chefe. Ele é um sujeito rigoroso e muito exigente. Esse meu chefe não vai me deixar dormir tranquilo se, ao final da jornada, revendo o filme do dia, descobrir alguma falha, alguma omissão; se verificar que, com a minha indolência, incompetência ou falta de tato, prejudiquei  alguém em algo, ainda que seja algo aparentemente insignificante - pode até ser insignificante para mim, não para o outro. Ele vai me cobrar se, existindo um trabalho que deveria ser feito hoje, eu, por falta de esforço ou negligência, acabei deixando-o para o dia de amanhã. Aí ocorre que no dia seguinte, no calor da peleja diária, surgirão outras questões a serem resolvidas naquela mesma jornada, exigindo ação urgente e inadiável e, então, dando um sorriso sem graça vou dizer a mim mesmo: não deu tempo de fazer aquele trabalho, e aquela pessoa, que tanto contava com o meu esforço, ficará prejudicada. Será então razão de vergonha para mim se assim proceder. Meu chefe é alguém que está em todo lugar. 

-- ? 

Por causa dessa última frase já estava sem compreender o que dizia o Primeirão. Devia estar usando uma espécie de metáfora ou coisa assim,  e meu semblante denunciava essa interrogação, que ele com certeza percebeu.

-- Meu chefe -- completou antes que eu pronunciasse a pergunta que estava para formular  -- é a minha consciência.

Deu ênfase às duas últimas palavras. Como me demorei a falar, ele continuou.

-- Além do mais, já estou um pouco velhinho para ser repreendido por homem barbado.  Por outro lado, sejamos práticos: a dedicação ao trabalho nos dá a sensação de que o tempo corre mais célere, e rapidamente o expediente chega ao seu final; quando nos damos conta, já é sexta-feira, e a quinzena está por terminar, com a mensagem-rádio informando do C130, seus horários e tudo o mais. Não é mesmo?

quinta-feira, 26 de junho de 2014

CLÁSSICOS do Valentim

Novos Baianos: Besta é tu


AZAMBUJA em Cachimbo (1ª parte)

MUITO repercutiu entre os colegas da Aeronáutica o infortúnio que ocorreu com o Primeiro-sargento Azambuja, Juvenal de Azambuja, quando servia em Cachimbo, sudoeste do Pará. Circularam em Brasília as versões mais variadas, predominando as que atestavam o acerto da decisão do comandante na época. Alguém assim como ele só podia ser um cínico, e algo de ruim certamente teria feito, quem sabe algum ato de indisciplina ou até mesmo uma falcatrua abominável, de maneira que seu afastamento sumário da Unidade fora atitude acertada - diziam. 

De outro lado, surgiram teorias que sentenciavam a injustiça do afastamento intempestivo do sargento, enquanto havia outras tão inconsistentes, incompletas, incertas, como que propositalmente a deixar o desfecho do caso a cada um que a escutasse. 

Houve ainda um grupo - uma minoria, é claro - que o acusava de ter-se comportado forma inerte, acomodada. Azambuja, para esses, deveria ter levado o caso às últimas consequências, não se conformando com a injustiça e a arrogância, que prosperaram aí, levando-o a irreparável prejuízo moral e financeiro, tendo este último aspecto para muitos predominado sobre o primeiro. O Primeirão tinha necessariamente de ter dado um soco na mesa, e quando, mais tarde, foi promovido a tenente, deveria ter voltado à Unidade e provocado alvoroço e incômodo com a sua presença entre aqueles que antes  haviam contribuído para o seu injusto afastamento da Unidade.

terça-feira, 24 de junho de 2014

SÁBIAS palavras

NAQUELA tarde saí da sala de aula e nem dei bola para a rodinha costumeira que havia se formado à saída do corredor da Deí. Estava brabo comigo mesmo, em parte por não ter levado a sério como deveria a matéria, e também pela equipe de avaliação, que, desta vez, decidira complicar a vida do arataca com algumas questões tiradas das notas de rodapé da apostila de Tebê. Olha que aquelas questões, cinco ou seis, nem tinham utilidade prática (pelo menos na minha cabeça), não servindo para aferir de verdade o conhecimento do aluno; numa delas a resposta era um mero advérbio, coisa que só premiava aqueles cepões, uns caras que viviam queimando a pestana até de madrugada, lanterna em punho, lá no banheiro, que eu mesmo já tinha visto ao acordar às três da manhã para urinar. Eu é que não ia fazer tamanho sacrifício; meia-noite às cinco era sagrado, e servia exatamente para repor as energias. 

CLÁSSICOS do Valentim

Gonzaguinha: Com a perna no mundo



sexta-feira, 20 de junho de 2014

CLÁSSICOS do Valentim

Paralamas do Sucesso: Ska



quinta-feira, 19 de junho de 2014

O QUE ERA um peido pra quem já estava cagado?!

FIZ a meia-volta regulamentar e rompi marcha, como um bom soldado. Estava na verdade quase um, literalmente, vez que no dia seguinte estaria na Companhia Igê. Dei dois passos e, levantando a cabeça dei de cara um oficial, que acompanhava o comandante da Escola. Chamou-me: 

- Ei, você, aluno!
- Sim, capitão - corri a até dois passos dele, conforme era o previsto.
- Começa a empurrar o planeta!
- ... (??)
- Não entendeu, né, aluno. Raciocínio lento, hein!?
- Sim. Entendi, claro. 

E imediatamente pus as mãos no solo e paguei as flexões contando em voz alta. 

CLÁSSICOS do Valentim

Biquini Cavadão: No mundo da lua



segunda-feira, 16 de junho de 2014

AINDA vão descobrir um jeito da gente apagar o erro sem deixar marcas

DIFERENTE de alguns colegas da especialidade de Escreventes, eu não sabia datilografar. Máquina de escrever para mim passou a ser naquelas primeiras aulas um ser assustador, um monstrengo a desafiar-me fazendo caretas e a mostrar-me a língua de forma zombeteira. Dos vinte alunos da especialidade uns quatro ou cinco, antes da Escola, haviam sido cabos ou soldados datilógrafos, daí a máquina de escrever não significar para eles dificuldade alguma, ao contrário do que era para a maioria.

Como o mais difícil tínhamos vencido, não seria nenhuma Remington ou Olivetti que nos afastaria da tão sonhada insígnia de terceiro-sargento. Com luta, venceríamos. À medida em que catava milho e gotículas de suor me escorriam da testa, olhava eu de soslaio ao colega de lado que este seguia desenvolto com às mãos firmes sobre o teclado e os dez dedos céleres a teclar as letras, um dedo para cada grupo delas, como era ensinado. O seu dono a olhar somente para a folha de papel com as letras e palavras a serem escritas. Não era permitido olharmos para o teclado da máquina. Essa era a orientação, de forma que a datilografia saísse rápida sem que o datilógrafo perdesse tempo olhando para o teclado da máquina e também para o próprio papel datilografado. Esse era o segredo da destreza do bom datilógrafo.

BREGAS do Valentim

Antonio José: Aventureiro Apaixonado



domingo, 15 de junho de 2014

A FASE especializada

DEPOIS da visita presidencial, a Escola tornou à sua rotina. Nós, os alunos da Branca, já estávamos cada um com a sua especialidade definida e era só aguardar alguns dias, fazendo as últimas provas, para que o recesso de meio de ano chegasse. Alguns ainda ficariam para a final e outros também para a segunda época, havendo a possibilidade de desligamentos.

Quanto a mim, fiquei deveras lisonjeado por ter sido escolhido para a representação presidencial, mesmo não tendo méritos para tal honraria. Levei muitos tapinhas nas costas em razão disso, além de sofrer o assédio natural de muitos em busca de detalhes de tão singular evento. Os dois semestres básicos estavam ao seu termo, trazendo em especial para mim, por conta das dificuldades aqui narradas, um grande alívio. Se não fui desligado no básico, no especializado é que não seria. Pelo menos assim esperava.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A VISITA presidencial

O COMANDANTE da minha esquadrilha ficou meu peixe (ou seria o contrário? Bem, isso não vem ao caso agora). Desconfiei que mudança de atitude tinha algo a ver com aquela punição injusta que ele me aplicou, mas que depois, provada minha inocência, anulou-a. O que não faz uma consciência pesada? Certamente pensou bem e pode até ser que tenha passado a monitorar os meus passos, concluindo ser eu apenas um garoto ingênuo, um nortista ali em Guará com suas dificuldades, o que – se pensou assim – era a mais pura verdade, nada além disso. Concluí que era do tipo que mordia e depois assoprava. Passei a pensar dessa forma quando, mais uma vez, me chamaram ao comando da esquadrilha. Fui, como sempre pensando em que tinha feito de errado, ou não feito mas que pudesse ser atribuído à minha pessoa, como ocorrera doutra vez. Caminhava assim procurando nos escaninhos da memória algo de errado, mas nada, nada mesmo, achando.

BREGAS do Valentim

Franco Xavier: Maria, Mariazinha


segunda-feira, 9 de junho de 2014

O PESADELO continua

COMO acontecia sempre quando eu não fazia boa prova, evitei a rodinha que a turma sempre fazia ao término dos testes. Dessa vez foi por outra razão. É que eu saí com a ilusão de ter feito a mais que a nota mínima, seis. Entretanto, não estava com plena convicção disso, daí não ter parado para discutir as questões pelo medo de desiludir-me, e assim baixar a minha auto-estima.

CLÁSSICOS do Valentim

Superbacana: Tá com medo tabareu (Melô da Pipa), 1978


Para relembrar nossa época de Guaratinguetá.

REMO sagrou-se campeão paraense


OS BICOLORES venceram a partida por 2 a 0, mas o Remo levou a melhor e garantiu o título de Campeão Paraense 2014, depois de um jejum de cinco anos. A vantagem construída no primeiro jogo decisivo, após vencer o maior rival por 4 a 1 garantiu aos torcedores azulinos comemorar a conquista do título estadual. (Rádio Clube do Pará)
Remo festeja o 43º  título estadual
 
Placar agregado: 4 a 3 para o Remo. Renda: R$ 563.925,00; pagantes: 18.415; não pagantes: 2.633; total: 21.048

sábado, 7 de junho de 2014

TRIBUNAL suspende jogadores de Remo e Paysandú na véspera do clássico do centenário

A CONFUSÃO envolvendo o clássico Remo e Paysandú da final da Taça Estado do Pará não passou despercebida pelo presidente do TJD-PA, Antônio Barra Brito, que suspendeu na manhã deste sábado (7) por 30 dias vários jogadores de Remo e Paysandu, incluindo os treinadores por envolvimento na confusão generalizada naquela partida.

O presidente analisou as imagens envolvendo a briga que aconteceu após um torcedor do Paysandu invadir o gramado ao final do jogo para definir as punições.

Com a punição, os atletas e e membros das respectivas comissões técnicas das equipes estão impedidos de atuarem na decisão de domingo (8) da grande final do Parazão 2014.

Seguem as listas dos suspensos:

Remo: Fabiano, Maicky Douglas, André, Ratinho, Rodrigo Fernandes, Zé Soares, Leandrão, Rubran, Val Barreto, Carlinho Rech, Athos, Jhonathan e o técnico Roberto Fernandes.

Paysandu: Paulo Rafael, Matheus, Airton, Vanderson, Ricardo Capanema, Leandro Carvalho, Lacerda, Dennis, Araújo, Bruninho, Heliton, o técnico auxiliar Rogerinho Gameleira e o treinador Mazola Júnior.

Torcedor bicolor deu início à confusão após o terceiro gol do Paysandú
Os departamentos jurídicos de Remo e Paysandu ainda não se pronunciaram sobre as medidas que irão tomar para tentar derrubar a decisão.

(Ronald Sales/DOL)


Ao início da tarde de ontem, domingo, dia do jogo, o STJD cassou a liminar que suspendia os jogadores e membros de comissão técnica de Remo e Paysandú.

GAUCHESCAS do Valentim


quinta-feira, 5 de junho de 2014

UMA imagem vale mais que mil palavras



ESTE foi, segundo o jornalista Ferreira da Costa, o clássico Remo e Paysandú nº 727, com 257 vitórias do Remo, 227 vitórias do Paysandú e 243 empates. O Remo fez 938 gols e o Paysandú, 904.

Neste ano já foram realizados os seguintes clássicos: 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

RATINHO poderá jogar nesta final de campeonato


O MEIA Ratinho não aparece no time titular do técnico Roberto Fernandes para a primeira partida da decisão do Parazão 2014, nesta quarta-feira (4jun.), no estádio Mangueirão, contra o Paysandú, porém o meia garante estar pronto para jogar os 90 minutos e poderá ser a surpresa na escalação do time, que será divulgada apenas momentos antes da partida.

“O trabalho foi bom e o treinador está procurando ajeitar a equipe da melhor forma possível e cada segredo é importante, em um momento como este, de final de campeonato e a movimentação foi bem proveitosa”, destacou Ratinho.

O jogador destacou que o mistério faz parte de uma decisão e que pode dar um bom resultado aos azulinos. “Agora tem que ser o maior sigilo possível e estamos fazendo um trabalho da forma correta e esperamos fazer um bom resultado”, disse o atleta.

Ratinho está relacionado entre os jogadores concentrados para a partida contra o Paysandu, na primeira batalha da decisão do título do Campeonato Paraense de 2014. (Diego Beckman/DOL)  

terça-feira, 3 de junho de 2014

MAIS uma incoerência do sistema

A ALUNADA em sua maioria absoluta já havia viajado de férias para suas cidades de origem, a desfrutar merecido descanso e lazer no aconchego de seus lares, junto a seus familiares, amigos, namorada. Noventa e seis, noventa e sete por cento da turma já estava de boa. Entretanto, nós, que ficamos de prova final e de segunda época, ainda povoávamos contra a nossa vontade o outrora movimentado e fervilhante Corpo de Alunos. Aquele mundão de Escola era um clima melancólico sem a presença em peso dos alunos, feito uma feira minutos antes fervilhante e barulhenta e agora deserta. Nas feições dos que ficaram se notava nitidamente a preocupação com a própria sorte, melancolia agravada pela solidão daqueles seis ou sete, mas ao mesmo tempo solidariedade. Voltariam à Escola no semestre seguinte? Embora esperançados, ninguém de nós tinha certeza absoluta disso. 

Na sexta anterior ocorrera a formatura do pessoal da quarta série. Foi bonito ver o aluno zero um, agora sargento, passando o estandarte para o aluno zero um da turma seguinte. No final, o fora-de-forma e todos jogavam o quepe para o alto, festejando a vitória suada pela qual lutaram por dois longos anos. Apesar das motivações do professor, eu, pelo meu drama particular, ainda não conseguia me visualizar ali, de branco, formando-me terceiro-sargento da Força Aérea. Ao contrário, aquelas insignias estavam a levantar voo, destino ignorado.
Mais uma turma que ao final jogavam todos o quepe para o alto

Veio a notícia por alguém de que a próxima turma, que iniciaria no primeiro semestre de 1978, inauguraria um novo sistema, vez que a Força resolvera mudar muita coisa no ensino que preparava o futuro sargento especialista. Já não seriam mais dois semestres de ensino básico; no segundo o aluno já entraria na parte especializada, aumentando para três semestres a preparação técnica propriamente dita contra somente um semestre de ensino básico. Melhor para eles, com mais tempo de aprendizagem no que interessaria de fato. Com essa mudança algumas matérias foram abolidas enquanto outras inseridas no currículo. Quebrava-se assim um paradigma que vinha sendo adotado pela Aeronáutica desde a sua fundação, em que a Força copiara as nomenclaturas da Marinha. Nossa turma, a turma número 171, seria a última desse velho modelo encerrando o ciclo que vinha desde 1941.


Em Matemática consegui aprovação, por pentelésimos. O que eu não contava era que a aparentemente tranquila Tebê me levaria à segunda época, a última, a derradeira oportunidade. Não logrando aprovação, seria o pé na bunda, e a companhia Igê aguardava-me sem ao menos o direito às férias escolares. Tal situação deixou-me profundamente inseguro; estava pela bola sete. Preocupei-me com a tal Matemática e dei mole para Tebê, matéria em que dava por certa a aprovação.