quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

REMINISCÊNCIAS do front

A Revista de Pernoite

A HORA da revista de pernoite era um acontecimento. Nós tínhamos a capacidade de transformar aquela obrigação rotineira e enfadonha em algo divertido. Era o momento em que o aluno-de-dia fazia a chamada a fim de verificar se todos se encontravam presentes. Acontecia de segunda a quinta, às dezenove.

Cada aluno, em posição de descansar a frente de seu armário, era chamado pelo seu número, que em nossa turma começava com o 1065, Délio, que entrou zero hum; terminava com o 1578, não lembrando eu quem era o último a ser chamado para fazer parte daquela turma inesquecível, a de número 171 da Escola de Especialistas de Aeronáutica. O meu estava quase lá. Era 1574, pois cheguei à Escola como reserva, convocado quando quase todos os colegas estavam em Guará, já bem adaptados à rotina daquela escola militar. Quanto a mim, não sabia distinguir um taifeiro de um tenente.


O aluno-de-dia falava o número, e o aluno chamado respondia com o seu nome-de-guerra. Os nomes eram respondidos de forma alta e clara, fazendo cada aluno seu próprio estilo, com alguns ressaltando os "erres", acompanhado de uma barulhenta posição de sentido. Uns até batiam forte o borzeguim no piso, além de levantarem exageradamente as mãos em demasia e baterem firme com elas nas coxas.

Depois da chamada, eram dados os avisos.

Certa vez na minha esquadrilha, que agora eu não lembro se era a décima primeira ou a nona, pois não me recordo se era a segunda série ou a terceira, Djaci, o Paraíba, disse que o brochante seria depois da revista de pernoite. Todos deram risada pela irreverência do Djaça.

- E isso é alguma novidade, aluno? - Indagou o aluno-de-dia, brabo com a irreverência do Paraíba.

Não respondeu, e teve seu nome anotado.

Uma vez ou outra, dado o fora-de-forma do pernoite, um colega usava o toca-fitas e punha uma música, um roque, que até hoje eu lembro. Não sei o nome do artista, o nome da música, tampouco a letra, que era em inglês. Só lembro que a moçada toda se divertia trocando o refrão para o português, fazendo uma tradução livre. Naturalmente que a letra ficava impublicável, para tornar-se engraçada. Soava mais ou menos assim:

"Vai, vai devagarinho
fumar esse cachimbinho...

Tua mãe é luta...
E teu pai um araruta..."

Não sei o nome do colega do toca-fitas. Ele, se ainda estiver entre nós, certamente lembra disso. É provável que não saiba identificar a música ou o artista.

E vamos ao brochante.

4 comentários:

  1. Hay situaciones y comentarios inolvidables, saludos

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  2. Muito fácil identificar a Esquadrilha, Valentim!! Esse tipo de gozação deve ter sido ainda nas séries iniciais. Pois a partir da 3ª Série, FT que era, ou seja, considerando-se uma naba da turma, o Djacir jmais faria uma gozação sem graça como essa, arriscando ficar impedido, ou na faxina. Ademais, a Turma de FT ficou na mesma esquadrilha que os ESs????? Acho que não!!!

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  3. Sim, caro Vargas. Lembrando melhor, foi na segunda série, na 11ª Esqda. Djaci era o número 77 1444, cujo armário não era distante do meu.
    Mas a verdade é que o Paraíba - que hoje é um seriíssimo servidor do Estado, juiz criminal em São Lourenço da Mata, PE, era uma figuraça. Tenho outras histórias sobre ele, mas, considerando seu status atual, não ficaria bem registrar aqui.

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