sábado, 24 de janeiro de 2015

REMINISCÊNCIAS do front

Formiga Atômica



DAQUELA dúzia de colegas que não conseguiram concluir o curso por terem sido excluídos por razões disciplinares, tinha mais proximidade com três deles: Santana, Nunes e Pedroso. Os dois primeiros, meus conterrâneos; o terceiro era gaúcho.

Lembro ainda hoje muito bem do rosto juvenil de cada um deles, como diz o colega Pinheiro. Além do rosto, lembro do jeito de cada um. Santana, talentoso desenhista, era um cara baixinho e atarracado, branco com algumas sardas, cabelos bem penteados para trás. Tocava violão, que ele, quando não estava usando, deixava guardado na sargenteação. Após o término do expediente, depois das cinco, entre o banho e o horário de jantar, geralmente era o período em que Santana, sentado na cama de campanha e pegava seu violão e ensaiava algumas músicas. Detalhe é que fazia isso completamente pelado. Tinha na ponta da língua algumas paródias, como a do clássico musical "A Banda", de Chico Buarque, em que ele trocava as letras por outras risíveis porém censuradas. Banda virava 'bunda' e entre as pessoas que iam à janela ver a banda passar estava lá uma prostituta, ou puta, como ele cantava para diversão dos mais próximos.

"E a puta velha debruçou na janela
Pra ver se a bunda era igual à dela..."

Criou um roque, o "Roque do Aluno", em que resumia a rotina da semana, iniciando com a segunda e findava com a sexta-feira. Tinha o dia do boi-ralado e tinha o dia do Caveirinha, também.

"Eu sou aluno
Eu sou aluno"

Era o refrão. Esse paraense era um artista de talento mesmo.

Nunes, Expedito Nunes, que era enfermeiro, era adepto do fisiculturismo, que, naquele tempo não era conhecido por esse nome. Praticava halteres ou fazia ferro, no popular da época. Baixinho também, porém bastante forte, daí ter ganho o apelido de "Formiga Atômica", que era um desenho animado que passava na tevê. Era já um cara de mais experiência, em comparação a nós mais novos, e já tinha sido soldado do Exército. Foi espelhado nele que passei a frequentar a sala de musculação - não se dizia "academia", como hoje - a fim de ganhar alguns músculos, disfarçando assim o meu evidente raquitismo. Ganhei então alguns centímetros de bíceps e de peito, pelos supinos que costumava fazer duas ou três vezes por semana. 

Pedroso, acredito que era enfermeiro. Não tenho bem certeza. Era um gaúcho de Porto Alegre - a julgar pelo sotaque característico - do tipo malandro. Lembro perfeitamente de tê-lo ouvido falar que um de seus sonhos era comprar um apê. 

Todos foram afastados do nosso meio por conta do consumo de tóxicos. Eu de nada desconfiava, de tão ingênuo que era. Depois do ocorrido é que vi que aqueles caras eram mais avançados de que a maioria. Vestiam-se bem, apesar do parco salário que o aluno da Escola de Especialistas recebia por mês. Dizia-se que eram ajudados pelos pais, que lhes mandavam dinheiro. Eu, por minha conta, lembro sempre daquela máxima, bastante repetida pelo Corpo de Alunos: "Aluno só é pobre porque quer."

Porém não os censuro, porquanto estaria a julgá-los. O julgamento é próprio de Deus, e cada um de nós tem os seus defeitos. Cabe a nós ressaltar as qualidades e minimizar os defeitos, e, se tivermos condições, aconselharmos. No caso desses colegas, se tinham esse vício, é possível que tivessem qualidades.

Recordo que logo que cheguei, na primeira série, ainda desconhecendo muita coisa, o Nunes me chamou à parte. Estava eu de décimo, o uniforme da Suat, como costumávamos brincar. Era o meu primeiro serviço de plantão. 

- Valentim, quando o rondante chegar, você se apresenta a ele e diz "Aluno 77 1574 Valentim, serviço sem alteração". 

Eu não sabia disso. Ninguém antes tinha me falado. Mas ele, vendo que estava mais perdido que cego em tiroteio, tomou iniciativa e orientou-me. Jamais me esqueci disso.

Era, apesar da dificuldade, um cara legal. Não há um bom sem defeito, como diz minha mãe, e o contrário também. 

Cheguei a mandar uma carta ao Santana, com quem tinha mais contato já que o armário dele ficava próximo ao meu, a fim de expressar minha solidariedade. Não obtive resposta.

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