domingo, 4 de janeiro de 2015

REMINISCÊNCIAS do front

Inveja, mesquinhez e lealdade

AQUELA apresentação era mais uma das tantas a que eu recebera a incumbência de realizar. Estavam lá os oficiais responsáveis pelos esquadrões e seções da Unidade. Como era eu chefe de pessoal, modernamente chamado de Recursos Humanos, tornou-se comum o comandante me chamar para dar alguma explicação ou orientação a todos sobre as questões da área.


Numa das últimas reuniões no auditório Tenente Sottomano, representando interinamente um dos esquadrões, Unidades Aéreas sediadas na Base Aérea, comparecia também um oficial da patente de capitão. Fora promovido ao posto havia um ano ou pouco mais, e naquele mês, excepcionalmente estava como o oficial mais antigo de seu esquadrão; portanto, raras vezes participara daquele tipo de reunião. Em dado momento, o oficial pediu a palavra e me questionou sobre o plano de férias; respondi de acordo com o planejamento previamente combinado entre mim e os meus superiores. Em seguida o oficial em tela fez outra pergunta, creio que era sobre a distribuição de soldados, encargo rotineiro a cada semestre; dei as explicações julgadas necessárias, com desenvoltura. Pela terceira vez, interferiu o capitão, e dessa vez foi sobre a escala de serviço. Estava tudo certo, pois ele era na sua Unidade Aérea também o chefe da seção de pessoal. Esgotando o repertório, não fez mais nenhuma indagação, naquela reunião.

Saindo do recinto, fui chamado à presença do comandante. Como estava aguardando desligamento por ter sido transferido para a Reserva Remunerada, ele mostrou-me um nome e pediu a minha opinião para ver se era a pessoa mais indicada para substituir-me no cargo de Comandante do Esquadrão de Pessoal. O comandante estava somente havia alguns dias em comando, portanto, não conhecia a todos os seus oficiais, não tendo condições portanto de escolher a melhor pessoa para cargo de tamanha relevância. 

- Acho que não é o melhor nome, comandante.
- E você tem outro nome para mim?
- Sim, senhor. Sugiro para o cargo o nome do capitão Domingos Silva.

No dia seguinte houve outra reunião. Chegando a minha vez de falar, não deu cinco minutos e o dito oficial fez-me outras duas indagações, que foram prontamente respondidas com segurança. A cada pergunta, o comandante olhava para trás a fim de ver quem era o autor. Saindo dali, o comandante mandou-me proceder a substituição, devendo eu passar o comando do Esquadrão de Pessoal ao capitão Domingos Silva.

Havia ali naquelas interpelações um quê de impertinência ou mesmo presunção, talvez com a intenção de deixar-me em situação difícil. Não sabia o oficial que a Força Aérea vinha me preparando por quase trinta anos para aquele cargo, de forma que dificilmente alguém poderia me deixar em dificuldade na área em que eu atuava. Mas, ele não sabia disso, enquanto ele ia com o amendoim, eu já voltava com a paçoca.

Tal era a minha percepção, a de que o dito capitão, quem sabe por um certo ciúme, pelo fato de que estava eu sempre em evidência devido ao cargo, fazia esforço em mostrar-se entendido da área, ao mesmo tempo em que tentava deixar-me sem respostas, desmoralizando-me diante de todos. Estava na cara de que o oficial intermediário estava querendo ficar no meu lugar, porquanto o cargo, embora espinhoso, atraía os holofotes.

Contudo, apesar dessa questão de caráter, percebi que o capitão Domingos era o nome mais preparado para aquele cargo de grande responsabilidade. Questionado, não me furtei a indicar o nome mais qualificado, ainda que, contra ele, conservasse a ressalva já explicada antes.

Disso tudo, extraem-se duas lições:

Por primeiro, que em todo meio há pessoas invejosas, que não hesitam em puxar o tapete do seu semelhante, até mesmo ambicionando o cargo deste;

Por segundo, a questão da lealdade. Para não prestigiar o oficial a quem passei o cargo, poderia eu concordar com o nome proposto pelo comandante. No entanto, a minha obrigação era lhe indicar o oficial mais competente, e o nome do capitão Domingos Silva era o melhor nome que se apresentava naquele momento. Em hipótese alguma, deixaria que o comandante designasse para a assessoria de área de Recursos Humanos alguém cuja capacidade não estivesse à altura da responsabilidade do cargo.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Mesmo as noites totalmente sem estrelas podem anunciar a aurora de uma grande realização. Martin Luther King 

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