quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

ERA uma vez na Escola de Especialistas...

Uma esquadrilha toda detida


Por Lázaro Curvêlo Chaves

ELETRÔNICA, para satisfação geral de quem gostava, era a mais numerosa das especialidades. Tinha fama de ser dificílima, só superada pelo rigor necessário ao Controle de Voo. A Fotografia também exigia muito. Via de regra, o zero um, o zero dois e o zero três de cada turma saíam dessas especialidades. Na terceira série fui o fui xerife da esquadrilha e da turma, pelo menos durante algum tempo. Cabe ao xerife, entre outras coisas comandar o deslocamento da turma em marcha para o galpão da especialidade, para o rancho... Além disso, ficava incumbido de auxiliar o sargenteante de sua esquadrilha nas funções de escritório e era ainda responsável pela preciosa chave da sargenteação, onde guardávamos nossa bagagem civil.


Felizes em estudar e estar juntos, compreensivelmente ansiávamos pelo final de semana, quando nos reencontraríamos com nossas namoradas e nossa primeira família: a materna.

Era proibido ao xerife da esquadrilha deixar a chave ao alcance dos demais que, contudo, precisavam visceralmente de alguns momentos de privacidade, fosse para estudar, meditar, etc. Na esquadrilha aberta, onde noventa homens partilhavam o mesmo alojamento e os mesmos espaços públicos, a privacidade era nenhuma. O ser humano não vive plenamente se estiver sozinho; por outro lado fica sufocado se não puder ficar sozinho pelo menos por alguns períodos e ali era difícil...

Sinceramente não me recordo, se pressionado ou por iniciativa própria, eu deixava a chave da sargenteação em local que somente nós, os noventa componentes da esquadrilha sabíamos, para propiciar pelo menos um tantinho daquela privacidade, tão necessária ao adolescente. A memória ainda está esmaecida, mas se reforça ao reencontrar-me com aqueles mesmos amigos trinta e cinco anos depois: penso que cedi à pressão dos amigos. Os melhores, a elite ali era composta pelos mais hábeis em destreza, capacidade física ou intelectual, aplaudida e motivo de exemplo aos demais. “Direito à Privacidade” não contava ponto para a classificação e a chave da sargenteação virou "Segredo de Estado" compartilhado fielmente entre os noventa durante um bom tempo.

Certa feita, estávamos já nos preparando para o final de semana quando um dos nossos registrou uma reclamação formal ao Sargenteante:

_ Roubaram minha calça, sargento! De dentro da minha mala na sargenteação!

Indizível a sensação de infâmia de blasfêmia, de traição mesmo que todos sentimos com o gesto do colega. Contudo era um dos nossos e merecedor do respeito de todos: será que alguém teve a coragem de violar-lhe o mais íntimo da privacidade a esse ponto?

Vem o sargento, comanda que se afastem os beliches a um canto do alojamento e nos sentemos no outro. Boa praça, conversa conosco amigavelmente:

_ A calça do colega sumiu, ele registrou uma queixa formal – “deu parte” – e enquanto essa calça não aparecer eu estou de mãos atadas.

Olhávamos estupefatos uns para os outros em busca de alguém que confessasse o crime ignominioso e nos libertasse de tanto constrangimento: nada.

O sargento chamou o tenente que era o Comandante da Esquadrilha. Reuniu-nos novamente na Esquadrilha e mais uma vez tentou contemporizar:

_ Se devolver a calça do colega, não haverá punição maior, apenas um registro em seu Histórico – esse “apenas” é que era o cão, carregava-se uma mácula, como uma marca a ferro em brasa para o resto da vida – enfim, novamente, olhávamos uns para os outros ansiosos. Ninguém...

_ Estão todos impedidos de sair no final de semana!

Não apenas me recordo vivamente dessa expressão, “impedimento”, que ouvia pela primeira vez ali pelos dezessete anos de idade e era pouca coisa menos que “detenção”. O impedimento não fica registrado no histórico, só nos deixa sem ver a namorada no final de semana e fica na memória. Escrevi no verso da foto em um tempo que minha caligrafia ainda era legível: “13ª Esquadrilha impedida de sair no final de semana – 28 de outubro de 1978”.

Foi um constrangimento geral, pouco falávamos sobre o assunto, nosso tema predileto era a saudade de casa. Alguns conseguimos abstrair o drama e estudamos um pouco mais que o estudo ali é coisa séria. A segurança e o rigor são absolutamente imprescindíveis!

Esquisito, constrangedor os mais novos, da primeira e segunda séries, que ficavam na Escola durante o Final de Semana por morar muito longe, a nos ver envergando o décimo uniforme naquela circunstância. O décimo uniforme era de brim, usado em exercícios vigorosos ou com armas. Era a típica “roupa de presidiário”, se a envergávamos no final de semana.

E lá íamos nós, tinha de acordar com a alvorada, respeitar toque de recolher à noite, ir marchando e entrar em forma para as refeições... Além da sexta-feira à noite, em geral dia de baile, foram dois longos dias e teve início uma nova semana. O estresse estava alto, mas nossos comandantes souberam encaminhar todo o excesso de energia em vigorosos exercícios – não me recordo de ânimos mais acirrados que isso, tampouco trago na memória qualquer incidente digno de nota.

Meramente o choque, a surpresa de ouvir do colega, ao voltar de férias – Manaus ou Macapá, a memória está esmaecida, sei que era bem longe e ao Norte, final de semana no quartel, para ele, não era novidade... – exibindo a calça sumida e bradando ingenuamente:

“A CALÇA ESTAVA LÁ EM CASA. EU ACHEI NAS FÉRIAS”.

Ninguém, que me recorde, deu muita atenção a isso, já havia passado um bom tempo e a gente tinha um Universo inteiro pela frente...

Corre o rumor que o colega faleceu em acidente aéreo. Preciso de uma confirmação formal, por escrito, com atestado de óbito e o escambau, senão aquele puto me aparece como um fantasma aterrorizando de novo!


(Branca de Rachar em 18fev.2015)

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