terça-feira, 10 de março de 2015

REMINISCÊNCIAS do front

O caso da piscadela


22 anos depois, voltei a ser aluno
POR QUESTÃO de honra era meu propósito chegar à primeira colocação no Estágio de Adaptação em Belo Horizonte, missão a que me candidatei em 2000, tão logo fora promovido à graduação de suboficial em dezembro de 1999.

Preparei-me então para tal objetivo, focando a nota dez em todas as disciplinas exigidas. Meu pensamento era que, focando no máximo, não obtendo essa pontuação, chegaria aos nove e meio ou próximo desse grau. Diante dessa performance, certeza era ser aprovado.

Uma das disciplinas era Língua Portuguesa e Literatura. Sempre fui bom em Português (sem falsa modéstia), razão pela qual (acreditava eu) não era necessário dedicar tanto tempo a essa área. Pois bem. Um colega convocou a mim e a mais alguns colegas para estudarmos em uma sala de aula de uma escola lá da quadra 214 Sul, Brasília. Resolvi ir. Falei comigo mesmo que "se somasse qualquer conhecimento a mais, já teria tido algum ganho, mormente se pudesse passar algo para algum colega". 

Com esse espírito, fui e aprendi muito mais do que já sabia, além de obter a graça de passar muito mais aos outros irmãos com que partilhava aquele tempo à noite, duas vezes por semana.

Nem só de virtudes, porém, compõe-se o bicho-homem. 

Eu estava lá no Ciaar, bairro da Pampulha, depois de quase 22 anos bancando o aluno. Para atingir o objetivo que eu mesmo secretamente me impunha havia, além das demais disciplinas, o teste físico, área em que eu precisava treinar de forma mais intensa. E eu já não era um garoto, com os meus quarenta novembros. 

Naquela manhã ensolarada e quente do final de abril estávamos todos lá na pista olímpica e campo de futebol daquela Escola. Aguardávamos a hora determinada para iniciarmos a corrida com o tempo de doze minutos. Considerando a minha faixa etária, tinha que atingir determinada marca para conquistar a nota máxima, requisito fundamental para conseguir o objetivo proposto.

Para complicar mais a organização do teste atrasava a cada grupo que praticava a corrida, de forma que o meu grupo, o último deles, ficou para o meio-dia, um horário pra lá de ingrato, quando além do sol abrasador nos apertava a fome.

Chegou finalmente a nossa vez e pusemos-nos a correr. Adotei como método na corrida deixar fluir livremente o pensamento, imaginando mil e uma coisas e fatos. Pensava na família, nos planos futuros da carreira, na questão política de então, futebol, religião e assim, enquanto a mente vagueava, as distâncias iam sendo vencidas com facilidade, nem me dando conta do cansaço das pernas e do extraordinário trabalho cardíaco. Estava habituado.

Todavia, ao me faltar ainda umas duas voltas e pouco tempo para completar, percebi que já estava nas últimas. Dificilmente conseguiria a marca exigida. Foi quando me aconteceu algo imprevisto. Completando aquela volta, ao passar pelo marco inicial, o ponto de partida, percebi em meio ao grupo de oficiais encarregados da prova uma segundo-tenente da primeira turma de oficiais temporários da área de Educação Física. Tratava-se de uma sulista muito bonita e, também por isso, bastante popular entre os alunos da minha turma. A pampeana era uma guria levada da breca, como dizia Aluísio Azevedo. Era daquelas de parar o trânsito.

Já em estado lastimável passei em frente ao grupo quando, dentre aqueles dez ou doze marmanjos, meus olhos naturalmente procuraram os da loira, que - intencionalmente ou não - mirava também para mim. Deu-me uma piscadela bem discreta, porém daquelas sensuais (ao menos aos meus olhos).
Completei a corrida
Com a idade em que me encontrava percebera, havia algum tempo, que a vida me determinava montar então o matungo da prudência, trilhando mansamente as veredas da calmaria. Tendo o episódio acontecido alguns anos antes, diante daquela situação inusitada, certamente seria eu levado a galopar o tordilho da perdição, a correr alopradamente na estrada da loucura.

Como estava em corrida, não tinha como manter o olhar nos olhos da guria. Segui adiante, subitamente com mais força.

Foi justamente aquela piscadela sensual que deu a mim o combustível suficiente para completar as duas voltas que faltavam - e no tempo determinado. Nota dez.

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