quinta-feira, 5 de março de 2015

REMINISCÊNCIAS do front

Sargento Tarcísio



NA MAIOR parte desses mais de 30 anos de minha carreira na FAB exerci atividades na área de recursos humanos, o que me deixou muitas vezes com o senso de realização, a consciência do dever cumprido. Uma das razões da alegria que sentia era em razão da oportunidade que tinha em servir ao meu próximo. Além da mera obrigação funcional, ver o sorriso de agradecimento no rosto alheio era para mim uma coisa que nunca teve preço.

Uma das minhas manias era saber de memória o nome completo de boa parte do efetivo da Unidade. Não só da unidade, mas alguns outros nomes me ficaram na memória até hoje.


Um dia em Belém, vi saindo do cassino de suboficiais e sargentos uma figura muito conhecida de todos nós, que convivemos juntos aqueles dois anos na Escola.

Gritei: "Tarcísio Rodrigues de Farias!!!". O suboficial Tarcísio voltou-se pra mim e me abraçou. Emocionado, disse-me: "Vê, Valentim", apontando para o antebraço esquerdo, "Estou até arrepiado".

O fato de eu o ter reconhecido, travado diálogo com ele, e ainda por cima ter lembrado de seu nome completo o emocionou, emocionando também a mim, que admirava o jeitão espontâneo daquele sargento que nos dava instrução de DL-AT e regulamentos, intercalando com alguns palavrões, que longe de nos ofender deixavam o ambiente relaxado. Divertíamos-nos com ele.

Ainda lembro que havia sempre alguém, para provocá-lo e também para que todos desse risadas, que perguntava: "E o bizu, sargento?". "Bizu é..." - respondia Tarcísio numa rima conhecida. E a risada era geral. 

Um comentário:

  1. Alguns comentários colhidos no Facebook:

    Também lamento, mas esse é o nosso destino comum. Sempre lembro aquela madrugada em que o Aluno 1574 estava de sentinela no horário das duas às quatro de inverno ao galpão de Armamento. Devia estar um 1 grau ou menos. Chegou o rondante e depois de receber a apresentação disse-me assim: - Força, companheiro! Era o sargento Tarcísio. São estes pequenos mas significativos gestos que nos impulsionam à diante, ainda mais naqueles tempos de juventude em que as ideias ainda não estão bem amadurecidas. (a) Valentim

    ***

    Minha última memória do Sgt. Tarcísio é da noite de nossa formatura. Ele sabia que eu gostava de tomar umas pingas e disse-me que naquela noite eu teria que trazer pinga do Ceará. Meu pai foi à minha formatura e levou uma dúzia de "Chave de Ouro". O Tarcísio reservou logo dois litros para si, e os outros dez nós tomamos durante a noite. Inclusive o Ten. Bonin também bebeu. Depois o Tenente me disse: Eu quero ver você cair em forma!!! A gente fez um trenzinho e saiu cantando: "Tá com medo, tabaréu?/ é de linha de carretel/ tá com medo tabaréu?/ é de linha de carretel/ Você encosta/ ela estica/ tira a mão da minha pipa, que eu quero passar/ chegar pra lá/ assim não dá/ minha pipa é voadora/ minha pipa tá no ar/ ah ah ah, minha pipa tá no ar..." Não deixamos ninguém dormir. O Tarcísio na frente e a gente atrás, entrava nas esquadrilhas, perto da CIA IG, por trás do Rancho, e quando a gente saía, o trem estava maior. Não dormi um segundo sequer naquela noite, e pela manhã tomei uma ducha bem reforçada. Na hora da formatura eu estava só os cacos. Foi a última vez que vi o Tarcísio!!! (a) Vargas

    ResponderExcluir

OBRIGADO por comentar e volte sempre ao BLOGUE do Valentim!