sábado, 15 de agosto de 2015

ERA uma vez na Escola de Especialistas...

Sargento Caveirinha



EM MINHA época de Escola de Especialistas, final da década de 1970, havia um primeiro-sargento cuja figura me ficou indelevelmente marcada na mente. Aliás, todos os alunos daquela época jamais esquecerão do sargento Rodrigues, o Caveirinha, apelido ganho graças à sua aparência incomum,  à fama de sargento mau e ao rigor em que agia como instrutor de Ordem Unida para todo o Corpo de Alunos, constituindo-se o terror daqueles alunos de primeira série. Feio (feio não: horrível, simplesmente), hoje seria comparado ao "Seu Madruga", do seriado mexicano Chaves.

A maioria de nós, aquele meio milhar de jovens oriundos de todas as partes do Brasil, era egresso da vida civil, nada entendendo de militarismo. Não sabíamos discernir nada, e devíamos aprender tudo num curto período de dois ou três meses a fim de prestarmos o compromisso de juramento à Bandeira, uma obrigação regulamentar imposta a todo brasileiro que ingressa nas forças armadas brasileiras. Exceção era feita aos jovens que antes eram soldados ou cabos, que já vinham escolados, porém tinham que passar igualmente por todas as instruções, quer fossem teóricas (regulamentos) ou práticas (ordem unida).

Caveirinha, sujeito magro, cara chupada e espesso bigode, era o sargento mais afamado e mais temido entre a alunada. Pegava no pé especialmente daqueles que tinham dificuldade motora, e que, muitas vezes pelo nervosismo natural, não discerniam entre "direita volver" ou "esquerda volver", nem acertavam o passo ao marchar, e muito menos tinham habilidade com o manuseio do armamento, que naquela época era o velho e pesado mosquetão usado na primeira guerra. Caveirinha não deixava passar qualquer deslize, e com isso a turma ficava mais nervosa e trêmula. Para nós, a impressão que ficava era que ele se comprazia com o nosso sofrimento.


A respeito de sua figura, as anedotas e situações folclóricas também eram recorrentes. Consta que certa noite, os grupos de alunos estavam no pátio do rancho para a ceia, que, pelo boato que corria sobre adicionarem algum remédio no chá para aliviar os hormônios, era também conhecida pelo singular nome de "brochante". Em geral, os grupos formavam por turmas ou séries, da 4ª série, aqueles que estavam no último semestre do curso, à primeira série, os "bicharais", como eram jocosamente chamados por todas as outras turmas. O aluno mais antigo de cada série se encarregava de por em forma a todos de sua turma e os apresentava ao sargento-de-dia, que estava lá para supervisionar a disciplina. Justamente naquela noite o sargento-de-dia era o Caveirinha. 

Ocorreu de o mais antigo da primeira série presente ser o Orival, popularmente conhecido por "Catarina", em parte pelo seu sotaque inconfundível de catarinense. Um aluno de quarta série orientou que o Catarina pusesse o grupo em forma, o que ele fez dando uma sequência de "sentido, cobrir, firme!", e apresentasse a turma ao sargento Caveirinha.

Foi então ele:

- Com licença, sargento Caveirinha!
- Aluno Orival apresenta a primeira série pronta para o brochante.

O caveirinha, impassível, e olhando firme para a cara do bicharal, saiu-se assim:

"Aluno, em primeiro lugar o nome da refeição não é "brochante" e sim "ceia". E em segundo lugar...

          ...CAVEIRINHA É A PUTA QUE TE PARIU".  

No entanto, tudo ficou por isso mesmo. O sargento não levou adiante o fato - transgressão disciplinar -, sabendo que se tratava apenas de bisonhice do Catarina, que caiu na armadilha do quarta-série. Era um cara bom, um grande profissional que fazia bem o seu trabalho. 

Jamais te esqueceremos, sargento Rodrigues.

22 comentários:

  1. Aquí también hay sargentos Caveirinha, afortunadamente, saludos!

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  2. Una legenda en la Fuerza Aerea Brasileña, amigo Silvo.
    Saludos!

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  3. Sempre bom ler essas histórias. Recordar é viver.

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    1. Ele era na verdade um grande brincalhão. Divertia-se com as agruras do aluno.

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  4. Excelente, Valentim! O Caveirinha tem mesmo história na nossa EEAR. Volta e meia encontro ele aqui por Guará. Até hj não gosta que o chamem de Caveirinha, se bem que tá cada vez mais parecido com uma! kkkkkk!!!

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  5. lembro que ele gostava de nos chamar de espirro de pica

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  6. O Sgt. Rodrigues, por uns conhecidos como impiedoso, assim como foi comigo, não tinha nada de impiedoso, hoje posso afirmar que se tivesse outro sargenteante que fosse benevolente possivelmente eu teria sido graduado 3º Sgt. por que sua "impiedade", conteu meus ímpetos indisciplinares duramente mas de forma que não prejudicou meu comportamento, foram muitas repetições na "equipe de faxina", muitos impedimentos, muitos "paga dez", que serviram para fazer de mim o militar que fui. Obrigado Sgt. Rodrigues!

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  7. Foi meu sargenteante na 10ªCIA em março de 1969. Gente muito boa.

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    1. Sempre foi do CA, então, na Escola. lenda viva.

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  8. nO NOSSO ACAMPAMENTO EM ABRIL DE 68, CAPTURAMOS O sGT cAVEIRINHA QUE ERA DA 18ª. Deixamo-lo preso e a galera da então 11ª deitou e rolou... talvez muitos não se lembrem, mas, foi um barato. Claro que tudo ocorreu quando ele invadiu a área da 11ª para declarar área ocupada, e, foi pego de surpresa. Porém, até hoje o respeito, É UM GRANDE CARA!!!

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  9. Foi meu sargenteante na 8a Cia em março de 1970.

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  10. O tempo mais veloz de minha vida ,conviver com mais de 2000 alunos oriundo do Brasil inteiro, quando eu pensava já era prova , já era sexta-feira,já era formatura ,não deu para conhecer nem os colegas da companhia a Sétima , a menina do corpo de alunos,toda a semana ganhava o premio da melhor na faxina. O SGT Rodrigues o mais antigo dos monitores e Sgt Adjunto sempre exuberante e audaz aos olhos do corpo de alunos. Ser Especialista era a certeza de que eramos capazes. Parabens SGT Rodrigues.

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  11. Meu pai , da VERDE 67 treinou com ele... Falecido Damasio QRTTE , hoje BCT. Fui da Azul 88 e tinhamos o B. Santos. e o José Luis. Dois "caveirinhas" que gritavam: não mexe , Diabô!!!

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  12. Aluno de 77 lembro do Grande Sargento ! Esse é história de EEAer!

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  13. EU sou da turma 167 de 75 e lembro do episódio do aluno que o chamou de caveirinha, foi hilário, bons tempos aqueles.

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  14. Sou muito velho, não conheci o Caveirinha mas na minha época(61/62)havia um que pode ter sido o seu mestre. Adugar QUIRINO do Nascimento e Souza, o TIMBÓ, Figura muito marcante na formação da nossa época.

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  15. Quantas lembranças boas.
    Muito me honra lembrar desse grande amigo o eterno Sargento Rodrigues, o popular Caveirinha.

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