segunda-feira, 17 de agosto de 2015

REMINISCÊNCIAS do front

Vem cá, Brito!

NO NOSSO tempo de Escola de Especialistas existia um professor de Português. Ele, cujo nome não me sobreviveu na memória, era uma figura. Tinha para cada assunto a ser ensinado um exemplo engraçado ou curioso. No caso da pontuação, uma vez nos ensinou sua importância para que um texto não produza ambiguidade e assim deixe de cumprir a sua finalidade: estabelecer uma comunicação.

Era o caso da pitonisa, que, consultada pelos membros da corte de Alexandre, o Grande, sobre uma grande viagem do imperador para umas terras distantes em missão de interesse de seu país: conquista, guerra. Queriam saber da pitonisa se Alexandre e seu exército sairiam vitoriosos. Ela escreveu assim: "Irás voltarás não morrerás lá". Alexandre morreu nessa guerra. Inconformados com esse resultado, os mesmos assessores voltaram à pitonisa e ela, defendendo-se, disse que eles não haviam esperado a pontuação. O pequeno texto, pontuado, ficaria assim: "Irás. Voltarás? Não. Morrerás lá."

Ainda sobre a vírgula o professor costumava contar um causo. Dois homens conversando e um deles se chamava Parente. Apontando para um cachorro, o outro costumava falar ao primeiro: "Aquele cachorro é seu Parente?". Dizia assim sem enfatizar a pausa, a vírgula se fosse numa comunicação escrita. Dessa forma ele tanto poderia estar mencionado o nome "Parente" do amigo, o vocativo, e perguntando se o Parente era dono do cachorro, ou também, não usando a vírgula entre o pronome possessivo ("seu") e o nome próprio "Parente', indagando se o animal era parente desse amigo seu.

Uso esses exemplos para chegar ao amigo Alexandre Soares de Brito, o poeta. Certa tarde, não lembro se na primeira, segunda, terceira ou quarta série, estávamos correndo curto na estrada que vai da Vila dos Sargentos à outra estrada que dá entre a Escola e o hospital. De longe ao nosso lado direito ia uma jovem, que a julgar pelos atributos corporais, prometia ser uma beldade. Diante desse fato relevante, a tropa - naquele tempo exclusivamente masculina - dirigia os olhares para ela, olhando à direita, ainda que o guia ou o comandante da tropa não tivesse comandado ordem alguma nesse sentido. Não precisava. Ao passar pela moça, todos se decepcionaram pois seu rosto não correspondia ao que mostrava o restante do corpo. O Brito, que naquele tempo já era um poeta, veio com esta: "Última forma nos olhares lânguidos." Demos uma boa risada.

Mais tarde, talvez vinte e um anos depois, estávamos nós novamente como colegas. Desta vez em Belo Horizonte, realizando um estágio que nos garantiria seguir a carreira até a patente de capitão. Estava lá o mesmo poeta Brito, com a diferença de mais experiente, mais sábio, mais amigo.

Este escriba, para incomodá-lo e imitando o causo do professor de Português da Escola, brincava com o seu nome: "Vem cá, Brito." Dava pouca ênfase à vírgula de propósito para ficar assim como "Vem, cabrito", numa ambiguidade pensada.

Brito sempre foi um grande amigo nosso, e, sendo essa sua natureza, certamente que sempre o será. 

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