terça-feira, 19 de janeiro de 2016

A REBELIÃO de Jacareacanga (versão oficial)

MUITO me intriga até hoje a figura do brigadeiro Haroldo Coimbra Veloso. Durante o serviço ativo viajei várias vezes para Cachimbo, cuja unidade militar tem o seu nome (Campo de Provas Brigadeiro Veloso), uma homenagem por ter sido o oficial, quando capitão e major, seu maior idealizador. Aliás, o então major Veloso não é só conhecido por esse feito. Depois da revolução militar de 1964, pediu transferência para a reserva no posto de brigadeiro. Candidatou-se a deputado federal pela Arena, partido de sustentação do governo militar. 

Meu pai, em visita a Cachimbo, ao adentrar o portal da OM disse assim: "Eu lembro desse nome". Meu saudoso pai era ouvinte assíduo de rádio, principalmente das notícias. O velho Manoel mantinha-se sempre atualizado, mormente sobre os fatos políticos do Pará.


Foi então que o sr. Manoel iniciou a falar sobre um certo major Veloso que, confrontando as tropas da Polícia Militar do Pará, acabou ferido de baioneta. Seu intuito era manter no cargo de prefeito de Santarém seu amigo Elias Pinto, do MDB. O alcaide havia sido reconduzido ao cargo por decisão judicial, e isso não agradava o governador do Pará, coronel Alacid Nunes, que, ao saber da decisão, mandou cercar o prédio da prefeitura com 150 soldados. Ordem expressa para que ninguém entrasse no prédio. Os detalhes do caso, contamos depois.


Lendo um pouco mais, achei outras passagens em que se envolveu o major Veloso, ainda na ativa. 


O principal caso é o que ficou conhecido como a ...



Rebelião de Jacareacanga




Major Veloso
MENOS de duas semanas após a posse do Presidente da República, Juscelino Kubitschek, dois oficiais da Força Aérea Brasileira, inconformados com os rumos políticos que aquela posse representava, rebelaram-se. Esse ato, aparentemente isolado, era uma manifestação de oficiais que pertenciam a uma numerosa corrente no seio das Forças Armadas, principalmente na Aeronáutica e na Marinha. Eles tinham a esperança de que a rebelião de Jacareacanga deflagrasse uma série de outros levantes, que, se não comprometessem a estabilidade do novo governo, pelo menos lhe causariam grandes dificuldades e desprestígio. Os fatos da rebelião foram os descritos a seguir:

Na manhã de 11 de fevereiro de 1956, sábado de carnaval, o Major-Aviador Haroldo Coimbra Veloso e o Capitão-Aviador José Chaves Lameirão apossaram-se do avião bimotor Beechcraft  matrícula 1523, do Parque de Aeronáutica dos Afonsos, e decolaram para rumo ignorado; o capitão Lameirão servia no Parque dos Afonsos, o que facilitou a fuga. Fazendo escala em Uberaba, Aragarças e Cachimbo, o major Veloso e o capitão Lameirão foram refugiar-se no campo de aviação de Jacareacanga, margem oeste do rio Tapajós. Lá chegados, eles se apossaram da estação de rádio da Aeronáutica e passaram a comandar o pequeno destacamento militar, bem como os os trabalhadores civis lá lotados, além de terem interditado a pista de pouso, mediante a colocação de tambores de gasolina vazios em toda a sua extensão.


Senhores de um campo de aviação localizado numa área remota do país, que não podia ser alcançada pelos meios de transporte terrestres ou fluviais, lá se mantiveram os dois oficiais rebelados, em desavio às autoridades constituídas da Aeronáutica e do Brasil.

É necessário esclarecer que o major Veloso, como oficial-engenheiro que era, havia dois anos que dirigia os trabalhos de construção e ampliação dos campos de aviação de Cachimbo e de Jacareacanga, que constituíam os principais pontos de apoio para os aviões que circulavam na rota Rio de Janeiro - Manaus; por isso contava o oficial com o apoio e a obediência fácil dos numerosos operários civis que trabalhavam no aeródromo de Jacareacanga.

A etapa seguinte da rebelião foi a posse e a interdição, por meio de tambores de gasolina vazios, colocados na pista dos aeródromos localizados ao longo do rio Tapajós, de Jacareacanga para o norte: Itaituba, Belterra e Santarém. Os dois primeiros eram de pouca importância, mas o domínio de Santarém pelos revoltosos, onde não havia, aliás, guarnição militar, causou grandes preocupações ao governo e grandes transtornos na vida da região,  pois a cidade é ponto de escala importante para a navegação fluvial, ao longo do rio Amazonas, e onde se reabasteciam os aviões comerciais, que na época faziam a linha Belém - Manaus. A posse pelos revoltosos dos aeródromos de Itaituba, Belterra e Santarém se processou na semana seguinte à chegada deles a Jacareacanga.

Nesse ínterim, a Aeronáutica providenciava a remessa de pequenos destacamentos - seus e do Exército - com destino aos demais aeródromos da região, a fim de evitar que eles caíssem em poder dos rebeldes. Ao mesmo tempo estava sendo deslocado, via aérea, forte contingente de paraquedistas do EB do Rio de Janeiro para Belém, para uma eventual ação militar contra os revoltosos.


O avião bimotor Douglas C-47, matrícula 2059, saiu de Belém em 17 de fevereiro com 25 soldados a bordo para distribuí-los por vários campos de aviação da região. O seu comandante, Major-Aviador Paulo Victor da Silva, levou, em vez de para os destinos previstos, para Santarém e, uma vez lá, aderiu aos revoltosos, que desimpediram a pista para que ele pudesse aterrizar. Os demais tripulantes da aeronave, Tenente-Aviador Carlos César Petit de Araújo (co-piloto), e os sargentos Arnaldo de Oliveira, Wilson Rocha e Brasil Lourenço, não aderiram aos revoltosos e ficaram presos em Santarém. Os três sargentos, dois dias depois, conseguiram fugir a bordo do barco "Envira", que os levou até Belém. Muitos dos soldados levados pelo major Paulo Victor no avião 2059 também não aderiram à rebelião e tiveram que ser levados pelos revoltosos, via área, para Jacareacanga.
Major Paulo Victor, um elemento indígena e major Veloso

A adesão do major Paulo Victor, levando um avião de grande porte, capaz de transportar mais de 25 homens armados, mudou o panorama tático da situação e criou grave ameaça para as outras cidades da área, com campos de aviação, como Monte Alegre, Alenquer, Óbidos, Parintins e Itacoatiara, que poderiam cair em poder dos revoltosos.



A partir de 17 de fevereiro, começou a ser montada em Belém uma expedição militar contra os rebeldes, utilizando o navio fluvial "Getúlio Vargas", escoltado pelas corvetas "Cananéia" e "Cabedelo", e ainda apoiado por aviões "Catalina", levando paraquedistas para desembarcarem nas margens do rio Tapajós, próximo a Santarém, e por outros aviões, que faziam reconhecimento e apoio de fogo.

A expedição foi comandada pelo comandante da 1ª Zona Aérea, brigadeiro Antônio Alves Cabral, que seguiu embarcado no navio. A bordo do "Getúlio Vargas" estava o grosso da tropa, composta de militares do Exército Brasileiro e da Infantaria de Guarda da Aeronáutica.

Os campos de aviação de Santarém, Belterra, Itaituba e Jacareacanga foram mantidos sob constantes reconhecimentos aéreos durante as horas do dia. Folhetos foram jogados nessas localidades concitando os trabalhadores civis dos campos de aviação e a população a não cooperarem com os revoltosos.


No decorrer da segunda semana da rebelião de Jacareacanga houve vários incidentes graves em unidades da Força Aérea Brasileira, envolvendo oficiais simpatizantes dos revoltosos, o que criou um ambiente de cisão e insegurança dentro da corporação. Os incidentes mais graves acarretaram a destituição e prisão dos comandantes das unidades e outros oficiais. Estes ocorreram no 2º Grupo de Transporte (Campo dos Afonsos), onde muitos oficiais se recusaram a tripular os aviões B-25 "Mitchell", com a missão de dar apoio aéreo à expedição contra os revoltosos.

O navio "Getúlio Vargas"

A expedição militar a bordo do "Getúlio Vargas" saiu de Belém a 21 de fevereiro, com chegada prevista em Santarém dois dias depois.

Já em 22 de fevereiro os revoltosos começaram a evacuar gasolina e víveres de Santarém para Jacareacanga, por via aérea.

No dia 23 o "Catalina" matrícula 6514, depois de fazer várias passagens baixas de reconhecimento sobre o campo de aviação de Santarém, metralhou o Beechcraft 1523, em poder dos revoltosos, que se achava estacionado na cabeceira da pista. Esse avião não deve ter ficado muito danificado porque foi, mais tarde, pilotado pelos revoltosos para Jacareacanga.

Na manhã de 23 de fevereiro, o capitão Lameirão, um dos revoltosos, decolou de Santarém para fazer um reconhecimento aéreo e localizar o "Getúlio Vargas", que se aproximava trazendo a expedição. Logo próximo de Santarém, o oficial avistou o navio "Lobo D'Almada", que ele, erradamente, identificou com sendo o "Getúlio Vargas". Isso acarretou um regresso apressado para Santarém, onde o major Veloso, julgando a expedição militar muito próxima, deu ordem para que os revoltosos abandonassem Santarém e se retraíssem para Itaituba e Jacareacanga.

O tenente Petit, que não havia aderido aos revoltosos, assumiu o comando do aeródromo de Santarém, ordenando a desobstrução da pista de pouso com a retirada de tambores de gasolina; restabeleceu o funcionamento do rádio, por meio do qual foi enviada a Belém a notícia da liberação daquele aeródromo.

No entanto, as pistas de aviação de Itaituba e Jacareacanga continuavam obstruídas.

O navio "Getúlio Vargas", trazendo a expedição militar, chegou em Santarém em 23 de fevereiro. O brigadeiro Cabral então se deslocou de avião para Belém, de onde continuou dirigindo o conjunto das operações.

Sem perda de tempo, parte da tropa de infantaria da Aeronáutica, sob o comando do Tenente-Coronel-Aviador Hugo Delaíte, transferiu-se para barcaças e começou a subida do rio Tapajós. Chegando em Itaituba, essa tropa, no dia 25 de fevereiro, apoderou-se da localidade, que já tinha sido abandonada pelos revoltosos.

O grupo da Aeronáutica continuou a subida do Tapajós, e próximo ao lugarejo São Luis houve, no dia 27, um tiroteio entre a tropa da Aeronáutica e uns poucos elementos civis, leais ao major Veloso, que na ocasião eram chefiados por seu lugar-tenente José Nascimento Barbosa, o "Cazuza", que foi atingido por uma rajada de metralhadora, falecendo no local. Cazuza foi a única vítima da rebelião de Jacareacanga.

Com informações de que o major Veloso tinha estado no local durante o tiroteio e que se retirara numa pequena canoa, subindo o rio, a tropa seguiu em seu encalço.
Major Veloso é capturado

No dia 29 de fevereiro, às 15 horas e 30 minutos, o major Veloso, que se encontrava refugiado, sozinho, numa casa na margem do rio Tapajós, próximo à localidade Parnamerim, foi encontrado e conduzido para Santarém, onde ficou preso a bordo do Getúlio Vargas.

Próximo a Jacareacanga havia uma única pista de pouso, a da missão religiosa de Cururu, margem do rio do mesmo nome, um afluente da margem direita do Tapajós. Há muitos anos os padres franciscanos da missão de Cururu evangelizavam os índios mundurucus, da região. Os revoltosos tinham despachado de de Jacareacanga uma expedição com quinze trabalhadores civis, fortemente armados, chefiada pelo civil Vilobaldo de Alencar Lima; tinham a missão de se apoderar da pista de pouso de Cururu. No dia 27 de fevereiro, quando a expedição dos revoltosos, que viajava numa única embarcação, chegou a Cururu, a pista de aviação tinha acabado de ser ocupada pela tropa da Aeronáutica, que havia chegado do aeródromo de Cachimbo.

Quando o choque armado parecia inevitável, houve a intervenção do frei Plácido, da missão religiosa local, que, sozinho, foi ao encontro dos rebeldes e os convenceu a depor as armas e a se entregarem. Vilobaldo, no mesmo dia de sua prisão, foi levado ao Rio de Janeiro e submetido a interrogatório na 2ª Seção do Estado-Maior da Aeronáutica.

No Rio de Janeiro, o ministro da Aeronáutica tinha aceito o oferecimento do brigadeiro Raymundo Vasconcelos de Aboim para servir como intermediário e ir pessoalmente fazer um apelo aos rebeldes para que depusessem as armas e cessassem a resistência inútil. Sem saber do fim próximo da rebelião, o brigadeiro Aboim decolou do Rio de Janeiro num Douglas C-47, no dia 29 de fevereiro, às 7 horas e 25 minutos, com destino a Jacareacanga.

Em Santarém e Belém continuaram as providências para um ataque final a Jacareacanga, único reduto dos revoltosos.

No dia 29 de fevereiro, a tripulação de um Catalina, ao sobrevoar o campo de Jacareacanga, avistou mastros com bandeiras brancas, sinal de rendição.

Ainda no mesmo dia, três outros Catalinas, conduzindo tropas de paraquedistas, pousaram no Tapajós, ao lado do pequeno grupo de casas de Jacareacanga. Na margem do rio havia também postes com bandeiras brancas. Os paraquedistas ali desembarcaram e rumaram a pé com destino ao campo de aviação local, distante seis quilômetros.

No último dia da rebelião, 29 de fevereiro, os dois últimos oficiais rebelados, major Paulo Victor e capitão Lameirão decolaram de Jacareacanga, pilotando o Douglas 2059 e, num voo sem escalas, homiziaram-se na Bolívia, tendo pousado em Santa Cruz de La Sierra no fim do dia. O aparelho posteriormente foi devolvido pelas autoridades bolivianas à Força Aérea Brasileira, que providenciou seu regresso ao Brasil.

O major Veloso, levado para Belém, permaneceu respondendo a Inquérito Policial Militar, preso no Parque de Aeronáutica de Belém.

(do livro "História da Força Aérea Brasileira", do tenente-brigadeiro Nelson Freire Lavenére-Wanderley)

Essa é a versão oficial dos fatos. Em breve relatarei outras, que, salvo algumas alterações, em geral conferem com esta.

Um comentário:

  1. No dia 29 de fevereiro, às 15 horas e 30 minutos, o major Veloso, que se encontrava refugiado, sozinho, numa casa na margem do rio Tapajós, próximo à localidade Parnamerim (A LOCALIDADE ONDE O MAJOR VELOSO FOI PRESO CHAMA-SE - PARANÁ MIRY), foi encontrado e conduzido para Santarém, onde ficou preso a bordo do Getúlio Vargas

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