quarta-feira, 20 de abril de 2016

CARTA de um ex-deputado para seu neto

Meu neto querido,



EU FUI um dos deputados que votaram a favor do impeachment em 2016. Votei com minha consciência limpa, votei contra a corrupção, votei contra a desordem econômica, votei pelo Brasil.

No comando do processo estava Eduardo Cunha, réu no STF, réu no conselho de ética e um dos maiores corruptos do país. Mas eu achava que os fins justificavam os meios. Achava que Cunha era um mal necessário. Então, quando ele abriu o impeachment para tirar o foco de suas falcatruas, eu não me importei.

O vice-presidente era Michel Temer, acusado de receber 5 milhões do presidente da OAS, que foi um dos condenados na operação lava-jato. Se o impeachment fosse aprovado, ele assumiria a presidência ao lado de Cunha, que passaria a ser o vice. Mas eu achei que eles não ficariam no poder por muito tempo. Então, eu não me importei.


Como todos sabem, sempre fui um deputado honesto. Havia dezenas de deputados envolvidos com a corrupção que queriam o impeachment, mas eu achei que não haveria problema em votar ao lado deles. Jamais imaginaria que meu nome estaria numa lista ao lado de Paulinho da Força. Então, eu não me importei.

Muitos juristas alertaram que o processo não tinha base legal, que não havia crime de responsabilidade. Mas eu acreditei que o processo era apenas político, sem necessidade de um claro fundamento jurídico e, então, não me importei.

A revista Forbes e o jornal The New York Times disseram que uma presidente sem qualquer investigação contra ela estava sendo julgada por centenas de parlamentares com processos na justiça. Mas a carapuça não me serviu e, então, eu não me importei.

Eu não me importei, meu neto querido, com as conspirações feitas pelo vice-presidente no próprio exercício do cargo. Não me importei com o discurso do Chico Buarque alertando para o golpe. Não me importei com as crônicas do Veríssimo. Não me importei com a constituição.

Como a maioria da população não queria Dilma, eu votei pelo impeachment. Mas ignorei que essa mesma maioria tampouco queria Temer. E, então, eu não me importei.


Na véspera da votação, foi confirmado que Eduardo Cunha recebeu 52 milhões de uma empreiteira como propina de obras para a Olimpíada. Mas, ainda assim, eu aceitei ser liderado por ele em plenário. Aceitei as regras dele, o rito dele, a moral dele. Mas eu não era como ele e, então, não me importei.

Escrevo estas linhas no momento em que leio o livro de história que a professora indicou para a sua turma. A palavra golpista aparece ao lado do meu nome no período intitulado "A era da Fiesp", quando Temer suspendeu direitos trabalhistas e se submeteu ao comando dos mais inescrupulosos empresários do país. Foi um período de retrocessos sociais, de agravamento da crise, de aumento das desigualdades e de encerramento das investigações que estavam em curso no Brasil.

Se eu soubesse disso tudo, teria me importado.

Perdoe este velho ex-deputado, meu querido neto. Não me julgue pelo que fiz. Não ligue para as gozações dos colegas de turma por causa do seu sobrenome. Não me esqueça, por favor.

Com você, meu neto, eu me importo.

E, por isso, deixo um único conselho: leia atentamente esse livro de história. A única coisa que você pode fazer é não deixar que ela, a história, se repita. Em 2016, eu repeti os erros de 1964. Não faça o mesmo e limpe o nome de nossa família.

Beijos saudosos deste velho solitário,

Vovô

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