sábado, 28 de maio de 2016

GREGÓRIO Fortunato

Vítima de seu próprio sucesso


"DEPOIS daquela noite terrível que a família Vargas passou em claro, se defendendo como podia do ataque integralista, Getúlio compreendeu que tinha de organizar uma guarda do palácio. Não segundo o modelo comum das guardas pretorianas , para aparar os golpes da cúpula militar - se tivesse pensado nisso, teria evitado muitos dissabores - mas numa guarda pessoal, para sua proteção e da família.

Quando Getúlio incumbiu Bejo Vargas de dar os primeiros passos neste sentido, este lembrou-se logo do tenente Gregório Fortunato. Naquela manhã, após a fuga dos integralistas para os cerros cobertos de florestas que circundam o Rio de Janeiro, Bejo, auxiliado por Gregório, desalojou os atacantes que alvejaram o palácio da copa das árvores. Muitos deles tinham ficado escondidos entre as ramagens - não tiveram tempo de descer - e esperavam a escuridão da noite para escapar. Bejo e Gregório, auxiliados por Severino Góis, puseram fim a este sonho apeando um por um dos galhos a tiro de 45, como quem caça jucús.

Gregório era o homem de confiança de Bejo Vargas, desde o tempo em que servia como tenente no 14º de Corpo de Provisório, em São Borja. Auxiliara o coronel Bejo na formação do Corpo, recrutando soldados nos municípios vizinhos, especialmente em São Luís, sua terra natal. Bejo mandou-o para lá justamente por causa de seus laços familiares e de amizade, o que deveria favorecer o recrutamento. Contam que numa de suas remessas frequentes de recrutas, Gregório teria mandado o seguinte bilhete ao seu comandante, pelo cabo da patrulha:  "Coronel Bejo. Estou remetendo 5 voluntários de São Luiz. Não se esqueça de me devolver os maneadores pelo portador. Ten. Gregório".

É claro que se trata de uma anedota maldosa, inventada pelos seus inimigos, que naquela época já não eram poucos. O Corpo Provisório de São Borja marchou para a frente paulista em 1932, e com ele o coronel Bejo e o tenente Gregório.

Getúlio nutria uma grande amizade pelo Bejo, que era o seu irmão mais moço. Ele tinha dado provas insofismáveis de lealdade, como naquela manhã do ataque integralista, aparecendo com um batalhão providencial para socorrê-lo, e também na derrubada de Flores da Cunha; mas não foram poucos os problemas que ele criou.

Bejo entregou ao Gregório a tarefa de organizar o núcleo inicial da guarda. Mas logo surgiu um desentendimento com d. Darcy. Murmuravam que Getúlio costumava manter uma ou outra ligação amorosa eventual. Segundo um dos irmãos Cardoso, integrantes da guarda pessoal, suspeitava-se que algumas saídas que ele fazia à tarde, de automóvel e acompanhado de Gregório, tinham por destino um palacete na Gávea. Talvez fosse se encontrar com a Adalgisa Neri, esposa de Lourival Fontes, diretor do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), ou outra dama qualquer; ou fosse simplesmente espairecer. Aranha devia ter ouvido qualquer coisa sobre isso, pois no final de um despacho com Getúlio, disse-lhe: "Andam dizendo por aí que a Adalgisa Neri é tua amante." Respondeu Getúlio: "Qual nada! Isso é o Lourival Fontes que anda espalhando para se engrandecer."

Oswaldo tinha grande intimidade com Getúlio, sendo um dos poucos que lhe davam o tratamento amistoso de "tu". Essas supostas aventuras amorosas de Getúlio teriam sido a causa aparente da separação de d. Darcy, que ocorreu mais tarde. Quando ela ficou sabendo desses passeios à tarde, não cogitou de se informar se a companhia de Gregório fazia parte ou não das suas atribuições como chefe da guarda. Apesar da grande força de Bejo junto ao irmão, ele não pôde impedir que o seu antigo tenente fosse mandado de volta para São Borja. O comando da guarda foi entregue então a um oficial do exército, o coronel Vanique.

Parece que houve influência militar em todas essas manobras: conhecimento de d. Darcy, culpa de Gregório e sua exoneração. Talvez os militares pretendessem emprestar um caráter mais técnico à Guarda, ou simplesmente exercer um controle direto sobre ela. Se pensaram assim, escolheram o homem errado, porque Vanique foi um fracasso total. Deixou-se levar pelo alcoolismo e teve de ser afastado. Bejo encontrou-se numa situação muito cômoda para solicitar o retorno de Gregório.


Gregório foi de fato o organizador da guarda pessoal, e o precursor de métodos de proteção aos chefes de Estado, que somente mais tarde foram empregados por nações mais adiantadas. Quando Getúlio se deslocava para assistir as solenidades em um lugar qualquer, ele - Gregório -  distribuía previamente por toda a área os seus homens, ocultos sob todos os disfarces possíveis: varredores de rua, recolhedores de lixo, pessoal consertando rede elétricas, de telefones, etc." (Rubens Alves Vidal in Os Vargas, páginas 166 a 168).


ALCINO João do Nascimento foi o pistoleiro contratado para a execução do crime. Climério Euribes de Almeida, o intermediário, primeiro procurando José Antônio Soares, que alegou já ser velho (50 anos) para o serviço. Foram envolvidos também e condenados Nelson Raimundo, que estava de motorista de táxi,  e João Valente de Sousa.

Mas a responsabilidade maior do crime recaiu em Gregório Fortunato. O Anjo Negro alegou em sua defesa terem sido os mentores intelectuais da trama o general Ângelo Mendes de Morais, os deputados Euvaldo Lodi e Danton Coelho, e Benjamim Vargas, irmão caçula de Getúlio, que queriam apenas dar um "susto" em Lacerda.

Como chega a ser até natural em casos assim, a culpa acabou por recair na parte mais fraca, na arraia miúda: Gregório e mais quatro. Os tubarões se eximiram sob as mais variadas alegações, inclusive de cunho preconceituoso de raça e social. O deputado Danton Coelho sequer foi processado por ter a Câmara dos Deputados negado autorização. 

Preso, Gregório resistiu ao máximo em assumir sozinho a culpa pelo crime que matou Vaz e feriu Lacerda, só o fazendo depois de ler uma manchete falsa do jornal Tribuna da Imprensa, em que anunciava a fuga de Bejo Vargas para o Uruguai, que "abandonava assim seus amigos na hora do perigo".

Ora, se isso não representava uma confissão indireta de culpa da parte de Bejo Vargas, ao ponto de Gregório se sentir abandonado pelo chefe, o que mais seria? E os opositores de Vargas sabiam disso, caso contrário não teriam tido essa ideia, a de fabricar uma edição falsa de jornal, que surtiria os efeitos desejados: fazer Gregório assumir sozinho o crime.

Benjamim Vargas, ou Bejo Vargas, foi o idealizador da guarda pessoal do irmão, e seu principal organizador em 1938. O verdadeiro chefe da equipe, sendo Gregório seu fiel escudeiro.

Bejo era do tipo valentão, sangue quente, daqueles que não leva desaforo pra casa. Getúlio teria reunido os familiares no Palácio Guanabara e, encarando o irmão caçula, dissera: "pela segunda vez, Bejo, tu me tiras do governo." Essa era a forma sutil que Getúlio encontrou para dizer que sabia do envolvimento do irmão no episódio funesto.

Gregório, semi-analfabeto e negro, acabou sendo vítima de seu próprio sucesso. Chegou a ter quarenta ternos, e incomodava a tanta gente importante por ter acesso direto ao presidente. Muita gente boa deveu favores ao Nego; muitos coronéis e generais  deveram promoções a ele; muitos empresários e políticos tiveram aberta por Gregório a porta do gabinete presidencial. Por essas e outras era muito requisitado, e ele atendia por lisonja, quando na verdade era apenas usado.

Os interrogatórios, levados a efeito pelo IPM da "República do Galeão", objetivavam encontrar uma maneira de responsabilizar o presidente. Não o conseguindo, contentaram-se em chegar a seu principal guarda-costas, aquele que era culpado até pelas saídas furtivas de Getúlio Vargas. 

Mas como um oficial da Aeronáutica foi morto, em vez do verdadeiro alvo, Carlos Lacerda? O povo ficou sabendo que algum tempo antes o brigadeiro Eduardo Gomes, adversário derrotado por Getúlio em duas eleições, destacou alguns oficiais da FAB para acompanhar dia e noite a Lacerda, pois temiam um atentado contra ele. Essa situação ocorria naturalmente à revelia do ministro da Aeronáutica, brigadeiro Nero Moura, que sabia mas não tinha como coibir tal afronta aos regulamentos militares. A Aeronáutica na verdade possuía dois comandantes, sendo um deles quem realmente mandava na Força. Naquela ocasião o guarda-costa de Lacerda era o major Vaz, que substituía na escala o major Gustavo Borges, escalado em cima da hora para uma viagem a serviço.



"No Departamento de Polícia Técnica, dia 22 de setembro de 1954, ao prestar depoimento, Bejo Vargas procurou, habilidosamente, empurrar a responsabilidade das ações da Guarda Pessoal para cima do Nego. A essa altura, conforme afirmou, nem sabia das pessoas que integravam o corpo de segurança palaciano.

Após identificar-se, teve a cara-de-pau de afirmar que conhecera Gregório somente em 1927, quando este o procurou pedindo ajuda por estar doente. Nessa época o Nego imaginava ter contraído tuberculose e Bejo, farmacêutico, era quem respondia pela Farmácia Vargas, instalada na antiga rua Sete de Setembro, atual Avenida Presidente Vargas, em São Borja. Disse também que Gregório, em 1932, serviu sob suas ordens num Batalhão de Provisórios do Rio Grande do Sul; participou da Revolução Constitucionalista e chegou ao posto de segundo-tenente.

Terminada a luta, foi para Porto Alegre, onde arranjou emprego de contínuo na Alfândega. Quando, em 1938, a Guarda Presidencial foi formada, após o "putsch" integralista, Gregório e outros gaúchos foram convocados a integrá-la. Disse que o pessoal da GP compunha-se de antigos sargentos, cabos e praças que tinham servido no Corpo Provisório que lutou em São Paulo, sob as ordens do coronel Eurico Gaspar Dutra.

Disse mais: o recrutamento atendeu ao critério da lealdade e da confiança que os recrutados mereciam dele. Explicou que Gregório, em princípio, era apenas um membro da equipe, sendo mais tarde escolhido para chefiá-la, mediante portaria do então chefe de Polícia do Distrito Federal, coronel Filinto Mülller.

Explicou que a guarda terminou sendo dissolvida a 29 de outubro de 1945, fim do primeiro governo Vargas, e que na sua reconstituição, quando seu irmão voltou à Presidência, em 1950, não teve a menor participação. Com relação a seu conhecimento com Climério, explicou ter sido recrutado para integrar o Batalhão de Provisórios em 32, mas, face às trabalhadas em que se envolvera, não recordava se o havia punido ou dispensado.

Quando organizou a guarda em 38, cuidou de saber de Gregório por que trouxera Climério do Rio Grande, e este lhe respondera que se tratava de um pobre homem, agora regenerado. Que a primeira notícia que teve do crime na Tonelero foi na manhã imediata pelos jornais. Foi quando tomou conhecimento da participação de Climério no atentado, conforme as declarações  do motorista Nelson e do Alcino. Logo depois esteve no Catete, tendo pedido informações sobre o caso a várias pessoas, inclusive a Gregório, e este lhe dissera não saber de nada, além do que divulgavam os jornais.

Que o declarante se satisfez com a explicação, pois até então não o julgava envolvido no crime, nem sabia que Climério, um dos personagens do atentado, participava da Guarda; que no dia seguinte o declarante seguiu para Petrópolis e só ao retornar, dia 8, foi que Gregório confessou seu envolvimento na trama.

Disse também, estar a par do empenho do governo em descobrir os responsáveis pelo atentado; disse ignorar que a imprensa acusasse Getúlio por crime de favorecimento, pois não lia os jornais que o atacavam; lia preferencialmente o vespertino Última Hora. Explicou que no dia 8 deixou sua casa em Petrópolis após receber telefonema do major José Acioly, para que viesse; era urgente, fatos graves se sucediam. O depoente ordenou que seu motorista se apressasse, e na raiz da Serra notou que um outro carro fazia sinais de faróis. Pararam. Era Gregório num automóvel dirigido pelo motorista Artur. Bejo passou para esse carro e o Anjo Negro disse que o presidente estava uma fera. Considerava-se ludibriado, pois lhe garantira ter "a Guarda na mão", e pouco depois elementos que a ela pertenciam estavam em todos os jornais como envolvidos na tentativa de assassinato de Carlos Lacerda e na morte do major Rubens Vaz.

Acentuou o declarante que somente aí, prometendo falar a verdade, como se estivesse diante de um padre, afirmou que mandara executar o crime; a confissão, sempre em voz baixa, chocou grandemente o declarante, daí ele não se recordar direito do que mais lhe disse o Nego" "(...) Mas lembrava de ter indagado se havia algum mandante ou instigador, além dele, e não obteve resposta."

Depois de tantas mentiras, Bejo disse uma verdade: "o presidente perguntou-lhe se sabia do movimento de Gregório, respondeu afirmativamente", e Vargas, demonstrando indignação, gritou que "os tiros no pé do Lacerda e no major Vaz foram tiros nas costas do Governo". Pouco depois chegava Oswaldo Aranha, e a ele dirigiu-se Getúlio, perguntando se admitia o envolvimento de Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal, no atentado da Tonelero. Aranha sacudiu a cabeça afirmativamente. Getúlio, então, decidiu dissolver a Guarda e convocou o general Caiado de Castro, a fim de prender o Anjo Negro.

O depoente teve a desfaçatez de, após a reunião com o presidente, encontrar-se pessoalmente com Caiado de Castro e com o major Ene, chefe de segurança do palácio, aos quais denunciou o ex-amigo. (...) Transformado em bode expiatório, só lhe restava um caminho: assumir a mentira como sendo verdade, pois sabia que Ângelo Mendes de Morais, Euvaldo Lodi, Danton Coelho e o próprio Lutero jamais contariam como a trama se iniciara. (José Louzeiro in O Anjo da Fidelidade, páginas 405 a 408). 

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