sexta-feira, 24 de junho de 2016

ERA uma vez na Escola de Especialistas...

Coisa boa é sexta-feira e mulher



O MAIOR pesadelo para alunos despreparados - e este era o deste escriba  -  era sem dúvida a possibilidade de não concluirmos o curso, fracassando no objetivo, ficando pelo caminho. Não importava a razão do insucesso, fosse ela insuficiência intelectual, doença ou questão disciplinar. Havia um letreiro que, mais ou menos, dizia assim: 'Os covardes nem tentaram; os fracos ficam pelo caminho; só os fortes vencerão'.

A tão esperada sexta-feira chegou


O medo, no Corpo de Alunos, era uma coisa intencionalmente disseminada, creio eu. Tinham lá as suas razões, a que o escriba atinou somente algum tempo depois (como era lento!), que eram as de levar o aluno a esforçar-se, trazendo a sério as suas atividades e os estudos. Responsabilidade é uma condição sine qua non para um bom sargento especialista. Naqueles primeiros dias nós não tínhamos tal visão. Aqueles caras estavam ali somente para tornar a nossa vida bem mais difícil. Míope!




No primeiro semestre, para aqueles jovens que nunca tinham servido às Forças Armadas como soldado de forma obrigatória, em caso de desligamento por deficiência intelectual, destinava-se uma permanência, uma sobrevida na Escola, como recruta, dessa forma completando o ano, conforme preconizado em lei. Findo o ano compulsório, ser-lhe-ia dada a opção de pedir renovação de tempo, como a qualquer outro soldado da Aeronáutica em serviço militar obrigatório, podendo até, se quisesse, candidatar-se ao Curso de Formação de Cabos, o CFC, ou até mesmo candidatar-se a voltar ao CA, fazendo as provas intelectuais como qualquer outro candidato. Diariamente se ouvia a notícia sobre um ou outro aluno desligado do curso, cujo rumo tinha sido o da Companhia de Infantaria, aquele mesmo local onde dormi na primeira noite de Escola. Várias vezes mesmo via algum ex-colega circulando pelas dependências da Escola, a executar as lides de soldado. Esse mesmo ex-aluno mais tarde foi promovido a cabo, mais tarde regressando como aluno. Era um exemplo de persistência, de força de vontade, alguém que não se deixou abater pelo insucesso momentâneo. Esse exemplo fortaleceu na mente deste escriba a ideia de que Deus não permite a nós que uma derrota seja definitiva; só depende de nós. 

Em caso de insucesso, que na minha cabeça era de grande probabilidade, essa seria uma saída, o meu plano B. Ficar na Escola na condição de soldado, com um salário garantido por algum tempo, era uma saída honrosa. Desonra mesmo seria voltar para  a terra natal, Belém do Pará, com uma mão na frente e a outra atrás, ou seja, um derrotado a submeter-se ao riso sarcástico do Palheta e do Gonzaga, antigos colegas de preparatório, que antes desdenhavam da minha pretensão, zombando da capacidade intelectual do humilde escriba. Daria um tempo na companhia IG, como soldado, enquanto me preparava para a volta ao CA numa condição intelectual mais favorável. Todavia, enquanto houvesse vida e esperança, e eu não estava disposto a entregar-me ao fracasso, existia chance, ainda que não muito grande, havia a mínima chance de aprovação nos bancos escolares, ainda que ficasse na última colocação. Qual a diferença entre o primeiro colocado do curso, o aluno zero um - como se dizia -, e o zero último? Apenas por uma questão de status, fora isso nenhuma. Ambos sairiam sargentos, ambos formados, ainda que este fosse mandado a servir em qualquer localidade indesejada. O importante era sair sargento.

Esses pensamentos nada otimistas insistiam em passear com relativa frequência pela minha mente, ciente das dificuldades que eram naqueles primeiros dias maiores do que imaginara.

O tempo passava e os quarenta dias de internato a nós impostos estavam quase a seu termo. O primeiro pagamento, que é bom, nada. Nas longas corridas após o aquecimento da instrução de educação física, entre as tantas musiquinhas cantadas para motivar a alunada, uma delas dizia assim no refrão: 'Coisa boa o que é? Sexta-feira e mulher!'. O tempo passava célere, estávamos a um dia do licenciamento.

Enquanto a tão sonhada sexta-feira não vinha, o humor, a descontração e a irreverência eram as maneiras que encontrávamos para espantar a tristeza e o cansaço. Nas corridas, era comum alguns alunos motivarem o grupo com cantigas, rimas ou mesmo palavras soltas e frases engraçadas. "De que vale o céu e o mar / Se está cheio de preá / De que vale o céu azul
/ Se está cheio de urubu."

O Brito era um dos que agitavam. Estávamos uma vez correndo pela estrada que dá da vila dos sargentos ao hospital, passando por uma escola. Nosso grupo corria forte, e uma jovem - dezoito, vinte ou pouco mais - caminhava um pouco adiante, de forma que seria alcançada pela tropa em instantes. O Brito mandou um engraçado 'olhar à direita'. As formas da moça haviam enganado nossos olhos, frustrando nossa expectativa, pois ao ultrapassá-la notamos que o seu rosto não correspondia às que seu corpo à distância prometia. Que pena! Brito não perdeu o senso de humor:  "Última forma nos olhares lânguidos!" 

Risos. O Brito sempre foi um poeta.

A quarentena estava a um dia e a turma, com os hormônios à flor da pele, não via a hora de, pelo menos ver, conversar, relacionar-se com uma pessoa jovem do sexo feminino (era outra tirada bem-humorada do Brito), pois àquele tempo estávamos fartos de ver somente as senhoras lavadeiras e suas filhas que as acompanhavam eventualmente. 

Chegou ela. Adivinha quem? Ela, a sexta-feira. Coisa boa! Às cinco da tarde, a moçada em forma ali no enorme pátio, de uniforme de passeio, o quinto uniforme, imóveis ouvindo as últimas instruções, recomendações, leituras e, simultaneamente, a obrigatória revista de uniforme. Quedavam-se ansiosos pela primeira liberação.

O sargento da esquadrilha e o próprio comandante passavam de fila em fila, aluno por aluno, olho de cima a baixo, da cabeça aos pés, em busca de algum desalinho. De vez em quando algum se detinha por mais tempo, para, em seguida, anotar alguma coisa na caderneta. Na minha vez, o próprio comandante da Esquadrilha, tenente Heitor, deteve-se por mais tempo. O suor escorria-me da face, as pernas principiavam a tremer e o coração acelerava. Meu Deus, ficarei preso ou coisa assim! Fiquei naqueles quatro ou cinco segundos, que para mim pareciam longos minutos, a imaginar em que estava errado em mim. Seria a barba mal feita, o sapato mal engraxado? O que tinha feito de errado nos dias anteriores, a ponto de chamar a atenção mais delongada da autoridade que se ocupava da minha desajeitada figura? Ou será que ele nunca vira alguém tão desajeitado como eu? Finalmente resolveu falar: "Aluno! Essa sua calça, assim com a bainha mal costurada, está um lixo, um cocô. Se passar um caminhão de lixo, você vai ter de fazer um grande esforço para não ser levado junto."

"Que merda!" falei para mim mesmo. A calça que o alfaiate me pagou ficava mais longa que as pernas, por isso foi necessário encurtá-la, ficando à mostra os vincos antigos (ou seriam os pontos de linha mal feitos?). E agora? O meu final de semana estava comprometido. Terminou sua fala e seguiu adiante para vistoriar o próximo aluno da fila. 

Terminada a formatura de revista foi dado o fora-de-forma. A alunada naquela alegria, e todos do Rio de Janeiro seguiam para seus ônibus com destino à cidade maravilhosa e cidades próximas; o mesmo faziam os de São Paulo, capital e interior. Os de mais distante, Ceará, Bahia, Rio Grande e demais estados, tinham de se contentar em ficar ali mesmo em Guaratinguetá, quando muito arriscavam-se por Lorena, Aparecida e região. Nessas ocasiões, os cariocas costumavam zombar da gente, denominados de forma pejorativa como 'paraíbas'. Qualquer um nortista ou nordestino era chamado genericamente de 'paraíba' pelo carioca; e de 'baiano' pelo paulista: "Chora paraíba, paraíba chora. Chora paraíba, carioca vai embora".

Isso agravava mais a saudade da terrinha, da mãe, do pai, dos irmãos, da namorada (no caso dos que ainda tinham uma).

Assim, todos tomavam o seu destino. Menos o escriba e mais dois ou três colegas, que, por algum desalinho de uniforme, barba mal feita ou outro problema qualquer, foram também apanhados naquela malha fina da sexta-feira. Apresentando-nos ao sargento, este portou-se com fidalguia, tratando de nos acalmar. Disse que daquela vez, por ser a primeira vez, o comandante nos anistiava, mas que não voltássemos a reincidir em erro. Ufa! O final de semana estava salvo; nem atinei para o excessivo rigor, que para mim também era novidade.

O dinheiro de que dispunha mal dava para um cinema, nem sei se dava para a pipoca. Mas não importava. Rumo ao ponto de ônibus, direção à cidade! 

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