domingo, 14 de agosto de 2016

MEU PAI, meu herói!

Manoel Valentim Moreira: 1933 - 2011

MEU pai morava na roça produzindo farinha de mandioca, que é um produto muito apreciado na região Norte brasileira. Ele tinha, portanto, a profissão mais importante do mundo. Com o ofício criou seus cinco filhos: três militares - um da Força Aérea Brasileira, outro da Marinha do Brasil e uma terceira, da Polícia Militar do Pará - e mais dois servidores públicos - um do Judiciário e outro do Executivo.

Seus três primeiros filhos nasceram na década de 1960; e os dois caçulas, na década seguinte. 

Com muito sacrifício, eu, os manos e mamãe ficávamos na cidade. Somente assim, podíamos estudar. O velho Duca, porém, se obrigava a permanecer no sítio a fim de prover os meios de sustento à família. Nas férias escolares, eu e o mano Walter íamos para a roça e assim podíamos ajudá-lo na dura lida de campo. Acordávamos com os primeiros raios de sol, somente descansando à boca da noite.

Fazíamos o que estava ao alcance de dois garotos na faixa dos oito aos doze anos. Cortávamos a maniva (a planta da mandioca), tangíamos a égua com a carga, descascávamos a mandioca, peneirávamos a massa. Participávamos enfim de quase todas as etapas da produção, dentro obviamente das nossas limitações.


Exceto pela existência de um motor à explosão, que servia para moer a mandioca, todos os demais equipamentos eram manuais. Algumas galinhas, patos e porcos, para consumo próprio. Além da mandioca, havia também outras culturas como o milho (para alimentar os animais), o arroz (que descascávamos a pilão) e o feijão para o nosso gasto - como se dizia naquele tempo.

Tudo muito rústico e simples.

Mas, apesar dessa nada fácil realidade, era tudo muito bom. Aquele trabalho para nós era uma brincadeira. Além disso, havia os igarapés (no Pará muito abundantes), onde nós nos divertíamos mergulhando naquelas águas cristalinas, tomando banho pelados. 

À noitinha, nos mandávamos para a casa do "seu" Massú, nosso avô materno. Lá dávamos boas gargalhadas com os causos - e muitas estórias de trancoso - que o velho contava a todos que lá se reuniam em torno de sua figura alegre.

Papai vinha à cidade a cada quinzena para vender o produto e passar o restante do final de semana conosco.

Lembro que em algumas oportunidades nós, que estávamos lá de "férias" na roça, o acompanhávamos nessas viagens para a capital. Não havia relógio e o ônibus passava na Belém-Brasília, fazendo parada na vila que distava uns quatro ou cinco quilômetros do sítio, creio que por volta das cinco da manhã. Era a linha diária que tinha origem em Ipixuna e Belém como destino final. Parava às margens da estrada. Tínhamos que vencer a pé a distância entre o sítio e a vila.

Por intuição, Papai acordava entre três e meia e quatro horas. Olhava para o céu estrelado e então seguíamos caminhando. Eram os astros - estrelas e lua - que o orientavam no horário e que faziam que não perdêssemos o ônibus, conforme sua posição no céu. Caso contrário todo o trabalho da quinzena seria prejudicado. O pai sempre acertava. A carga - distribuída em sacas de 60 quilos - já estava a caminho de Belém em caminhão fretado.


Desde que me entendo por gente meu pai foi esse grande herói. E não digo herói apenas: super-herói. Naqueles tempos em que um colono não tinha qualquer amparo do Estado e possuía apenas os braços como ferramenta.

É normal nas crianças o culto ao pai e à mãe. E meu pai sempre era o mais bonito, o mais inteligente, o mais trabalhador, o melhor em tudo. Uma perfeição.

Com o tempo, a gente vai percebendo que nossos pais são pessoas comuns, que possuem defeitos, têm limitações. Ficamos, embora não externemos esse sentimento, um tanto frustrados porque, afinal de contas, nosso pai poderia bem ser rico, minha mãe não parecia mais tão bonita e gentil como antes.
2003. Em Aparecida - SP, com minha mãe

Aquela bicicleta que o filho da vizinha ostentava no dia 25 de dezembro, bem que gostaríamos de ganhar também. Mas, incompreensivelmente, papai não nos dava.

Para mim, na verdade, essa fase das insatisfações jamais chegou a surgir em meu ser, pois eu sempre soube que meus pais faziam o possível e o impossível por nós. Desde sempre, tive grande respeito pela pessoa do sr. Manoel Valentim Moreira, que fazia das tripas coração por sua prole.

E, hoje em plena maturidade, vejo mais e mais o quanto ele foi grande, pois, como ele, também tive noites de insônia pelas preocupações com o dia seguinte.

É claro que, a exemplo de outras crianças, eu, meu irmão Walter, depois minha irmã Antônia, e mais tarde os outros dois manos que vieram, fomos nos dando conta da nossa rude realidade. Nossa família não era rica, ao contrário, bem pobrezinhos; não morávamos em casa bonita e confortável, mas na periferia... Vivenciávamos toda sorte de dificuldades, como a maioria das crianças de países de terceiro mundo, que é caso do Brasil.


As asperezas do caminho, porém, não nos fizeram menos felizes. Meu pai - e também minha mãe, por óbvio - me ensinou a obedecer, a rezar,  a viver contente com o que o bom Deus nos dava. Em resumo, nos ensinou a honrar pai e mãe; e, honrando pai e mãe, aprendemos a amar a Deus sobre todas as coisas, e, por extensão, a respeitar e amar nosso próximo.

Esses valores trazemos conosco como uma herança inestimável.

Além da nossa dura, porém feliz infância, guardo e hei de guardar até quando partir deste plano alguns episódios que demonstram a significativa estatura desse homem.

Certa ocasião, quando eu estava prestes a matar um sapo que encontrei entre umas telhas úmidas, o velho não permitiu. Mostrava assim seu amor pela natureza, pela criação de Deus. Dessa data em diante, passei a amar e proteger muito mais os animais e as plantas e as flores e os frutos e os astros e toda a criação divina. Minha admiração por ele só crescia.

Doutra feita, foi agredido por  um assaltante.  Costumava sair cedo de casa,  mesmo  já aposentado. Nessa vez, creio que ia à feira. Fizeram-lhe um golpe na cabeça. Ele mais tarde reconheceria o bandido que transitava calmamente entre os frequentadores do bairro, mas se recusou a dar queixa à polícia. Questionado por mim, disse que não faria nada por temer retaliação do meliante. Não contra ele, mas sim contra um de nós, seus filhos, ou até mesmo aos netos. 



2001, na formatura deste blogueiro, em Belo Horizonte




Quanta sensatez. Quanto amor.

Às vezes me pego sorrindo sozinho. Lembro das tuas anedotas e logo me vêm a mente os personagens que só conhecemos por teu intermédio. E fico a imaginar o jeito e a feição de gente como o Bagico, o tio Rafael, o Vigorão e até mesmo do "bondoso" e "caridoso" magnata Manoel Pinto da Silva, que fora teu patrão e em cuja olaria trabalhavas antes de tu ires para a roça.

Por experimentar algumas dificuldades na vida, hoje eu vejo quanta luta, sr. Manoel, meu pai, e quantas dificuldades sofreste por nós. E tudo em nome do amor aos teus filhos.


2008. Três gerações: Sr. Manoel, seu filho (este blogueiro) e seu neto, Lorenzo Moreira
E assim, por causa do teu ensinamento, meu pai, até hoje guardamos o quarto mandamento. E tu reconhecias essa virtude, pois - também lembro - dizias com orgulho que nenhum de nós, teus filhos, era capaz de dizer uma palavra feia na tua presença, nem alterar a voz, nem discutir... Tudo herança tua e de minha mãe, que nos apontavam o bom caminho.

Bem diferente de tantos jovens que, à menor contrariedade, oprimem e constrangem seus pais, e assim perdem na vida a grande oportunidade de crescerem.


Sentimos tua falta, meu pai. Tu, que antes da minha partida para Guaratinguetá me deste naquele ano de 1977 um inesquecível conselho: "Sejas honesto, Antonio". Lembro dessas sábias palavras como se ontem tivessem sido proferidas.

Esses foram os valores que legaste a cada um de teus filhos, seu Manoel.

2003. Formatura de sua neta Charlene, em Guaratinguetá


Ah, sim. Já ia me esquecendo. 

Perdão, papai, por não ter podido de acompanhar nos últimos momentos. Perdão, meu pai, pela ausência naquela manhã de 11 de março de 2011, quando partiste em definitivo para Deus.


Com o netinho Samerson Moreira...

... e com sua neta Valéria Moreira

Muito obrigado por tudo, papai! 

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