segunda-feira, 19 de setembro de 2016

AÇAÍ com peixe frito (parte final)




INICIEI a andar de um lado para outro, de um setor daqui para ali, como que a procurar um ponto de partida para o trabalho de que fui incumbido. Assim, saí do refeitório e entrei na cozinha, local úmido e insalubre por natureza; sapateei um pouco e fui à secretaria do rancho, mas nada vi de anormal além de papéis, arquivos, prateleiras e um barulho infernal de máquinas de escrever. Depois de entrar e sair da câmara fria - e isso não durou mais que dez segundos - resolvi então visitar a despensa.

Trazia nas mãos uma prancheta com alguns papéis, que eram os relatórios que o próprio rancho enviava diariamente ao nosso setor. Continham dados e gráficos sobre o consumo de material gasto. Também dispunha em mão do cardápio semanal, um documento com três assinaturas que discrimina as refeições diárias que são usualmente servidas à tropa, café, almoço e jantar, com previsão para segunda-feira até domingo.

Já sabia que, para localizar algum indício de mal feito ou coisa assim, me faltava a experiência de quem já trabalhou no setor. Diferentemente do capitão que conferiu o estoque de carne, um rancheiro experiente que fora transferido para a Secretaria de Finanças justamente por essa razão, eu jamais havia trabalhado em rancho.

Então, como achar algo de errado? O que eu vira até então sinalizava em sentido contrário, ou seja, tudo indicava que estava  em dia e em ordem, que o estoque de gêneros conferia com os números escriturados. A câmara fria totalmente carregada de carne me dava a ideia de que aquele recinto gelado era por demais pequeno para alimentar a tropa, na ocasião cerca de três mil homens e mulheres.

Na despensa andei de um lado para outro, a observar os estrados e as prateleiras do setor, e sob os olhares desconfiados do despenseiro, um taifeiro-mor gordo, cujo nome - se ainda lembro bem - era Siqueira.

Bati com os olhos nos gêneros expostos nas prateleiras. Era para o consumo da semana. Lá estavam farinha de trigo, farinha de mandioca, óleo de soja, sardinha enlatada, manteiga, temperos... Sobre os estrados, grandes fardos de feijão, arroz e mantas de charque.

Aparentemente tudo certo. Nada a objetar, com exceção de ...


As etiquetas. Nas prateleiras, sob cada produto havia uma etiqueta de papelão em que o despenseiro registrava a quantidade em estoque, bem como as entradas e saídas do material, conforme eram feitas novas aquisições ou baixa para a cozinha. Chamou-me a atenção o fato de que os registros diários fossem feitos a lápis e não à tinta. Todas as etiquetas estavam com anotações a lápis.

E lápis se apaga com facilidade.

Vi aí uma clara possibilidade de fraude. Nem precisa ser perito no assunto. Bem provável que tivesse caroço debaixo daquele angu.

Voltei ao meu setor de trabalho e nessa mesma tarde me pus ao trabalho. Principiei a confrontar os números. Quantidade de pessoas alimentadas a cada refeição em relação às quantidades de alimento oferecidas. Fui anotando em relatório tudo o que pudesse ser pesado, desprezando as hortaliças e temperos.

Máquinas de calcular e de escrever a todo vapor.

Isso foi por vários dias. Ao cabo de uma semana, cheguei a uma conclusão: "Chefe, essa tropa é a mais bem alimentada do mundo". Disse com uma ponta de exagero, pois talvez as tropas norte-americanas consumissem igual ou mais que os números apresentados pelos meus cálculos. "Será?", respondeu-me o chefe com essa singela pergunta que mais expressa uma dúvida.

Qual seria a dúvida dele? Sobre a lisura do pessoal do rancho ou sobre o meu trabalho? Quem sabe o tenente-coronel, meu chefe, imaginasse que eu estivesse mal intencionado, pondo dúvida sobre a honestidade alheia, que eu tivesse algum inimigo - ou vários - a quem quisesse prejudicar.

Na segunda-feira seguinte, voltei à mesma despensa. O almoço desse dia foi peixe frito, arroz e, como sobremesa, açaí com tapioca. Um manjar para o paraense. Com o cardápio na mão, fui observar o movimento dos itens alimentícios. Peixe, arroz, o próprio açaí, tapioca e óleo de soja enlatado.

Fui à cozinha e observei o frenético trabalho dos cozinheiros. Havia um cheiro forte de fritura. Não há dúvida de que muito óleo era necessário para fritar toda aquela quantidade de peixe. Depois daí, tive a ideia de ir ao local onde eram depositadas as latas vazias de óleo. Fiz uma contagem: apenas 23 latas vazias. Onde estariam as outras? Pois era visível que muito mais óleo de soja era preciso para fritar todo o peixe.

Lembrei que é uma prática comum, segundo se comenta, os restaurantes da cidade reutilizarem os óleos de outras frituras. Numa leitura rápida no cardápio da semana anterior, vi que foi servido galeto no almoço da quinta-feira passada. Então, tornei à despensa e fui ver o movimento desse item. Para essa refeição - peixe frito com açaí - estava assinalada a saída de 46 latas de óleo. Mas, se achei só 23 latas, onde estariam as outras 23?

À tarde dessa mesma segunda-feira, sentei-me à máquina de escrever e produzi um robusto relatório, repleto de números e altas cifras. Carreguei forte nesse movimento diário observado, ressaltando com detalhes a quantia de óleo gasta, as latas vazias e a etiqueta a lápis. Não esqueci também do fato de que na quinta-feira anterior o cardápio foi frango frito - galeto.

Entreguei o relatório e, com uma continência, me retirei do gabinete. Considerei cumprida a minha missão, mas, meu espírito se inquietava por algo que nem eu mesmo sabia dizer.

O tempo passou. Certa manhã, um mês depois, notei um grande movimento de oficiais que entravam no gabinete do chefe logo aos primeiros minutos do expediente. Portas fechadas e luz vermelha sinalizando que a reunião não devia ser interrompida. Lá dentro estavam, além do atual chefe do rancho, o tesoureiro, o chefe da seção de procuras e compras, o chefe de Material e até o chefe da seção de registros.

Pelo tempo que custou - quase duas horas - a conversa rendeu. Ao saírem, todos olharam para mim. Eu correspondi com um "bom dia", pois entendi ter sido cumprimentado por cada um deles.

Alguns sorrisos, e logo compreendi que algo de errado havia ocorrido. Não sabia ao certo o quê.

Embora curioso, não procurei saber do que foi discutido. Mais tarde porém, uma semana depois, um deles me confiou o conteúdo da reunião.

O chefe do rancho procurou o coronel Horário e relatou estar numa situação desconfortável, porque o agente fiscalizador mandara um dos seus oficiais fazer auditoria no rancho, e isso vinha causando um grande desconforto no seu efetivo. Nenhum deles era ladrão para serem fiscalizados da forma como estavam. Um deles, o Siqueira, despenseiro, ameaçou pedir transferência para a reserva. O tenente-coronel, meu chefe, chamado pelo comandante, decidiu pedir essa reunião, quando, num gesto pouco usual e aparentemente contrário à rígida hierarquia, apresentou suas desculpas aos tenentes e capitães presentes, prometendo que nunca mais o fato se repetiria.

A culpa, pelo que entendi da conversa, recaiu exclusivamente sob a minha pessoa.

Mas, se o assunto estava restrito ao rancho, como que estavam lá todos os oficiais da área administrativa? E, quanto ao despenseiro, sei que quando chegar a hora, ele pedirá sua transferência para a reserva e gozará sua aposentadoria sem ao menos se preocupar com o andamento do rancho, se vai bem ou mal. No entanto, fez esse tipo de chantagem com a chefia. Ninguém é insubstituível.

Na primeira oportunidade, eu mesmo pedi para ser transferido de setor. Passei então a exercer novo cargo e tomei cuidado para jamais interferir no rancho, um setor cujo efetivo estava acima de qualquer suspeita.

Horácio, logo foi promovido. Mais tarde, voltou garboso e estrelado, para comandar toda a Zona.

E hoje, toda vez que provo do delicioso açaí, não consigo esquecer do caso.

Então, caros amigos, pode até ser que esse assunto caiba na página de um livro - como escreveu Machado de Assis - mas na verdade nada quero dizer mais, nem ao menos suspeitar. 

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