sexta-feira, 16 de setembro de 2016

AÇAÍ com peixe frito (primeira parte)

NÃO me recordo ao certo de quando pela primeira vez ouvi dizer que em rancho* costuma ter desvio de gêneros alimentícios.

Embora tentasse esquecer, me vem, de quando em vez, à memória um caso que me contou um velho taifeiro que veio a trabalhar na mesma seção que eu. Contou-me que anos atrás trabalhava numa secretaria de rancho. Certa feita, ao verificar as notas recebidas, viu que a unidade recebera certa quantidade de arroz de primeira categoria. Achando estranho, pois, pela quantidade recebida do cereal, toda a tropa devia estar comendo do melhor arroz, foi à despensa para conferir. Ao verificar in loco, notou que o produto era de terceira.

"O chefe precisa saber disso", pensou de si para si. "Estamos sendo enganados." Sem querer, deixou que o pensamento lhe viesse à boca, porque um colega que batia à máquina ao lado, depois de um muxoxo, disse-lhe: "Deixa de ser bobo. Não perde tempo com isso". Mas Lopes (esse era seu nome) não lhe deu ouvidos e bateu à porta da sala da chefia. 


O chefe, que na hora discutia ao telefone, fez sinal que aguardasse. "Veja a qualidade desse pão..." e "O produto que vocês nos forneceram não tem consistência...". No final, o fornecedor garantia que recolheria de imediato o pão, trocando por um de boa qualidade. 

O diálogo que Lopes testemunhou lhe dava mais força e, com a expressão facial, concordava com a atitude do capitão Simões, seu chefe, com quem estava prestes a colaborar. No entanto, para seu desapontamento, a chefia recebeu a denúncia com indiferença. "Deixa comigo", teria dito. 

Dias depois, Lopes entrou de férias. Ao voltar, fora transferido para o almoxarifado. Muito bobinho para trabalhar em rancho.

"Desculpe, seu Lopes, mas eu não acredito nisso", disse-lhe. "Desculpe dizer, mas o senhor é muito ingênuo, sargento", respondeu-me ele. "Quem parte, reparte e não fica com a melhor parte, é doido ou não entende da arte". O senhor acha que um convidado ao chegar num banquete com tudo de bom e do melhor, não vai encher a pança e comer além do que o apetite lhe pede? Ora, tanto vai comer muito mais como vai encher uma sacola e levar o que puder para casa, mandando às favas tudo o que se chama bons modos e maneiras".

Meditava sobre isso de quando em quando, até que me ocorreu um fato, creio eu, que em 1970. Talvez não tenha sido aí e sim um ano depois. O certo - e isso eu não esqueci - é que foi na gestão de Horácio Vieira de Sousa e Silva, um comandante que marcou época e do qual ainda todos que serviram sob seu comando se lembram muito bem. É o mesmo que voltaria mais tarde, desta feita para comandar toda a Primeira Zona.

"Na gestão de Horácio...", "Foi no comando do Horácio...", "O comandante da Base Aérea era o Horácio..." Era comum a todos - e ainda o é para alguns - nominar o comandante que, por seu jeito de comandar com mãos de ferro, ficou indelevelmente marcado - para o bem e para o mal - na memória daquela gente.

Faz, portanto, muito tempo. Mas lembro como se tivesse acontecido ontem. Conto para que o caso não siga comigo ao túmulo.

Na verdade sempre achei um grande exagero, uma grande maldade, falarem assim. Eu parto do princípio de que todos são inocentes até provado o contrário. Em algumas coisas eu sou igual São Tomé: só acredito vendo. Além do mais, na caserna a desonestidade é uma coisa inconcebível, feia mesmo.

Pois bem. Passaram-se lá pouco mais de duas décadas.

Chegou um dia, quando já possuía quase trinta anos de serviço, que a minha fé na honestidade alheia - a minha ingenuidade, fique claro, pois o velho taifeiro tinha razão - quedou-se seriamente abalada.

O escriba exercia então o cargo de adjunto do Agente Fiscalizador, que na época era nas repartições militares o oficial incumbido da fiscalização de tudo o que é despesa e receita, movimentação de patrimônio (seja ele imóvel, móvel ou intangível), a contabilidade, finanças... tudo. 

De vez em quando, a unidade central de fiscalização vinha à unidade para fazer auditoria. Um caderno grande de perguntas, que, respondidas, viravam um relatório.

Vieram.

E essa seria mais uma dessas auditorias chatas e corriqueiras, com perguntas e respostas aos diversos setores, como acontecia nos anos anteriores e que justificava as diárias gordas que recebiam por viagem fora de sede. 

Preparamo-nos.

Chegaram. A novidade dessa vez foi a inclusão de um capitão especialmente incumbido de auditar o rancho da unidade. Fez uma vistoria geral e rigorosa, bem além do que se esperava.

Estranho.

Entre tantas providências, uma delas foi julgada incomum pelo efetivo da subunidade: retirar toda a carne estocada na câmara fria. "Chefe, a carne vai estragar", alguém disse, com genuína preocupação com aquele tipo de alimento perecível. Mas o capitão não deu ouvidos e mandou pesar todos os tipos de carne, seja ela bovina, suína, aves e pescados. 

Feito isso, cotejou o estoque físico com o escriturado. Descontou algum que ainda não tinha dado tempo de entrar na contabilidade, e de posse das notas e relatórios, foi mandando pesar peça por peça, uma a uma, até esvaziar o frigorífico. O produto ficou ao tempo, correndo realmente o risco de se estragar.

Resultado: deu uma diferença a menor, em prejuízo da unidade. 

Foi o que se ficou sabendo. Mas logo a questão caiu no esquecimento. Na verdade, o assunto foi abafado, porque, se fosse levado adiante, poderia atrapalhar as pretensões do agente diretor, que já preparava seu enxoval de oficial-general. As estrelas era questão de meses, de forma que um caso desses poderia levar tudo a perder.

Feitos contatos com alguns fornecedores, e o caso foi resolvido. A comissão voltou à Brasília com justificativas no campo "observações" de que o produto em falta ficara sob a responsabilidade de uma firma fornecedora, que, como fiel depositária, guardava a carne para a unidade, já que a câmara fria desta era de capacidade insuficiente. 

Puseram panos quentes.

Um mês depois, meu chefe, o tal agente fiscalizador, chamando-me à sua sala, voltou ao assunto. O rancho deveria receber a nossa visita e qualquer coisa errada que fosse vista, deveria ser registrada. 

Assim o fizemos. De primeiro, ele em um ou dois dias somente de visita à cozinha do rancho, à despensa, ao refeitório e outras dependências.

Nos dias seguintes, fui eu ao local sozinho disposto a seguir à risca a recomendação da chefia. Ora, se o chefe manda fazer, era porque tinha gato na tuba, ou, pelo menos, sérias suspeitas. Além do mais, estava entre as nossas funções realizar vistorias nos diversos órgãos estocadores de materiais. Normal.

E fui com dois sentimentos: primeiro, cumprir o meu dever, fazendo o melhor possível; o pessoal de lá não poderia achar ruim, pois, se não deviam, é porque não deviam temer. Segundo. que nada de anormal descobriria, porque, ainda que alguém tivesse culpa no cartório, não iria fazer a descoberto.

Possuía também um terceiro sentimento: a certeza de que alguém, uma ou várias pessoas, iriam se sentir mal com a minha presença intrusa lá. Afinal, quem gosta de se sentir sob desconfiança de que pratica algo errado?

Por isso, cheguei ao rancho pisando em ovos. Sentia que um e outro me olhavam de soslaio. Paciência. Dei de ombros. Estava aí para cumprir o meu dever, e o faria com melhor dos meus ânimos. 



(*) Rancho é como é conhecido o conjunto de instalações militares que compreende refeitório, cozinha, despensa e áreas adjacentes. 

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