quarta-feira, 21 de setembro de 2016

GAUCHESCAS do Valentim

Jayme Caetano Braun: Bochincho




A UM BOCHINCHO, certa feita,
Eu fui chegando de curioso,
Que o vicio é que nem sarnoso,
Nunca pára nem se ajeita.
Baile de gente direita
Eu vi, de pronto, que não era,
Na noite de primavera
Gaguejava a voz dum tango
E eu sou louco por fandango
Que nem pinto por quirera.

Outra Gauchesca do Valentim: http://www.bloguedovalentim.com/2016/07/gauchescas-do-valentim.html



Atei meu baio longito,
Num galho de guamirim,
Desde guri eu fui assim,
Não brinco nem facilito.
Em bruxas não acredito
Pero -que las hay, las hay,
Eu sou da costa do Uruguai,
Meu velho pago querido
E por andar desprevenido
Há tanto guri sem pai.


No rancho de santa-fé,
De pau-a-pique barreado,
Num trancão de convidado
Eu me entreverei no banzé.
O chinaredo à bola-pé,
No ambiente fumacento,
Um candeeiro bem no centro,
Num lusco-fusco de aurora,
Pra quem chegava de fora
Pouco enxergava ali dentro!

Dei de mão numa tiangaça
Que me cruzou no costado
E já sai entreverado
Entre a poeira e a fumaça,
Oigalê china lindaça,
Morena de toda a clina,
Dessas da venta brasina,
Com cheiro de lechiguana
Que quando ergue uma pestana
Até a noite se ilumina.

Misto de diaba e de santa,
E com ares de quem é dona
E um gosto de temporona
Que traz água na garganta
E eu me grudei na percanta
O mesmo que um carrapato
E o gaiteiro era um mulato
Que até dormindo tocava
E a gaita choramingava
Como namoro de gato!

A gaita velha gemia,
Ás vezes quase parava,
De repente se acordava
E num vanerão se perdia
E eu contra a pele macia
Daquele corpo moreno,
Sentia o mundo pequeno,
Bombeando cheio de enlevo
Dois olhos flores de trevo
Com respingos de sereno!

Mas o que é bom se termina
- Cumpriu-se um velho ditado,
Eu que dançava, embalado,
Nos braços doces da china
Escutei de relancina,
Uma espécie de relincho,
Era o dono do bochincho,
Meio oitavado num canto,
Que me olhava  com espanto,
Mais sério do que um capincho!

Foi ele que se veio,
Pois era dele a pinguancha,
Bufando e abrindo cancha
Como dono do rodeio.
Quis me partir pelo meio
Cum talonaço de adaga
Que se me pega, me estraga,
Chegou levantar um cisco,
Mas não é a toa, Chomisco!
Que sou de São Luiz Gonzaga!

Meio na curva do braço
Eu consegui tirar o talho
Mas quase que me atrapalho
Porque havia pouco espaço,
Mas senti o calor do aço
E o calor do aço arde,
Me levantei sem alarde,
Por causa do desaforo
E soltei meu marca touro
Num medonho buenas-tarde!

Eu tenho visto coisa feia,
Tenho visto judiaria,
Mas hoje ainda me arrepia
Lembrando aquela peleia,
Talvez quem ouça, não creia,
Mas vi nascer no pescoço,
Do índio do berro grosso
Como uma cinta vermelha
E desde o beiço até a orelha
Ficou relampeando o osso!

O índio era um índio touro,
Mas até touro se ajoelha,
Cortado do beiço a orelha
Amontoou-se como um couro
E amigos foi um estouro,
Daqueles que dava medo,
Espantou-se o chinaredo
E aquilo foi uma zoada,
Parecia até uma eguada
Disparando num varzedo!

Não há quem pinte o retrato
Dum bochincho quando estoura,
Tinidos de adaga, espora
E gritos de desacato.
Berros de quarenta e quatro
De cada canto da sala
E a velha gaita baguala
Num vanerão pacholento,
Fazendo acompanhamento
Do turumbamba de bala!

É china que se escabela,
Redemoinhando na porta
E chiru da guampa torta
Que vem direito à janela,
Num Grito, de toda goela,
Num berreiro alucinante,
O índio que não se garante,
Vendo o sangue se apavora
E se manda campo fora,
Levando tudo por diante!

Eu sou crente na divindade,
Morro quando Deus quiser,
Mas amigos, se eu disser,
Até periga a verdade,
Naquela barbaridade,
De chinaredo fugindo,
De grito e bala zunindo,
O gaiteiro, alheio a tudo,
Tocava um xote clinudo,
Já quase meio dormindo!

E a coisa ia indo assim,
Balanceei a situação,
Já quase sem munição,
E todos atirando em mim.
Qual ia ser o meu fim,
Eu me dei conta, de repente,
Eu não vou ficar pra semente,
Mas gosto de andar no mundo,
Me esperavam na dos fundo,
Eu saí na Porta da frente...

E dali eu ganhei o mato,
Abaixo de tiroteio
E ainda escutava o floreio
Da cordeona do mulato
E, pra encurtar o relato,
Eu me bandeei pra o outro lado,
Cruzei o Uruguai, a nado,
Que o meu zoio era um capincho
E a história desse bochincho
Faz parte do meu passado!

(E a china, Jayme?)
E a china? 

Essa pergunta me é feita
Em cada vez que declamo
É uma cosa que eu reclamo
e acho que até uma desfeita
acho que não é direita
E até entender nem consigo,
Eu, no medonho perigo
Duma situação brasina
Todos perguntam da china
E ninguém se importa comigo!

A china,
A china eu nunca mais vi
No meu gauderiar andejo,
Somente em sonhos a vejo
Num bárbaro frenesi.
Talvez ande por aí,
No rodeio das alçadas,
Ou talvez nas madrugadas,
Seja uma estrela chirua
Dessas que se banha nua
No espelho das aguadas! 

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