quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O CASO da piscadela

POR UMA questão de honra, foi meu propósito chegar à primeira colocação no Estágio de Adaptação que realizei em Belo Horizonte, missão a que me candidatei em 2000, tão logo fora promovido à graduação de suboficial em dezembro de 1999.


Preparei-me com afinco para a missão, focando a nota dez em todas as disciplinas exigidas. Meu pensamento era que, focando no máximo, e,  não obtendo essa pontuação, chegaria aos nove e meio ou próximo disso. Diante dessa performance, certeza era ser aprovado.



Uma das disciplinas era Língua Portuguesa e Literatura. Eu sempre fui bom em Português, razão pela qual meu pensamento era não dedicar tanto tempo a essa área. Pois bem. Um colega convocou a mim e a mais alguns colegas para estudarmos em uma sala de aula de uma escola lá da quadra 214 Sul. Resolvi ir. Falei comigo mesmo que "se aprendesse uma coisa sequer a mais já teria tido um ganho, ainda mais se pudesse passar algum conhecimento para os colegas". Com esse espírito, fui e aprendi muito mais do que já sabia, além de ter a graça de passar muito mais aos outros irmãos com quem partilhava aquele tempo à noite, duas vezes por semana.


Nem só de virtudes, porém, compõe-se o bicho-homem. 

O escriba estava lá na Pampulha,  bancando novamente o aluno, isso depois de quase 22 anos. Para atingir o objetivo que eu mesmo secretamente me impunha havia o famigerado teste físico, área em que eu precisava treinar de forma mais intensa. E este índio que vos escreve já não era um garoto,  com os seus 40 novembros. 

Precisava para alcançar o grau 10,00 de uma marca, tantas voltas, tantos metros, dentro dos doze minutos estabelecidos. Fiz um teste na primeira semana em que chegamos ao Centro e me faltou ainda alguns bons metros. Não valia nota, era só para cada um saber das suas reais condições físicas. O teste definitivo, valendo nota, seria só em maio. Impus a mim mesmo que treinaria dia sim, dia não, não descansando até atingir a marca indicada para a minha faixa etária. Era questão de honra. Faria isso ao final das atividades, entre as aulas teóricas e práticas e o jantar.

Foi o que eu fiz.

Até que chegou o dia do teste físico.

Naquela manhã ensolarada e quente do final de abril estávamos todos lá no campo de futebol daquela Escola, aguardando a hora determinada para iniciarmos a corrida com o tempo de doze minutos. Considerando a minha faixa etária, tinha que atingir a marca para conquistar a nota máxima, requisito fundamental para conseguir o objetivo proposto.

Mas nada cai do céu para mim, assim de mão beijada. Tudo requer esforço e me acostumei a driblar as situações adversas, a superar os obstáculos que insistentemente aparecem no meu caminho. 

Sempre foi assim, e ali não seria diferente.

Para complicar mais, a organização do teste atrasava a cada grupo que praticava a corrida, e o meu era o último a se apresentar. Com os atrasos acumulados a cada equipe, dez ou quinze minutos, nosso grupo ficou para o meio-dia, um horário pra lá de ingrato, tempo inclemente, hora da fome. 

Chegou finalmente a nossa vez e me pus a correr. 

Correr...

Adotei como método de corrida deixar o pensamento fluir, o cérebro a imaginar mil e uma coisas e fatos. Enquanto as pernas trabalhavam, lá se ia a pensar na família, nos planos futuros da carreira, na política nacional, em futebol, em religião... Enquanto a mente vagueava livremente, as distâncias iam sendo vencidas com facilidade. Nem me dava conta do cansaço das pernas e do extraordinário trabalho cardiovascular que aquelas voltas exigiam de mim.

Ocorreu, porém, que, ao me faltar talvez uma volta e meia, quase duas, percebi que o tempo limite estava quase por estourar. Notei que já estava nas últimas, e, embora me esforçasse, todo o repertório já se esgotara, e, mesmo que não, não conseguiria mais iludir toda a máquina que se chama corpo humano, que tem lá seus limites. Vi que dificilmente conseguiria a marca exigida.

Foi quando me aconteceu algo inusitado, que a memória até hoje não me deixa esquecer.

Imaginando já que não conseguiria fechar o grau máximo, estava a me aproximar do marco inicial da corrida, o ponto de partida. Em meio ao grupo de oficiais encarregados da prova, notei a presença de uma segundo-tenente. Era da primeira turma de oficiais temporários da área de Educação Física, uma sulista muito bonita e - também por isso - bastante popular entre os alunos da minha turma. A tal china era uma beldade, uma morena daquelas de parar o trânsito.

Em estado lastimável, passei em frente ao grupo quando, dentre aqueles dez ou doze marmanjos que ignorei, lancei meus olhos contra os da china. A guria mirava também para mim, correspondendo aos meus olhares masculinos. Foi naquela fração de segundo que ganhei da chinoca uma piscadela sensual - ao menos isso me pareceu.

Com o peso da idade em que me encontrava, percebera eu, havia algum tempo, que a vida me determinava agora a encilhar o matungo da prudência, e trilhar mansamente as veredas da calmaria, diferentemente de antes.

Ora, se o inesperado episódio viesse a ocorrer alguns anos antes, diante daquela situação inusitada, é certeza que seria levado a montar no tordilho negro da falta de juízo e galopar alopradamente na estrada da loucura. A china era uma tentação de mulher, mas, com estava em corrida - e em serviço - não tinha como manter o olhar nos olhos da guria. Mas aqueles olhos ficaram comigo.

Segui adiante, e, com a piscadela daquela gaúcha a povoar meu imaginário em vez de política e futebol,  vencer a volta e meia que faltava não foi tarefa difícil. Pois foi justamente aquela piscadela sensual que injetou em minhas veias o sangue faltante e necessário para percorrer o espaço restante no tempo determinado. Nota dez e o primeiro lugar alcançado.

E a china? Não lembro mais o nome, nem sei de que região do Rio grande era, se da capital ou do interior. Também não sei sua origem, se alemoa, italiana, polaca ou açoriana.

Por onde anda? Não sei, mas é quase certo que virou a cabeça de tanto marmanjo. A minha seria mais uma, se nalgum tempo atrás houvesse cedido a mais essa tentação.

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