quarta-feira, 5 de outubro de 2016

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Chico Damião, o sangrador de onças


EM TANTOS e tantos lugares deste planeta há daqueles viventes que, ainda que não tenham frequentado bancos escolares, esbanjam sabedoria nos mais diversos assuntos do interesse humano. Sabem de tudo um pouco, e têm resposta para qualquer pergunta. 

Lá pelas bandas do meu rincão não era diferente. E o artista daquela região recôndita do estado do Pará não era outro senão o velho Chico Damião. O velho era quem nas redondezas, tirante o causo da onça, saciava a curiosidade do povo nos assuntos mais variados e intrigantes. Não era o caso de se dizer que em terra de cego quem tem um olho é rei. Não era esse o caso, pois o que ele dizia fazia sentido, dotava-se de lógica irrefutável, levando, de quando em vez, os mais velhos a se questionarem: ou é um exímio mentiroso, desses autodidatas que já leram muito, ou tudo é verdade absoluta. Desconhecia-se de onde aquele velho, baixinho, fanho e meio corcunda, tirara tanto conhecimento. A seu modo era um sábio.


Além de saciar a sede de conhecimento, transformando em ponto final ou exclamação as nossas interrogações, o velho Damião divertia a todos com o seu jeito aparente de pessoa simplória, aquele ar de gente erudita, mas que ao final se apresenta invariavelmente tão engraçado pela razão maior de ser fanho. Não precisava dizer nada, apenas um olhar, um jeito, trejeito ou maneirismo era suficiente para encantar e prender a atenção de todos, adultos, velhos e crianças. 

Tenho cá comigo de que o causo da onça, ele inventou com o propósito de ilustrar todo o seu enredo, do qual, à exceção do causo, irradiava todo aquele carisma.

De onde era, não sabíamos. Uns diziam que era do Ceará, alguns outros que era do Rio Grande do Norte, havia também quem dissesse que o velho chegara quarenta anos antes do sul do Brasil. Eu mesmo não me surpreenderia se viesse a saber que Chico Damião era lá do Pará mesmo, sem nunca ter viajado vinte léguas que fosse além daquela região.

Chegava à nossa casa sempre por volta das onze e meia, hora em que a bóia estava quase no ponto de ser servida, com o tosco fogão de lenha emanando aquele cheiro, que atiçava o cérebro a ordenar a produção inevitável de água na boca. Chegava certamente nas outras casas naquele mesmo período do dia, e talvez fosse essa a sua única refeição decente naquela jornada. Nunca perguntamos se era casado, solteiro ou viúvo, e também ele não o disse - pelo menos que eu esteja lembrado. Desconfio que nunca se casou.

 Mas, seu Damião, esse causo da onça...
 Não é caso, não, seu Duca, foi verdade verdadeira.
– Sim, não querendo duvidar. O senhor, claro, um dia foi novo, igual eu também fui, e tudo o mais. Mas qualquer um de nós se mijaria de medo diante dum animal do porte de uma onça. Ademais...
 Sei, seu Duca. Onça é bicho ligeiro, e é a defesa do animal a ligeireza. Deus deu a cada vivente o instinto da sobrevivência. Aliás, deu dois instintos de sobrevivência: o individual, daí os bichos se defenderem, caçarem para comer, correrem quando ameaçados, conforme a sua natureza...

O velho fez uma pausa para respirar e beber um gole do Cinzano que meu pai me mandara buscar lá dentro, servindo o copo de seu Chico Damião e o dele, meu velho, também.

 E o outro instinto?
 Sim, o outro instinto. É o da sobrevivência da espécie, por isso os animais se acasalam. Diferente dos seres humanos, eles acasalam apenas para procriar, gerar outros seres da sua espécie, sem constituir família. Esses são instintos primários, necessários à sobrevivência de todos. Veja a cadeia alimentar...
 E a onça?
 Eu já ia passando adiante, não é mesmo?! Sim, a onça. Mas acho que eu já contei esse caso aqui.
 Eu só ouvi falar, mas contar mesmo o senhor não contou pra nós. Sabe, as pessoas aumentam muito, então é bom ouvir da boca do próprio autor da façanha.

Na verdade o velho já havia contado a história havia uns anos antes, no entanto, depois vim a descobrir quando pensava no caso, que essa era uma estratégia de meu pai a fim de tirar as provas dos noves, uma armadilha para pegar o velho em contradição. No entanto, velho Damião, macaco velho, não caía nessa. A história era sempre igual, talvez acrescentando palavras novas em vez de outras dantes, mas o fato em si era o mesmo, sem tirar nem por.

 O caso se deu lá pras bandas do Maranhão. Carregava comigo, e carrego até hoje, como o senhor pode ver, dois objetos inseparáveis: o chapéu e esta faquinha amolada. É claro que para caçar levamos também, cada um de nós, uma espingarda de chumbo.

Tirou a faca da bainha, mostrando-a. 

 Continue, seu Damião.
 Distraí-me naquela caçada, e quando dei por mim estava mata a dentro, separado de meus companheiros. Se ainda tivesse cachorro bem, mas os cães acompanharam meus companheiros, que eram em quatro. 
 É o que eu chamo de ficar no mato sem cachorro. 
 De fato, literalmente, seu Duca, ou seja, ao pé da letra, este seu amigo estava naquele mato sozinho, sem cachorro. Vi as pegadas do animal, e comecei a engendrar uma maneira de enfrentar a onça em caso de ela me achar primeiro, querendo me fazer de almoço. Não, comigo não, antes ela do que eu. Pensei na velha espingarda de chumbo, não, aquele trabuco velho não era páreo pruma onça. Além do mais, dificilmente o animal ficaria diante de mim na posição de caça, digo assim, numa distância suficiente para que eu fizesse uso da arma de fogo. 
 Dizem que onça é traiçoeira, inda mais naquela cor de mato, não dá pra gente avistar ela.
 Isso. Trata-se de um animal cujo instinto natural é exatamente esse, dotado de cores que se confundem com a vegetação, justamente para facilitar a sua sobrevivência. Além disso, trepa nas árvores, é ligeiro e traiçoeiro.
 Então assim, as chances do senhor não eram grandes, né.
 Mas não me avexei não, como já lhe disse. De repente, ela tava lá. Eu, sozinho naquela mata, frente à frente com aquele bicho enorme.

(BLOGUE do Valentim em 05out.2011)

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