terça-feira, 4 de outubro de 2016

BLOGUE do Valentim há 5 anos!

De volta ao front


DESEMBARQUEI daquele Pássaro Marrom e cruzei a pracinha. A Escola estava deserta, sendo eu um dos primeiros a voltar; talvez o primeiro. O sol daquele final de janeiro estava na posição de três da tarde.
'Desembarquei daquele Pássaro Marrom

Aquela calma, aquela paz, me fazia retroceder aos seis meses anteriores, com o filme, nem sempre em sequência cronológica exata, da minha vida, evidenciando a mim mesmo os momentos mais dramáticos, por isso mesmo marcantes, desde os exames de admissão até a notícia de que o comandante havia reconsiderado a minha reprovação. Relembrei da chegada naquela noite fria em que dormi na companhia igê, do dia seguinte e das providências de alojamento, armário, material escolar, uniforme e papeladas de alistamento na Fab e matrícula no Curso de Formação. Relembrei também as brincadeiras da turma, tanto com relação à minha pessoa quanto a odos em geral. As dificuldades, as minhas em particular, e as de muitos, em especial, a expulsão dos colegas que foram surpreendidos consumindo droga, fato extremamente marcante que até hoje é comentado entre nós.


(Obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos reais é apenas coincidência)


Programei para a manhã seguinte uma corrida em torno do campo de futebol. Eu já estava bom nisso e, naquele vigor de 18 anos, nem mesmo o mês e dias de férias foi capaz de deixar-me fora de ritmo. 

Enquanto corria, relembrava alguns pontos daquele semestre tão sofrido, em que cada dia representara para mim um enorme obstáculo a ser ultrapassado, um adversário, cuja força desconhecia, a ser batido. Lembrei das palavras do capelão: 'Filhos, a capela é o único lugar da Escola onde não tem chamada', querendo dizer que a presença dos alunos na missa não era uma obrigação e sim voluntária, ao mesmo tempo disponibilizando aquele recinto santo, sempre aberto aos alunos para os estudos, proporcionando-lhes a paz necessária; do primeiro dia a entrar em forma, e da forma pejorativa como o Martins havia se referido à minha pessoa, chamando-me de raquítico; do episódio do Dorival, o Catarina, chamando inocentemente o sargento Cunha Pinto de 'Caveirinha', sem imaginar que caíra numa cilada armada pelo aluno antigão; das longas e duras instruções de mosquetão, em que o Caveirinha parecia se comprazer em ralar o aluno, em especial os mais franzinos como eu, com aquela pesada geringonça da época da guerra; das dificuldades em Matemática, e ao mesmo tempo da solidariedade de colegas como o Martinelli, que doavam parte do seu tempo ajudando no aprendizado dos menos preparados; do Sapão, adjunto do Ceá, falando sobre o que os alunos aprontaram durante a semana, e ao final mandando o locutor ler o texto das respectivas punições disciplinares; dos alunos cariocas - principalmente estes - a zombarem do sofrimento dos 'paraíbas', que, por razões geográficas, permaneciam em Guaratinguetá nos finais de semana, enquanto aqueles viajavam para o Rio; das zorras que faziam todos ao chegarem na segunda pela madruga e também ao toque da alvorada, obrigando o despertar imediato de todos, até mesmo dos mais sonolentos e exaustos; a patrulha que alguns faziam aos que, também por razões geográficas e culturais, escamavam o banho, a ponto de, de quando em vez, um deles ser levado à força para baixo do chuveiro, de roupa e tudo; da zombaria da qual não escapavam os paulistas do Vale do Paraíba por causa de seu sotaque e da pronúncia dos erres no meio das palavras, como 'póita', 'póitão', 'poiteira', e outras; da embriaguez e do consequente pesadelo por que passei, ao rolar para baixo da cama e ter gritado desesperadamente para não ser enterrado vivo, acordando todo o alojamento, e ainda levando-me ao hospital, e ter vindo a sofrer em consequência a inevitável zoação da turma; do sistema mirabolante que bolei na resolução daquela primeira prova de Matemática (coisa de gênio!), resultando na sofrível nota de 3,33; daquela conversa fortuita ouvida dos três sargentos que conversavam a respeito de uma possível 'culpa do aluno' (essa cena, em especial, cismava em ressurgir costumeiramente à minha mente, até nos sonhos); da minha audiência forçada com o comandante da Escola, e da coça, logo em seguida, a que me submeteu seu ajudante, fazendo-me pagar flexões, pulinhos de galo e correr de volta ao Ceá (não faz mal, pensava, isso faz parte do escripte, também é uma espécie de autoridade artificial de quem diz 'eu mando, você obedece'). Todas essas coisas me passavam pela cabeça enquanto corria. Já não sabia ao certo quantas vezes tinha percorrido aqueles quatrocentos metros de pista, se eram sete, oito ou até dez voltas completadas. 

Concluí e cogitei que ao final da tarde iria à cidade. No caminho de volta ao alojamento dei de cara com outro aluno, bastante conhecido nosso. Foi com surpresa que o avistei com uma pasta cheia, cumprimentando-o feliz por não ser o único aluno naquela imensa Escola, como até então havia cogitado. 

- Olha quem eu vejo?! Oh seu padre!, digo, olá Pontes!

- Oi, Quinze.

- Pensei que eu era o único aluno aqui na Escola?!.

- Cheguei na semana passada.

- Tão cedo!? E essa pasta recheada aí?

-Verdade. As pastas tão cheias de apostilas. Eu fiquei sabendo que a Deí já estava distribuindo as apostilas deste semestre, então fui lá e já comecei a cepar uma delas. Quer ver?

- Obrigado, por enquanto vou deixar pra depois. Mas...

- O que é?

- Uma coisa me intriga, Pontes: Você é daqui de pertinho, do estado do Rio, e já está aqui na Escola. Eu, sim, tenho razão de chegar cedo, pois vim de avião da Fab, que não tem data certa...

- É pela minha dificuldade, sabe, essas apostilas... eu preciso estudar, entende...

- Sei.

Seguiu adiante, creio que em direção à praça que fica em frente ao Cassino, e eu, de volta ao alojamento, onde tomaria um belo banho e me aprontaria para sair.

Tudo muito estranho no seu Padre, - ia pensando enquanto me ensaboava - tanta dificuldade assim a ponto de chegar tão cedo de volta à Escola, mas havia colegas antes - eu já ouvira comentários - que diziam que tudo era uma pseudo dificuldade, um faz-de-conta ou coisa assim, e que na verdade Pontes era um cara inteligentíssimo, arguto, observador, daqueles de pouca conversa mas exímio ouvinte, do tipo coruja que não fala mas que presta muita atenção a tudo e a todos em sua volta. E agora, Pontes, que morava no estado do Rio, pelo que estava na sua ficha, e pelo que ele próprio houvera dito uma ou duas vezes, estava já ali de volta à Escola, três ou quatro dias mais cedo até que eu. Bem, talvez, apenas mais uma brincadeira do pessoal sabendo de que sempre alguém como eu está ouvindo a conversa, certamente essa turma era fã de filmes de suspense, de zero-zero-sete, de espião, agentes secretos de dupla identidade, de psicopatas ou coisa do gênero. Como neste mundo tem gente com imaginação! Cuidei de botar o quinto, já com a insígnia de segunda série.

No Pássaro Marrom ouvi um passageiro contando a outro sobre um homicídio que tinha ocorrido ali próximo, não tendo eu entendido exatamente onde. Ao que me pareceu uma jovem fora cruelmente assassinada, não sabendo a polícia ainda definir qual a causa. Ouvi porque quem falava não fazia questão de guardar segredo, e a interlocutora, uma mulher dos seus cinquenta anos, também respondia em tom de voz suficiente para que quem estivesse em volta escutasse. Coisas de quem compra jornal por causa da manchete em letras garrafais numa espécie de curiosidade mórbida, bastante explorada pela imprensa sensacionalista. Desde aquela época esses assuntos sangrentos não me interessavam, não obstante o teor da prosa não me fugiu à memória por algum tempo.

Na cidade, a volta obrigatória na errepeeme, que, devido às férias da alunada, estava às moscas, como se aquele logradouro fosse uma propriedade particular do Ceá, das Marias do Ceá e do Romeiro Dias ('aluno só é pobre porque quer', cheguei a ouvir ou imaginar quando passava por lá nessa ocasião). Como fizesse calor, e também pela força do hábito, entrei no bar da portuguesa. A lista de findu estava quitada, de forma que o peéfee e a cerveja gelada estavam garantidos, e logo estavam na minha mesa. Desta vez policiei-me de modo que aquelas loiras geladas não me derrubassem como fizeram doutra vez, trazendo-me prejuízo duplo: moral, pelo pesadelo, baixa hospitalar e zoação; e intelectual, levando-me àquela derrocada na prova de Matemática. Não, desta vez a mim não sucederia semelhante problema.

À certa altura, ainda na segunda ampola, que degustava devagar, já à noitinha, - olhei a um relógio de uma das paredes - e eram vinte horas e minutos, numa mesa próxima à minha alguém começou uma briga, que de início era só de palavras feias, mas que, pelo andar da carruagem, viria a descambar ao desforço físico, não se sabendo prever as consequências daquilo: olho roxo, sangue, cadeia? Tratei de fazer anotar as despesas no livrinho de findu, dizendo o meu nome - nem precisava pois já o conheciam de cor -, e casquei fora dali, voltando à Escola mais cedo do que desejava, antes que uma garrafa ou mesa pudesse me atingir. As orientações do Sapão eram bastantes claras sobre aluno meter-se em confusão na cidade. 

Noutro dia, imaginando o Pontes com aquele montão de apostilas na pasta, considerei que, não tendo muito o que fazer naquele deserto de Escola, o jeito era também antecipar-me à maioria, ganhando assim precioso tempo na leitura de alguma matéria exigida na segunda série. Dei o braço a torcer pois o seu Padre não estava errado. Foi o que fiz. Com as apostilas em mão, tratei de folheá-las, primeiro uma, depois outra, e outra. Sim, desta vez o conteúdo daqueles papéis não me atrapalharia, pensava de mim para mim mesmo. Seguro morreu de velho; quem se planeja mais se atrapalha de menos. Naquele mesmo dia, lá pela tarde, iria à capela para cepar uma delas.

Continua... 


"QUANDO você estiver satisfeito por ser simplesmente você mesmo e não se comparar ou competir, todo mundo te respeitará." Lao-Tsé


LOUVADO seja o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo!
(BLOGUE do Valentim em 04out.2011)

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