terça-feira, 4 de outubro de 2016

GREGÓRIO Fortunato

Gregório Fortunato e sua fidelidade a Getúlio

E o contrabando de 800 milhões


DURANTE o ano de 1944 a imprensa conseguiu publicar notícias de caráter político sem que o DIP de Lourival Fontes se manifestasse. Os jornais noticiavam as articulações de Vargas para a criação do Partido Social Democrático (PSD) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), enquanto que os oposicionistas pregavam a criação da União Democrática Nacional (UDN), agregando os que se opunham ao Estado Novo, fossem eles conservadores ou esquerdistas.

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Mas, com tanta notícia, os jornalistas não deixavam de cobrar o esclarecimento do contrabando de automóveis, que importava na fabulosa quantia de 800 milhões de cruzeiros. E exatamente para tratar disso, é que Gregório se mantinha nas proximidades do lugar onde estava estacionado o Cadillac rabo-de-peixe, de propriedade do capitão Felisberto Teixeira. Madrugada alta, ele apareceu. Gregório saiu das sombras, o revólver apontado, mandou que seguisse para a enseada de Botafogo, na época um lugar bastante deserto. O policial procurou saber de que se tratava. Não parecia alcoolizado; dirigia com segurança.

"O coronel Bejo manda propor um trato. Você esquece a investigação do contrabando de automóvel, a gente não passa aos jornalista e ao presidente o que sabe do vigarista do teu chefe. Caso contrário acabamos com tua raça e a dele!", disse Gregório ao policial militar.
Benjamim Vargas, o Bejo



Felisberto, acostumado com a violência, não parecia assustar-se com as ameças; pôs-se a rir e a dizer que Bejo estava ficando maluco. Aconselhou o Nego a se cuidar, se não quisesse cair em desgraça. Gregório chegou a sentir-se um tanto perdido, mas logo se recompôs; para incriminar o adversário deveria ter um argumento muito forte. Lembrou das cartas de chamada que rendiam muito dinheiro, verba essa que era dividida com Filinto e o "pessoal de confiança" da DOPS.

"O coronel fez vista grossa pros contrabandista passar com os carros, mas você e seu chefinho vêm comendo dinheiro dos judeus esses anos todos. E de forma escabrosa. Já causaram a morte de muita gente que chega na praça Mauá e de repente volta pra Alemanha. Por isso, quero um acerto contigo." 

"Como seria? Embora não tenha nada com as tais cartas de chamada, posso colaborar no que for possível...". Gregório acendeu a luz interna do carro, sugeriu que o capitão provasse o que dizia. Bastava escrever umas poucas linhas, afirmando que Filinto Müller levava dinheiro com as tais cartas de chamada, além de receber "verba" dos alemães para proteger a quinta-coluna. Tirou a caderneta do bolso, apresentou-a a Felisberto.

"Isso eu não faço!"

"Vou contar até três pra que comece a escrever". Engatilhou a arma.

"O que devo escrever?"

"O que acabei de dizer, mais a história do contrabando. Como Filinto anda metido em problemas muito piores que os de Bejo, você o aconselha a suspender as investigação. Pode até fingir que elas vão continuar, mas sem chegar a qualquer resultado. Data e assinatura: capitão Felisberto Baptista Teixeira, diretor da DOPS e da Polícia Secreta do Distrito Federal."

"Se fizer isso estarei encerrando minha carreira", reclamou o policial. 

"Se não fizer, vai se despedir da vidinha que leva", ameaçou Gregório, dando um soco no mais temido carrasco da ditadura Vargas.

O homem pôs-se a escrever, enquanto um filete de sangue escorria-lhe da boca, manchando-lhe a camisa. Gregório leu o bilhete, o capitão fez um movimento rápido, pressionando-lhe o braço. Escutou-se um disparo, a bala alojou-se na perna direita do policial, altura do joelho. Felisberto foi brutalmente empurrado para o banco do carona, Gregório ligou o motor e engrenou a marcha, arrancando violentamente.

Dois dias depois o DIP apresentou sua versão da tentativa de assassinato sofrida pelo chefe da DOPS. Responsabilizou elementos da oposição mancomunados com ex-integralistas. Inúmeras prisões foram feitas e os suspeitos enfrentaram a tortura para dizer o que não sabiam.

Ao tomar conhecimento do procedimento de Gregório, Bejo mostrou-se bastante alegre. Lia e relia o bilhete. Agora, por mais que desejassem implicá-lo no contrabando, tinha um salvo-conduto que, na hora certa, levaria ao conhecimento do próprio Filinto. O Nego explicou que, provavelmente, Felisberto ficaria manco da perna direita.

"Atirei no joelho do safado, quando ele tentou me tomar a arma."

"Sabe o que acho?! Mais adiante, dependendo do andar da carruagem, deves é meter uma bala na cabeça dele e outra na do patife do Filinto", resmungou Bejo.

"O que tá havendo?"

"Enturmado com Góes, Dutra, Zenóbio e Eduardo Gomes, ele anda tramando a derrubada de Getúlio, que é esperto, mas dessa vez a coisa tem um componente diferente. Parece que o povão cansou da ditadura. A oposição nega que o mano seja o "pai dos pobres", pois operário não pode fazer greve e os sindicados estão atrelados ao Estado. O atrelamento foi possível  com a criação do imposto sindical, fonte de corrupção de toda uma cambada de pelegos. Desde o o começo eu avisei. A jogada seria de alto risco, mas o mesmo não levou a sério o que eu disse. Getúlio tem a mania de achar que só ele sabe das coisas", queixou-se Bejo.

"Até os oficiais da FEB tão pedindo o fim do regime", disse Gregório.


General Góes Monteiro
"Aposto que a inquietação militar vem sendo orquestrada pelo Góes Monteiro, com o apoio de Eduardo Gomes. Qualquer hora dessa esquecerá seu nazismo e fará o discurso da redemocratização do país, defenderá eleições livres e anistia para os presos políticos"

Nesse mesmo conturbado 1944, o DIP já distribuía, no Distrito Federal e em São Paulo enormes cartazes, apelando para o "queremismo".

Nós queremos GETÚLIO
Porque Getúlio representa o bem do Brasil;
Porque Getúlio fez de um país grande uma grande potência;
Porque Getúlio soube dirigir e resguardar o Brasil na fase mais tormentosa que a humanidade passou;
Porque Getúlio é um gênio político de que o Brasil se orgulha e o brasileiro se envaidece;
Porque Getúlio é um homem do povo e porque Getúlio tem bom coração;
Porque Getúlio só tem compromissos com os homens que trabalham e por eles é estimado;
Porque os políticos não gostam de Getúlio;
Porque os gananciosos exploradores do povo e os homens do câmbio negro querem afastar Getúlio;
Porque antes de Getúlio o trabalhador, o vagabundo e o criminoso se confundiam no mesmo caso de polícia;
Porque Getúlio viu que o trabalhador tinha deveres e lhe deu direitos; tinha família e lhe deu assistência; tinha fome e lhe deu pão; estava doente e lhe deu hospital; que ficava velho e lhe deu aposentadoria; que morria e lhe garantiu a família; que o trabalhador tinha filho e lhe deu escola; que o operário era homem e lhe deu a mão. Enfim, Getúlio viu que o trabalhador era gente e lhe deu uma situação na sociedade.
É por isso que
NÓS QUEREMOS GETÚLIO

Gregório retornou tarde à sede da Guarda. ...

(do livro "O Anjo da Fidelidade", de José Louzeiro)

Continua ... 

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