sexta-feira, 14 de outubro de 2016

GREGÓRIO Fortunato

Espionagem nos anos 1940


NOS IDOS de 40, setores da comunidade de informações dos Estados Unidos mantinham sua atenção voltada para o Brasil. Inquietavam-se com a dubiedade do presidente Vargas diante da agressividade nazista. As preocupações tinham, inclusive, razões geopolíticas, pois o Nordeste constituía ponte importante para chegar à África.

Os agentes norte-americanos passaram a infiltrar-se em território nacional a partir do momento em que as informações do Estado Novo, que chegavam ao presidente Franklin Roosevelt, deixaram de ser confiáveis e Vargas insistia em elogiar, publicamente, o regime político alemão.

Por isso, em certo momento, as autoridades do governo brasileiro - principalmente aquelas que eram nitidamente pró-Alemanha nazista - começaram a temer uma invasão norte-americana. Para agravar a situação, já havia nessa época, no sul do país, quase um milhão de alemães e seus descendentes, muitos desenvolvendo atividades pró-Eixo.


... Roosevelt passou a manter encontros pessoais com Vargas,
 a quem fazia os maiores elogios...

Quando a dubiedade Vargas adquiriu foros de ameaça, no entender dos comandantes aliados, o presidente Franklin Roosevelt movimentou a diplomacia e a política internacional - com atraentes empréstimos - e intensificou os programas culturais, tudo com o objetivo de seduzir o ditador. Além disso, passou a manter encontros pessoais com Vargas, a quem fazia os maiores elogios, embora Gegê continuasse a exastar o nazismo e a orientar o irmão Bejo e Gregório a ficarem de olho na movimentação dos espiões.


Disse o Nego a se filho Abel que nunca o presidente lhe parecera com tanta disposição. Orgulhava-se de que o Brasil fosse uma pedra importante no complicado tabuleiro da guerra que apavorava o mundo.

No bojo dos programas de cooperação propostos por Roosevelt vieram mais agentes, e infiltraram-se em pontos estratégicos do território nacional com um só objetivo: recolher notícias reais sobre a situação de Vargas e de seus auxiliares. Nessa época Gregório e Bejo fizeram inúmeras viagens pelos estados do Nordeste, especialmente Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Bahia.

Os informes da espionagem eram classificados pelos chefes do Strategic Services em três categorias: restricted, confidential e secret. Todos esses documentos, como é de praxe nos EUA, foram abertos à consulta nos primeiros anos da década de 70. Os comunicados de Bejo e de Gregório, ao contrário, volatilizavam-se no pé do ouvido do chefe. Através de seus emissário de confiança, Getúlio ficava sabendo da ação dos agentes americanos e do comportamento dos interventores estaduais em relação ao regime hitlerista.


A censura, sob o comando de Lourival Fontes,
imperava sobre jornais e emissoras de rádio

Os relatórios elaborados com tanto cuidado pelos espiões de Roosevelt não relatavam mais do que os brasileiros esclarecidos sabiam, ainda que a censura, liderada por Lourival Fontes, imperasse sobre os jornais e as emissoras de rádio.

No mais sigiloso deles, intitulado O Brasil e a Defesa do Nordeste, o Itamarati é apontado como sendo favorável aos Estados Unidos, enquanto os oficiais do Exército são citados como fundamentalmente pró-nazistas. Com relação a Getúlio, a avaliação é bem correta: os agentes concluíram que ele simplesmente "jogava o quanto podia", a fim de manter-se no poder. Mas quanto "se convence de que um movimento popular reúne força suficiente para ameaçar a estabilidade de seu governo, ele costuma cooptar as suas propostas... Em outras palavras: podemos contar com o apoio de Vargas aos Estados Unidos enquanto este for o desejo da maioria das pessoas das quais depende para manter sua posição".

O discurso de Gegê, que muito preocupou Franklin Roosevelt, é aqui relembrado pelo general Góes Monteiro, conforme consta do livro de Lourival Coutinho:

"A 11 de junho de 1940, Dia de Riachuelo, a Marinha de Guerra, entre as suas comemorações habituais, promoveu um grande almoço a bordo do Minas Gerais, então capitânia da Esquadra, no qual tomaram parte generais e almirantes, sendo convidado de honra o presidente Getúlio Vargas.

"No convés do navio, à hora do coquetel, o ministro da Marinha, almirante Guilhem, convidou os visitantes a percorrerem o encouraçado. Escusei-me devido ao meu estado de saúde. O presidente Getúlio chamou-me reservadamente a um canto e entregou-me a cópia do discursos que ia ler, a fim de que, enquanto se realizava o passeio a bordo, eu tomasse conhecimento do seu texto, o que fiz; e quando o chefe da Nação voltou ao convés perguntou minha opinião.

"Respondi que seu discurso estava bem composto mas, tratando-se de uma oração a ser proferida por um chefe de Estado, era preciso ter cautela com as explorações pois, naquele momento, a França acabava de ser esmagada pela Alemanha e o que ele dizia no discurso poderia ser interpretado como uma aprovação ou regozijo pela vitória teutônica, tanto mais que, dois dias antes, o presidente Roosevelt havia proferido um discurso, em Washington, em sentido oposto e, deste modo, o do presidente Getúlio poderia ser interpretado ainda como uma resposta ao presidente dos Estados Unidos. E isso era, positivamente, desaconselhável quando os dois países se encontravam nas melhores relações de amizade e concordes na maneira de procederem quanto à guerra e os seus resultados.

"Em face das minhas ponderações, o presidente sorriu um pouco contrafeito e pediu-me para assinalar os pontos que, no meu entender, não deviam constar do seu discurso como chefe de Estado. Logo o fiz, tendo ele me pedido ainda para recomendar ao general Pinto, chefe do Gabinete Militar, e aos funcionários encarregados da publicidade do governo, a parte por mim censurada e que não deveria vir a público.

"Mas, obstinadamente, o presidente acrescentou: 'Na mesa, lerei o discurso na íntegra, para ser ouvido pelos oficiais-generais das Forças Armadas. É necessário sacudir com força a árvore a fim de caírem as folhas secas...' E assim, foi lido o famoso discurso mas, com surpresa minha, foi também todo ele publicado, sem censura, nas edições dos jornais do dia seguinte."

No capítulo do livro de Lourival Coutinho - páginas 375 e 376 - o general queixa-se das desobediências de Getúlio, que nunca seguia sua orientação, nem a de ninguém. Procurava sondar as opiniões mais diversas, muitas vezes até as de Bejo e Gregório Fortunato, mas, em geral, punha em prática seu projeto original. 


Certa vez, indagado sobre isso por sua filha Alzira Vargas, respondeu que "sondar opiniões é uma coisa, curvar-se a elas é outra bem diferente". Alzira insistiu em saber por que então fazia as consultas, e o pai acrescentou: "Dessa forma fico sabendo se ainda estou realmente lúcido na condução dos negócios do Estado ou se já fiquei esclerosado e é hora de voltar a Itu, percorrer as coxilhas a cavalo, tomar chimarrão, satisfeito por ter feito o que achei que era possível e até impossível por este país. E só não avançamos como pretendia por causa de meus críticos que sempre pensaram mais nas suas posições, nos seus cargos, que nos interesses da nação."

Segundo Abel, um dia Gregório ouviu do presidente o seguinte desabafo, quando subiam de carro para Petrópolis: "Nosso Góes Monteiro, por ser um recalcado, sempre de mal com a vida, aponta-me como sendo portador de graves defeitos. Diz inclusive que sou um complexado..."

Gregório quis saber o propósito das críticas do general e Getúlio explicou que as razões fundamentais eram duas: a primeira, por causa da criação da Guarda Pessoal, que ele, Góes, desejava fosse integrada por militares. O segundo ponto de atrito: a criação do Ministério da Aeronáutica, como força desligada do Exército e da Marinha.

"Por isso ele acha", comentou Getúlio, "que estou manobrando para enfraquecer as forças armadas, quando meu objetivo é exatamente o contrário, e ele não consegue entender, pois desejaria, isto sim, ser o chefe-geral do conjunto de forças, o que não passa de excesso de megalomania."

Gregório, que não perdia a chance de manifestar-se, lembrou:

"Fosse a Guarda Pessoal composta por militares, daqueles que o Dutra comandava, o presidente teria sido massacrado, como os integralistas ameaçaram fazer. É estranho que Góes Monteiro se esqueça desse dado!"
Gregório Fortunato, o "anjo negro", não perdia
 a chance de se manifestar...
A afirmação do general, que suscitou os comentários de Getúlio e as considerações do homem que lhe dedicava absoluta fidelidade, foi  a seguinte:

"(...) Ficou também combinado, entre outras coisas, que no começo do ano seguinte (1941) os norte-americanos enviariam ao Brasil, em caráter oficioso, um grupo de oficiais de Estado-Maior para estudarem com os oficiais brasileiros os planos de defesa do litoral e as formas de cooperação entre os dois países, ajustadas segundo as circunstâncias supervenientes.

"Logo depois do meu regresso ao Brasil, foi criado o Ministério da Aeronáutica, tendo sido nomeado primeiro titular o sr. Salgado Filho. Aproveitaram-se da minha ausência para acelerar esse empreendimento, pois o meu parecer a respeito era restritivo; era para a organização gradual e não ex abrupto, como fora feita.

"Mas, entre os complexos do presidente Getúlio, o da espada era invencível, e embora procurasse ele escondê-lo, empregava todos os meios para manter enfraquecidas ou divididas as forças armadas, agindo em relação a elas como se fossem um corpo político ou um partido.

"Tive longas discussões com ele a esse respeito, sem conseguir, contudo, dissuadi-lo, pois se aferrava sempre à negativa. Mas, de fato, o que pretendia, separando a Aeronáutica do Exército e da Marinha, era enfraquecer as forças armadas - mal que lhe haveria de custar caro..."

(José Louzeiro no livro  "O Anjo da Fidelidade")


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