quinta-feira, 6 de outubro de 2016

GREGÓRIO Fortunato

E o contrabando de 800 milhões de cruzeiros


Continuação da postagem de 04out.2016


GREGÓRIO retornou tarde à sede da Guarda. Reuniu-se com Américo e Corrêa, ex-agentes de Filinto Müller. Queria saber a respeito das pesquisas que vinham fazendo em torno do ex-chefe e dos jornalistas Samuel Wainer, que dirigia a revista "Diretrizes", e de Carlos Lacerda, orador exaltado, já expulso do Partido Comunista, no que os condutores da DOPS não acreditavam. Para eles, tratava-se de simples manobra de Luiz Carlos Prestes.


Corrêa, o primeiro a se manifestar, disse que "Diretrizes" continuava sendo previamente submetida à censura, mas do seu conselho diretor participavam notórios comunistas como Astrogildo Pereira, um dos fundadores do PCB, e Graciliano Ramos, que fazia duras críticas ao regime Vargas. Entre os colaboradores também estavam a poeta Adalgisa Nery, mulher de Lourival Fontes, Aníbal Machado e José Lins do Rêgo.
Lourival Fontes e Filinto Müller

Garantia o agente que Wainer não era filiado ao PCB, mas sem dúvida que se colocava como simpatizante, e "Diretrizes" figurava como veículo importante de divulgação da doutrina marxista no país. Especialista que fora na "caça aos comunistas", Corrêa via em Wainer "um elemento altamente pernicioso pois, não sendo propriamente comunista, promovia muito mais o regime dos vermelhos que qualquer adepto de carteirinha e, por certo, constava do livro de ativistas classe "A" dos chefões russos.

"E o Filinto, onde entra nisso?", quis saber Gregório.
"Fica sem poder apertar o pessoal da revista, por causa da Adalgisa Nery e do Azevedo Amaral. A escritora é casada com Lourival Fontes e amiga de Getúlio. O Amaral é o comentarista internacional que Vagas costuma ler. Além disso, durante o tempo em que estive na DOPS, tinha estreitas relações com a gente. Nunca ouvi dele uma só palavra de apoio ao regime russo."

"Não sei com que artes Samuel Wainer conseguiu convencer Azevedo Amaral a publicar a série de reportagens sobre a guerra civil na Espanha", disse Américo. "E o que disse terminou por contrariar quase tudo que a imprensa já havia noticiado. E sabem por quê? As matérias foram editadas pelo comunista pernambucano Octávio Malta, que veio do Recife para juntar-se aos comunas do Distrito Federal. Em 1932 chefiou uma greve de jornalistas e logo depois assumiu as funções de secretário-geral de "A Manhã", órgão de esquerda. Agora, é o editorialista de "Diretrizes", e o Filinto não pode pegá-lo, porque Adalgisa e Azevedo Amaral o defendem como grande jornalista, "orgulho da nossa imprensa", dizem eles."


Samuel Wainer


"Sabe o que acho, tenente Gregório?", acentuou Corrêa um tanto nervoso. "Mais de esquerda que os comunistas são Adalgisa Nery, Azevedo Amaral, Zé Lins do Rego, Aníbal Machado e todos os outros intelectuais que, não sendo comunas, dão cobertura aos que trabalham para incendiar o país. O Wainer, por exemplo, é um marxista dos diabos e, em princípio, ninguém pode enquadrá-lo. A revista dele passa pelos censores do DIP e acaba circulando exatamente como eles querem. É nas entrelinhas que contam as histórias pra "fazer a cabeça" dos trabalhadores."


Adalgisa Nery


"Será que Filinto deixa "Diretrizes" circular com o objetivo de desestabilizar o governo? Já escutei o coronel Bejo falar dessa possibilidade", comentou Gregório.

"É por aí!", considerou Corrêa. "Filinto, Góes e Dutra encaram a política como negócio. Quanto mais rendimentos obtiverem, tanto melhor. No momento, só quem tem a perder é o presidente."

"Por quê? Farejou alguma coisa nesse sentido?", indagou Gregório.

"Numa última conversa que tive com o Filinto, ele parecia bem exaltado e dizia que, fosse político, chamaria Carlos Lacerda para integrar o governo. Apontava duas razões: tratava-se de um jovem brilhante e tinha sido expulso do PCB. Chegou a me dizer que falara da proposta com o coronel Bejo, mas parece que este não achou prudente levá-la ao conhecimento do dr. Getúlio.", completou Corrêa.

"A coisa parece maluca", argumentou Américo, "mas se o presidente tivesse atraído Lacerda, a essa altura o panorama poderia ser outro, bem diferente. Já escutei o cabra falando em público umas três vezes. Nenhum outro orador que conheço chega perto. Discursa com tal convicção que até as mentiras que diz parecem verdades!"


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Quando os agentes se foram, Gregório abriu seu caderno de anotações e, recordando-se dos tempos em que aprendera a ler e a escrever, ajudado por dona Cândida, pôs-se a fazer anotações relativas ao que escutara. Casado, adormeceu na cadeira e despertou com alguém que o chamava. Era Abel. tinha uma carta a entregar-lhe.

Abriu o envelope, logo reconheceu a letra de Ozídia. Ela fazia o comunicado do seu casamento com o maestro José Israel de Oliveira, com quem já vivia há cinco anos e tinha três filhas: Cida, Maria José e Teresa. Dizia, também, ter voltado para Monte Azul, onde o maestro trabalhava. Mais adiante advertia: se não estivesse satisfeito com Abel, que o mandasse de volta para casa. Terminava a carta ressaltando que ela e o marido davam-se muito bem.

"O que diz a mãe?"

"Casou-se com um maestro, tá feliz, se você quiser pode voltar a viver na companhia dela."

"Quer que eu vá? Não tá gostando que eu fique perto de você?". 

Gregório abraçou o garoto.

"Claro. Quero mais é que fique. Complete o ginásio, faça o científico, entre pra faculdade. Estude pra ser doutor. Não siga o exemplo de seu pai. Ocupo funções até importantes por uma questão de sorte. Não fosse o Bejo, acabaria como Gedeão e Gonzaga, que nunca foram lembrados".

"Quem eram eles? Seus amigos?"

"Garotos, como eu, lá na estância de Santos Reis. Filhos de peão e de empregadas domésticas, como sua avó, dona Nica, cozinheira de mão cheia. Seu avô - pau pra toda obra - morreu apostemado, depois que recebeu o coice de um boi e os estancieiros pouco se incomodaram com isso. Gedeão e Gonzaga tinham a função de distrair o moço Getúlio. Quando ia pra escola, Gedeão levava a bolsa com os livros. Se chovia, segurava o guarda-chuva. Gonzaga participava das brincadeiras pelos matos e inventava instrumentos musicais."

"E pra onde eles foram? Não eram amigos do presidente?"

"O presidente tem muito o que fazer, não pode ficar lembrando de amizades antigas, de coisas da infância. O que passou, passou. A ele só interessa o futuro, e amim cabe lhe dar cobertura. Na verdade sou um continuador do que faziam Gedeão e Gonzaga. Vivo armando esquemas, arriscando a vida, cada vez que ele sai do palácio."

"Sabe quanto tirei, hoje, na composição que fiz na escola?"

"Quanto?"

"Dez. A professora pediu pra escrever sobre o Palácio do Catete. Falei das pessoas que conheço, de você e do presidente. Só houve um problema."

"O que foi?"

"Uns coleguinhas acham que sou mentiroso, não moro no Catete."

"Não dê importância ao que dizem. Aprenda a se manter em paz com sua consciência. Pela vida afora muitos aparecerão pra criticar. Tape os ouvido e vá em frente. Com dr. Getúlio aprendi uma lição: meta-se no seu canto, seja você mesmo, cultive sua personalidade." 

(do livro "O Anjo da Fidelidade", de José Louzeiro)

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