sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O SANGRADOR de onças

Continuação da postagem de 05out2016


VAMOS ver até aonde essa lorota vai. Era o que provavelmente pensava meu pai. Presumo isso pela expressão de seus olhos, que encaravam os do velho Damião.

"Como se virou com a onça, seu Damião?"

"Lembrei-me do chapéu, lembrei primeiro da faca. Era preciso pensar rápido. A faca... o chapéu... Por que não?! O chapéu na mão esquerda, a faca na direita. O gatinho se aproximou de mim, com certeza já de água na boca diante do almoço inesperado." 

É provável que o leitor esteja pensando que o velho fazia suspense para ganhar tempo, pensando em que desfecho daria ao caso de forma a resultar num final feliz. Meu pai talvez assim pensasse também. Mas não era o caso, velho Damião já contara o mesmo causo dezenas, talvez até mais de uma centena de vezes, tendo de cabeça cada palavra do enredo. Eu quero convencer-me de que o prolongamento era devido à refeição que ainda não chegara de todo à mesa, e o desfecho coincidiria com a última garfada. Cá pra nós: é possível que por meia dúzia de dias ou mais o homem não estivesse à frente de uma refeição tão suculenta quanto a que minha família lhe proporcionava então. Tudo de caso pensado.

"Deixe de mistério, homem. Como se virou?"

"Como o senhor é impaciente, seu Duca! A gente nem pode fazer um pouco de mistério. Tá bem, vou direto ao ponto. Como me virei."

"Sim. Como se virou?"

"Num lance de extraordinária rapidez, que só o instinto de sobrevivência e a providência divina podem explicar, lancei o chapéu na cara da onça, pegando-a de surpresa com a minha ação. Ela, atarantada por conta da falta de visão, levantou as patas dianteiras meio que desesperada. Ato contínuo, levei com toda a minha força – não esqueça que eu era um homem novo nesse tempo – a faca ao sovaco da onça. Foi um golpe certeiro."

"Essa não! O senhor tá dizendo que esfaqueou o sovaco da onça?"

"Isso mesmo."

"Com essa faquinha aí?"

"Com esta faquinha aqui."

"Eu nunca vi uma onça, seu Damião, mas já vi dizer que couro de onça é duro."

"Sei que o senhor duvida de mim, seu Duca. O senhor tem lá a sua razão em duvidar de semelhante história, pois quantos mentirosos já não sentaram a esta mesa desfrutando da sua hospitalidade. Mas eu fico triste com essa dúvida do amigo, que está a me considerar iguais aos outros. Mas me responda uma coisa: como o sapateiro corta o couro curtido, se não é com uma faca comum, mas bastante afiada, afiada igual a esta aqui. Esqueci-lhe de dizer que naquele tempo eu também me virava como sapateiro. Não, não estou contando para gabar minha valentia. Como lhe disse, atuou em mim o mero instinto de sobrevivência: era ela ou eu."

Desse causo da onça jamais me esqueci.


"QUANDO chover no seu desfile, olhe para cima e não para baixo. Sem a chuva não existiria o arco-íris." Gilbert Keith Cherteston


LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo!  (BLOGUE do Valentim em 25out2011) 

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