domingo, 16 de outubro de 2016

REGINA Maura

QUANDO se encontrava no auge a luta na Assembleia pelo impeachmant do general Flores da Cunha, apareceu em Porto Alegre a companhia de teatro do Procópio Ferreira. As companhias do Rio de Janeiro costumavam percorrer anualmente as principais cidades do Rio Grande, depois de uma longa temporada em Porto Alegre. Procópio era um português baixinho, de um metro e cinquenta e poucos centímetros de altura, e feio. Mas como ator era razoável. Sua mulher, Regina Maura, cujo verdadeiro nome é Conceição Santa Maria, era a primeira atriz. Igualava mais ou menos em idade com a filha do marido, que também fazia parte do elenco. As duas teriam uns vinte anos. Procópio devia ter mais do que o dobro da idade delas.
Procópio Ferreira

Falavam que a Regina Maura era amante do general Flores da Cunha. O povo ouvira cantara o galo, mas não sabia onde. Ela não era amante do general, mas de um amigo dele, o Bozano, irmão daquele coronel Bozano que morreu no combate de Ijuí, lutando contra o Prestes em 1926. Um florista, amigo do Bozano, que conhecia a ligação dele com a mulher do Procópio, explica:
Falavam que Regina Maura era 
amante do general Flores da Cunha...

"Ela passava o tempo todo se fresqueando com o Bozano do palco. Ele estava sempre no camarote do general, lhe fazendo companhia. Daí surgiu a desconfiança no povo que ela fosse amante dele. Mas não, era do Bozano. Bozano tinha servido nas forças do Neca Neto e recebera um tiro na boca no combate do Passo Mendonça. Ficou com a boca torta. Mas isso não impedia de cortejar as mulheres. Pelo contrário, parece até que o estimulava, e era bem recebido por elas.


O local dos encontros amorosos era o clássico Grande Hotel, onde se hospedavam também políticos e estancieiros. Procópio Ferreira, Regina Maura e os principais atores e atrizes da companhia estavam hospedados no mesmo hotel, de sorte que tudo podia ser resolvido lá mesmo, sem a necessidade de sair. A temporada da companhia em Porto Alegre fora um sucesso, sob todos os aspectos. As mulheres eram bonitas, e embora o público da cidade fosse tido como exigente, os homens em geral não era e nem exigiam mais do que isso. Após a segunda sessão da noite, as coristas e as atrizes espalhavam-se pelos cabarés do centro da cidade, especialmente "Os Caçadores", onde os deputados buscavam os justo repouso dos trabalhos legislativos.

Na segunda semana de sucessos ininterruptos no Coliseu, surgiu um pequeno contratempo. A sessão marcada para as oito e meia estava com meia hora de atraso. Ninguém da plateia se preocupava muito com isso. Mas, às nove e meia, como não via sinais de iniciar o espetáculo, o público começou a se mexer nas poltronas e indagar sobre o que podia estar acontecendo. O general Flores da Cunha encontrava-se num dos camarotes do teatro, mas não demonstrou nenhuma aflição pelo atraso. Talvez imaginasse o que podia estar ocorrendo.

De um momento para outro, tudo ficou esclarecido. Ouviram-se rumores atrás do pano, seguidos de gritos de mulher e homem, derrubada de cadeiras etc. Como era dia de estreia de uma nova peça, julgou-se, a princípio, que aquela barulheira fizesse parte da encenação, introduzida por algum autor revolucionário. Mas logo apareceu numa extremidade do palco, na frente do pano, a primeira atriz Regina Maura, escabelada, com os olhos arregaladíssimos; e atrás dela, tentando acertar-lhe uns tapas e ponta-pés, o ator Procópio Ferreira, que gritava:


"Marafona! Cadela! Vagabunda! Puta!..."


Aquilo não podia de modo nenhum fazer parte da peça, por mais revolucionário que fosse. O público mostrava-se aflito. Ocorreram mais duas ou três passagens pela frente do pano: a mulher sempre perseguida pelo Procópio acertando e errando tapas, e chamando-lhe por outros sinônimos, agora seguido de toda a companhia, que procurava contê-lo. O português estava aplicando uma tremenda sova na mulher. Ele deveria ter descoberto as suas traições. O público rompeu em grandes gargalhadas. O Bozano estava no camarote do general, que se mantinha imperturbável. Aquela noite não houve função. Apareceu um ator que se desculpou com o público, explicando que o dinheiro das entradas estava à disposição nas bilheterias. 


Passados alguns meses, Bozano telegrafou para Regina, que morava em São Paulo, dizendo que tinha tirado a sorte grande na loteria. Ela respondeu no mesmo dia: "Não faz nada antes de eu chegar aí". Veio. O Bozano não tinha tirado nenhuma loteria. Bozano é o pai do proprietário do laboratório Bozano.


Este incidente pôs em funcionamento não se sabe que mecanismo psíquico, que terminou afetando de algum modo a mente da filha do Procópio. Ela adquiriu uma ojeriza pelo Rio Grande. Todas as vezes que contratavam para um espetáculo em Porto Alegre, tomava uma bebedeira tão grande que ficava impossibilitada de subir ao palco. Sobrevinham as cenas degradantes do devolve-não-devolve o dinheiro, pago adiantado. Isso deve ter se repetido umas três ou quatro vezes.


A situação agravou-se no enterro do Procópio, em 1976 ou 1977.  Ao fazer o seu elogio fúnebre, ela talvez tenha achado que o público presente era grande e aproveitou para exaltar a bravura do pai. Declarou que ele uma determinada ocasião dissera "certas verdades" ao general Flores da Cunha, quando este era interventor do Rio Grande.


"Ele não disse nenhuma verdade ao general Flores da Cunha", observou um florista que acabava de ler a notícia num jornal. O velho Procópio nunca disse verdades a ninguém. Nem tinha verdades a dizer. Um ator não diz verdades a um homem que dispõe de uma força militar de cem mil soldados bem armados. Só os profetas fazem isso. Eles sim, dizem verdades aos poderosos.


Regina Maura abandonou o teatro e elegeu-se, mais tarde, com o seu verdadeiro nome de Conceição Santa maria, deputada pelo PTB em São Paulo.



(Rubens Vidal Araújo no livro "Os Vargas")

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