segunda-feira, 7 de novembro de 2016

BLOGUE do Valentim há 5 anos!

Chico Damião e a sorte de cada um


NAQUELE domingo o relógio dava onze e meia, e eis que ao longe um vulto se destaca no caminho. Por curiosidade ficava eu ali, à medida que o homem se aproximava de casa, querendo adivinhar quem era. Somente quando se aproximou um pouco mais é que pude identificar a quem pertencia a figura que nos visitava naquele domingo.

 O velho Damião! O velho Damião tá chegando!  gritei eu, alvoroçado e faceiro com a expectativa de boas risadas.

O suculento guisado de preguiça real que minha mãe preparava estava quase a ponto de ser servido quando seu Chico Damião, logo após cumprimentar a todos nós, sentou à mesa. Fui, como era costume quando tínhamos visita, a um olhar de meu pai, buscar a garrafa de Cinzano lá no alto do armário da cozinha.

A conversa fluía divertida entre meu pai e o velho, como sempre, e nós – eu e meus irmãos menores – fazíamos todo o esforço para não perdermos uma só palavra. Era certo que muitas coisas do que confabulavam os adultos não estavam ao nível de nossa mente, ainda tão rasa naquela infância quase adolescente. Todavia, procurávamos suprir a lacuna que a vida ainda viria a preencher com perguntas ao velho, que fazíamos nos dias seguintes entre uma e outra enxadada. Nem todas meu pai sabia responder com objetividade, embora se esforçasse para que não ficasse na cabeça daquele menino de onze anos a menor dúvida, considerando a sua pouca idade.


Começavam falando sobre a nuvem forte que se formava e que prometia chuva para a tarde. De repente, a conversa mudava de rumo, e passaram a falar sobre a vida, o trabalho e a sorte de cada um, de cada família, e até mesmo de cada nação. Por que uns já nascem ricos, muitos nascem pobres, alguns ficam ricos e outros, embora trabalhem de sol a sol, jamais cheguem à prosperidade sonhada. Outros, por ser sua sorte ou por outras razões que a vida não explica, acabam por alcançar melhor sorte, gozando a farta o conforto e tudo o mais que o dinheiro pode dar, enquanto a grande maioria morre à míngua. O mesmo ocorria com as cidades e os países.

 Seu Damião, por que o trabalhador não se dá bem na vida?
 Ora, seu Duca, essa é uma questão não tão simples. Primeiro que a sua pergunta, assim tão genérica, não é uma regra geral.
 Como? Explique melhor.
 Depende de que tipo de trabalho. O trabalho aqui da roça, do colono pobre, que usa a enxada, o machado e o facão, esse trabalho rende só o suficiente  e às vezes nem isso  para o próprio sustento de cada um e de sua família. A maioria não tem terra, e é obrigado a trabalhar de meia, de forma que metade do que produz tem de ser dada ao dono da terra.
 É. Alguns dizem que é um castigo de Deus aos homens pelo pecado.
 De fato, na Bíblia está assim. O plano inicial de Deus, ao criar a humanidade, era o paraíso. Não haveria ao ser humano a necessidade de comer, de beber e tudo o mais. Nem precisava se vestir. Se não havia fome ou nenhuma outra necessidade, também para quê trabalhar?
 Mas...
 Mas aí veio a desobediência. O homem passou a ser mortal, passou a ter fome, sede, necessidades. Daí precisar trabalhar para prover o seu sustento e da sua família. Depois alguém passou a ter excedentes, e o que fazer com o excedente? Vender. Então surgiu o dinheiro. E aí quem tinha mais dinheiro, além de ter mais conforto, se sentia mais poderoso. E assim por diante.

Aquele cheiro gostoso da preguiça real dava água na boca, atiçando mais a fome do horário, o que não reduzia a capacidade verbal e, por vezes, imaginativa do velho Chico Damião, que, com sua voz fanha, produzia um quê de humor às suas teses.

 Tem gente que pensa no trabalho como castigo. De fato, é duro acordar antes do raiar do sol, trabalhar até o poente, e no final receber tão pouco. Mas ainda assim, pensamos ser uma graça de Deus ainda termos disposição e saúde pra trabalhar. Tem gente que não tem nem isso.
 O senhor falou bem, seu Duca. Disposição é uma coisa que nem todos têm. Mas como o mundo é injusto! Veja só as pessoas preguiçosas  para lembrar o prato que daqui a alguns minutos dona Maria irá servir-nos.  Eu lhe pergunto agora: quem pode neste mundo se dar melhor na vida, o trabalhador ou o preguiçoso?
 Ué, só pode ser o trabalhador.
 Errado, seu Duca. O preguiçoso se dá melhor. 

Tenho cá pra mim que qualquer resposta que meu pai desse ao velho, este optaria pela outra, já tendo de cabeça um argumento pronto.

– O senhor me desconserta. Explique melhor, seu Damião.

– Por exemplo, duma família aqui na roça nascem dois irmãos. Um é trabalhador; o outro, preguiçoso. O que é trabalhador vai trabalhar a vida inteira aqui na roça; o outro, vai pra cidade, vai dirigir automóvel, botar uma taberna ou até mesmo aprender a bater à máquina e arranjar um emprego engravatado num escritório. O primeiro vai morrer pobre, vai ter muitos filhos pra lhe ajudarem na roça, seus filhos também vão seguir o mesmo rumo; o irmão vai ganhar um salário maior, quando muito vai ter dois ou três filhos. Este último é que no final, não vai dar murro em ponta de faca igual o primeiro, e vai viver no conforto e, até mesmo, conseguir ficar rico ou remediado.
 É verdade. E o mundo não valoriza o agricultor.
 Devia ser o contrário. Todo mundo valoriza o doutor, mas olha com desprezo o lavrador, que não teve tempo pra estudar. O que aconteceria se todos fossem pra cidade, deixando de plantar e colher?
 Não tinha pensado nisso, seu Damião. Mas, pensando agora, acho que ia faltar comida.
 Isso mesmo. Então, sem o colono, que planta e colhe ou que cria, o mundo ia morrer de fome.
 É tudo ao contrário. Ninguém dá valor a quem produz. E onde está Deus, seu Damião, que não vê essas injustiças?
 Deus é bondade, seu Duca, e essas coisas só acontecem por conta do pecado humano, que eu falei no início da nossa conversa.
 Deus está em toda parte?
 Deus está em cada um de nós, mas ele impõe uma condição...
 Qual?
 Que a gente o aceite. Que a gente abra nosso coração pra Ele entrar. Olhe só: tem gente que afasta Deus da sua vida, e ele não entra na vida de quem o rejeita.
 Como pode isso?
 Vou lhe explicar. Tem uma festa dançante, cerveja, cachaça, mulheres bonitas. Aí, sem que se perceba, há uma tendência à disputa, à vaidade, um querendo ser mais bonito que os outros; uns querendo atrair a atenção da mulherada mais que os outros; alguns querendo ser mais dançador que o outro. Agora, como cada um é diferente do outro, vai ter aqueles que são mais extrovertidos, vai ter aqueles que são mais tímidos. Como conquistar a mulher? Cadê a coragem pra pedir a moça em dança? Essas coisas. Aí o sujeito pede uma cerveja, bebe. Pede outra, bebe. Daí a pouco já criou coragem, vira um grande dançador. Os outros também a mesma coisa, e em uma hora ou duas, tá todo mundo doidão. Quando se bebe, tem gente que muda de comportamento. Uns ficam alegres, outros ficam emotivos e choram, tem daqueles que ficam viris, ficando mais macho que os outros...
 Tem até os que desmunhecam! Mas continue.
 É verdade. E tem até os que já vão ao baile armados. Com faca ou até mesmo um trabuco velho. Então acontece de alguém encostar nele ou, pior, na mulher com quem ele tá dançando. Aí pronto, é o suficiente pra ele  até pra mostrar pra moça que ele não é frouxo  vai tirar satisfação com o caboclo.
 Já vi onde o senhor quer chegar. Começa uma briga, não é?
 Começa uma briga. Logo no início é um empurrão, aí vem um soco e depois chute. Mas um é mais forte que o outro, e então esse outro, pra não ficar em desvantagem  é feio apanhar , tira uma faca. Nessa altura, outros também entraram na briga, uns a favor de um, e alguns tomando partido do outro homem. Aí é bala, cadeirada, faca, soco e tudo o mais.
 Uma confusão generalizada, que ninguém sabe mais como tudo começou. Mas acho que o amigo se esqueceu da minha pergunta.
 Esqueci não. No meio muita gente grita: “Ai, meu Deus! Ai, minha Nossa Senhora!”. Ali não tem Deus nem Nossa Senhora. É só faca e bala.
 Entendi.  Ninguém convidou Deus pra festa. 
 É verdade, as pessoas afastam Deus pois seu coração está tomado de vaidade, inveja, rancor, pré-disposição pra fazer o mal e tudo que é pecado. Aí é briga, morte e tudo o mais. Deus não quer isso, quem quis isso foram as pessoas.
 Mas e sobre o dinheiro? Não esqueça que a gente começou também falando sobre isso: uns poucos ricos e a maioria pobre. Deus condenou a riqueza. Explique isso, seu Damião, a este velho ignorante e quase analfa.
 Passe-me aquela tigela de carne. Caprichosa a dona Maria! Esse assunto do dinheiro eu vou deixar pra próxima vez. O senhor não quer que eu gaste todo o meu repertório só num almoço, né seu Duca?

Tudo certo, e o dinheiro era um assunto que prometia. O velho Damião realmente era, ali no nosso meio, um sábio. Mas o causo da onça...

Quem gostou desta postagem, também poderá gostar de Chico Damião, o sangrador de onça.


"Sua visão se tornará clara somente quando você olhar para dentro do seu coração. Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, acorda.Carl Gustav Jung

LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
(BLOGUE do Valentim em 07nov2011)

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