quinta-feira, 10 de novembro de 2016

NO TEMPO do ronca


MEUS e minhas, ‘no tempo do ronca’ é um expressão antiga, que as pessoas antigamente usavam para dizer que uma pessoa, coisa ou fato já tinha muitos anos de idade. Eu, em termos de idade, já sou um pouquinho rodado, dobrei o cabo da boa esperança, sou do tempo do ronca. As pessoas dizem que sou mais velho que certo árbitro de futebol que só de minuto de silêncio tinha sessenta anos. Dizem até que fui ajudante de Santos-Dumont. . Pareço muito o Philadelpho, que era velho até no nome, com dois ‘PH’, um no ‘fi’, outro no ‘fo’. Uma vez me ofereceram uma tartaruga para bicho de estimação. Não aceitei: "Não dura tanto tempo. Quando a gente se apega ao bicho, ele morre", justifiquei. 


Apesar da idade, creio que há uma grande dose de maldade dessa gente.Tem até gente até que diz que sou do tempo em que ainda se areava os dentes com Kolinos; do tempo em que se engomava roupa; do tempo da eletrola e do elepê (poxa, faz tempo hein!); do tempo em que taxista era chauffer de praça; do tempo em que um caminhão de verdade era Fenemê e tinha guidão, boleia e manivela; do tempo em que bacana morava em bangalô; do tempo em que o sonho de toda moça era ser miss; do tempo em que rolar um som era só deixar um piano cair ladeira abaixo; do tempo em que ônibus era lotação; do tempo em que fortificante era Biotônico Fontoura; do tempo em que um bom tênis era conga; do tempo em que ratuíno era um produto de má qualidade (hoje é muamba do Paraguai); do tempo em que caldo de cana se chamava garapa; do tempo em que a Regina Duarte era a namoradinha do Brasil (isso também foi há muito tempo, põe muito tempo nisso!); do tempo em que o pobre quando comia galinha, um dos dois estava doente; do tempo em que refrigerante era Grapete (Quem bebe grapete, repete!, lembram?); e não se fazem mais pentes como Flamengo; cueca era ceroula; e as mulheres usavam anágua. As crianças tomavam Emulsão de Scott, óleo de fígado de bacalhau (ahg!) para estimular o crescimento, e... para dor de barriga, nada melhor que Elixir Parigórico, batata!
Os dois textos adiante são do tempo do ronca:


Antigamente se falava assim

“Meus camaradinhas,


Não entendi bulufas, dessa jogada de fazerem o papai aqui apresentar o professor Antenor Nascentes, um cara tão crânio e cheio de mumunhas, que é manjado até na Europa. Já tô até meio cabrero, e achando até que foi crocodilagem do diretor do curso, o professor Odorico Mendes, pra eu entrar pelo cano.

O professor Antenor Nascentes é um chapa legal, é bárbaro e, em Filologia, bota banca. Escreveu um dicionário etimológico que é uma lenha. Dois volumes que eu vou te contar. Um deles é desta idade... mais grosso que trocador de ônibus. O homem é o Pelé da Gramática, tá mais por dentro que bicho de goiaba. Manda brasa, professor Nascentes!” (Correio do Povo, 20 abr. 1966, transcrito pela revista Língua Portuguesa, número 23, 2007, pág. 39). 

“ANTIGAMENTE, as moças chamavam-se mademoiselles e eram todas mimosas e muito prendadas, sendo que algumas eram até formosas. Não faziam anos: completavam primaveras, em geral dezoito. Os janotas, mesmo não sendo rapagões, faziam-lhes pé-de-alferes, arrastando a asa, mas ficavam longos meses debaixo do balaio. E, se levavam tábua, o remédio era tirar o cavalo da chuva e ir pregar em outra freguesia. As pessoas, quando corriam, antigamente, era para tirar o pai da forca, e não caíam de cavalo magro. Algumas jogavam verde para colher maduro, e sabiam com quantos paus se faz uma canoa, o que não impedia que, nesse entrementes, esse ou aquele embarcasse em canoa furada. Encontravam alguém que lhes passava a manta e azulava, dando às de vila-diogo. Os mais idosos, depois da janta, faziam o quilo, saindo para tomar a fresca; e também tomavam cautela de não apanhar sereno. Os mais jovens, esses iam ao animatógrafo, e mais tarde ao cinematógrafo, chupando balas de alteia. Ou sonhavam em andar de aeroplano; os quais, de pouco siso, se metiam em camisa de onze varas, e até em calças pardas (ou cáqui); não admira que dessem com os burros n’água.” (C. D. Andrade, Seleta em prosa e verso, pág. 3).



Agora, com licença, que a patroa me chama para dançar uma valsa.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!


(Reedição do BLOGUE do Valentim em  1jun2010)

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