sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

CALIXTO Wilson e outros falsários

Risco calculado


É FINAL de tarde e o expediente daquele dia se aproxima do seu término. É o período do dia em que quase todos, militares e civis, já se preparam para voltar às suas casas, as oficinas, os hangares, os almoxarifados, o posto médico, a garagem e as seções administrativas, em todos esses locais o ritmo de trabalho vai aos poucos chegando à calma. Muitos já estão trocando de uniforme para, em poucos minutos, entrarem em formação para a chamada de final de expediente e o aguardado "Fora-de-forma, marche!". Exceção se faz à equipe de serviço e a uma ou outra equipe de manutenção, que prepara as aeronaves para o voo do início do dia seguinte. 

Calixto Wilson, o operador da copiadora, após a rotina de copiar o boletim diário da unidade, pega do bolso um cigarro e o acende; abrindo a porta, sai da sala, pois lá fora o ar está bem mais fresco agora com a aproximação do crepúsculo equatorial. É nesse momento que avista uma figura que não via há muitos anos. Vinha em sua direção com passos lentos e caminhada característica. 

Juvenal dos Santos Flores é então um primeiro-sargento. Ele havia servido nessa unidade há mais de dez anos, antes de ser transferido para a região Sul, e agora está de volta. Na época era um jovem terceiro-sargento. 

Abraçaram-se. 


"Bem, muito bem, obrigado. Pois é, amigo Calixto, há quanto tempo mesmo, tchê! Desde 1975, quando eu fui transferido pra minha Querência amada." 

Juvenal, a convite do amigo, entra na sala para um café. Entre um gole e outro, Calixto entra no assunto. Queria saber por curiosidade sobre um fato ocorrido naquela época. Nesse tempo Calixto já era operador da copiadora, e por suas mãos, além do boletim diário da unidade, também passavam outros documentos, por isso sempre se mantinha bem informado acerca de quase tudo.

Fez muito furor nos papos de rancho e nos senadinhos que se formavam a cada canto do quartel o caso de um grupo de sargentos que sofreu punição disciplinar por terem fraudado o sistema nacional da habitação. O comandante puniu severamente esses militares, aplicando a cada um deles vinte dias de detenção, com base no número 63 do artigo dez do Regulamento Disciplinar.

"Sei o que o amigo quer saber. É sobre um acontecido há dez anos", disse o primeiro-sargento, depois de esvaziar a xícara. "Mas antes, lembrei o caso da Marcosa". Deixa que eu te conte.

A Marcosa era uma concessionária de automóveis, que falira há alguns anos. Ora, certa vez o gerente da empresa apareceu na unidade e ofereceu Chevette, carro recém-lançado, aos sargentos recém-formados. Foram 25 carros zero-quilômetro. O Chevette era uma grande novidade e foi lançado pela Chevrolet para competir com o Fusca da Volkswagen. Até quem não sabia dirigir, ganhou carro novo. Mas nenhum deles pagou uma mensalidade sequer. Resultado: faliram a Marcosa.

"Sim, caro Calixto, e dizem as más línguas que foi a nossa gente a responsável por essa falência. Havia uma turma grande de sargentos novos e um dia o gerente da empresa veio oferecer um Chevette para cada um deles. Mas este amigo não estava entre eles. Quanto ao sistema da habitação, devo dizer antes que fazia anos que a minha situação financeira não era boa. Para ser bem sincero, estava à beira da loucura. Mais quebrado que arroz de terceira. Não sabia o que fazer para pagar as dívidas e ao mesmo tempo sustentar a prenda e a piazada. Quando estava bem, devia a apenas dois agiotas.

"Aliás, fazendo um parêntesis, somente muito depois fui entender que aquela época recessiva, de inflação galopante, pacotes econômicos de arrocho impostos pelo governo, não apenas eu estava em situação financeira difícil, mas a maioria, grande maioria do povo brasileiro. E a gente andava de cabeça baixa, achando que tudo era culpa só nossa. O comando não fazia nada para ajudar, ao contrário, só para nos ferrar. Qualquer atraso em mensalidades e as Casas Pernambucanas, Mesbla e companhia mandavam logo carta para o comandante, que ameaçava logo o praça com o número 63 do artigo dez. Era dar um jeito de pagar ou ser punido".

Calixto deixava à vontade o amigo. Que falasse o que quisesse e tivesse vontade; sabia bem ouvir para depois tirar suas próprias conclusões sobre os fatos e pessoas. Tinha a teoria de que as pessoas têm necessidade de falar, e ele, ouvindo, passava a conhecer o que pensava essas pessoas. Juvenal parecia estar sendo sincero quanto às dificuldades sofridas, fossem particulares ou conjunturais, pois tudo ainda estava recente na memória do funcionário. Acostumara-se a ouvir, pois, sabe-se por que razão, recebia muita gente que iniciavam a falar de sua vida, de seus problemas e de outras pessoas. Pediu que o amigo continuasse, pois o expediente estava próximo do final e nenhum documento mais lhe chegaria para  ser copiado.

"Mas não era só este amigo que tinha a situação financeira complicada. Ouvi falar que os imóveis estavam encalhados. Depois do último pacote financeiro baixado pelo governo, nenhuma construtora conseguia vender suas casas e apartamentos. As prestações estavam nas alturas. Foi quando chegou na unidade um corretor de imóveis, oferecendo alguns apartamentos para venda. O cara só podia ser louco, pensei comigo, ninguém agora tem dinheiro para se meter numa dívida dessas, em que a mensalidade cresce acima, bem acima, do nosso salário. Porém o mais absurdo de tudo era que ele oferecia dinheiro a quem se dispusesse a comprar um apartamento".

Por incrível que possa parecer, ofereciam dinheiro para que outros se endividassem. Calixto balançava a cabeça afirmativamente, pois sabia de tudo até aí. Fez sinal que o amigo continuasse a prosa.

"Um milhão de cruzeiros! Dá pra acreditar? Isso dava quatro vezes o valor do meu salário naquela época. Era pra balançar qualquer um, ainda mais se estivesse endividado até à medula, como era o meu caso. Ora, eles, imobiliária e construtora, iam receber do governo mais de cem vezes esse valor. Então, por que não, digamos, incentivar, promover a venda. Era pegar ou largar. Isso chegou ao conhecimento do comandante, pois seus agentes de informação não dormiam no ponto, principalmente se fosse para ferrar gente subalterna. Aí o comandante reuniu todos nós no auditório e largou um sonoro sabão, dizendo que puniria exemplarmente quem não honrasse o compromisso financeiro, que era pra todo mundo pensar bem antes de tomar a decisão e assim por diante".

Enquanto parou para tomar fôlego, Calixto pensava que de fato todos deviam estar com a corda no pescoço: os sargentos, pelas razões que o amigo Juvenal expunha; e os agentes imobiliários com seus imóveis encalhados, a ameaça de irem muitos à falência. A saída era só essa: ganhar dinheiro, oferecendo dinheiro. Aos sargentos, era ganhar dinheiro aumentando o grau de endividamento.

"Confesso que aquela reunião me deixou mal. Mas, depois de analisar bem os prós e os contras, de ver que o que tinha a perder e a ganhar, vi que não restava para mim outra alternativa. Essa grana dava para por as coisas em ordem, pelo menos por alguns meses. Moraria com a família nesse apartamento enquanto pudesse. É claro que sabia que meu salário não dava para pagar a mensalidade; ficaria inadimplente com o banco da habitação, correndo risco de me punirem disciplinarmente e também me prejudicarem a carreira, o que não era nada bom. Mas era um risco calculado, e eu tinha um plano "b", que, para dar certo, dependeria de algumas circunstâncias.

Calixto já imaginava qual era esse tal plano "b", mas não interrompeu o amigo, curioso pelo relato que viria para ver se confirmaria suas suspeitas. Além do mais, colheria aí alguma informação adicional, algo que ainda não sabia. Juvenal continuava.

"Chegou a data marcada pelo tal corretor e fui até à imobiliária para acertar tudo. Antes, tivemos que passar pela agência da caixa econômica para formalizar o contrato. Como era casado, a patroa foi comigo. Assinamos. Depois disso, fomos a pé até à tal imobiliária. Numa sala secundária, meio escondida lá nos fundos, recebi toda a grana, contadinha, dentro de um grande envelope. Nenhum recibo, nem nada. Senti uma tremedeira pela sensação de estar fazendo uma grande coisa errada, uma falcatrua, uma coisa desonesta. Mas confesso que depois passou, e veio em seguida a sensação de estar me vingando daqueles caras que também ajudavam a gente a sofrer a humilhação das dívidas, das visitas nervosas ao agiota, de toda aquela vergonha, tudo para não deixar a família passar fome. A sensação de, pelo menos uma vez, dar o troco no sistema justificava o medo de estar fazendo falcatrua, se o amigo me entende".

Calixto fez com a cabeça que sim.

"Peguei aquele milhão de cruzeiros e paguei as contas mais urgentes, empurrando com a barriga as outras que podiam esperar, e assim fui respirando até o final do ano. Nesse período, já completava tempo para pedir transferência. Isso também fazia parte do tal plano "b". Sabia que ficaria marcado na unidade por esse problema e os oficiais não me deixariam em paz. Minha carreira em perigo. Tinha grandes chances de ser movimentado e isso vinha a convir. Chegou o final do ano, e lá por novembro fomos chamados à sala do comandante. Todos nós íamos receber a punição prometida. Aliás, todos não. O Rufino, um tranqueira, um xiru que só servia para fazer peso em cima da terra, um conterrâneo meu que não honrava a bombacha que usava, não estava na relação dos inadimplentes, como passamos a ser chamados de forma pejorativa.  E eu sei que ele não pagou uma parcela sequer do apartamento".

Calixto esboçou um sorriso discreto com o caso do sujo falar mal do mal-lavado.

"Sei porque o amigo sorri. Parece irônico que eu esteja reprovando um outro fraudador como eu. Mas não é bem assim. Rufino era um trambiqueiro profissional, vivia a dar tombos em qualquer um. Nós erramos e estávamos ali para ser punidos, enquanto ele passeava pelo corredor dando risada de todos nós."

Calixto perguntou a Juvenal por que razão o Rufino escapou da punição. 

"Diziam que o bagaceira havia molhado a mão de um funcionário da caixa, para que este 'esquecesse' o seu nome. Essa é a hipótese mais provável.  Ficamos com raiva desse cara e também do encarregado da seção. Era um dois-esse baba-ovo, que se dava o serviço sujo de entregar os colegas. Fazia com prazer esse serviço imundo."

Calixto conhecia vários desses tipos. Pensou num nome. Sim, era esse: subserviente com os grandes, arrogantes com os pequenos.

 "O bajulador recebeu-nos na sala com um largo sorriso no rosto e dizendo palavras de sentido irônico, como: 'Podem ficar à vontade...'. Dava ênfase na expressão 'à vontade', de forma que soasse engraçado, mostrando que se divertia com a desgraça alheia, à moda de um comediante da tevê. O comandante não se demorou a largar seus afazeres no gabinete para se levantar da poltrona e, com o rosto carrancudo, nos dar uma grande mijada. Só não nos ofendeu a mãe, o resto foi uma sonora humilhação que nos aplicou. De quando em vez eu olhava de relance a cara do encarregado, e via que ele não fazia esforço para disfarçar a cara de satisfação, um sorriso tipo Monalisa, mas se o comandante olhava para ele, o jaguara mudava logo para uma fisionomia séria e circunspecta. No final, o veredicto da autoridade: vinte dias de detenção, que cumpriríamos na semana seguinte. 'E tem mais: quem não pagar o que deve, vai receber o dobro de cadeia, até que seja excluído da Força'."

Calixto disse que não viu em boletim o nome de Juvenal.

"O amigo sabe muito bem que meu nome não apareceu no boletim. Se saísse em boletim, iria para a ficha, daí para a diretoria de pessoal e a minha carreira estaria seriamente ameaçada, praticamente arruinada porque eu não era ainda estabilizado, tendo só sete anos de serviço público na época. Era tomar o caminho da rua. Esse era o meu plano "b", que já tinha em mente. Se desse errado, tudo estaria terminado. Não se preocupe, amigo, vou dizer como tudo ocorreu". 


Calixto, percebendo que a história ia bem longe, pediu que Juvenal continuasse com ela noutro dia. 


Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

OBRIGADO por comentar e volte sempre ao BLOGUE do Valentim!