sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

ESPAÇO Literário


Malba Tahan: O problema dos cinco discos


MAÇUDI, o famoso historiador árabe, nos 22 volumes de sua obra, fala dos sete mares, dos grandes rios, dos elefantes célebres, dos astros, das montanhas, dos diferentes reis da China e de mil outras coisas, e não faz a menor referência ao nome de Dahizé, filha única do Rei Cassim, o Indeciso. Não importa. Apesar de tudo, Dahizé não ficará esquecida, pois entre os manuscritos árabes foram encontrados mais de 400.000 versos, nos quais centenas de poetas louvam e exaltam os encantos e predicados da famosa princesa. A tinta gasta para descrever a beleza dos olhos de Dahizé, transformada em azeite, daria para iluminar a cidade do Cairo durante meio século.

"É exagero", direis.

Não admito o exagero, ó irmãos dos árabes! O exagero é uma forma disfarçada de mentir!
Passemos, porém, ao caso que nos interessa.

Quando Dahizé completou 18 anos e 27 dias de idade, foi pedida em casamento por três príncipes cujos nomes a tradição perpetuou: Aradim, Benefir e Camozã.

O rei Cassim ficou indeciso. Como escolher, entre os três ricos pretenentes, aquele que deveria ser o noito de sua filha? Feita a escolha, a consequência fatal seria a seguinte: ele, o rei, ganharia um genro, mas, em troca, adquiriria dois rancorosos inimigos! Péssimo negócio para um monarca sensato e cauteloso, que desejava viver em paz com seu povo e seus vizinhos.
A princesa Dahizé, consultada, afinal, declarou que se casaria com o mais inteligente dos seus apaixonados.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

ZANONI, o legalista

DUAS semanas após o inicio da rebelião, vendo as seguidas dificuldades do ministro, o ajudante-de-ordens, capitão-aviador Ivan Zanoni Hausen, se apresenta como voluntário para ir ao front. A primeira reação do chefe foi de recusa. Tarimbado nos embates políticos, o ministro queria proteger seu subordinado daquilo que sabia viria a acontecer fatalmente: a perseguição. No entanto, como se tratasse de voluntariado, Zanoni bateu o pé, para ir. 


Postagens relacionadas:





A missão organizada pelo ministro previa o emprego de três bombardeiros North American B25 J. Dois decolariam do Parque Aeronáutico de São Paulo (Campo de Marte) e o outro da Base Aérea de Fortaleza.

Na madrugada do dia 26 de fevereiro, no Campo de Marte, Zanoni está desconfiado. Os B25 se encontram em revisão. Por que não escalaram aviões em condições de voo? Essa dificuldade, entretanto, é café pequeno (para usar uma gíria da época); não é tão grave diante do que vem pela frente. Susto grande mesmo é quando o capitão Zanoni, descansando no alojamento da Base, atende um telefonema anônimo. Do outro lado vem a ameaça:

 “Te cuida, capitão. O B25 está sabotado!”

sábado, 20 de fevereiro de 2016

REMO e Rangers, da Escócia: semelhanças e diferenças

Por Mauro Tavernard


A IMENSA torcida azulina, uma das maiores do Norte-Nordeste do país, espera ansiosa por novos horizontes em 2016. Com o bom ano de 2015 e a vaga assegurada na Série C, não faltam motivos para acreditar. Comparado ao calvário que o clube passou em temporadas anteriores, em que chegou a ficar sem disputar Campeonatos Brasileiros em determinados anos, pode-se dizer que os remistas iniciaram um processo de reconquista do prestígio de outrora. Na Grã Bretanha, outro time azul e vencedor também passou por percalços recentes. Fui para a gélida e nevada Glasgow, na Escócia, conhecer a história do também centenário Rangers Football Club, um dos maiores clubes de futebol da Grã-Bretanha. Separados por quase dez mil km, Baenão e Ibrox Park têm muita história para contar: títulos, craques do passado, e um futuro (ainda) incerto. Cidade, cultura e campeonatos disputados podem até ser diferentes, mas os torcedores de ambas as equipes também possuem muitas semelhanças, que vão além do escudo parecido com cinco estrelas.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

MEMÓRIAS Azulinas

14 de fevereiro de 1969: Leão Azul campeão do Norte


Por Rocildo Oliveira


A MANHÃ daquele 14 de fevereiro de 1969 era muito especial para mim. Teria eu a grande chance a oportunidade ímpar de ver pela primeira vez um Clube, uma camisa, um time de futebol que eu, no meus sonhos e delírios infantis, amava sem nunca tê-lo visto jogar, sem nunca ter visto a sua majestosa jaqueta azul marinho.

Era eu um garoto apaixonado por futebol, admirava meu pai e a sua paixão pelo Clube do Remo, e ficava olhando compenetrado, os momentos em que ele ficava a limpar suas flâmulas que lembravam as conquistas do Mais Querido, caprichosamente enquadradas em molduras, trabalho que ele mesmo realizava como exímio e experiente vidraceiro que era.
Veliz, China, Socó, Chaminha, Sessenta, Marido, Santo Antônio, eram nomes que eu aprendi a respeitar, mesmo sem nunca tê-los visto jogar. Mas naquela manhã, outros heróis mexiam com minha mente: François, Carlitinho, Sirotheau, Robilota, Adinamar e o principal, Birungueta, aquele que me inspirava nos jogos de futebol com os amigos, realizados na terra batida da frente de nossas casas.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

JACAREACANGA: guerra, sombra e água fresca (segunda parte)

O MOVIMENTO tinha por fim a deposição do governo recém-instalado de JK, mas o certo é que na hora "H" alguém traiu os rebeldes, ou, ao menos, deixou de coordenar as ações como haviam combinado, e... o socorro não veio. A essa altura a população de Santarém já começava a sofrer com o desabastecimento, mas as tropas legalistas a bordo do "Presidente Vargas" já estavam chegando. Questão de tempo, pouco tempo... 


Continuação da postagem do dia 4 de fevereiro de 2016



VELOSO determinou a Paulo Vítor que voltasse e ficasse no comando de Jacareacanga, enquanto ele e Lameirão permaneciam em Santarém.

Do dia 15 ao 22, as forças rebeldes mantiveram-se com alguma tranquilidade, apesar dos constantes voos rasante de um AT11 que fazia missão de atemorização. Com o tempo, todos, inclusive a equipe de repórteres e fotógrafos dos "Diários", acostumaram-se à rotina barulhenta. Os presos de Jacareacanga foram transferidos para Santarém, onde havia melhores condições. Veloso, um lorde, jamais esquecia que esses presos também eram seus colegas de farda, por isso lhes garantia tratamento o mais digno possível.

Enquanto isso, houve vários problemas disciplinares graves em unidades da Força Aérea, envolvendo oficiais simpatizantes do movimento rebelde, criando assim um ambiente de cisão, de insegurança, de desconfiança no seio da Força. Diariamente os principais jornais publicavam as ações repressivas aos simpatizantes do movimento. O brigadeiro Guedes Muniz foi preso por dez dias por ter enviado um telegrama ao brigadeiro Cabral. Na Base Aérea da Pampulha foram detidos quatro oficiais do efetivo de unidades sediadas no Rio de Janeiro, todos acusados de apoiar o movimento rebelde. Vários oficiais em Belém foram designados pelo brigadeiro Cabral para sair em missão de prisão a Veloso, porém se negaram a cumprir tais ordens, sendo, por isso, presos de modo incomunicável. Esses oficiais, todos capitães e tenentes, recusam-se a cumprir missões de atemorização contra o aeródromo de Santarém, onde estão Veloso e Lameirão, e contra o de Jacareacanga, em que Paulo Vítor camuflou entre folhagens o 2059, que estava com pane no motor esquerdo.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

CHICO Buarque

Bastidores


CHOREI, chorei
Até ficar com dó de mim
E me tranquei no camarim
Tomei o calmante, o excitante
E um bocado de gim

Amaldiçoei
O dia em que te conheci
Com muitos brilhos me vesti
Depois me pintei, me pintei
Me pintei, me pintei

Cantei, cantei
Como é cruel cantar assim
E num instante de ilusão
Te vi pelo salão
A caçoar de mim

Não me troquei
Voltei correndo ao nosso lar
Voltei pra me certificar
Que tu nunca mais vais voltar
Vais voltar, vais voltar

Cantei, cantei
Nem sei como eu cantava assim
Só sei que todo o cabaré
Me aplaudiu de pé
Quando cheguei ao fim

Mas não bisei
Voltei correndo ao nosso lar
Voltei pra me certificar
Que tu nunca mais vais voltar
Vais voltar, vais voltar

Cantei, cantei
Jamais cantei tão lindo assim
E os homens lá pedindo bis Bêbados e febris
A se rasgar por mim

Chorei, chorei
Até ficar com dó de mim... 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

JACAREACANGA: guerra, sombra e água fresca

Em 1956 a Rebelião de Jacareacanga, uma das duas revoltas que tiveram por objetivo derrubar o governo de Juscelino Kubitschek, foi protagonizada pelo major-aviador Haroldo Coimbra Veloso e pelo capitão-aviador José Chaves Lameirão. Os dois militares contaram também com a participação do major-aviador Paulo Vítor da Silva. Foi deflagrada num sábado de carnaval, 11 de fevereiro, onze dias depois da posse de JK. Veloso acabou sendo preso pelas tropas legalistas em 29 de fevereiro, enquanto Lameirão e P. Vítor fugiram para a Bolívia, onde pediram asilo político. Todos foram anistiados por JK.
Mais tarde, já na reserva remunerada da Aeronáutica, no posto de brigadeiro, Veloso ver-se-ia envolvido noutro episódio conflituoso, quando, tentando reempossar o prefeito de Santarém Elias Pinto, do MDB, acabou sendo ferido por tropas da Polícia Militar do Pará, a mando do governador Alacid Nunes. Nessa ocasião, cumpria o mandato de deputado federal pela Arena. 
Major Veloso
O MAJOR-AVIADOR Haroldo Coimbra Veloso era carioca, magro e aloirado, característica física que o tornava parecido aos galãs do cinema americano, embora do tipo caladão. Com dezoito anos de idade, ingressou no Exército Brasileiro, matriculando-se na Escola Militar do Realengo. Recém-criado o Ministério da Aeronáutica, ele, já com dois anos de Realengo, requereu transferência para a Escola de Aeronáutica, formando-se em Engenharia Aérea e declarado aspirante em setembro de 1942. Seguindo a carreira de oficial, em 1953, já no posto de major, por ser engenheiro, foi escolhido pelo ministro Nero Moura para coordenar a construção da pista de aviação de Aragarças, Jacareacanga e  Cachimbo, esta última inaugurada em janeiro de 1954. Esses trabalhos lhe permitiram conhecer bem a região central brasileira e a Amazônia, além de, por ser um sujeito carismático, granjear rapidamente a simpatia dos civis e indígenas que trabalharam com ele na construção dessas pistas de pouso e estradas, o que mais tarde lhe foi bastante útil em seus objetivos políticos. Os campos de aviação por ele construídos passaram a garantir o apoio e a infraestrutura necessários à aviação comercial na rota Brasil – Estados Unidos, bem como, no âmbito do Correio Aéreo Nacional, a rota Rio de Janeiro – Manaus.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

ESPAÇO Literário

Rubem Braga: Recado ao senhor 903



VIZINHO,

QUEM fala aqui é o homem do 1003.  Recebi outro dia a visita do zelador, que me mostrou a carta em que o senhor reclamava contra o barulho em meu apartamento. Recebi depois a sua própria visita pessoal - devia ser meia-noite - e a sua veemente reclamação verbal. Devo dizer que estou desolado com tudo isso, e lhe dou inteira razão. O regulamento do prédio é explícito, e, se não fosse, o senhor ainda teria ao seu lado a Lei e a Polícia. Quem trabalha o dia inteiro tem direito ao repouso noturno e é impossível repousar no 903 quando há vozes, passos e músicas no 1003. Ou melhor: é impossível ao 903 dormir quando o 1003 se agita; pois como não sei o seu nome nem o senhor sabe o meu, ficamos reduzidos a ser dois números, dois números empilhados entre dezenas de outros. Eu, 1003, me limito a Leste pelo 1005, a Oeste pelo 1001, ao Sul pelo oceano Atlântico, ao Norte pelo 1004, ao alto pelo 1103 e embaixo pelo 903 - que é o senhor. Todos esses números são comportados e silenciosos; apenas eu e o oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis; nós dois apenas nos agitamos e bramimos ao sabor da maré, dos ventos e da lua. Prometo sinceramente adotar, depois das 22 horas, de hoje em diante, um comportamento de manso lago azul. Prometo. Quem vier à minha casa (perdão; ao meu número) será convidado a se retirar às 21:45, e explicarei: o 903 precisa repousar das 22 às 7 pois às 8:15 deve deixar o 783 para tomar o 109 que o levará até o 527 de outra rua, onde ele trabalha na sala 305. Nossa vida, vizinho, está toda numerada; e reconheço que ela só pode ser tolerável quando um número não incomoda outro número, mas o respeita, dentro dos limites de seus algarismos. Peço-lhe desculpas - e prometo silêncio.

Mas que me seja permitido sonhar com outa vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e dissesse: "Vizinho, são três horas da manhã e ouvi música em tua casa. Aqui estou". E o outro respondesse: "Entra, vizinho, e come de meu pão e bebe de meu vinho. Aqui estamos todos a bailar e cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a lua é bela".

E o homem trouxesse sua mulher, e os dois ficassem entre os amigos e amigas do vizinho entoando canções para agradecer a Deus o brilho das estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores, e o dom da vida, e a amizade entre os humanos, e o amor e a paz.