quinta-feira, 17 de agosto de 2017

MALBA Tahan e seus contos maravilhosos!

O Turbante Cinzento



MEU NOME é Sind Mathusa. Poucos homens têm havido na Índia mais ricos do que meu pai e não sei de um só que o excedesse em inteligência, bondade e prudência.

Sentindo-se, certa vez, assaltado de grave enfermidade, e na certeza de que os dias que lhe restavam na vida podiam ser contados pelos dedos da mão, meu pai chamou-me para junto de seu leito e disse-me:

-- Escuta, ó jovem desmiolado! Atenta bem no que te vou dizer. És pela lei o herdeiro único de todos os bens que possuo. Com o ouro que te vou deixar poderias viver regaladamente, como um rajá, durante duzentos anos, se a tanto quisessem os deuses prolongar a tua louca e inútil existência. Como sei, porém, que és fraca para resistir aos vícios, e forte em seguir os maus exemplos, tenho a triste certeza de que muito mal empreagarás a riqueza que vai em breve cair-te nas mãos.

Quero, assim, fazer-te agora um pedido: se for atendido, morrerei tranquilo e não levarei para a vida futura o tormento de uma angústia.

-- Dize-me, meu pai, -- respondi -- qual é o teu desejo. Quero ser mais repelente que um chacal se deixar de cumprir a tua vontade!

-- Meu filho, quero arrancar de ti um juramento. Vês aquele turbante cinzento que ali está? Vias jurar pela imaculada pureza dos ídolos e pelas asas de Vchnu que, se algum dia te sentires desonrado, procurarás imediatamente a reabilitação que a morte concede aos infelizes, enforcando-te naquele turbante!

Fiz, sem hesitar, a vontade do enfermo. Jurei pelos ídolos e pelos complicados deuses da Índia que, se me visse no futuro ferido pela mácula da desonra, procuraria a morte ao enforcar-me no turbante cor de cinza.

Passados dois ou três dias, meu pai, fechando os olhos para a vida, integrou-se no Nirvana. Vi-me, de um momento para o outro, senhor de inúmeras propriedades, das quais auferia uma renda que chegava a causar inveja e insônia ao orgulhoso xá da nossa província. Passei a ostentar uma vida de luxo e dissipações; rodeavam-me, dia e noite, falsos amigos e bajuladores da pior casta, que me induziam a praticar toda a sorte de leviandades e loucuras.

Uma noite, tendo reunido em minha casa, como habitualmente o fazia, em grande festa, vários e divertidos companheiros da nossa laia, um deles chamado Ishame, que adquiria considerável riqueza vendendo camelos e elevantes, convidou-me para uma partida de jogo de dados. A princípio a sorte me foi favorável; cheguei a ganhar num golpe o meu peso em marfim. Cedo, porém, perseguido por uma triste fatalidade, entrei a perder e os meus prejuízos excederam de mais de cem vezes o lucro inicial.  Com a esperança de recurar o dinheiro perdido, redobrei as paradas. Perdi novamente. Na progressiva loucura do jogo, já alucinado, arrisquei nos azares da sorte as minhas joias, escravos e propriedades. Mais uma vez perdi, e, ao nascer do sol sobre o Ganges, nada mais me restava da herança de meu pai. Na certeza de que poderia contar com a generosidade e auxílio daqueles que me rodeavam, fiz, com a garantia da minha palavra, uma grande dívida de honra ao perder a última partida. Procurei um jovem brâmane, filho de opulenta família e que sempre vivera ao meu lado no tempo da fartura, e pedi-lhe que me emprestasse algum dinheiro.

-- Meu caro Sind -- disse-me o brâmane conduzindo-se para o interior de sua rica vivenda -- chegas em péssima ocasião. Fui obrigado a enviar ontem, para resgatar um dívida de meu pai, cerca de duas mil rúpias para Benares. Encontro-me inteiramente desprevenido. Lamento, portanto, não poder servir a um amigo tão querido.

Olhei para as pratarias que se amontoavam por todos os recantos de sua casa. Havia narguilés riquíssimos e bandejas com inscrições que deviam valer alguns milhares.

-- Nada disso é nosso -- acudiu logo o brâmane, apontando para os adornos e enfeites. -- É desejo de meu pai casar minhas irmãs com homens de boa casta, e para atrair os pretendentes alugou toda essa prata e esses tapetes bordados a ouro. Todos acreditam, desse modo, que somos ricos e que vivemos na fartura e na opulência.

Irritado com o cinismo daquele falso amigo, disse-lhe com calculada frieza:

-- Bem sabes que sou descendente de nobres e que meus avós pertenciam à mais alta linhagem da Índia. Declaro, pois, que para fugir da situação em que me encontro, estou disposto a casar com uma jovem fina e educada. Peço, pois, a tua irmã mais moça em casamento.

Sorriu o brâmane:

-- Pedes em casamento uma jovem que não conheces e que talvez não te aceite para esposo. Em nossa família os casamentos não são ditados pelos interesses pessoais; a mulher deve ser ouvida e suas inclinações pessoais levadas em conta. Se desejas pagar dívidas de jogo com o dote de minha irmã mais moça, sinto dizer-te que estás equivocado, jamais aceitaria, como cunhado, um homem que se arruinou em consequência de uma vida desregrada e pecaminosa.

E, conduzindo-me até a porta de seu palácio, empurrou-me delicadamente para a rua.

Apesar desse péssimo acolhimento, não desanimei. Fui ter à casa em que morava m mercador chamado Meting, que era assíduo frequentador de minha mesa. De mim havia Meting recebido inúmeros obséquios e finezas, e muito dinheiro para ele eu perdera no jogo.

-- Que desejas de mim? -- perguntou-me. Disse-lhe que precisava de pequeno auxílio.

-- Julgas que sou algum imbecil da tua espécie? -- respondeu-me. -- De mim não terás nem thalung de cobre!

Desesperado, vendo-me repudiado por todos, e sem recursos para pagar o imenso débito que contraíra, abandonei o palácio e fui ter a um grande bosque nas vizinhanças da cidade. Era meu intento cumprir o juramento que formulara junto ao leito de meu pai.

Escolhi, portanto, entre muitas, uma belíssima árvore. sub pelo nodoso tronco, sentei-me em um dos galhos mais altos, desenrolei o longo e belo turbante cor de cinza, amarrei uma das suas extremidades em outro galho que estava a meu alcance e fiz na outra extremidade um laço seguro em torno do pescoço. Todos esses preparativos trágicos executei-os com a maior calma, sentido, embora, o coração opresso pela mais imensa tristeza.

Já ia deixar cair o corpo no espaço, quando, ao reforçar o laço fatal que me estrangularia, notei que havia na ponta do turbante, por dentro, qualquer coisa de muito resistente. Que seria? Na esperança louca de encontrar ali qualquer coisa que me pudesse salvar, rasguei o turbante. Embora pareça incrível, senhor, devo contar: dentro dele retirei uma carta de meu pai redigida nos seguintes termos:

Estás desligado do teu juramento. Vai à casa de Kashiã, o tecelão, e pede-lhe a caixa de areia. Quem se salva por um milagre da desonra e da morte deve evitar o erro e procurar o caminho reto da vida.

Ébrio de alegria saltei da árvore e quase a correr fui ter à choupana onde morava o pobre Kashiã, apelidado "o tecelão". Recebi das mãos desse pobre homem a lembrança que meu pai ali deixara para me ser entregue.

Ao abrir a misteriosa caixa quase desmaiei, tão grande foi o meu assombro. Estava repleta de brilhantes, pérolas e rubis -- alguns dos quais valiam mais que as coroas dos príncipes hindus.

Possuidor de tão grande riqueza, não soube dominar a tensão de que meu fui preso e chorei. Lembrei-me de meu bom pai, sempre generoso e prudente, que, ao prever a minha desgraça, usara daquele artifício para salvar-me. Era evidente que eu só poderia obter a caixa com o auxílio da carta, e a existência desta só chegaria ao meu conhecimento se o turbante fosse por mim próprio desmanchado.

Como louco que se salva de um abismo ao fundo do qual se atirara, assim me vi naquele momento. Depois de lançar aos pés do velho Kashiã um punhado de preciosas gemas, tomei a caixa e encaminhei-me para a cidade. Era minha intenção pagar todas as minhas dívidas e readquirir as minhas antigas propriedades. Quis, porém, uma fatalidade que tal não acontecesse.

Ao atravessar um pequeno e sombrio bosque nas margens do Elir, encontrei sentada sob uma grande árvore uma jovem de deslumbrante formosura. Os seus olhos azuis tinham um pouco do céu da Índia com os reflexos mais verdes do mar de Omã; as faces eram como as da terceira deusa do templo de Yhamã; os lábios da linda criatura tinham um encanto a que talvez não pudesse resistir o faquir mais puro e mais santo da terra. Com essas comparações não exagero a beleza da desconhecida; ao contrário, fico muito aquém da verdade.

A jovem chorava. Os seus soluços vibravam em ondas de indizível angústia.

-- Que tens, ó jovem? -- perguntei-lhe carinhoso, aproximando-me dela. -- Qual é o motivo do teu pranto? Se para o teu mal há remédio, dentro dos recursos humanos, certo estou de que saberei livrar-te de qualquer desgosto. 

Isso eu dizia tendo sob um dos braços a preciosa caixa, cheia de cintilantes pedras que me dariam ouro, fama e poderio.

Sem interromper o seu copioso pranto, a jovem olhou com surpresa para mim, segurou com os lábios o belo manto de seda que lhe caía sobre os ombros, e, puxando-o para o lado, deixou a descoberto o colo e os braços mais alvos, ambos, do que as penas das garças sagradas de Hamadã.

Recuei horrorizado. A infeliz tinha as duas mãos cortadas junto aos pulsos!

-- Ó desditosa criatura! -- exclamei, a alma oprimida pela maior angústia. -- Qual foi o bárbaro autor de tamanha crueldade? Conta-me a causa de tua desgraça, e fica certa de que poderás armar o meu braço com o ódio que a vingança te souber inspirar.

A desditosa jovem, entre soluços, narrou-me o seguinte: 

(do livro Mil Histórias Sem Fim, vol. 1)

domingo, 13 de agosto de 2017

PORQUE Pelé não é respeitado pelos brasileiros


NÃO HÁ ninguém que represente melhor a imagem do Brasil no planeta Terra que o senhor Edison Arantes do Nascimento, mundialmente conhecido como o Rei Pelé. Um Rei que, por uma dessas ironias que não se consegue explicar, quis Deus ter ele nascido negro e pobre.

Consagrou-se rei. Não foi consagrado; ele, por sua arte, se consagrou, conquistando primeiro o povo, em cuja boca seu nome era (e ainda é) lembrado; quase simultâneo, a crônica esportiva, com cujos gols e lances geniais se extasiava, também foi por ele conquistada; e por último, o mundo inteiro, por sua realeza. 

No início, Bauru, cidade onde deu os primeiros chutes jogando bola; logo mais tarde, a portuária Santos, do seu querido Santos Futebol Clube; e logo chegava à amarelinha na Suécia, com apenas 17 anos de idade, onde ajudou com seu talento o Brasil a conquistar sua primeira Copa do Mundo.

Muito já se falou em Pelé, esse mineiro de Três Corações, que é dono de extensa biografia. Entre tantos feitos consta que sua presença foi determinante para que um conflito no Congo Belga fosse paralisado. Foi ator, cantor, político...


Pelé, a hégira do futebol 


O esporte se dividiu em "Antes de Pelé" e "Depois de Pelé"; quem viu Pelé jogar e quem não viu Pelé jogar; o gol que Pelé não fez; o substituto de Pelé, que nunca veio;  aos 29 anos, foi primeiro a fazer o milésimo gol e, depois do feito, a marca passou a ser o sonho de consumo de todo futebolista; o autor do gol de placa, expressão que antes inexistia; o imortalizador da camisa 10, como sendo a do futebolista mais talentoso... 

Ocorre que o bom sucesso também traz, em sua contramão, a polêmica, o despeito, o ciume, a inveja. Pelé não seria exceção e paga alto preço por isso. Ora, se uma pessoa anônima tem inimigos, imaginem uma celebridade do nível de Pelé.

Sim, Edison, como todo ser humano, tem defeitos, limitações, problemas de família, atos falhos. E essa humanidade veio a fornecer munição aos seus detratores, que se aproveitam muito bem dessas dificuldades. 

Enquanto estava em atividade, a sua própria carreira vencedora inibia, sua luz ofuscava a ação e a fala de seus críticos, que se mantinham discretos, silentes, porém à espera de uma oportunidade para tentar arruinar sua imagem. O tempo foi passando e o Rei deixou de ser unanimidade. Não no Mundo, que o reverencia até hoje reconhecendo seu feito, mas no seu próprio país, o Brasil, onde o negro fica muito bem em posições inferiores na escala social.  No entanto, Pelé, o Negrão, ousou roubar a cena e ser Rei, e, como tal, pensa, fala, opina, incomoda...

Como celebridade mundial que é, é natural que seja procurado por jornalistas para emitir opinião sobre os fatos, sejam eles circunscritos à área esportiva ou, em geral, como a política e a sociedade. E, como rei, não se furta a opinar. Poderia, como outras pessoas importantes, ter optado por viver isolado, talvez em outro país, gozando de merecida aposentadoria sem ser incomodado.

Mas, como bom brasileiro, que não foge à luta, Pelé está aí, dando a cara à tapa, não se omitindo, não se escondendo, não permanecendo em cima do muro. E suas opiniões são imediatamente repercutidas, lidas, ouvidas, bem recebidas, mal recebidas... 

Se se escondesse, certamente seria tratado de arrogante, esnobe, antipático. De forma que, se correr o bicho pega..., como diz o velho adágio popular.


Assim, até entre seus próprios colegas de profissão, aparecem aqueles que não perdoam Edison por ter sido Pelé.

Há muito sua imagem vitoriosa vem sendo desconstruída. Pelo seu inigualável sucesso no esporte e na vida muitos não perdoam Pelé.

sábado, 12 de agosto de 2017

OBRIGADO, Papai!

Homenagem do BLOGUE do Valentim ao Dia do Papai! O nosso muito obrigado a todos os papais! 



Muito obrigado aos nossos pais, os que estão aqui e os que já estão com o grande Papai do Céu!

Todos os dias são dia dos pais. Mas Feliz Dia dos Pais!

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

BLOGUE do Valentim há 6 anos!

Vereador Burro critica professores


Professor só pensa em salário, diz vereador de Jacareí



Por Marcela Bourroul Gonsalves



O VEREADOR de Jacareí Dario Burro (DEM) causou polêmica após fazer, no Facebook, diversos comentários a respeito dos professores da rede pública. Em sua página na rede social, o vereador deixou vários posts por meio dos quais critica a postura dos profissionais da educação. O primeiro deles foi publicado no dia 3 de agosto. Nele, o vereador afirmou: “Professores adoram palestras nas escolas! Assim eles não precisam dar aulas”. Em outros posts, o vereador diz “Professor só pensa em salário” e “O professor é um profissional frustrado que descarrega a frustração nos estudantes. O professor gostaria de ser Engenheiro, não consegue e vai dar aula de Matemática; outro queria ser Advogado, não consegue e vai dar aula de Português; outro queria ser Médico e vai dar aula de Biologia”.

Procurado para falar sobre as declarações feitas pela rede social, Dario Burro, que está em seu primeiro mandato na Câmara de Jacareí, reafirmou sua posição. “Eu vejo que é muito grave a falta de resultado na educação, existem recursos, esses recursos são aplicados, a gente tem uma estrutura e o professor não produz”, disse. “Eu não aceito jovens chegando ao sétimo ano sem saber escrever corretamente”.

Na opinião do vereador, se os professores não estão contentes com o seu salário, deveriam procurar outra profissão, pois sabiam da limitação quando escolheram tornar-se docentes. Os profissionais deveriam ainda adequar seu padrão de vida ao seu salário.

O vereador contou também que já foi professor da rede pública e que chegou a cursar letras, mas não terminou o curso. Ele não aceita o fato de os professores sempre atribuírem a má qualidade da educação ao governo. “Vejo que está faltando comprometimento profissional”. Para ele, fala-se muito sobre pedagogia e as ideias do educador Paulo Freire, mas pouco se aplica.

Até hoje à tarde não havia nenhuma representação contra o vereador de Jacareí na Câmara. Segundo Dario Burro, o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) faria uma reunião para decidir se entrariam ou não com alguma representação, o que poderia resultar em punição ao parlamentar.



Por incrível que pareça, ainda aparece alguém -- e só podia ser burro mesmo -- para criticar a laboriosa classe docente brasileira. Tudo -- as declarações infelizes e o nome do vereador paulista -- parece piada, mas não é


Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado.
(BLOGUE do Valentim em 11ago2011)

terça-feira, 8 de agosto de 2017

ESTOU lendo este livro!

O Santo e a Porca, de Ariano Suassuna



OUTRA excelente obra desse grande artista literário Ariano Suassuna, que sabia retratar -- como poucos -- o ambiente, a vida, o cotidiano do povo nordestino, com muito bom-humor. Segue o mesmo estilo de Auto da Compadecida.

Já comentei a respeito em O BEM-HUMORADO povo nordestino e o universo temático do genial Ariano Suassuna!

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

CLÁSSICOS do Valentim

Luiz Melodia: Juventude Transviada, 1976



LAVA roupa todo dia, que agonia
Na quebrada da soleira, que chovia
Até sonhar de madrugada, uma moça sem mancada
Uma mulher não deve vacilar

Eu entendo a juventude transviada
E o auxílio luxuoso de um pandeiro
Até sonhar de madrugada, uma moça sem mancada
Uma mulher não deve vacilar

Cada cara representa uma mentira
Nascimento, vida e morte, quem diria
Até sonhar de madrugada, uma moça sem mancada
Uma mulher não deve vacilar

Hoje pode transformar e o que diria a juventude
Um dia você vai chorar, vejo claras fantasias.


Mais um que se vai aos 66.
Descanse em paz, amigo! 

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O BEM-HUMORADO povo nordestino e o universo temático do genial Ariano Suassuna!

Ariano Suassuna (Fonte: Internet)
EM TODO bairro, vila, cidadezinha do interior, aldeia, povoado, comunidades urbanas ou rurais há, ao menos, um avarento, beata, devoto, a recatada, o linguarudo, o contador de causos, o tímido, o expansivo; enfim está -- seja onde for -- ali representada toda a sociedade, com seus problemas, sua vida, seu cotidiano. Há também, nesses ambientes sociais, como também em ambientes de trabalho, esportivo ou escolar, apelidos que são dados pelo povo em razão de a pessoa possuir uma característica marcante, seja ela física ou psicológica. 

No lugar onde vivíamos, lá no interior do Pará, próximo à rodovia Belém - Brasília, de vez em quando recebíamos a visita de um homem, já maduro em idade, que era um show à parte. Damião era o nome dele, em torno do qual nós nos reuníamos para ouvir suas histórias, não importando se fatos ou causos.

Nunca soubemos, mas o velho devia ter origem nordestina. Não tendo família, seu Damião -- diferentemente da maioria -- tinha mais tempo para ler e, em função das conclusões que tirava de suas leituras, o Velho Damião também se ocupava em observar de maneira mais crítica as pessoas e suas respectivas condutas. Damião, o sangrador de onças, transformava todo esse saber em divertidos causos, para o entretenimento de seus ouvintes, que eram muitos na redondeza.

Do representante para o povo representado.

O meu irmão nordestino geralmente é possuidor da marcante verve humorística, com o seu sotaque peculiar dando um tempero todo especial às palavras naquela entonação quase cantada. O sertanejo, com o seu jeito de ser, é exemplo de sabedoria, malgrado suas vicissitudes, levando a vida com bom-humor. 

Não é à toa que as telenovelas ambientadas no Nordeste são garantia de bom sucesso junto ao público. O povo vai assistir com a certeza de boas risadas.

Pois bem. Acabei de ler o livro "O Santo e a Porca", do paraibano Ariano Suassuna, célebre autor de "Auto da Compadecida". Trata-se, como em geral cuida a sua obra, de uma peça teatral cujo enredo é ambientado no Nordeste brasileiro. 

De suas observações, Ariano levou para o palco, para os livros e para a televisão, o homem sertanejo e sua visão de mundo, e, como não poderia deixar de ser, o humor. Cuidou de transformar o cotidiano duro para a leveza do riso, e para tal retratou como poucos o avarento, o beato, o esperto, as relações sociais. 

Na peça há o avarento, e é natural que essa qualidade humana sempre seja encarada com antipatia. No caso, dado o exagero do personagem na sua avareza, a característica o torna divertido, engraçado. A exemplo do que ocorre em "Auto da Compadecida", com seu personagem João Grilo, há também aí retratada a figura de alguém cuja natureza é dotada de recursos para aproveitar-se das situações apresentadas para, por meio de mentiras inocentes, mudar a sorte dos personagens. E "O Santo e a Porca" está repleta de confusões, dada a avareza ao extremo de Euricão Engole-Cobra.   E é aí que entra Caroba.

Caroba é uma criada de Eurico Arábe, também conhecido por Euricão Engole-Cobra. Este é muito apegado a uma "porca", onde guarda todo o seu dinheiro. Os outros acham que seu apego ao objeto é por causa de ter sido a porca uma herança. Ao menos é assim que ele justifica o apego ao cofre, razão de o personagem não enxergar muito as situações; ele acha sempre que estão ali com a intenção de lhe roubar, motivo pelo qual não tem sossego de espírito.

O apelido em si torna o personagem mais engraçado. 

Dá ainda mais graça o fato de o avarento ser devoto -- e muito devoto -- de Santo Antônio, a quem continuamente pede proteção contra os ladrões. Daí o título da peça.

Sem ainda ter visto a peça -- via internet --, dei muitas risadas lendo o livro.

E um grande abraço ao povo nordestino, nosso irmão!

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

POSSO não concordar com você...


A Falsa citação de Voltaire


INVESTIGAÇÃO afirma que a mais famosa das frases atribuídas ao filósofo francês jamais foi escrita ou proferida pelo autor de Cândido, ou o Otimismo.


O pensamento filosófico - rico que é - já cunhou uma série de expressões que, bem empregadas ou não, tornaram-se largamente conhecidas. É o caso, para ficar em um só exemplo, da famosa máxima de Maquiavel: "os fins justificam os meios" (a qual figura no capítulo XVIII de sua magnum opus O príncipe). Nesta linha, no entanto, aparecem frases que, ainda tomadas como emblemáticas, não podem ser verdadeiramente creditadas aos supostos autores. É possível que existam diversas situações não esclarecidas em que isso ocorre - o que, diga-se de passagem, macula o estudo de Filosofia mais do que os próprios supostos autores. Mas há um caso ícone, o de François-Marie Arouet, mais conhecido pelo cognome Voltaire (1694-1778).

Apesar de ser frequentemente citada, inclusive em livros didáticos, como síntese de uma fi- losofia, a frase "Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo" (que pode aparecer escrita com algumas pequenas variações) não é fruto da sagaz pena de Voltaire. Todo um retrato do pensamento voltairiano foi construído em torno a essa citação, tomando o filósofo, a partir daí, como um iluminista plena e irresolutamente comprometido com a liberdade de expressão, cuja bandeira de luta seria a tal frase, assimilada como um lema. Uma busca pelos escritos de Voltaire, entretanto, planta a dúvida: onde está a afamada afirmação? A investigação por esse caminho é, contudo, vã, pois não há, em nenhum texto do filósofo, a preciosa frase. Algo tomado quase pacificamente como o resumo do pensamento voltairiano revelando-se apócrifo é mesmo o germe de uma pesquisa, e a investigação revela-se frutífera.

Nota-se, portanto, que a expressão "Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo" é uma daquelas frases que muitos leram, alguns citaram e quase ninguém pesquisou de onde verdadeiramente veio (e de quem é!). Há um grande risco na falta de precisão em casos assim, porque uma falsa atribuição nem sempre enobrece um autor.

Condorcet


Marie Jean Antoine Nicolas de Caritat, o marquês de Condorcet (1743-1794), foi um filósofo e matemático ligado à Revolução Francesa. É autor da obra Ensaio sobre o cálculo integral e fez parte da Academia de Ciências de Paris a partir de 1769.

Na verdade, como pode-se verificar, a tão citada frase foi elaborada por uma biógrafa de Voltaire, em uma obra do início do século 20 - portanto, bem distante do período de vida e produção do filósofo francês. Em um livro de 1906 chamado The friends of Voltaire ("Os amigos de Voltaire" - tradução livre), publicado em Londres pela Smith, Elder & Co., a escritora Evelyn Beatrice Hall (1868-c. 1939) - que durante um tempo usou o pseudônimo S. G. Tallentyre - trata de dez figuras notáveis com quem seu biografado, de alguma forma, se relacionou. São eles: D'Alembert, Diderot, Galiani, Vauvenargues, D'Holbach, Grimm, Turgot, Beaumarchais, Condorcet e Helvétius. É na parte dedicada a este último que a biógrafa apresenta a frase "I disapprove of what you say, but I will defend to the death your right to say it" ("Eu discordo do que você diz, mas vou defender até a morte seu direito de o continuar dizendo", em tradução livre).

Talvez por uma questão de estilo, Evelyn Hall colocou a frase entre aspas e a construiu em primeira pessoa, o que acabou gerando a confusão e a falsa atribuição. Mas, de fato, a intenção da escritora era resumir o posicionamento que Voltaire teria adotado com relação ao banimento de um livro de Claude-Adrien Helvétius (1715-1771), outro filósofo francês com quem ele teve certo desacordo. Em 1758, Helvétius publicou o livro De l'espirit, o qual foi condenado pela Sorbonne, pelo Parlamento de Paris e até pelo Papa, chegando a ser queimado. Apesar do desacordo explícito com relação ao pensamento de Helvétius, Voltaire não acreditava que o banimento daquele livro fosse um ato correto. Foi a atitude de Voltaire frente a esta situação que Evelyn Hall tentou resumir com sua frase, inadvertidamente escrita entre aspas e em primeira pessoa.

Em outro livro da mesma autora, chamado Voltaire in his letters ("Cartas de Voltaire" - tradução livre aproximada), publicado em 1919, aparece a mesma ideia, ora apresentado como um "princípio voltairiano" (embora ainda grafado entre aspas e em primeira pessoa), com uma mínima alteração de redação que não resulta em conteúdo diferente. Ainda ali, Hall encerra o "princípio" em um posicionamento de Voltaire para com Helvétius.

Uma construção tardia


Nota-se, portanto, é que a famosa afirmação nem é de Voltaire nem configura um resumo de sua filosofia como um todo. Ela é, precisamente, uma construção tardia de uma biógrafa, e não faz mais do que retratar uma determinada posição adotada por Voltaire em uma situação muito específica com outro filósofo - e faz com que seu poder de frase-lema da liberdade de expressão seja consideravelmente reduzido.

Essa confusão involuntária chegou a ser reconhecida pela biógrafa de Voltaire. Na revista Modern Language Notes, publicada pela The Johns Hopkins University Press, em sua edição de novembro de 1943, há um texto de Burdette Kinne sobre o assunto, intitulado Voltaire never said it! ("Voltaire nunca disse isso!", tradução livre), em que consta a reprodução de uma carta de Evelyn Hall, datada de 9 de maio de 1939, em que ela afirma ser de sua própria autoria a tal frase erroneamente atribuída ao filósofo francês do século 18, chegando a apresentar desculpas por seu texto permitir a interpretação de que a fala era de Voltaire, mesmo não sendo esta sua intenção.

Ainda houve quem considerasse que Evelyn Hall teria, seja por acaso ou não, feito uma paráfrase de uma fala - esta sim - de Voltaire, menos conhecida, que se encontraria em uma carta endereçada a um certo Monsieur Le Riche, datada de 6 de fevereiro de 1770. Esse foi o caso de Norbert Guterman, editor do livro A book of french quotations ("Um livro de citações francesas", tradução livre), publicado na década de 1960. Segundo ele e os demais defensores desta linha, haveria na referida carta a frase "Monsieur l'abbé, je déteste ce que vous écrivez, mais je donnerai ma vie pour que vous puissiez continuer à écrire" ("Senhor abade, eu detesto o que escreves, mas eu daria minha vida para que pudesses continuar a escrever", tradução livre), uma espécie de variação daquela mais famosa.

Noam Chomsky


Linguista, filósofo e ativista político, nascido em 1928, na Filadélfia (EUA), Noam Chomsky é um polêmico intelectual, autor, entre outros, de 11 de setembro (Bertrand Brasil, 2003) e O governo no futuro (Record, 2007). Chomsky é professor emérito do Departamento de Linguística do Massachusetts Institute of Technology (MIT).

Outra vez, porém, criou-se uma equivocada atribuição a Voltaire. Em suas obras completas, publicadas em Paris já entre os anos de 1817 e 1819, sob o selo Chez Th. Desoer, há a coleção de correspondências do filósofo, em que figura a tal carta endereçada a Monsieur Le Riche, mas não é possível encontrar nada sequer parecido com a famigerada frase. Até grandes pensadores como Noam Chomsky se deixaram levar por essa "nova" falsa atribuição, como é possível observar em seu artigo do jornal The Nation, intitulado His right to say it, em 28 de fevereiro de 1981.

Nota-se, portanto, que a expressão "Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo" é uma daquelas frases que muitos leram, alguns citaram e quase ninguém pesquisou de onde verdadeiramente veio (e de quem é!). Há um grande risco na falta de precisão em casos assim, porque uma falsa atribuição nem sempre enobrece um autor. Nesse caso, Voltaire passou a ser tomado como ícone da luta pela liberdade de expressão. Mas e quando a frase acaba por denegrir um pensador? É preciso rigor na investigação. Daqui por diante, fica como sugestão o princípio: "Eu posso não concordar com o que citas, e por isso requisitarei sempre suas fontes para poder checá-las". (Ivan Bilheiro)


Tem fundamento. A gente não pesquisa fundo para saber se frases atribuídas a alguém (sempre celebridades) têm de fato fundamento, ou seja, se de fato a pessoa citada disse ou escreveu o que a ela se atribui. 

quinta-feira, 27 de julho de 2017

MALBA Tahan e seus contos maravilhosos!

A prodigiosa lenda do Sangalu

(Continuação da postagem de 25jul2017)




"... É O CÉLEBRE Sangalu, descoberto por um sábio da Armênia Depois de curto silêncio, a princesa retomou o fio da narrativa, erguendo a bela e nobre cabeça com movimento encantador. 

-- Eu ouvira, realmente, de uma escrava negra (quando ainda era menina) uma história complicada na qual aparecia esse perfume, o Sangalu. Jamais acreditei em sua existência. Para mim, tudo não passava de lenda, fantasia louca. Aquele que aspirasse o Sangalu (afirmavam os supersticiosos) adquiriria um dom extraordinário. Ficava com o poder de atrair, como se fosse um ímã encantado, os segredos de todas as pessoas que dele se aproximassem. E ali estava, nas mãos da cigana, o perigoso Sangalu! Disse a Suraia: "Dá-me, por um instante, esse frasco! Quero certificar-me da verdade". A cigana, com o olhar desvairado, obedeceu-me. Ajoelhou-se, porém, a meus pés e suplicou-me alucinada que nao aspirasse aquele infernal perfume. Seria para mim uma desgraça. Não lhe dei ouvidos. Repugnavam-me as crendices e superstições grosseiras da cigana. Abri o frasco e aspirei demoradamente o Sangalu. O aroma que exalava pareceu-me um misto de jasmim e bekum. Derramei uma gota na palma da mão e, a seguir, fechei novamente o frasco, devolvendo-o à rapariga. Aquele frasco (de acordo com a tradição dos árabes) tornara-se inútil: perdera todo o seu poder. Suraia afastou-se de mim, bradando, com quanta força tinha, em seu arrevesado dialeto: "Bacrun fir Halina bissir"! Não dei ao caso a menor importância. No dia seguinte, pela manhã, recomendei fosse entregu à cigana uma bolsa com cem dinares e deixei-a partir. Logo pela manhã verifiquei que a minha vida ia sofrer profunda alteação. Izzat, a bondosa escrava que me veio pentear, com uma vivacidade muito fora da sua habitual placidez, revelou-me dois gravíssimos segredos de sua vida. Fiquei impressionada. Izzat era do gênio retraído, muito calada, raramente falava. Seria aquilo influência do Sangalu? Já estaria eu, sem querer, atraindo os segredos alheios? Não. fora aquilo simples coincidência e nada mais. Recebo, porém, na terceira hora, a visita de Nacibe, esposa de um vizir, que vinha todos os dias bordar em minha companhia. Essa dama, que sempre se mostrava discreta, levou-me para um canto da sala e revelou-me nervosa, atropelando as palavras, várias particularidades espantosas da sua vida íntima. E, desse momento em diante, nunca mais tive sossego. Qualquer mulher que se acerca de mim entra, sem o menor recato, a desfiar-me um rosário de confidências. São casos tenebrosos de maridos, dos filhos e amigos. Algumas segredam-me com a maior simplicidade: "Quando chego junto de ti, princesinha, sinto logo um desejo incontido de contar tudo o que sei; de confessar os meus pecados, de revelar os pensamentos mais secretos e as coisas mais íntimas de minha vida. Eu que sou tão discreta diante de meu marido, de minha mãe, ou de meu pai, não posso me conter diante de ti, princesinha." E entram logo a falar... Vejo-me invadida por uma verdadeira onda de segredos que jamais poderei revelar. Tornou-se para mim torturante obsessão ouvir, a todo instante, queixas, ignomínias, mexericos, indiscrições. Sou, como diz o povo, uma Sangalu. É horrível! Temo, por vezes, enlouquecer. Afasto-me de todos, pois cada novo segredo, com seu cortejo de torpezas e misérias, envenena-me a vida e enegrece-me o coração!

Ao ouvir aquela surpreendente narrativa da filha, o califa pôs-se a fitá-la grandemente inquieto. Era preciso resolver, urgentemente, aquele caso. Como livrar Halina daquela perseguição diabólica? Como impedir que escravas, aias e damas da corte se aproximassem da cândida princesinha e lhe abrissem as torneiras venenosas de suas incomparáveis confidências?

Disse, por fim, o velho monarca fitando-a com uma fixidez que chegava a incomodar:

-- Escuta, flor de minha vida! Fácil será, para mim, um meio que ponha termo às tuas aflições. Quero, entretanto, prevenir-te de uma coisa. Ontem, conversando com o vizir Labid...

-- Não, meu pai! Não! -- bradou a jovem, e saiu a correr.

A desditosa princesinha percebera que o velho monarca, sob a influência mágica do Sangalu, esquecido de que falava à própria filha, ia contar-lhe, também, um segredo.

E não seria para ela uma desgraça ter conhecimento dos segredos que negrejavam a vida do pai?

O califa não fez o menor gesto para deter a filha. Deixou-a afastar-se. Viu-a entrar no pavilhão das Mil Violetas, e encaminhou-se para os seus aposentos situados no outro extremo do parque, emboscado na mancha espessa do arvoredo.

Mandou, no mesmo instante, viesse à sua presença, o esclarecido Abu-Mussa, seu vizir conselheiro, já em provecta idade.

Pretendia consultá-lo sobre o estranho caso de Halina. Era-lhe insuportável ver a filha, fadada a uma existência feliz e tranquila, transformada inopinadamente numa Sangalu, para viver amortalhada pelos segredos e confidências alheias. Abu-Mussa era um ulemá, isto é, um sábio capaz de resolver os mais obscuros problemas da vida.

E o califa disse, com voz grave e pausada, ao douto e sisudo vizir: 

-- Recebi, meu caro Abu-Mussa, uma denúncia secreta que me deixou impressionado. Fui aviso de que vive em nossa corte uma pessoa que possui o dom misterioso de Sangalu!

Respondeu o sábio, esteado em considerações luminosas:

-- Não creio, ó Emir dos Árabes, seja verdadeira essa denúncia. Não há segredo que resista ao poder da essência de Sangalu. Ora, uma pessoa dotada dessa mágica influência, isto é, um verdadeiro Sangalu, entraria na posse dos segredos mais graves, ficaria a par de todas as intrigas, de todos os planos, negócios e combinações. O Sangalu seria capaz de revolucionar o país. Imaginai, ó Príncipe dos Crentes, o poder extraordinário de um homem que tivesse conhecimento de segredos recônditos de todos os nossos generais. De que não seria capaz esse Sangalu tendo o exército, a polícia, a magistratura e os sacerdotes inteiramente entregues a seus caprichos? Muitos homens, tidos como honrados, seriam presos e decapitados; centenas de funcionários seriam demitidos; alguns ministros (que agora vivem no luxo e na opulência) teriam os seus bens confiscados pelo Estado; veríamos a ruína de muitos lares; anulações de casamentos; suicídios; assassínios; uma calamidade, enfim.

O califa Al-Mansur encarava, como infinito assombro, o seu honrado vizier. Este, depois de breve pausa, prosseguiu com a mesma entonação:

-- Tudo leva a crer, portanto, ser falsa a denúncia que chegou ao vosso conhecimento. E quereis uma prova segura da veracidade do que afirmo? Se houvesse na corte alguma pessoa (homem ou mulher, não importa!) com o poder de Sangalu, o trono de Bagdá já não estaria em vosso poder. Essa pessoa, com a força invencível dos segredos alheios, já teria provocado uma revolução e tomado conta do governo. Tal hipótese só não ocorreria se o dom de Sangalu tivesse recaído sobre pessoa dotada de bondade infinita e de uma força de caráter excepcional. Direi, enfim, que o Sangalu só não seria nocivo à coletividade se (como dizem os cristãos) fosse um verdadeiro santo, digno de ser posto num altar, e venerado por todos os crentes. Não acredito na existência de criatura capaz de apoderar-se de todos os segredos e fechá-los, para sempre, no cofre do coração. Penso, pois, que para tranquilidade do povo e segurança do Estado, qualquer pessoa (seja quem for) suspeita de Sangalu deve ser presa e executada inexoravelmente.

E o ancião acrescentou com impressionante serenidade esforçando-se por ser claro e decidido:

-- Alguém poderá objetar que seria clamorosa injustiça, crime odioso, verdadeira infâmia, condenar-se à morte um Sangalu inocente. Sim, mas diante dos interesses sagrados do Estado anulam-se e desaparecem, por completo, os interesses individuais. Se um inocente põe em perigo o Estado, se a sua existência é séria ameaça à coletividade, elimine-se o inocente! Há segredos, ó Príncipe dos Crentes, que, quando chegam ao conhecimento do povo, aniquilam coroas e arruínam os tronos mais poderosos.

As gravíssimas considerações aduzidas pelo velho ulemá deixaram o califa Al-Mansur mergulhado numa verdadeira tormenta de desassossego e perplexidade. "Este vizir", pensou o rei, "obcecado pela nefanda preocupação de defender o Estado, não hesitará em praticar a infâmia de mandar para as mãos impiedosas do carrasco a minha meiga e bondosa Halina. Aqui só há uma solução. Não me ocorre outra. Vou apunhalar este velho intolerante e mandá-lo para o túmulo com todas as suas teorias ignóbeis e revoltantes. O laço que não se pode desatar, corta-se. Este fanático será, de um momento para o outro, o algoz de minha filha; amanhã, convencido de que tem carradas de razão, exigirá do povo o sacrifício de Halina."

Desatinado pelos pensamentos que lhe turbavam o espírito, o califa de Bagdá , habitualmente tão sereno, chegou a levar a mão ao cabo do punhal.

Conteve-se, porém. Fez-se lívido. Flamejavam-lhe os olhos num brilho febril; as mãos tremiam. Sentia-se fortemente solicitado por duas paixões opostas; crispava os punhos num frenesi incontido. 

Por Alá! Um segredo apenas (a certeza, por todos ignorada, de que sua filha era Sangalu) já o impelia, naquele trágico instante, a praticar um crime covarde -- o assassínio de um ancião. Imagine-se, agora, se ele fosse um Sangalu, com o coração enegrecido por mil e um segredos tenebrosos?

E o califa, dominando o ímpeto sanguinário, simulando tranquilidade e indiferença, como um homem que teme e deseja saber, interpelou o vizir Abu-Mussa no tom mais natural deste mundo, anediando as barbas:

-- E esse mal de Sangalu é incurável?

-- Incurável não é -- afirmou o vizir, inclinando a fronte calva. -- Já chegou ao meu conhecimento o estranho caso de um homem que se livrou do mal de Sangalu.

-- Conta-me esta história, ó esclarecido taleb. -- acudiu pressuroso o rei. E pensou: "Enquanto ele narra decidirei se devo matá-lo agora ou mais tarde. Punir sem necessidade é atentar contra a clemência de Deus".

-- Escuto e obedeço, ó Comendador dos Crentes -- retorquiu o vizir com profunda vênia.

E, impenetrável e sombrio, narrou o seguinte: 

Esta história continua na postagem: "O Viajante Desconhecido" e suas sequências.

A VIDA continua aos 40!

BLOGUE do Valentim homenageia a 171ª turma da EEAer., a Tarjeta Branca, por ocasião de seus 40 (quarenta) anos!



Obrigado, amigos. Parabéns a todos nós!


terça-feira, 25 de julho de 2017

MALBA Tahan e seus contos maravilhosos!

A princesa e a cigana

(Continuação da postagem de 24jul2017)
ATÉ HOJE os árabes se referem com admiração e orgulho ao nome de Al-Mansur, o famoso califa de Bagdá. Foi um monarca generoso e justo. E, mais ainda, tolerante e bondoso.

O grande Al-Mansur, pai extremoso, tinha uma filha que era todo o encanto de sua vida. Halina (assim se chamava a princesinha) morava num suntuoso palácio que um arquiteto cristão fizera para o seu serviço. Possuía muitas jóias e os mais belos e ricos vestidos. Em seu toucador se enfileiravam os mais raros perfumes do Oriente. Mas, apesar do conforto em que vivia, atendida sempre em seus menores caprichos, rodeada de serviçais atentos e solícitos em agradá-la, a princesa não se sentia feliz.

Uma tarde, depois da terceira prece, o califa Al-Mansur, ao regressar de fatigante audiência com seus vizires, atravessou casualmente o jardim. O dia estava quente e abafado. No céu cor de pérola granizava um bando de gaivotas. Pequenas borboletas de asas amarelas volitavam por entre os canteiros. Ouvia-se o rumor doce e cantante do repuxo no meio dos rosais. De repente, o monarca viu a filha sozinha sentada na grama, de cabeça baixa, numa atitude denunciadora de grande tristeza, fitando atenta as sombras que se desenhavam no chão. Cabe aqui um esclarecimento assaz necessário: Halina, por esse tempo, contava pouco mais de dezoito anos.

Al-Mansur ficou apreensivo. Fazia já muitos dias, vinha observando na filha qualquer coisa de anormal. Estaria ela doente? Teria algum desgosto recalcado a afligir-lhe o coração?

Preocupado com o bem-estar da filha, o desvelado pai interrogou-a com muita brandura:

-- Que tens, minha querida? Por que foges constantemente ao convívio de tuas amigas e vens em busca da solidão? Queres que te mande buscar novas bailarinas? Desejas ouvir os músicos cegos que tocam cítara e cantam ao som dos alaúdes? Interessa-te uma excursão às montanhas ou uma peregrinação às ruínas de Kerbela? Vamos. Conta-me o que sentes que eu me empenharei em descobrir um meio de atenuar as tuas tristezas. Quero, para a minha perfeita felicidade, que a alegria volte a brilhar em teus olhos!


Interpelada desse modo a bondosa princesa respondeu com um sorriso triste.

-- Vivo torturada por um profundo desgosto, meu pai! E não acredito que haja remédio para o estranho mal que me oprime a alma e dilacera o coração.

-- Que mal é esse, minha filha? Será possível que estejas apaixonada por algum príncipe encantado?

Halina, depois de alguns momentos de meditativo silêncio, contou ao pai o trágico mistério de sua vida:

-- Uma noite, meu pai, achava-me no pavilhão das "Mil violetas", e já me preparava para um bom repouso, quando me veio da escuridão do parque o ladrar furioso dos cães de guarda. Seguiu-se estranho rumorejo de vozes e gritos angustiosos que se perdiam nas trevas espessas. Teria algum ladrão audaciosos escalado o muro e saltado para o jardim do palácio? Mandei que uma das escravas fosse indagar do que ocorrera. Passado algum tempo a escrava regressou com certa informação que me impressionou. Uma cigana, ao fugir de dois beduínos que a perseguiam, galgara o portão do palácio e fora atacada pelos cães bravios. Se os vigilantes não houvessem acorrido com presteza, a infeliz fugitiva teria sido estraçalhada pelos molossos. Penalizou-me a situação da pobre mulher. Quis conhecê-la. Determinei, pois, que a trouxessem à minha presença. Era meu desejo interrogá-la. Com grande surpresa vi, diante de mim, uma rapariga morena, robusta, de cabelos negros e simpática. As vestes estavam em frangalhos, sujas e ensanguentadas. A face direita lanhada, de alto a baixo, por golpe fundo, inspirava compaixão. A figura da jovem era trágica, impressionante. Por minha ordem as escravas pensaram-lhe os ferimentos e deram-lhe alimento. Falei-lhe com mansidão e simpatia. Pareceu-me, a princípio, desconfiada e talvez receosa. Vencida, porém, pela brandura com que lhe falávamos, tornou-se viva e loquaz. Contou-nos que se chamava Suraia, e que pertencia a uma tribo de nômades do deserto. Com alguns parentes viera a Bagdá em busca de remédios e víveres. "E que pretendiam de ti os beduínos?", perguntei-lhe. "Queriam matar-me", denunciou, arrebatada pela revolta. Compreendi que em torno daquela tragédia pairava algum penoso segredo. Para evitar o punhal de seus perseguidores, não hesitaram em atirar-se aos dentes de uma matilha de cães ferozes. Bem dizem os árabes: "Só sabe fugir, com verdadeira coragem, da morte, aquele que não tem nenhum amor à vida". A curiosidade apoderou-se de mim. Resolvi desvendar o mistério. Fiz com que as aias e escravas se retirassem e fiquei a sós no aposento com a cigana. "Quero saber a verdade!", declarei com firmeza. "Exijo que me contes tudo o que ocorreu". A beduína arrancou da barra do vestido um pequenino frasco escuro e disse-me impulsiva: "Eis aqui, princesa! Eis aqui o que os bandidos pretendiam: este frasco de perfume! E queres saber que perfume é este?"...


segunda-feira, 24 de julho de 2017

MALBA Tahan e seus contos maravilhosos!

A lenda roubada

(Continuação da postagem de 23jul2017)
Ao aproximar-se do muro viu o corpo de um homem caído...

RESPONDEU-ME com a sua irritante displicência estirando as pernas:

-- Com algumas modificações, um colorido mais perfeito na forma, ampliada na sua trama e melhorada no seu desfecho, acrescida de cinco ou seis peripécias, suavizada por pequenas poesias, enriquecida com quinze ou vinte provérbios e algumas citações eruditas, ficará mais ou menos razoável. Cerceada e expungida das nódoas, plebeísmos e lamentáveis senões que a empanam, passará para o rol das "toleráveis".  Assim, como está, semi-nua e abobalhada, pouco vale, é fraca, anêmica e inexpressiva. Poso no entanto, comprá-la para incluí-la (depois de retocada) em meu repertório! Quanto queres pela ideia? 


E tendo proferido tais palavras, o xeique El-Hassina tomou de sua bolsa. Ouvi um suave tilintar de moedas.



Pus-me a pensar. Que fazer? Não estava habituado a vender lendas e negociar com ideias. Aquela proposta deixara-me surpreso.



A noite vinha chegando devagarinho com sua caravana de sombras; no céu lucilavam as primeiras estrelas. A lâmpada de Tarik lampejava a poucos passos de mim.



Vendo-me indeciso, o xeique El-Hassina arvorou um rosto mau e insistiu impaciente, torcendo entre os dedos a ponta do haic

-- Vamos! Resolve logo! Quando queres por essa ideia da lenda esquecida? Estás em dúvida sobre o valor da tua lenda? Esperas algum conselho de tua trôpega inteligência? Convence-te de que ninguém é bastante competente e sensato para se aconselhar a si mesmo.

Já me dispunha a explicar que a "Lenda Esquecida" eu destinara ao xeique Malik, meu amigo e protetor, e que não pretendia negociá-la, quando uma violenta pancada na cabeça atirou-me por terra. O golpe foi tão forte que perdi os sentidos.

Quanto tempo estive ali desacordado junto à fonte de Ziyadat? Não sei. Não chego a calcular.

Quando dei acordo de mim achava-me deitado sobre um largo divã, no meio de uma confortável tenda.

A meu lado, com o rosto inclinado, um ancião fitava-me risonho. Tinha os olhos claros e expressivos, e longas barbas que se derramavam pela brancura da seda.

-- Até que enfim abriu os olhos! -- exclamou dirigindo-se a um jovem que o acompanhava -- louvado seja Alá! O nosso protegido está salvo.

Contou-me o bondoso ancião que ao regressar de madrugada de uma viagem, em companhia dos filhos, parara junto à fonte de Ziyadat, onde pretendia fazer suas abluções. Ao aproximar-se do muro viu o corpo de um homem caído numa vala. "Está ferido", disse um dos rapazes. "Pois é nosso dever socorrê-lo imediatamente", declarou o velho, "Vamos levá-lo para a nossa tenda!"

Puseram-me num camelo, prenderam-me com cordas e levaram-me, na mesma hora, para a tenda do ancião. Fui aí socorrido e carinhosamente tratado. 

O bondoso Soraidj (assim se chamava o dono da tenda) interrogou-me sobre os motivos que me levaram a envolver-me numa rixa com caravaneiros do deserto.

-- Não me envolvi em rixa alguma -- expliquei. E contei-lhe, com todos os pormenores, a minha aventura com os dois sacripantas junto à fonte de Ziyadat.

-- Foi então um roubo! Um verdadeiro saque! -- comentou o sábio.

-- Roubo, não! -- protestei levantando a voz -- Foi apenas uma agressão estúpida! De mim não roubaram nada! Não trazia comigo um único dinar! 

-- Estás engando -- contraveio o judicioso Soraidj -- Roubaram-te coisa mais preciosa do que o ouro. Roubaram-te uma ideia! Aquele miserável  Tarik, cúmplice do indigno El-Hassina, abateu-te naquele momento com intenção criminosa. Ficaste abandonado na estada enquanto os dois ladrões iam oferecer ao xeique a tua "Lenda Esquecida". Mas esse crime não ficará impune. Farei com que o nosso governador seja informado desse atentado e castigue os dois infames salteadores de estrada. Atacam covardemente um pobre viajante para roubar uma lenda. Que torpeza!

E, depois de meditar alguns instantes, o digno ulemá ajuntou austeramente:

-- Não te preocupes, meu amigo, com esse caso. A tua "Lenda Esquecida" mudou apenas de título. Passou a ser agora a "A Lenda Roubada"! E os culpados serão punidos.

-- Sinto discordar de vossa opinião -- repliquei -- Não quero que El-Hassina e o tipo de barba roxa sofram a menor contrariedade. Deve-se ser inexorável com o pecado, porém humano com o pecador. Sou muito grato a esses homens pelos três grandes e inolvidáveis serviços que prestaram.

-- Como assim? -- estranhou o sábio -- Que serviços foram esses?

Respondi:

-- Primeiro: por causa da pancada brutal que sofri tive a honra de ser recebido em vossa tenda e ser vosso hóspede. Segundo: resultou da referida agressão um capítulo trágico, que veio a tornar viva e emocionante uma lenda que era apenas curiosa. Terceiro: em consequência do golpe na cabeça, desferido com violência, recuperei a memória perdida. Sinto-me, portanto, capaz de narrar, do princípio ao fim, a famosa "Lenda Esquecida".

-- Que maravilha! -- exclamou o ancião com um sorriso largo e reconfortante -- Conta-nos essa história assombrosa, pois ela, decerto, encerra episódios emocionantes que educam pelo exemplo e instruem pela experiência! Vou chamar meus filhos e amigos. Todos nós ouviremos com prazer essa bela narrativa. 

E, para atender ao pedido daquele homem bondoso, que me havia salvo a vida, contei a mais prodigiosa lenda até hoje aparecida pelos mundos sem fim da fantasia.
Malba Tahan
Essa lenda, bem digna de ser escrita com letras de rubi nas sagradas colunas de Omm-el-Quora, é a seguinte: 

Continua...



domingo, 23 de julho de 2017

MALBA Tahan e seus contos maravilhosos!

A lenda esquecida


IA EU, naquela tarde, quase a correr em demanda do palácio do xeique Malik Balbud, um dos homens mais generosos da Pérsia. Era a hora do por-do-sol. O céu, para os lados do poente, aparecia abaçanado por nuvens de cor de chumbo. Camponeses com foices e cestos ao ombro iam tornando, vagarosos, para os seus casebres. Pastores e cameleiros deambulavam em busca de rebanhos. Ao passar pela fonte de Ziyadat divisei dois viandantes sentados à margem da estrada. Não me pareceram beduínos de baixa classe; pareceram-me, antes, pessoas da mais fina e culta sociedade. Um deles trazia, presa ao ombro, uma capa ricamente bordada. Os olhos eram muitos vivos e a expressão do rosto trigueiro infundia simpatia. Quanto ao outro, pareceu-me um tipo mal-encarado. Ostentava uma barba de um vermelho escuro, quase roxo. Era alto, corpulento e mantinha a seu lado uma pesada mal de couro. Desagradou-me o seu olhar oblíquo e mau. Observei que estavam ambos prevenidos com magníficas lanternas de óleo.

O homem da barba cor de vinho ergueu-se pesadamente e veio bamboleante ao meu encontro. O outro (que me pareceu mais moço) deixou-se ficar sentado, as pernas cruzadas e o corpo reclinado sobre o muro da fonte.

-- Amigo! -- disse o barba-roxa inclinando-se num rápido salã -- poderás dizer-nos onde fica a soberba residência do xeique Malik Balbud?

-- Estás com muita sorte, ó irmão dos árabes! -- respondei com bom humor -- É para lá exatamente que eu vou. Posso conduzir-vos sem dificuldades ao palácio de Malik. Seguiremos por esta estrada até à porta de Iklil; aí chegando, tomaremos para a esquerda. A casa do generoso xeique Malik, com seu pavilhão torreado, é a terceira depois da mesquita de Otmã. 

O tipo que me interpelara voltou-se para o companheiro, respirou fortemente e, depois de um silêncio, comentou num gesto admirativo:

-- Estás ouvindo? Era precisamente o que eu supunha: à esquerda de Iklil, a terceira vivenda depois da mesquita! Confere!

E acrescentou, com sobranceria, impertinente, distilando as palavras:

-- Mas o que irá fazer esse sevandija, com seu turbante sujo e mal arranjado, à casa do xeique Malik? Sempre julguei que o nobre islamita selecionasse, com certo cuidado e finura, aqueles que deveriam compartilhar de sua mesa e amizade!

Confesso que não gostei. A insinuação era grosseira. Repliquei, pois, rijamente, com um acento amargo de despeito:

-- Vou ao palácio de Iklil a convite do próprio xeique Malik Balbud. Esse príncipe deseja que eu proporcione alguns momentos de alegria a seus convidados narrando-lhes uma lenda original, de enredo emocionante.

Ao ouvir aquelas palavras, o homem da barba roxa expandiu-se numa casquinada.

-- Pelo túmulo de Mafoma! -- chalaceou fitando-me com ar de soberano desprezao -- Pelo nome de Alá! Que ingenuidade!

-- Ingenuidade? -- estranhei asperamente -- Por que?

-- Ora -- tornou o desconhecido com um riso de escarninho -- não sabes então que aquele jovem (e apontou para o companheiro que ficara recostado ao muro) é um dos mais notáveis contadores de história do mundo? Já ouviste falar no célebre Abul-Isak Ibn El-Hassina, apelidado "O Eloquente"? Ei-lo! Ali está, modestamente sentado, emprestando sua celebridade a este lugar, um dos vultos mais gloriosos do Islã, o famoso e tão elogiado Abul-Isak Ibn El-Hassina!

E com as mãos na cintura, numa atitude petulante, o grosseirão interpelou-me, com voz pastosa e grossa, olhando-me de mau cenho da cabeça aos pés.

-- E pretendes tu ainda, ó mísero cameleiro fanfarrão, competir em lendas, fábulas, contos e fantasias com Abul Isak Ibn El-Hassina, a maior notabilidade da Pérsia? Desiste dessa insensatez! Volta para a tua choça, põe-te a roer a tua rosca, pois uma verdadeira glória -- um autêntico xeique el-Medah, o inigualável Abul Isak Ibn El-Hassina, -- surgiu diante de ti! Hoje, no palácio do generoso Malik, só ele (e apontou outra vez para o jovem), só ele, o talentoso Abul Isak Ibn El-Hassina, repito, é que irá deliciar os presentes com suas maravilhosas e surpreendentes narrativas.

Aquelas arrogantes palavras e a insistência atrevida com que repetia o nome do companheiro deixaram-me estarrecido.

-- Em parte tens razão, meu caro Tarik, -- observou o jovem El-Hassina intervindo no caso com displicência -- até certo ponto as tuas considerações são justas, oportunas e aceitáveis. Esse bom caravaneiro (e torceu para o meu lado o polegar da mão esquerda) não poderá competir com um profissional de minha força, do meu talento e prestígio. Ele será o primeiro a reconhecer as múltiplas e ponderáveis razões que o impossibilitam de figurar, a meu lado, num torneio de narrativas. Conheço milhares de lendas, histórias encantadas em prosa e verso; fábulas edificantes com desfechos e ensinamentos admiráveis; alegorias prodigiosas; parábolas impressionantes; jogos; enigmas; poemas comovedores. Sou capaz de distrair um auditório de príncipes; tenho recursos para prender a atenção de uma assembleia de sábios; disponho de artifícios e anedotas que farão rir uma multidão de cameleiros ignorantes e entorpecidos. Já tenho tomado parte em dezenas de torneios concorrendo com os maiores narradores do mundo e não topei, até hoje, com um só que fosse capaz de me igualar e, muitos menos, me sobrepujar. Todos os prêmios, nesse memoráveis torneios, foram conquistados sem dificuldades por mim!

O vaidoso xeique fez, nesse ponto, uma pequena pausa. Ergueu, depois, ligeiramente o busto e prosseguiu sentencioso, entufado de vaidade:

-- Tudo isso, ó Tarik, é pura expressão da verdade. Mas o mundo é cheio de surpresas que afrontam a evidência. O que o homem sabe é pouco; o que deseja saber é muito, e o que nunca chegará a saber é infinito. Uma formiguinha tonta, arrastada pela correnteza, é capaz de vencer um elefante bravio. Inocente criancinha, a brincar na praia, saltando na areia, seria capaz de acordar uma baleia surda que estivesse a dormir no fundo do mar. Há casos verídicos que se inscrevem na História com as tintas do inacreditável. Quem sabe se um desses episódios incríveis não se prepara agora, nesta curva da estrada, ao lado desta tranquila fonte, diante de nós? Quem sabe se esse modesto caravaneiro (outra vez indicou-me com o polegar), que o capricho do destino trouxe ao nosso encontro, não é sabedor de uma história, assombrosamente perfeita, capaz de ofuscar, com seu brilho, todas as lendas que formam o meu vasto e precioso repertório?!

Sorri orgulhoso para o jovem El-Hassina e aventurei compenetrado, afetando grande franqueza:

-- Posso garantir, ó xeique El-Medah, que a história que pretendo contar, esta noite, aos convidados do nobre Malik, envolve os episódios mais curiosos de minha vida. Resume a narrativa de caso verídico, ocorrido há pouco na tenda de um mercador.

-- E que título darias a essa história? -- indagou El-Hassina fitando-me com curiosidade e fazendo um ligeiro trejeito com a cabeça.

Senti-me envaidecido por merecer a atenção daquele homem ilustre e respondi sem hesitar:

-- " Lenda Esquecida"!

-- Como título -- desdenhou o jovem com a desenvoltura de uma criança -- como título (repito) não é dos piores. Uma pessoa pouco avisada ou inculta poderá chegar ao extremo de julgá-lo original. Pois bem, façamos uma combinação. Contarás, agora mesmo, diante de mim e de meu fiel ajudante Tarik a tua singular "Lenda Esquecida". Se essa lenda, pela forma, ideia e ensinamentos que envolve, for realmente digna de um príncipe, eu me darei por vencido. Desistirei de comparecer, nesta noite, ao palácio de Malik Balbud. Tenho tanto mérito que não ponho em dúvida reconhecer e proclamar o mérito alheio. Irás sozinho e todos os ambicionados prêmios serão teus. Se, ao contrário, tua lenda for fraca, sediça, pueril e sem interesse, incapaz de emocionar um auditório seleto, preferível será que voltes para a tua mansarda. Receberás de mim, a título de auxílio, a quantia de dez dinares. Aceitas esta proposta?

-- Aceito -- confirmei embaraçado por invencível timidez.

-- Conta-nos, pois, a "Lenda Esquecida". Antes de ouvi-la não será possível julgá-la.

Tarik, o homem da barba roxa, bateu com força os isqueiros e acendeu uma das lanternas. Sentei-me na pedra, junto à fonte e iniciei a narrativa. Contei minuciosamente aos dois viajantes o episódio da lenda esquecida sem nada ocultar. Recordei, de início, a minha corrida pela estrada, o amistoso convite para a ceia, o receito de ser traído pela minha desbotada memória, descrevi as figuras que eu mesmo gravara na árvore para que pudesse, em qualquer momento, recordar-me do enredo que inventara. Falei-lhes da minha angústia ao verificar que não podia mais interpretar a legenda e da singular lembrança que, logo depois, os símbolos intraduzíveis sugeriram, dando origem a uma nova lenda em torno da lenda esquecida.

El-Hassina e seu companheiro de barba roxa ouviram em silêncio a minha narrativa. Tive a certeza de que a lenda esquecida lhes causara ótima impressão. Aguardei com serenidade a decisão do contador de histórias. Teria o pretensioso xeique encontrado algum mérito na lenda que ele próprio fizera empenho em ouvir?

Para arrancá-lo do silêncio, interpelei-o com um leve tom de ironia:

-- Iallah! Qual é a sua notável e definitiva opinião sobre a "Lenda Esquecida"?