domingo, 25 de junho de 2017

BLOGUE do Valentim há 6 anos!

ESSA era a pergunta que o Brasil fazia em 1978, ano em que fez enorme sucesso nacional a telenovela O Astro, da Rede Globo de Televisão. Janete Clair era a rainha das novelas, e tudo o que ela escrevia fazia sucesso, e o país inteiro ficava às 8 e pouco da noite em frente à tevê, somente saindo da sala nos intervalos.

O Astro foi uma telenovela brasileira produzida e exibida pela Rede Globo entre 6 de dezembro de 1977 e 8 de julho de 1978, às 20 horas. Foi escrita por Janete Clair e dirigida por Daniel Filho e Gonzaga Blota, com 185 capítulos. Daniel Filho acumulou a direção geral. 

A bela DINA SFAT, uma das atrizes preferidas de Janete Clair
Francisco Cuoco encarnava Herculano Quitanilha, um suposto vidente... Na verdade um vigarista que conquistou o Brasil. Anos 70, a melhor década de novelas na Globo, que ainda tinha como concorrente a ótima Rede Tupi de Televisão.

No capítulo 42, dá-se a notícia: Salomão Hayalla, um magnata, está morto. Seu carro fora encontrado em destroços no Alto da Boa Vista. Depois descobriu-se que morreu antes.

QUEM MATOU Salomão Hayalla? A pergunta só foi respondida no último capítulo. O autor foi o personagem vivido por Edwin Luise. Por onde andará esse ator?

Veja agora o tema de abertura da novela original:




Tempos bons, que não voltam mais.

LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

(BLOGUE do Valentim em 25jun2011)

quinta-feira, 15 de junho de 2017

MALBA Tahan e seus contos maravilhosos!

O depositário do rei





-- SENHOR cádi, -- murmurou Iussuf, pálido e trêmulo de espanto -- juro pelo túmulo do Profeta! Juro pelo Alcorão! O que digo é verdade! Antes de partir para Meca, deixei em vosso poder um saco de couro com mil e novecentos dinares de ouro. E vi perfeitamente, ó cádi, quando guardastes o meu dinheiro ali, no grande cofre que ainda está naquele canto!

-- Estás delirando, ó infeliz -- replicou o cádi. -- Juras como um insensato sobre o que há de mais sagrado para os muçulmanos! Estás com certeza envenenado pelo haxixe e tens a mente presa a miragens enganadoras. Ali, naquele cofre, guardo apenas as pequenas migalhas que possuo. Achas então que eu, o cádi de Basra, seria capaz de conservar em meu poder um dinheiro que não fosse meu? É uma infâmia que lanças, inconsciente, sobre mim!

E como Iussuf insistisse na afirmativa, o governador interrompeu-o com severidade:

-- Repito-o, ó insensato, não guardei dinheiro algum! E se algum dia voltares à minha presença, com essa ideia tola e descabida, a exigir um dinheiro que nunca me entregaste, mando-te recolher para sempre à prisão dos loucos! Vai-te daqui, ó comedor de haxixe!

Iussuf, quase a chorar de desespero, retirou-se do palácio do cádi. Considerava perdido o seu dinheiro. Se perseverasse na ideia de recuperá-lo iria acabar os seus dias no fundo e um prisão. O desonesto governador de Basra tinha nas mãos a força e o poder.

Profundamente abalado pelo rude e impiedoso golpe que acabara de sofrer, sentindo-se ao desamparo, sem ter a quem apelar, roubado, dilapidado e ainda sob ameça de prisão, vendo diante de si a sombra da miséria, pôs Iussuf a caminhar sem rumo pelas ruas de Basra.

Ao se aproximar da mesquita de Otmã cruzou casualmente com um rico xeique que acabara de sair do famoso templo maometano. Ostentava o nobre belíssimo turvante cor-de-cinza. Seus trajes eram de seda. Em seus dedos rebrilhavam gemas de alto valor. Mal acabara de avistar o desventurado Iussuf, o xeique parou abrindo os braços num gesto largo e afetuoso. Exclamou arrebatado:

-- Alá seja louvado! Até que enfim, encontrei o meu bom amigo e protetor!

Iussuf encarava o desconhecido sem compreender o sentido daquelas exclamações de júbilo. 

-- Não te lembras mais de mim, ó peregrino? -- falou o xeique, abraçando carinhosamente Iussuf. -- Eu sou aquele Hussein Et-Tay, o velho mendigo que, há três anos, generosamente auxiliaste. Procurava-te, ansiosamente, para agradecer-te o que fizeste por mim. Segui o teu conselho. Fui ao califa e contei-lhe tudo. O Emir dos Crentes declarou que os sacos haviam sido retirados por ordem sua do tesouro, unicamente para que ele pudesse ajuizar, com segurança, acerca da minha honestidade. E, como estava, então, certo de que eu procedera com a máxima correção e dignidade, ordenou que eu fosse indenizado de todo o meu dinheiro; restituiu-me as minhas propriedades; deu-me belos presentes e nomeou-me para o lugar de tesoureiro do califa. Sou hoje, graças ao teu auxílio, o homem mais rico de Bagdá.

Notando, porém, o rico hussein que Iussuf parecia triste e  abatido, perguntou-lhe:

-- Que te aconteceu, ó irmão dos árabes? Por que estás tristonho e preocupado?

Iussuf contou, então, ao generoso xeique a desonestidade do cádi e a situação de miséria em que se achava.

-- Por Alá! -- exclamou o bom Hussein. -- O teu caso é muito simples de se resolver. Amanhã, ao cair da tarde, depois da terceira prece, irás à casa do cádi e -- como se nada tivesse acontecido -- reclamarás novamente o teu dinheiro. Eu estarei lá nessa ocasião; deverás, porém, fingir que não me conheces.

E eis o que aconteceu:

No dia seguinte o cádi recebeu a visita de Hussein El-Tay, tesoureiro do sultão Harun-al-Raschid.

-- O que me traz aqui, senhor cádi -- começou o xeique -- é um assunto da maior importância. O nosso gloriosos Emir Harun-al-Raschid (que Alá sempre conserve!) deseja fazer uma peregrinação a Meca. Não quer, porém, partir sem deixar, sob a guarda de uma pessoa digna e honesta, os seus imensos tesouros, as suas arcas cheias de lavores e tapeçarias. Lembrei o vosso nome porque a justa fama da vossa honestidade, do vosso belo caráter, já está espalhada pelo país inteiro. Inútil será dizer que o califa aprovou desde logo a minha indicação. Declarou-me: "Não quero partir sem deixar nas mãos do honesto cádi de Basra, o íntegro Machome El-Hadjazi, não só os tesouros, como o governo de Bagdá!". E, foi por isso, que aqui vim para consultar-vos e saber se vos sentis com coragem para prestar ao nosso generoso califa esse inestimável serviço.

O cádi, surpreendido por tão extraordinário oferecimento, desmanchou-se em salamaleques, mesuras afetadas e gestos de gratidão.

-- Sinto-me profundamente honrado -- disse ele ao xeique -- com as generosas palavras que a meu respeito proferiu o Comendador dos Crentes. Tudo tenho feito por merecer a confiança que em mim depositou o nosso grande soberano.

Estas palavras era ditas quando surgiu à porta do salão o jovem Iussuf.

-- Senhor cádi, -- exclamou, respeitoso -- o meu nome é Iussuf Abdallah Ben-Nahin. Há três anos, antes de partir para Meca, deixei em vosso poder, confiado aos vossos cuidados, um saco de couro com mil e novecentos dinares-ouro. E agora...

-- Pois não, meu filho! -- exclamou o cádi, risonho e amável. -- Lembro-me perfeitamente do teu nome. Iussuf Abdallah Ben-Nahim, o fabricante de móveis. Muitas vezes pensei: "quando virá aquele bom peregrino buscar o dinheiro que deixou sob minha guarda? Queira Alá que ele volte cheio de vida e feliz. Queira Alá que nada de mal lhe aconteça". Sinto-me feliz pelo teu regresso. 

E o cádi, no mesmo instante, abrindo o grande cofre, tirou de dentro um saco de couro que parecia bem pesado e, a conter ouro, encerraria uma bela quantia.

-- Aqui está -- continuou, entregando o valioso depósito a Iussuf -- o teu dinheiro. Eu seria incapaz de ficar com um dinar que não fosse meu. Alá me livre de praticar semelhante infâmia.

O rico Hussein observava com a maior atenção todos os gestos e palavras do cádi.

Sem saber como explicar aquela extraordinária mudança, o peregrino, de pois de agradecer ao cádi, retirou-se muito contente com o seu dinheiro.

Momentos depois o rico xeique de Bagdá deixou também o palácio do cádi e Basra.

Passaram-se meses.

Vendo o cádi que o califa não mandava chamá-lo, foi procurar o rico Hussein, que ainda se achava em Basra, a comprar tapetes para os palácios do sultão.

O judicioso xeique, ao receber o cádi, perguntou-lhe o que desejava.

-- Quero saber -- respondeu este -- quando devo seguir para Bagdá, a fim de guardar os tesouros do nosso sultão Harun-al-Raschid, Emir dos Crentes.

-- Senhor cádi -- acudiu o velho Hussein -- devo dizer-vos que meditei melhor no caso. Se, para devolver o pequeno pecúlio de um peregrino, foi preciso que vos prometesse os tesouros do califa e o governo de Bagdá, que não seria preciso prometer-vos, futuramente, para obter de vós a devolução dos tesouros do sultão, quando eles já estivessem bem seguros em vosso poder? 

CLÁSSICOS do Valentim

Chico Buarque: Partido alto, 1972




DIZ QUE deu, diz que dá
Diz que Deus dará
Não vou duvidar, ó nega
E se Deus não dá
Como é que vai ficar, ó nega
Diz que Deus diz que dá
E se Deus negar, ó nega
Eu vou me indignar e chega
Deus dará, Deus dará

Deus é um cara gozador, adora brincadeira
Pois pra me jogar no mundo, tinha o mundo inteiro
Mas achou muito engraçado me botar cabreiro
Na barriga da miséria nasci batuqueiro
Eu sou do Rio de Janeiro

Jesus Cristo inda me paga, um dia inda me explica
Como é que pôs no mundo esta pobre coisica
Vou correr o mundo afora, dar um canjica
Que é pra ver se alguém se embala ao ronco da cuíca
E aquele abraço pra quem fica

Deus me fez um cara fraco, desdentado e feio
Pele e osso simplesmente, quase sem recheio
Mas se alguém me desafia e bota a mãe no meio
Dou pernada a três por quatro e nem me despenteio
Que eu já tô de saco cheio

Deus me deu mão de veludo pra fazer carícia
Deus me deu muitas saudades e muita preguiça
Deus me deu pernas compridas e muita malícia
Pra correr atrás de bola e fugir da polícia
Um dia ainda sou notícia 

domingo, 11 de junho de 2017

MALBA Tahan e seus contos maravilhosos!

O depositário do rei


Alá vos livre de ser
depositário do rei!
NA VELHA cidade Basra, no bairro denominado Haiessalã, vivia outrora um fabricante de móveis chamado Iussuf Abdallah Ben-Nahim.

Um dia, depois de ter ouvido na mesquita de El-Akbar uma prédica do imã sobre os deveres dos bons muçulmanos, resolveu Iussuf fazer, pela primeira vez, uma peregrinação a Meca -- a cidade santa -- a predileta de Allah. 

Sem perda de tempo preparou-se Iusuf para a fadigante jornada. Vendeu os móveis que possuía, pagou aos credores, arrendou a casa -- tendo conseguido obter, com a liquidação completa de seus bens, dois mil dinares-ouro.

Que destino dar àquele dinheiro? Era bem certo que não poderia levar consigo, tais os perigos por que ia passar, aquele ouro precioso. De que recursos valer-se para deixar, em segurança, guardada até o seu regresso de Meca, a bela quantia em que se resumiam todos os seus haveres?


Procurou o imã, e este, com a prudência que a sabedoria e a experiência soem ditar, aconselhou-o a que deixasse o dinheiro guardado com o cádi, isto é, o juiz da cidade. 

Exercia este em Basra as funções de governador e era representante direto do sultão Harum-al-Rashid, califa de Bagdá. Homem poderoso, rico, cheio de prestígio, o cádi Mahomed El-Hadjazi estava naturalmente indicado para servir de depositário. O dinheiro de um peregrino estaria, por certo, bem guardado dentro dos pesados cofres do digno juiz de Basra.

Iussuf achou de bom alvitre o conselho do imã e seguiu sem perda de tempo para a casa de Mahomed El-Hadjazi, levando em um saco de couro os seus dois mil dinares.

A temida e respeitada autoridade muçulmana morava, por esse tempo, em um grande palácio na praça Sahat-Ali.

Ao atravessar essa praça, avistou Iussuf andrajoso mendigo, de rosto e aspecto de homem vencido pela doença e pela miséria. Era de causar dó a figura do ancião. O infeliz estendia a mão aos transeuntes, implorando humilde um óbulo e a todos os que o auxiliavam dizia, como se resumisse o seu mais sincero agradecimento:

-- Alá vos livre de ser depositário do rei! 

Iussuf achou estranho aquele voto do pedinte, e não podendo dominar a curiosidade, chamou-o a um canto da praça e interrogou-o: 

-- Pela glória de Mafoma, ó muçulmano! Por que dizes a todas as pessoas que te auxiliam:"Alá vos livre de ser o depositário do rei."? Achas, então, indigno ou indesejável o ambicionado emprego de zelador dos tesouros de um soberano?

-- Senhor -- respondeu o mendigo -- o voto que sempre formulo representa um desejo sincero. Não posso desejar que aconteça às pessoas dignas e piedosas a mesma infelicidade que assaltou.

-- Como pode ser isso? -- perguntou Iussuf. -- Conta-me a tua história. Mui vivo é o meu desejo de conhecer a causa de tua desdita.

Atendendo ao pedido de Iussuf, o velho mendigo narrou o seguinte:

"Meu nome é Hussein Et-Tay. Sou filho do famoso Mahmud Et-Tay, o poeta nômade, a quem os árabes do deserto apelidaram "El-Arey" -- o coxo. Muitos anos vivi em Kalaa-Abu, nas margens do Eufrates, onde possuía grande plantação de alhos, cebolas e lentilhas; quando chegava a época da colheita, os meus escravos carregavam os camelos e iam vender nas cidades próximas os belos produtos das minhas terras. Assim, graças à vontade Alá (exaltado seja o Altíssimo!), os meus negócios corriam bem e a minha prosperidade era notável. 

Certo dia, porém, um velho amigo da minha família, ao regressar de um passeio de Bagdá, disse-me: 'Amigo Hussein, o grão-vizir Gafar pediu-me que lhe indicasse uma pessoa honesta, de inteira confiança, capaz de exercer o cargo de zelador do sultão. Lembrei o teu nome, citei as tuas qualidades, e o grão-vizir aceitou prontamente a minha indicação. Deixarás esta vida obscura e trabalhosa de agricultor, e irás servir no palácio do nosso grande califa. Passarás a ter uma existência brilhante, uma vida suave e grata aos olhos de Alá!'

E assim foi. Meses depois, recebi uma ordem em que o grão-vizir me chamava a Bagdá, para onde pressurosamente me transportei com a família, deixando as minhas propriedades entregues a um procurador. Na grande cidade do califa passei a executar as funções de zelador dos tesouros do sultão.

A princípio tudo correu bem. O meu cargo era realmente de grande responsabilidade, mas eu procurava desempenhá-lo a contento de todos. O generoso califa Harun-al-Rashid (que Alá sempre o conserve!) distinguia-me profundamente, honrando-me com sua amizade.

Um dia, porém, notei tomado de grande surpresa que havia desaparecido de um dos cofres do tesouro um saco cheio de moedas de ouro. O desespero, praga que até então minha alma não conhecera, invadiu-a toda, brutalmente. Era eu o único responsável! Tudo fiz para descobrir o paradeiro do roubo. Nada consegui. Como não quisesse confessar ao califa o ocorrido, vendi as minhas propriedades e com o dinheiro que obtive nessa venda coloquei no cofre outro saco igual ao que fora furtado. Inútil será dizer-lhe que, desse dia em diante, redobrei cuidados e vigilância. Mal podia dormir, tal a preocupação e o desassossego em que vivia. Uma angústia de todos os instantes me estiolava a saúde e me embranquecia os cabelos.

Para maior desgraça minha, decorrido algum tempo, novo roubo foi praticado no tesouro do sultão. Dessa vez desaparecera um saco cheio de ouro em pós. Desvairado, arranquei as barbas e chorei copiosamente. Não havia o menor vestígio do roubo, nem a mais leve indicação que me que me pudesse levar à descoberta do audacioso ladrão. Não querendo passar por desonesto, nem deslustrar a confiança ilimitada que o emir dos crentes depositava em mim, vendi todas as roupas, móveis, jóias e escravos que possuía, e conseguir adquirir outro saco igual ao desaparecido cheio do precioso metal.

Vi-me, porém, depois desse segundo roubo, reduzido ao extremo da miséria; não tinha mais nada de meu. Esmagado pelo infortúnio, mas acomodado à minha negra sorte, tomei uma resolução terrível. Dirigi-me ao califa, pedi-lhe licença por um ano, e afastei-me de Bagdá desaparecendo para sempre. Abandonei a família e os amigos. E agora, sem teto e sem rumo, vivo como um molambo humano a mendigar pelas ruas de Basra, à espera de que Alá, o Onipotente, escreva no livro do destino o termo dos meus dias infelizes."

E o mendigo, depois de uma pausa, prosseguiu: 

"Eis porque, senhor, a ninguém desejo a desgraça que a mim me feriu."

Sinceramente penalizado coma triste sorte do bom Hussein, disse-lhe Iussuf:

-- Fizeste mal, meu amigo, em ocultar a verdade ao grande califa. Quando um homem está inocente, e não tem na consciência a mácula do pecado não deve recear a verdade, qualquer que seja ela. Acho que deves procurar o califa e contar-lhe o sucedido. Estou certo de que o emir dos crentes, generoso e justo, saberá corrigir o mal e punir os verdadeiros culpados.

Iussuf tirou de seu dinheiro cem dinares de ouro e entregou-os ao mendigo:

-- Aqui está -- disse -- um pequeno auxílio para a tua viagem até Bagdá. Deves partir sem perda de tempo.

O velho Hussein, os olhos cheios de lágrimas, beijou as mãos do bondoso Iussuf, e, tomando o seu pesado bordão, partiu pelo caminho de Alá.

Depois de meditar algum tempo no estranho caso do velho Hussein, Iussuf dirigiu-se ao palácio do cádi.

O digno magistrado recebeu o peregrino imediatamente, fazendo-o entrar para um rico e luxuoso salão, cheio de alfaias e tapeçarias.

-- Senhor! -- exclamou o jovem, inclinando-se, respeitoso -- meu nome é Iussuf Abdallah Ben-Nahim. Sou fabricante de móveis no bairro Haiessalã. Tenciono fazer, pela primeira vez, a peregrinação a Meca, e, antes de partir, venho pedir-vos que guardeis em vosso poder os mil e novecentos dinares que este saco encerra. Virei buscá-los quando regressar da cidade santa.

-- Não vivo senão para bem servir os súdidos de meu país. -- respondeu o cádi. -- O dinheiro de um peregrino é sagrado. Saberei, meu bom Iussuf, guarda com religioso cuidado o teu precioso pecúlio.

E, recebendo do peregrino o saco cheio de ouro, foi depositá-lo em um grande cofre que ficava no fundo do salão.

Na madrugada seguinte, Iussuf partiu -- com uma grand caravana -- pela estrada de Hail, em demanda à cidade dos Sete Minaretes.

Três vezes as águas do Eufrates já haviam subido quando Iussuf regressou de sua piedosa peregrinação. O seu primeiro cuidado, ao chegar a Basra, foi procurar o cádi, a fim de reaver o seu precioso dinheiro.

Qual não foi, porém, a sua surpresa quando, ao chegar à presença do poderoso magistrado, tendo declarado o seu nome e o fim de sua visita, dele ouviu as seguintes palavras: 

-- Devo dizer-te, ó peregrino, que seria incapaz de ficar com um dinar que não fosse meu. Alá me livre de praticar semelhante infâmia. Há, porém, meu amigo, um engano lamentável da tua parte. Não te conheço, e, posso jurar, é a primeira vez que ouço o teu nome!


Continua...

segunda-feira, 5 de junho de 2017

CLÁSSICOS do Valentim

Gonzaguinha: Com a perna no mundo




ACREDITAVA na vida
Na alegria de ser
Nas coisas do coração
Nas mãos um muito fazer
Sentava bem lá no alto
Pivete olhando a cidade
Sentindo o cheiro do asfalto
Desceu por necessidade

Ó Dina
Teu menino desceu o São Carlos
Pegou um sonho e partiu
Pensava que era um guerreiro
Com terras e gente a conquistar
Havia um fogo em seus olhos
Um fogo de não se apagar

Diz lá pra Dina que eu volto
Que seu guri não fugiu
Só quis saber como é
Qual é
Perna no mundo sumiu

(Bis)


E hoje
Depois de tantas batalhas
A lama dos sapatos é a medalha
Que ele tem pra mostrar

Passado
É um pé no chão e um sabiá
Presente  é a porta aberta
E futuro é o que virá

Mas e daí,


 ô ô ô e á
O moleque acabou de chegar

 ô ô ô e á
Nessa cama é que eu quero sonhar, 

ô ô ô e á
Amanhã bato a perna no
Mundo,

ô ô ô e á
É que o mundo é que é meu lugar!

domingo, 4 de junho de 2017

MALBA Tahan e seus contos maravilhosos!

A dívida de Ben-Thulum


AHMED Ben-Thulum, chefe de notável dinastia que reinou durante muitos anos no Egito, tinha por vezes lembranças e ideias tão extravagantes que deixam perplexos os vizires e cortesãos de sua corte.

Um dia, como se encontrasse na varanda de seu belo palácio de Alepo, a admirar o movimento contínuo do populacho, na famosa e secular praça de Sultaniyé, dele se acercou o judicioso Abdul-Mahomed, seu conselheiro e amigo, e disse-lhe:

-- Só existe força e poder em Alá, o Altíssimo! Não há criatura humana capaz de vencer a fatalidade. O que nos aconteceu ou vai acontecer-nos já está escrito -- maktub! -- no livro do destino!

-- Acreditas então, meu amigo, -- observou o sultão com certa ironia -- que são irrevogáveis os decretos do destino? Embora professe com sinceridade a religião de Maomé (com ele a oração e paz!) e me considere fervoroso muçulmano, não sou fatalista intransigente. Estou convencido de que os reis, por exemplo, podem alterar facilmente, graças à força de que dispõem, o destino de uma criatura! Queres uma prova, segura e irrefutável, do que assevero?

E, como Abdul Mahomed ficasse silencioso, a fitá-lo com mostras de não pequena admiração, o soberano prosseguiu:

-- Vou já alterar radicalmente a vida de um homem qualquer do povo. Estás vendo aquela fonte lá embaixo, no meio da praça de Sultaniyé? Pois bem, ao primeiro homem que, a partir deste instante, for saciar a sede ou fazer abluções naquela fonte, mandarei dar duzentos dinares de ouro e transportá-lo, ainda hoje, para Antioquia! Verás se sou ou não capaz de modificar o destino, bom ou mau, de uma criatura de Alá!

Os cortesãos que se achavam em palácio, informados do novo capricho do sultão -- afluíram à varanda, aguardando curiosos o curso daquele desígnio.

Momentos depois, um velho mercador sírio que vinha descuidado pela rua de Bab-Nerab, na ignorância completa do que se passava no palácio, dirigiu-se vagarosamente à fonte de Sultaniyé e depois de lavar o rosto e as  mãos bebeu regaladamente um pouco da água clara e límpida que ali corria. 

O orgulhoso monarca, que tudo observara, deu as necessárias ordens a um de seus oficiais, e o velho mercador foi imediatamente levado à sua presença.

Disse-lhe, então, sem mais preâmbulos, o caprichoso sultão: 

-- Vais receber, ó muçulmano, duzentos dinares de ouro e, por minha conta, uma escola do palácio vai conduzir-te, hoje mesmo, para Antioquia!

Notaram, porém os vizires e nobres muçulmanos presentes que o sírio não parecia surpreendido nem preocupado com as decisões caprichosas e inesperadas do califa. Inclinou-se humilde e, como se quisesse dar prova de profunda gratidão, beijou duas vezes a terra junto aos pés do soberano.

-- Por Alá! -- exclamou o sultão. -- Não estás, ó mercador, contente com o belo pecúlio que acabas de receber? Consideras inoportuna esta viagem até Antioquia?

-- Contente estou, ó rei generoso -- respondeu o velho traficante. -- Há dois anos que esperava ansioso por este chamado de Vossa Majestade!

-- Como assim? Contavas, então, como coisa certa receber esse dinheiro?

-- É verdade! -- continuou o ancião. -- Meu nome é Khalil Nahib e sou mercador em Antioquia. Tenho pequena tenda nas margens do Oronto, junto ao velho Serralho. Há dois anos vendi ao jovem Harun, o filho mais moço de Vossa Majestade, uma partida de joias no valor de duzentos dinares de ouro. Como não dispusesse, no momento, dessa importância, disse-me o nobre e generoso Harun que viesse recebê-la em Alepo, no palácio real. Há dez meses que vivo nesta cidade, e muitas vezes tenho tentado falar a Vossa Majestade, mas sou sempre impedido pelos guardas e porteiros deste palácio. Hoje, finalmente, baldadas todas as esperanças, resolvera voltar para Antioquia com alguns amigos e viajantes. Quando ia, porém, agora, atravessar a praça de Sultaniyé, depois de ter feito as abluções usuais na velha fonte, de mim se aproximou um guarda que me conduziu, aqui, à Vossa Majestade. Eis porque não foi surpresa para mim receber, juntamente com a quantia de duzentos dinares, uma ordem de regresso para Antioquia! Os dinares me eram devidos e precisamente para Antioquia ia eu!

-- Louvado seja o Onipotente! -- exclamou o sultão. -- O caso singular que acaba de ocorrer com este velho mercador vem mais uma vez provar que os homens, sejam escravos ou reis, nada podem contra o destino! Estava escrito -- maktub! -- que este mercador haveria de receber o dinheiro que eu lhe devia -- e fui eu próprio quem lhe pôs nas mãos a valiosa quantia!

E concluiu atemorizado:

-- Queira Alá, o Exaltado, seja esta a última dívida que a fatalidade me obrigue a pagar!

(Céu de Allah, 11ª edição, 1957)


sexta-feira, 2 de junho de 2017

MALBA Tahan


LOGO adiante deram com um jovem magro e muito mal trajado, que, pela barba de quinze dias, mãos calosas e pés deformados, parecia ser pessoa muito pobre. Indagado se aceitaria ir à casa do narrador ouvir uma lenda, o rapaz concorda se lhe dessem duas fatias de pão. "Terás o pão que quiseres", prometeu com ar risonho para incutir ânimo ao famélico. Anexando-se ao grupo, eram naquele momento em número de cinco. 
Éramos, naquele momento, em número de cinco. Não havia tempo a perder.
 Seguimos a passos largos pela estrada.

Ocorre que, ao ouvir uma trova, o jovem paupérrimo tornou-se muito agitado e, não sossegando, quis saber de quem o narrador havia escutado os versos. "Com quem aprendeste esta canção?".  Não compreendendo nada, mas não vendo razão para ocultar a verdade, o narrador disse ao jovem que ouvira da boca de Zualil. Diante disso, o rapaz sai correndo como um beduíno perseguido por um bando de panteras negras do deserto, deixando a atônitos a todos. "Ficamos estupefatos. Para a estranha atitude do jovem não achávamos explicação satisfatória". Para o mestre-escola, o rapaz é um maníaco; já para o matemático, na vida do moço existe um drama. Resignados com a perda de um ouvinte, voltam para casa na esperança de no meio do caminho encontrarem o quinto ouvinte.

Chegando a casa, mais uma surpresa: Zualil estava ausente, deixando um homem cego para vigiar a casa. "A pessoa que se achava nesta casa foi obrigada a partir e pediu-me que aqui ficasse de vigia, até o dono regressar." A inesperada declaração do cego deixou o narrador e dono da casa estupidificado. Se hóspede partira e deixara um cego vigiando a casa. "O tal egípcio não passa de um tratante! As minhas desconfianças não eram, afinal, infundadas!", indigna-se o narrador.


Mas há explicação para tudo e Zualil, logo retornando, tem uma para justificar sua ausência, deixando em seu lugar uma pessoa deficiente visual. 

Essa história contamos em "O guardião cego", postada neste blogue em 24abr2017. Sobre cegueira e todos os tipos de cegos, o matemático Zoraik aproveita para contar a história "O burro amarelo, bem burro e bem amarelo", que postamos em  04maio2017. 

Ao todo postamos dez histórias de Malba Tahan. Finalizamos com "Mustafá, o servo leal", em 10maio2017, em que o rapaz magro e faminto aparece de posse das pedras preciosas. Ele as devolve a seu dono, o egípcio Zualil, que estava dizendo a verdade o tempo inteiro.
Continha o prodigioso cinto, pela sua parte interna,
 lindíssima coleção de rubis e brilhantes


Esse era um homem singular. E o narrador se identifica na 36ª história: é o douto e sisudo vizir Abu-Mussa.  

segunda-feira, 29 de maio de 2017

MALBA Tahan



FORA logrado, decerto. Enquanto pensava assim,  eis que a atenção do narrador é atraída por cantarolar alegre de alguém no jardim. Era Zualil. "Reconheço que não passo de um hóspede importuno, pois já devia ter prosseguido a minha jornada", disse-lhe com um grande sorriso o singular visitante. "Penalizou-me, porém, acordar-te ao romper do dia. Notei que estavas sob peso de grande fadiga. Levantei-me ao primeiro chamado do muezim. Ao preparar-me para a prece resolvi dar pequeno arranjo à sala... Chamou-me a atenção este belíssimo narguilé de prata. Não posso ver uma peça de tão grande valor artístico coberta de pó e cheia de manchas. Resolvi, pois, deixá-lo bem limpo e em condições de ser admirado"

"Quando cheguei de volta à sala, tive a surpresa de
 encontrar o  meu hóspede em companhia de um desconhecido."
Percebeu o narrador estar em presença de um homem singular, um ser humano extraordinário, acima da média dos demais homens. Arrependido, sentiu vergonha de seus pensamentos e pediu desculpas por isso. Zualil disse-lhe que todas as aparências depunham contra ele e não se sentia ofendido pelo mau juízo feito por seu anfitrião.

E apontando para o narguilé, agora limpo e sem manchas, pergunta se seu interlocutor já lera alguma vez as legendas que nele aparecem: "Aprende a escrever na areia". 

Como as histórias nunca terminam, o conto anterior continua em outro: a história sobre a legenda do narguilé, contada por Zualil, o visitante singular. Postamos aí  "Os dois amigos", em 14abr2017.  A legenda gravada no narguilé é a deixa para essa outra narrativa.

O Narrador retira-se para a cozinha a fim de preparar o desjejum, deixando o hóspede na sala. Na volta, vê este em companhia de um desconhecido com quem conversa alegremente.

"Espero que não te aborreças com este novo hóspede! Chamei-o para servir-nos de companhia na refeição. Ele ia passando e eu o convidei. Fiz mal? Aprovas o meu gesto?"

Ficou evidente que ele - o narrador - não gostou nada. "A continuar daquela maneira, dentro de poucas horas a minha casa estaria transformada numa turbulenta hospedaria ou num caravançará enxameado de forasteiros". No entanto, não viu outra solução senão concordar, homologando o convite feito. 

Era um mestre-escola o convidado do convidado. Seu nome era Iezid Chakalid e "tinha por hábito não recusar os convites atenciosos e as ceias apetitosas." Devorou com apetite os diversos pratos que o narrador havia cuidadosamente preparado, não cessando, um só instante, de tagarelar, declamar e discutir. Falou com extraordinária eloquência do maravilhoso tanque existente no paraíso, segundo a crença dos muçulmanos. "O paraíso é todo entrecortado por inúmeros regatos. Nem todos são de água fresca e cristalina. Em muitos só corre leite, e que leite delicioso! Em outros circula vinho puro e gelado que não embriaga..."

Conforme prometera, chegava a hora de partir. Zualil, como prova de gratidão pelas gentilezas e atenções recebidas, oferece ao amigo três coisas, porém só podia escolher uma delas: um conselho, um segredo ou uma lenda.

"Fitei-o cheio de assombro. Aquele homem singular pretendia pagar as gentilezas e atenções que recebera em minha casa com a moeda mais desvalorizada do mundo: segredos, lendas e conselhos!". Qualquer outro em sua situação dispensaria tal pagamento. "Podes seguir o teu caminho que eu nada mais desejo de ti". No entanto, julgou indelicado de sua parte tratar Zualil, o homem singular, dessa maneira.

Desprezou o conselho e o segredo, optando por escutar a lenda. Mas não era assim tão simplesmente escutar a lenda. "A lenda que pretendo contar-te, como retribuição pelas boas horas que aqui passei, intitula-se "As sete pontas do quadrado" e é uma das histórias mais assombrosas do mundo." Tão assombrosa e fantástica que deveria ser contada para uma plateia de cinco mil quatrocentos e trinta e nove ouvintes. "Repara bem: Essa lenda notável, o maior tesouro literário do mundo, deveria ser ouvida por 5.439 pessoas!". No entanto, como a casa não comportava a multidão de cinco mil quatrocentos e trinta e nove pessoas, fez uma concessão, reduzindo esse número para apenas cinco ouvintes.

Caberia então ao anfitrião e narrador, acompanhado do mestre-escola, reunirem somente mais três pessoas disposta a escutar a fabulosa lenda "As sete pontas do quadrado", o maior tesouro literário do mundo. 

Saíram então a procurar pelas ruas mais três pessoas, deixando aquele homem singular em sua casa. 
Arregalou os olhos, mediu-me muito sério da cabeça aos pés e
 respondeu-me num tom de lástima: "As melancias ainda estão verdes..."

Logo adiante surgiu um modesto burriqueiro, que, pelas respostas sem sentido, parecia ser surdo. Em "O burriqueiro surdo", narramos essa história. Esse homem, sendo surdo, logicamente, não servia para escutar a notável lenda "As sete pontas do quadrado", cabendo aos dois - o narrador acompanhado do mestre-escola - seguirem em frente à procura de mais três ouvintes. 

Seguiram adiante, foram até a residência do corretor Chafid Bechara, que, por sua vez, lhes indicou seus auxiliares, sendo eles um botânico e outro matemático. Estavam aí em número de quatro, faltando apenas mais uma pessoa para ouvir a notável e fantástica lenda "As sete pontas do quadrado", digna de ser ouvida por uma multidão de 5.439 pessoas.

Continua...


GREGÓRIO Fortunato, vítima de seu próprio sucesso


"DEPOIS daquela noite terrível que a família Vargas passou em claro, se defendendo como podia do ataque integralista, Getúlio compreendeu que tinha de organizar uma guarda do palácio. Não segundo o modelo comum das guardas pretorianas , para aparar os golpes da cúpula militar - se tivesse pensado nisso, teria evitado muitos dissabores - mas numa guarda pessoal, para sua proteção e da família.


Quando Getúlio incumbiu Bejo Vargas de dar os primeiros passos neste sentido, este lembrou-se logo do tenente Gregório Fortunato. Naquela manhã, após a fuga dos integralistas para os cerros cobertos de florestas que circundam o Rio de Janeiro, Bejo, auxiliado por Gregório, desalojou os atacantes que alvejaram o palácio da copa das árvores. Muitos deles tinham ficado escondidos entre as ramagens - não tiveram tempo de descer - e esperavam a escuridão da noite para escapar. Bejo e Gregório, auxiliados por Severino Góis, puseram fim a este sonho apeando um por um dos galhos a tiro de 45, como quem caça jucus.

Gregório era o homem de confiança de Bejo Vargas, desde o tempo em que servia como tenente no 14º de Corpo de Provisório, em São Borja. Auxiliara o coronel Bejo na formação do Corpo, recrutando soldados nos municípios vizinhos, especialmente em São Luís, sua terra natal. Bejo mandou-o para lá justamente por causa de seus laços familiares e de amizade, o que deveria favorecer o recrutamento. Contam que numa de suas remessas frequentes de recrutas, Gregório teria mandado o seguinte bilhete ao seu comandante, pelo cabo da patrulha: "Coronel Bejo. Estou remetendo 5 voluntários de São Luiz. Não se esqueça de me devolver os maneadores pelo portador. Ten. Gregório".


É claro que se trata de uma anedota maldosa, inventada pelos seus inimigos, que naquela época já não eram poucos. O Corpo Provisório de São Borja marchou para a frente paulista em 1932, e com ele o coronel Bejo e o tenente Gregório.

Getúlio nutria uma grande amizade pelo Bejo, que era o seu irmão mais moço. Ele tinha dado provas insofismáveis de lealdade, como naquela manhã do ataque integralista, aparecendo com um batalhão providencial para socorrê-lo, e também na derrubada de Flores da Cunha; mas não foram poucos os problemas que ele criou.

Bejo entregou ao Gregório a tarefa de organizar o núcleo inicial da guarda. Mas logo surgiu um desentendimento com dona Darcy. Murmuravam que Getúlio costumava manter uma ou outra ligação amorosa eventual. Segundo um dos irmãos Cardoso, integrantes da guarda pessoal, suspeitava-se que algumas saídas que ele fazia à tarde, de automóvel e acompanhado de Gregório, tinham por destino um palacete na Gávea. Talvez fosse se encontrar com a Adalgisa Neri, esposa de Lourival Fontes, diretor do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), ou outra dama qualquer; ou fosse simplesmente espairecer. Aranha devia ter ouvido qualquer coisa sobre isso, pois no final de um despacho com Getúlio, disse-lhe: "Andam dizendo por aí que a Adalgisa Neri é tua amante." Respondeu Getúlio: "Qual nada! Isso é o Lourival Fontes que anda espalhando para se engrandecer."

Oswaldo tinha grande intimidade com Getúlio, sendo um dos poucos que lhe davam o tratamento amistoso de "tu". Essas supostas aventuras amorosas de Getúlio teriam sido a causa aparente da separação de d. Darcy, que ocorreu mais tarde. Quando ela ficou sabendo desses passeios à tarde, não cogitou de se informar se a companhia de Gregório fazia parte ou não das suas atribuições como chefe da guarda. Apesar da grande força de Bejo junto ao irmão, ele não pôde impedir que o seu antigo tenente fosse mandado de volta para São Borja. O comando da guarda foi entregue então a um oficial do exército, o coronel Vanique.

Parece que houve influência militar em todas essas manobras: conhecimento de d. Darcy, culpa de Gregório e sua exoneração. Talvez os militares pretendessem emprestar um caráter mais técnico à Guarda, ou simplesmente exercer um controle direto sobre ela. Se pensaram assim, escolheram o homem errado, porque Vanique foi um fracasso total. Deixou-se levar pelo alcoolismo e teve de ser afastado. Bejo encontrou-se numa situação muito cômoda para solicitar o retorno de Gregório.


Gregório foi de fato o organizador da guarda pessoal, e o precursor de métodos de proteção aos chefes de Estado, que somente mais tarde foram empregados por nações mais adiantadas. Quando Getúlio se deslocava para assistir as solenidades em um lugar qualquer, ele - Gregório - distribuía previamente por toda a área os seus homens, ocultos sob todos os disfarces possíveis: varredores de rua, recolhedores de lixo, pessoal consertando rede elétricas, de telefones, etc." (Rubens Alves Vidal in Os Vargas, páginas 166 a 168).


ALCINO João do Nascimento foi o pistoleiro contratado para a execução do crime. Climério Euribes de Almeida, o intermediário, primeiro procurando José Antônio Soares, que alegou já ser velho (50 anos) para o serviço. Foram envolvidos também e condenados Nelson Raimundo, que estava de motorista de táxi, e João Valente de Sousa.

Mas a responsabilidade maior do crime recaiu em Gregório Fortunato. O Anjo Negro alegou em sua defesa terem sido os mentores intelectuais da trama o general Ângelo Mendes de Morais, os deputados Euvaldo Lodi e Danton Coelho, e Benjamim Vargas, irmão caçula de Getúlio, que queriam apenas dar um "susto" em Lacerda.

Como chega a ser até natural em casos assim, a culpa acabou por recair na parte mais fraca, na arraia miúda: Gregório e mais quatro. Os tubarões se eximiram sob as mais variadas alegações, inclusive de cunho preconceituoso de raça e social. O deputado Danton Coelho sequer foi processado por ter a Câmara dos Deputados negado autorização. 

Preso, Gregório resistiu ao máximo em assumir sozinho a culpa pelo crime que matou Vaz e feriu Lacerda, só o fazendo depois de ler uma manchete falsa do jornal Tribuna da Imprensa, em que anunciava a fuga de Bejo Vargas para o Uruguai, que "abandonava assim seus amigos na hora do perigo".

Ora, se isso não representava uma confissão indireta de culpa da parte de Bejo Vargas, ao ponto de Gregório se sentir abandonado pelo chefe, o que mais seria? E os opositores de Vargas sabiam disso, caso contrário não teriam tido essa ideia, a de fabricar uma edição falsa de jornal, que surtiria os efeitos desejados: fazer Gregório assumir sozinho o crime.

Benjamim Vargas, ou Bejo Vargas, foi o idealizador da guarda pessoal do irmão, e seu principal organizador em 1938. O verdadeiro chefe da equipe, sendo Gregório seu fiel escudeiro.

Bejo era do tipo valentão, sangue quente, daqueles que não leva desaforo pra casa. Getúlio teria reunido os familiares no Palácio Guanabara e, encarando o irmão caçula, dissera: "pela segunda vez, Bejo, tu me tiras do governo." Essa era a forma sutil que Getúlio encontrou para dizer que sabia do envolvimento do irmão no episódio funesto.

Gregório, semi-analfabeto e negro, acabou sendo vítima de seu próprio sucesso. Chegou a ter quarenta ternos, e incomodava a tanta gente importante por ter acesso direto ao presidente. Muita gente boa deveu favores ao Nego; muitos coronéis e generais deveram promoções a ele; muitos empresários e políticos tiveram aberta por Gregório a porta do gabinete presidencial. Por essas e outras era muito requisitado, e ele atendia por lisonja, quando na verdade era apenas usado.

Os interrogatórios, levados a efeito pelo IPM da "República do Galeão", objetivavam encontrar uma maneira de responsabilizar o presidente. Não o conseguindo, contentaram-se em chegar a seu principal guarda-costas, aquele que era culpado até pelas saídas furtivas de Getúlio Vargas. 

Mas como um oficial da Aeronáutica foi morto, em vez do verdadeiro alvo, Carlos Lacerda? O povo ficou sabendo que algum tempo antes o brigadeiro Eduardo Gomes, adversário derrotado por Getúlio em duas eleições, destacou alguns oficiais da FAB para acompanhar dia e noite a Lacerda, pois temiam um atentado contra ele. Essa situação ocorria naturalmente à revelia do ministro da Aeronáutica, brigadeiro Nero Moura, que sabia mas não tinha como coibir tal afronta aos regulamentos militares. A Aeronáutica na verdade possuía dois comandantes, sendo um deles quem realmente mandava na Força. Naquela ocasião o guarda-costa de Lacerda era o major Vaz, que substituía na escala o major Gustavo Borges, escalado em cima da hora para uma viagem a serviço.


"No Departamento de Polícia Técnica, dia 22 de setembro de 1954, ao prestar depoimento, Bejo Vargas procurou, habilidosamente, empurrar a responsabilidade das ações da Guarda Pessoal para cima do Nego. A essa altura, conforme afirmou, nem sabia das pessoas que integravam o corpo de segurança palaciano.

Após identificar-se, teve a cara-de-pau de afirmar que conhecera Gregório somente em 1927, quando este o procurou pedindo ajuda por estar doente. Nessa época o Nego imaginava ter contraído tuberculose e Bejo, farmacêutico, era quem respondia pela Farmácia Vargas, instalada na antiga rua Sete de Setembro, atual Avenida Presidente Vargas, em São Borja. Disse também que Gregório, em 1932, serviu sob suas ordens num Batalhão de Provisórios do Rio Grande do Sul; participou da Revolução Constitucionalista e chegou ao posto de segundo-tenente.

Terminada a luta, foi para Porto Alegre, onde arranjou emprego de contínuo na Alfândega. Quando, em 1938, a Guarda Presidencial foi formada, após o "putsch" integralista, Gregório e outros gaúchos foram convocados a integrá-la. Disse que o pessoal da GP compunha-se de antigos sargentos, cabos e praças que tinham servido no Corpo Provisório que lutou em São Paulo, sob as ordens do coronel Eurico Gaspar Dutra.

Disse mais: o recrutamento atendeu ao critério da lealdade e da confiança que os recrutados mereciam dele. Explicou que Gregório, em princípio, era apenas um membro da equipe, sendo mais tarde escolhido para chefiá-la, mediante portaria do então chefe de Polícia do Distrito Federal, coronel Filinto Mülller.

Explicou que a guarda terminou sendo dissolvida a 29 de outubro de 1945, fim do primeiro governo Vargas, e que na sua reconstituição, quando seu irmão voltou à Presidência, em 1950, não teve a menor participação. Com relação a seu conhecimento com Climério, explicou ter sido recrutado para integrar o Batalhão de Provisórios em 32, mas, face às trabalhadas em que se envolvera, não recordava se o havia punido ou dispensado.

Quando organizou a guarda em 38, cuidou de saber de Gregório por que trouxera Climério do Rio Grande, e este lhe respondera que se tratava de um pobre homem, agora regenerado. Que a primeira notícia que teve do crime na Tonelero foi na manhã imediata pelos jornais. Foi quando tomou conhecimento da participação de Climério no atentado, conforme as declarações do motorista Nelson e do Alcino. Logo depois esteve no Catete, tendo pedido informações sobre o caso a várias pessoas, inclusive a Gregório, e este lhe dissera não saber de nada, além do que divulgavam os jornais.

Que o declarante se satisfez com a explicação, pois até então não o julgava envolvido no crime, nem sabia que Climério, um dos personagens do atentado, participava da Guarda; que no dia seguinte o declarante seguiu para Petrópolis e só ao retornar, dia 8, foi que Gregório confessou seu envolvimento na trama.

Disse também, estar a par do empenho do governo em descobrir os responsáveis pelo atentado; disse ignorar que a imprensa acusasse Getúlio por crime de favorecimento, pois não lia os jornais que o atacavam; lia preferencialmente o vespertino Última Hora. Explicou que no dia 8 deixou sua casa em Petrópolis após receber telefonema do major José Acioly, para que viesse; era urgente, fatos graves se sucediam. O depoente ordenou que seu motorista se apressasse, e na raiz da Serra notou que um outro carro fazia sinais de faróis. Pararam. Era Gregório num automóvel dirigido pelo motorista Artur. Bejo passou para esse carro e o Anjo Negro disse que o presidente estava uma fera. Considerava-se ludibriado, pois lhe garantira ter "a Guarda na mão", e pouco depois elementos que a ela pertenciam estavam em todos os jornais como envolvidos na tentativa de assassinato de Carlos Lacerda e na morte do major Rubens Vaz.

Acentuou o declarante que somente aí, prometendo falar a verdade, como se estivesse diante de um padre, afirmou que mandara executar o crime; a confissão, sempre em voz baixa, chocou grandemente o declarante, daí ele não se recordar direito do que mais lhe disse o Nego" "(...) Mas lembrava de ter indagado se havia algum mandante ou instigador, além dele, e não obteve resposta."

Depois de tantas mentiras, Bejo disse uma verdade: "o presidente perguntou-lhe se sabia do movimento de Gregório, respondeu afirmativamente", e Vargas, demonstrando indignação, gritou que "os tiros no pé do Lacerda e no major Vaz foram tiros nas costas do Governo". Pouco depois chegava Oswaldo Aranha, e a ele dirigiu-se Getúlio, perguntando se admitia o envolvimento de Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal, no atentado da Tonelero. Aranha sacudiu a cabeça afirmativamente. Getúlio, então, decidiu dissolver a Guarda e convocou o general Caiado de Castro, a fim de prender o Anjo Negro.

O depoente teve a desfaçatez de, após a reunião com o presidente, encontrar-se pessoalmente com Caiado de Castro e com o major Ene, chefe de segurança do palácio, aos quais denunciou o ex-amigo. (...) Transformado em bode expiatório, só lhe restava um caminho: assumir a mentira como sendo verdade, pois sabia que Ângelo Mendes de Morais, Euvaldo Lodi, Danton Coelho e o próprio Lutero jamais contariam como a trama se iniciara. (José Louzeiro in O Anjo da Fidelidade, páginas 405 a 408)
(BLOGUE do Valentim em 28maio2016)

domingo, 28 de maio de 2017

MALBA Tahan

JÚLIO César de Melo e Souza, antes de morrer, pediu que seu enterro fosse feito num caixão de terceira classe, sem homenagens, flores ou coroas. A humildade foi uma constante na vida desse homem que adotou o pseudônimo de Ali Iezid Izz-Edim ibn Salim Hank Malba Tahan, o famoso escritor árabe. 

Homem singular -- nas palavras que ele tanto gostava de utilizar em suas obras --, Melo e Souza, formado em Engenharia Civil,  preferiu dedicar-se ao magistério e à literatura, mesclando a Matemática às divertidas histórias da Arábia medieval, mesmo sem nunca ter visitado o Oriente Médio.

Quando o professor Melo e Souza decidiu criar o escritor Malba Tahan (Crente de Alá e de seu santo profeta Maomé) não quis criar apenas um pseudônimo, mas fazer com que ele parecesse real. O primeiro livro escrito como Malba Tahan, Contos de Malba Tahan, logo na primeira página, aparece a ilustração de um árabe, com turbante e de longas barbas brancas, escrevendo. Assim, durante muitos anos o público acreditou que Malba Tahan realmente fosse esse árabe de longas barbas brancas e turbante. Júlio Cesar e Malba Tahan passaram a ser então duas pessoas diferentes, havendo aí uma fusão entre o real e o fictício. Por esse motivo, Julio César de Mello e Sousa foi autorizado pelo Presidente Getúlio Vargas a identificar-se livremente com o nome Malba Tahan, constando em sua carteira de identidade.


Malba seguiu seus estudos por Cairo (Egito) e Istambul (Turquia) até receber uma vultosa herança de seu pai e resolver viajar pelo mundo, passando pela China, Japão, Rússia e Índia, onde teria observado e aprendido os costumes e lendas desses povos. Teria estado, por um tempo, vivendo no Brasil. Morreu em batalha em 1321 na Arábia Central, lutando pela liberdade de uma minoria dessa região. Seus livros teriam sido escritos originalmente em árabe e traduzidos para o português pelo também fictício professor Breno Alencar Bianco.

Recentemente o  BLOGUE do Valentim dedicou muitas páginas a essa personalidade singular, que, em nosso conceito, foi o mais original escritor brasileiro de todos os tempos. Para a homenagem extraímos tais páginas da obra "Mil histórias sem fim - volume 2", cuja característica original é que uma história nunca termina, ou seja, ela continua numa nova, e esta, em mais uma e mais uma, prendendo indefinidamente a atenção do leitor.

Assim, em 11abr2017, iniciamos com "O viajante desconhecido" de nome Zualil Delach, um libanês radicado no Egito. 

Observador rigoroso das leis do Islã, após a prece, promete ao narrador a baraka, pois, segundo crença geral, dois homens sozinhos, sendo um deles desconhecido ao outro, quando rezam juntos, forçosamente virá ao encontro do anfitrião a felicidade, a baraka. Entrementes, por duas vezes o anfitrião-narrador surpreende Zualil olhando para um valioso narguilé de prata, que ornamentava uma das paredes, surgindo aí ligeira onda de desconfiança, que lhe negreja o coração. Estaria o visitante sendo sincero?

O narrador pede então que seu visitante se identifique. É aí que postamos, em 12abr2017, "A vida aventurosa do misterioso visitante", em que o viajante relata a sua vida repleta de aventuras, que resumimos a seguir:

Zualil dedicou-se no Egito ao comércio de jóias e especiarias, no entanto a vida errante exercia sobre ele grande atração. Fez-se então criador de carneiros, porém tornou a ficar pobre em virtude uma peste que assolou a região. Forçado a sobreviver, aceitou o emprego de zelador de marabu (espécie de capela na cultura muçulmana), função em que não se demorou por muito tempo. Instigado por alguns se arvorou a exercer a medicina, o que o fez com grande habilidade e eficiência. Um grande chefe marroquino, curado de grave enfermidade, concedeu-lhe uma das filhas em casamento como forma de gratidão. Tornou-se assim novamente rico e possuidor de enorme coleção de pedras preciosas. Mas, desiludido com a medicina, passou a exercer outras formas de ganhar a vida, partindo para o Cairo com a intenção de vender todas as suas valiosas gemas e com o lucro obtido dedicar-se ao plantio de algodão. Ao chegar ao Egito, acabou por envolver-se em intensas lutas políticas, tendo sido preso e logrado fugir da prisão, passando a viver como fugitivo e perseguido político. Temendo que suas gemas caíssem em poder de seus inimigos, confiou-as a seu servo leal, o paupérrimo e famélico Mustafá Nachib, que ficou incumbido de lhas devolver em data e local combinados. Ocorreu, entretanto, que no prazo combinado Zualil caiu doente e quando chegou a Bagdá (onde combinaram encontrar-se) não mais localizou o servo Mustafá.

Ora! Como era ingênuo, sendo isso toda a verdade, o visitante Zualil, dizendo-se xeique, que ao final confia todos os seus pertences a um servo faminto. É claro que, uma vez em poder das preciosas gemas, Mustafá desapareceu e passou a viver uma existência de príncipe, pensava consigo o narrador-anfitrião.

Pedindo pouso, o narrador acolhe - embora com alguma desconfiança - o visitante em sua casa, onde pernoita com a promessa de seguir jornada na manhã seguinte. 

Manhã do dia seguinte. Na narrativa "Um homem singular", ao acordar nota a ausência do hóspede, imaginando então que havia partido cedo sem ao menos se despedir. Porém, num estranho pressentimento, ao dirigir o olhar à parede percebe a inexistência do precioso narguilé. Fora roubado! Como fora ingênuo! Afinal, o visitante, contando toda aquela história mirabolante, repleta de aventuras, não quisera senão ludibriar a sua boa fé. Tolo!

Continua...