terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

CALIXTO Wilson e outros falsários

O caso da chave


O RELATO sincero do amigo Juvenal, relatado no dia anterior, ainda remoía na cabeça de Calixto Wilson. Encerrava o caso, além do dupla situação de fraude, a primeira ao sistema financeiro da habitação, e a segunda contra a disciplina dos quartéis, alguns ensinamentos. Dentre os fraudadores, um que não foi alcançado pela punição disciplinar coletiva aplicada pelo comandante, porque seu nome não constava da relação enviada ao comandante da unidade pela gerência local da Caixa Econômica. A suspeita de Juvenal de que o pilantra tivesse pago suborno a funcionário não era despropositada. Calixto bem chegou a conhecer o sujeito. Era o mesmo que passou a perna em muita gente, incluindo alguns oficiais,  e para um deles "vendeu" carro, automóvel esse que não lhe pertencia vez que ainda estava em nome de outrem. Para outros "vendeu" terrenos que não existiam. Após transferido, uma família foi parada na guarita da vila dos sargentos, com caminhão de mudança e tudo, e eles queriam tomar posse da casa que o sargento lhes havia "vendido", negócio feito mediante gorda parcela de entrada. Gente humilde que fora enganada por pessoa sem nenhum escrúpulo, que busca o vil metal a qualquer custo. 

Da mesma série: Risco calculado

Na segunda, o próprio Juvenal foi protagonista, pois, ao vento de circunstâncias favoráveis, fraudou o texto da punição retirando seu nome. De fato ficou preso, porém de direito nunca houve punição alguma, ao menos para ele. Paralelo ao episódio, há o caso do encarregado, e, pessoas como ele, Calixto conhecia muitas. O mundo está cheio de pessoas assim: impiedosas no trato com os mais fracos, porém subservientes nas relações com os poderosos. 


Refletindo sobre tudo o que, formalmente, por meio dos documentos que lhe chegavam para copiar, ou de maneira informal, pelas conversas que ouvia pelos corredores da unidade e em seu próprio local de trabalho, chegava à conclusão de que no mundo há muita gente capaz de praticar a fraude. Mas isso não dar a ninguém o direito de rotular as pessoas que assim agem como desonestas. Há, segundo seu pensamento, vezes em que as circunstâncias ou até mesmo uma espécie de legítima defesa levam o homem a, digamos, dar um jeitinho aqui e outro acolá. Noutras vezes, de forma ingênua, inocente ou casual, acaba se envolvendo em situações embaraçosas que, por vezes, lhe rendem complicações tumultuosas na vida.

Por sinal, nutria espécie de preconceito contra as pessoas que se dizem acima de qualquer suspeita. No íntimo, cada um de nós que vivemos na face desta terra tem algo de errado, uma fraqueza, ainda que a gente não se dê conta disso. Erro é o que há nas outras pessoas, e não na gente própria. Era assim que pensava o copiador.

Procurava a chave para fechar a seção e por algum instante não a localizava. Lembrou nesse instante do caso de Florindo, que se envolveu - ou foi envolvido - num caso de desaparecimento de material. Sujeito ingênuo o Canela-de-Freira, como alguns maldosamente o tratavam.

Florindo Adelar Tavares da Cunha, um jovem alto e muito magro, branco quase pálido, óculos fundo de garrafa, assim que se formou foi classificado para trabalhar no almoxarifado. A timidez era uma de suas características mais notadas, além de ser incapaz de fazer mal a uma mosca. Também era metódico, obcecado por fazer tudo certinho, daqueles raros sujeitos muito trabalhadores, que chegava sempre adiantado e saía sempre depois. Ninguém tem notícia que algum dia tenha ele se atrasado a qualquer compromisso.

Chegou ele no local de trabalho para início de suas atividades, na verdade um grande galpão, com muitas prateleiras e uma infinidade de materiais que eram distribuídos para o bom funcionamento da unidade, e pôs-se prontamente ao trabalho.

Devido às suas características peculiares, logo virou alvo predileto dos piadistas e humoristas que o Brasil produz aos montes e nessa unidade havia alguns. No primeiro dia de trabalho, deram a ele a missão de enviar um objeto que, segundo lhe disseram, se tratava de uma peça de aeronave. O objeto estava dentro de uma caixa de papelão, bem fechada e embalada, trazendo em seu exterior etiquetas com o PN - do inglês part number - e outras identificações técnicas, tudo de acordo com as TO em vigor etc. Deram-lhe a ele a caixa, cujo conteúdo pesava seguramente mais de cinco quilogramas. Era para ele levá-la ao hangar de manutenção. "Toma bastante cuidado com isto, Novinho, pois se trata de um importante material aeronáutico. É caríssimo", recomendou-lhe o suboficial encarregado. "Não me pergunte se sou capaz, dê-me a missão, senhor.", respondeu Florindo, repetindo um aforisma pintado numa das paredes da escola de formação, frase esta que ele lera por dois anos. Florindo, como outros, fora doutrinado para obedecer sem questionar, por isso, rumou imediatamente para o setor indicado. Chegando lá, tomando informações, mandaram que Florindo entregasse o objeto ao encarregado do setor. 

Ao falar com encarregado do local: "Novinho, só pode ser engano. Deve ser entregue lá na seção de MF". Então ele tocou para a seção de Máquinas e Ferramentas. Esse setor ficava em outra ponta da unidade, e, tendo ele que conduzir aquela tralha por mais cem ou mais metros, chegando ao encarregado da MF, este, esboçando um leve sorriso, pedindo desculpas, o enviou para a seção de pinturas. E assim, ao final daquela tarde calorenta, não achando o destinatário final do objeto, o tal item aeronáutico, não lhe restou outra opção senão voltar ao seu setor de origem e confessar seu fracasso, vez que não conseguiu despachar a peça que o encarregado do almoxarifado lhe havia confiado. 

Era, pois, um trote que rendeu a risadas e gargalhadas. Florindo, porém, vencido o primeiro instante de vergonha e raiva, depois pôs também ele a dar risadas e tudo ficou numa boa.

Ao mesmo tempo, por ser fora de esquadro, isto é, fora dos padrões de comportamento, tais brincadeiras encerravam algo semelhante à provocação ou até mesmo inveja, despeito. Sua figura, sempre certinha, punha todos os outros colegas em inconfessável posição de desconforto. Trazia o cabelo sempre bem cortado, barba sempre bem feita e seu uniforme se destacava ao longe. Igualmente quanto aos sapatos e o cinto, que ele mantinha sempre com brilho. 

Tiravam proveito de tudo isso, deixando que Florindo fizesse também a parte deles no trabalho, enquanto jogavam cartas ou dominó. Fique claro que, na presença do chefe, fingiam trabalhar com afinco.

Um dia de sábado, Florisvaldo decidiu ir trabalhar. No caminho, procurando a chave da seção nos bolsos, não a encontrou. Maldita distração! Mas, tímido, não quis incomodar o pessoal de serviço para pegar a cópia da chave de sua seção. Resolveu entrar por uma janelinha de banheiro, o que, por ser magro, não foi muito difícil. Depois de algum tempo nas atividades em que se entreteve, no entanto, lhe pesou a consciência por ter deixado de dar ciência
da sua presença fora dos horários normais de expediente. Além disso, o fato de ter entrado em recinto do quartel por local proibido, como se fosse um gatuno ou coisa assim, não parava de lhe martelar a cabeça. Por remorso, bateu à máquina um documento comunicando o seu erro: 

Do sgt. Florisvaldo
Ao sr. Oficial-de-dia

Participo a V. Sa. que entrei na seção de Almoxarifado sem a devida autorização.

Esclareço que o fato deveu-se em virtude de trabalho, eis que deliberei pôr em dia algumas atualizações do fichário de material. 

Estou pronto a responder pela minha falta.

Respeitosamente, 

Florindo Adelar Tavares da Cunha - 3º Sgt

Era assim o jovem e virtuoso Florindo.

Procurava, entretanto, compensar esse defeito - a distração - empregando muito esforço e trabalhos após os períodos de expediente. Logo os colegas de trabalho, desprovidos de virtudes, perceberam essas circunstâncias e um e outro passaram a aproveitar-se de tais deficiências de Florisvaldo. 


Continua...

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