quarta-feira, 12 de abril de 2017

ESPAÇO Literário

Malba Tahan: A vida aventurosa do misterioso visitante


Continuação da postagem de 11abr2017


Escondi todas as pedras preciosas  cosidas
  por dentro das dobras do meu cinto
NÃO creio que exista sob o céu de Alá homem que tenha tido vida mais enliçada e incerta. O infortúnio várias vezes com seus golpes imprevisíveis fez-me rolar ferido pelo chão, mas o desânimo jamais pisou-me sobre o corpo. Lutei pela vida; lutei sempre com destemor e constância. Começo por dizer que o meu nome é Zualil Delach. Nasci em Reyâk, pequena aldeia do Líbano. Nessa terra admirável, onde os sonhos vão buscar inspiração na realidade, passei os primeiros anos de minha infância.

As reminiscências desse tempo enchem-me de saudades o coração. Por tristes imposições do destino viu-se meu pai obrigado a abandonar o torrão natal e mudar-se com a família para o Egito, país que perlustrei por 32 anos. Logo que deixei a escola dos ulemás do Cairo, com meu curso completo, dediquei-me ao comércio de jóias e especiarias. A vida errante, entretanto, exercia profunda atração sobre mim. Empreguei-me como guia de caravanas e cheguei a traficar com régulos negros que tiranizavam grandes tribos no interior do Sudão. Com os lucros auferidos de minhas longas e arriscadas excursões pelo interior africano, adquiri extenso e fértil lanço de terra e fiz-me criador de carneiros. Uma peste, que assolou a região, dizimou por completo dos os meus rebanhos. Achei-me, de um momento para outro, reduzido a extrema pobreza. 


Forçado a angariar a minha subsistência, aceitei um emprego modesto: zelador de um marabu. Mas o fanatismo dos muçulmanos ortodoxos, as lutas intermináveis entre seitas rivais, as discussões e intrigas dos tolbas exacerbaram-me. Afastei-me da vida religiosa e fui viver em Alexandria onde exerci a profissão de escriba e intérprete. Instigado por alguns amigos, que percebiam em mim qualidades excepcionais, arvorei-me em médico. Exerci com habilidade e eficiência a medicina; realizei curas assombrosas que maravilharam menos os outros do que a mim próprio. A minha forma de agir, no combate às enfermidades, em muito diferia da adotada pelos charlatães e nigromantes. Aconselhava certos sucos de ervas; aplicava a sangria; receitava a salsaparrilha e chá de alface e nunca obriguei um doente a ingerir carne seca de cobra ou pó de camaleão para curá-lo das febres intermitentes. Sempre condenei a aplicação do ferro em brasa no tratamento das feridas. Bem sabia que os médicos marroquinos receitavam versículos do Alcorão que o doente era obrigado a mastigar e a engolir. De tais recursos jamais me servi.

Neste ponto fez uma ligeira pausa, passou lentamente a mão tatuada pela nuca e prosseguiu:

Ali Messud, grande chefe marroquino,  curado de grave enfermidade, concedeu-me sua filha, a formosa princesa Zobeyden, em casamento. Ao fim de alguns anos senti-me desiludido da profissão de médico. As dores físicas para as quais eu não encontrava alívio, os males sem remédio e as angústias inexprimíveis dos que apelavam para o auxílio de minha limitadíssima ciência deixaram-me a alma retalhada e cheios de tormento o coração. Nesse tempo eu possuía valiosíssima coleção de pedras preciosas. Achavam-se em meu cofre cento e três rubis e trinta e dois brilhantes de alto quilate. Vou tentar outra forma de vida - pensei levado pelo meu intransitivo desejo de correr mundo. Deixei a mulher e os filhos em companhia de meu sogro e parti para a cidade do Cairo levando todas as minhas valiosas gemas. Tinha a intenção de vender, por bom preço, as joias e, com o lucro obtido, adquirir terras para o plantio de algodão. O meu ideal foi sempre esse: viver da riqueza, mas produzindo riqueza. Ao chegar ao grande empório do Nilo, encontrei o povo agitado por intensas lutas políticas. Mal aconselhado por dois cunhados (irmãos de minha esposa) inimigos irreconciliáveis dos turcos, tomei parte numa conspiração contra o vice-governador do Egito, o perverso Ayad-Ben-Mohamed, que praticava as maiores arbitrariedades no poder. O nosso plano, para derrubar o governo e tomar conta da cidade, foi muito bem elaborado. A traição de um copta pôs tudo a perder. Fui preso juntamente com vários cúmplices e condenado à morte. Auxiliado pela dedicação de alguns amigos, logrei fugir do presídio disfarçado em derviche, e, depois de mil peripécias incríveis (será longo relatá-las todas), fui encontrar refúgio seguro na cidade de Damasco. Ocultei-me, com Mastafá Nachib (um servo dedicado que viera comigo do Cairo), no quintal de uma pequena carvoaria. Receoso de ser apanhado pelos agentes do vice-governador, pois vários espiões andavam dia e noite a minha procura, escondi todas as pedras preciosas (que consegui trazer do Egito) cosidas por dentro das dobras de meu cinto. Esse cinto encerrava em suas costuras verdadeiro tesouro. Eram noventa rubis e 25 brilhantes. As outras pedras haviam sido vendidas ou oferecidas àqueles que me haviam ajudado a fugir. Depois de refletir longamente sobre os perigos e incertezas do destino, tomei uma resolução firme e decisiva. Entreguei o precioso cinto ao fiel Mustafá e disse-lhe: "Seguirás, meu caro, com este cinto oculto sob a túnica para Bagdá. Ninguém desconfiará de ti. Quem poderia supor que um modesto servo transporta todos os haveres de um xeique? Poderás, portanto, viajar tranquilo. A cobiça dos rapinantes não terá olhos suspeitosos para ti. Dentro de seis meses, no terceiro dia de Nissan, esperarei por ti na bela Cidade dos Califas, junto ao túmulo do venerável Abu-Hafiné. Uassalã!"

Aqui o meu estranho hóspede levantou-se, chegou à janela e olhou para o céu como se estivesse em busca de uma estrela. Decorridos alguns minutos, voltou outra vez para o lugar onde se achava e retomou tranquilo o fio de sua narrativa.

Dois dias depois, ao cair da tarde, partiu o valente Mustafá para a tumultuosa Bagdá, alistado em imponente caravana de peregrinos damascenos. Era minha intenção permanecer mais duas ou três semanas na Síria, despistar os meus implacáveis perseguidores, e seguir, depois, ao encontro do meu servo, no local e hora já aprazados. Tais planos fracassaram por completo. Grave enfermidade prendeu-meu ao leito durante mais de seis meses. Várias vezes a morte pisou em minha sombra. Quando recuperei o dom precioso da saúde, era deplorável a minha situação: só, sem recursos e perseguido, dia e noite, pelos espias do tirano egípcio. O carvoeiro El-Hakim, em cuja casa eu me acoitara, ajudou-me com admirável dedicação nesse transe perigoso. Disfarcei-me em cameleiro armênio e alistei-me numa caravana que levava para o Iraque dois sacerdotes cristãos. Depois de várias peripécias (que eu jamais desejarei recordar), cheguei a esta bela e famosa cidade. E isso oito meses depois do prazo combinado com o fiel e abnegado Mustafá. Como encontrá-lo? Certo estou de que ele procurou por mim; esperou uma, duas, cinco semanas. Vendo que eu não aparecia, presumiu que a morte houvesse encerrado o meu desordenado viver. É bem possível até que tivesse deliberado voltar, a minha procura, para Damasco. Fui informado de que para além de Amrã, entre duas colinas pitorescas, existe um oásis onde residiam alguns parentes de Mustafá. Convinha pesquisar. Fui até lá, interroguei os velhos caravaneiros, visitei as tendas e nada encontrei. E hoje quando, triste e fadigado, retornava dessa inútil peregrinação, parei à porta de tua casa e fui por ti recebido. Sou forçado a concluir que o meu fiel Mustafá não se acha mais nesta cidade. Qualquer pesquisa será inútil.

Seja feita a vontade de Alá!

E ficou a pensar imóvel, os olhos fitos na luz.

A figura do aventureiro egípcio pareceu-me profundamente romântica e estranha diante das duras realidades da vida. Confiava, com ingenuidade de uma criança, todos os seus haveres a um servo e a ajustava com o portador do fulgurante tesouro uma entrevista incerta, à sombra de um túmulo, na opulenta Bagdá. Quem seria capaz de nos assegurar da lealdade do servo? Mustafá era pobre. Percorria, em sua vida trabalhosa, a estrada das privações inacabáveis. De repente, sem esperar, vê-se inteiramente livre, tendo a seu dispor um amontoado de joias de alto preço. E iria (uma vez dono e senhor de seu destino) devolver toda aquela fortuna ao amo? Palpitava-me que o ativo Mustafá jamais cogitara de encontrar-se com o xeique. Abalou, com a primeira caravana para a Índia ou alguma remota cidade da Pérsia, e foi gozar a existência de um príncipe, dissipando em festas e banquetes os rubis cintilantes do egípcio.

Silenciei as minhas desconfianças. Para que levar a dúvida e a inquietação ao espírito de meu hóspede? Limitei-me apenas a interrogá-lo, demonstrando interesse de bom amigo. 

-- E agora? -- perguntei--- Que pretendes fazer?

Decorrida breve pausa, respondeu-me desconsolado:

-- Seguirei amanhã para Mossul e lá ficarei aguardando o teu chamado. Estou certo de que brevemente precisarás de mim para algum cargo de prestígio.

E já reanimado, erguendo o rosto:

-- Permites que eu cante aqui algumas canções de minha terra?

-- Iallah! acudi radiante -- Com o maior prazer. Adoro a música; a poesia exerce sobre mim grande fascinação.

Zualil ergueu-se, tomou do pequeno alaúde que repousava ao lado do narguilé, dedilhou suavemente as cordas e pôs-se a cantar com profunda melancolia:

Saudade, flor que desperta
Tristeza no coração;
Saudade dos que se foram,
Dos que não voltam mais, não.

Quem tudo quer, tudo perde
Há muito reza o rifão;
Quis a rosa dos teus lábios,
Espinho feriu-me a mão.

Não choro por me deixares,
Que o jardim mais rosas tem,
Choro por não encontrares,
Quem te queira tanto bem.

E ali ficamos sentados na maior camaradagem, recordando episódios do passado.

De quando em vez a flecha da suspeita cortava-me o pensamento: "Aquele singular aventureiro que eu recebera e hospedara em minha casa seria realmente digno de confiança? Qual fora o seu intuito ao prometer-me a baraka?" 

Em dado momento fitou-me risonho:

-- A fadiga pesa-me nos olhos. O sono convida-me ao descanso. Permitirás que eu passe a noite em tua casa?



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