quinta-feira, 13 de abril de 2017

ESPAÇO Literário

Malba Tahan: Um homem singular

Continuação da postagem de 12abr2017

Ergueu para mim o rosto risonho e colocou,
diante de si,  com gestos cautelosos, o
 narguilé que rebrilhava ao sol
SENTI-ME sem ânimo para contrariá-lo. Respondi com uma solicitude um tanto forçada:

-- Com o maior prazer!

Despedi-me do hóspede, desejei-lhe um sono tranquilo e reconfortante e subi para o meu quarto que ficava no pavimento superior da casa. Era uma noite ameníssima.O céu, sem luga, polvilhado de estrelas, deslumbrava com os diamantes de suas constelações. Ouvia-se ao longe o ganir de um cão e guarda.

Pela manhã, ao despertar, tive uma das grandes surpresas de minha vida. Vou contar.

Quando acordei, depois de um sono cheio de inquietação, já bem longe ia a hora do El-fedsjer. Acerquei-me da janela e pus-me a admirar, embevecido, a estada de Bagdá, as tamareiras floridas e, ao longe, a curva prateada do rio. Homens do campo, com seus trajes grosseiros, dirigiam-se para o trabalho: mercadores de melancia e cebola, puxando magríssimos camelos de sela, seguiam o rumo do velho suk. O ar andava impregnado de um frescor de orvalho; cantavam aves alegres em todas as árvores.

Sentia-me, naquele começo de dia, de espírito leve e bem disposto. A claridade suave da manhã era como uma tâmara doce para os meus olhos. O vento trazia-me o perfume de várias ervas.

Lembrei-me de Zualil, o viajante misterioso, o surpreendente aventureiro que eu acolhera como hóspede naquela noite. Teria ele despertado mais cedo para a prece?

Cumpria-me o delicado dever de chamá-lo no mesmo instante e oferecer-lhe ligeira refeição.

Desci. A sala, em que deixara o egípcio, esclarecida por duas das três amplas janelas, estava vazia. A porta que abria para o jardim, apenas encostada, com a tranca fora do lugar, fizera-me compreender que o hóspede já havia partido. Aproveitara-se, de certo, do silêncio da madrugada para retomar sua jornada interrompida.


Negra, bem negra, é a ingratidão dos homens -- disse de mim para mim, tendo o coração oprimido por veemente tristeza. -- Aquele forasteiro, de aparência simpática, por mim acolhido com tanta cordialidade e que, de minhas mãos, recebera o pão e o sal da hospitalidade, fugia de minha casa como um beduíno criminoso, sem palavra de despedida, sem gesto de agradecimento. Que velhacada! Que mau impulso o teria levado a proceder daquele modo deselegante e censurável?

Estranho pressentimento assaltou-me bruscamente. Olhei para o canto da sala em que habitualmente colocava o valioso narguilé de prata. A peça não se achava mais ali. 

Fui roubado!

Apoderou-se de mim, desorientando-me, violenta e incontida onda de rancor. O viajante que eu recebera e agasalhava não passava, afinal, de um rapinante vulgar, chacal imundo, sem escrúpulos, que não hesitava em violar os sagrados deveres da hospitalidade.

Iludido em minha boa fé, eu o supusera homem de bem. Chega mesmo (como fora ingênuo!) a acreditar em todas as peripécias que ele fantasiara para ilaquear-me com sua lábia. As incríveis aventuras do Egito, os perigos a que se sujeitara, o casamento com a tal princesa marroquina, a conspiração fracassada, a fuga para Damasco, o tesouro entregue a servo... Mimoseava-me, afinal, com seus versos cheios d doçura e encantamento e, por fim (com todos os mistérios e cantorias), não passava de um ladrão ignóbil que promete a baraka e acaba roubando um narguilé.

Estava eu absorto em tão sombrias cogitações, quando ouvi alguém cantarolar alegremente no jardim:

Se me levasses, um dia,
Ao oásis do teu amor,
Ver-me-ias tamareira
Dando sombra, fruto e flor!

Acerquei-me rápido da porta, abri-a e olhei para fora.

Sentado ao chão, ao lado da fonte, sob o sol tranquilo da manhã, avistei Zualil, o viajante. Estava descalço e com a cabeça descoberta. Sustentava na mão esquerda, apoiado no joelho, o precioso narguilé e ocupava-se com extraordinário cuidado em limpá-lo esfregando com um pedaço de pano. Tão absorvido estava naquele trabalho que não deu pela minha chegada.

-- Olá! -- chamei-o --- Já estás aí há muito tempo?

Ergueu para mim o rosto risonho e colocou diante de si, com gestos cautelosos, o narguilé que rebrilhava ao sol. 

-- Estás surpreendido por me veres aqui? -- perguntou-me. Reconheço que não passo de um hóspede importuno, pois já devia ter prosseguido a minha jornada. Penalizou-me, porém, acordar-te ao romper do dia. Notei que estavas sob o peso de grande fadiga. Levantei-me ao primeiro chamado do muezim. Ao preparar-me para a prece, vi que o teu depósito de água estava quase vazio. Tratei de enchê-lo e, nesse trabalho, ocupei-me algum tempo. Finda a prece resolvi dar pequeno arranjo à sala em que havia pernoitado. Chamou-me a atenção este belíssimo narguilé de prata. Não posso ver uma peça de tão grande valor artístico coberta de pó e cheia de manchas. Resolvi, pois, deixá-lo bem limpo e em condições de ser admirado.

E, apontado para o narguilé, observou animado pelo meu silêncio:

-- É uma joia! Já leste com atenção as legendas que nele aparecem?

Não respondi. fiquei de pé, os braços cruzados, a fitar aquele homem singular. Mas quem seria ele, afinal?

-- Escuta, meu amigo -- disse-lhe em tom decidido e sério -- quero pedir-te perdão por uma falta gravíssima que acabo de pratica. Fiz de ti, há poucos momentos, um juízo falso e calunioso. ao notar a tua ausência e não encontrando mais esse narguilé no lugar em que havia deixado, concluí que havias fugido de minha casa, ao raiar da madrugada, roubando-me o narguilé. Fui leviano e injusto. Arrependo-me agora de ter sido tão precipitado em meu julgamento. 


-- Ora, ora -- tornou Zualil, com sorriso meio forçado, sem se mostrar ofendido. -- Não é caso para arrependimento e peço-te que não te preocupes e não te amofines com tão pouco. Todas as aparências eram contra mim e as aparências enganam ao mais avisado dos homens. O mundo anda cheio de miragens e mentiras. A vida é uma escola em que a desconfiança é o mestre-escola e a má vontade para com o próximo é o "Alcorão". Admira-me a tua sinceridade e a forma leal e delicada de teu proceder. Raras, bem raras, são as pessoas que se arrependem e confessam os falsos conceitos que formulam em relação aos outros. A tua atitude é o bastante para te redimir do erro.

E depois desse desafogo, como se quisesse desviar o rumo de nossa palestra, apontou para a base do narguilé e interpelou-me sem o menor azedume:

-- Já havias reparado na legenda que aqui está? 

Fui forçado a confessar que jamais tivera a minha atenção voltada para os versos que serviam de adorno ao narguilé.

Correndo lentamente o dedo da esquerda para a direita Zualil, sem hesitações, proferiu:

"Aprende a escrever na areia".

E ajuntou placidamente com um sorriso dissimulado:   

-- Eis um sábio conselho que os homens de sentimento deveriam acatar em todas as circunstâncias da vida: "Aprende a escrever na areia". Para que essa frase admirável possa ser compreendida, faz-se necessário recordar a lenda dos dois viajantes que altercaram à sombra de um rochedo.

-- Que lenda é essa? -- indaguei impulsionado por viva curiosidade -- Prometo conservá-la para sempre na lembrança.

-- vou contá-la -- acudiu Zualil. 

E muito sereno, com uma sombra no olhar, narrou-me o seguinte:

"Dois amigos, Mussa e Nagib, viajavam pelas extensas estradas que circulam as tristes e sombrias montanhas da Pérsia. Ambos se faziam acompanhar de seus ajudantes, servos e caravaneiros.  ...


Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

OBRIGADO por comentar e volte sempre ao BLOGUE do Valentim!