sexta-feira, 14 de abril de 2017

ESPAÇO Literário

Malba Tahan: Os dois amigos


Continuação da postagem de 13abr2017


"CHEGARAM, certa manhã, às margens de um grande rio barrento e impetuoso, em cujo seio a morte espreitava os mais afoitos e temerários.

Era preciso transpor a corrente ameaçadora. Ao saltar, porém, uma pedra o jovem Mussa foi infeliz. Falseando-lhe o pé, precipitou-se no torvelinho espumejante das águas em revolta.

Teria ali perecido, arrastado para o abismo, se não fosse Nagib. Este, sem um instante de hesitação, atirou-se à correnteza e lutando furiosamente conseguiu trazer a salvo o companheiro de jornada.

Que fez Mussa?

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Outras postagem sobre Malba Tahan:

O problema dos cinco discos
O caso dos 4 quatros


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Chamou, no mesmo instante, os seus mais hábeis servos e ordenou-lhes que gravassem na face mais lisa de uma grande pedra, que perto se erguia, esta legenda admirável:


"Viandante! Neste lugar,
durante uma jornada,
Nagib salvou heroicamente
o seu amigo Mussa".

Isto feito, prosseguiram, com suas caravanas pels intérminos caminhos de Alá.

Alguns meses depois, de regresso às suas terras, novamente se viram forçadas a atravessa o mesmo rio, naquele mesmo lugar perigoso e trágico.

E, como se sentissem fadigados, resolveram repousar algumas horas à sombra acolhedora do lajeado que ostentava bem alto a honrosa inscrição.

Sentados, pois, na areia clara, puseram-se a conversar. Eis que, por motivo fútil, surge de repente grave desavença entre os dois companheiros.

Discordaram, discutiram. Nagib, exaltado, num ímpeto de cólera, esbofeteou brutalmente o amigo.

Que fez Mussa? Que farias tu em seu lugar?

Mussa não revidou a ofensa. Ergueu-se e, tomando tranquilo o seu bastão escreveu na areia clara ao pé do negro rochedo:

Viandante! Neste lugar,
durante uma jornada, Nagib,
por motivo fútil, injuriou gravemente
o seu amigo Mussa".

Surpreendido com o estranho proceder, um dos ajudantes de Mussa observou respeitoso:

-- Senhor! Da primeira vez, para exaltar a abnegação de Nagib, mandaste gravar, para sempre, na pedra o feito heroico. E agora, que ele acaba de ofender-vos tão gravemente, vós vos limitais a escrever, na areia incerta, o ato de covardia. A primeira legenda, ó xeique, ficará para sempre. Todos os que transitem por este sítio dela terão notícia. Esta outra, porém, riscada no tapete da areia, antes do cair da tarde terá desaparecido, como um traço de espumas entre as ondas buliçosas do mar.

Respondeu Mussa:

-- É que o benefício que recebi de Nagib permanecerá para sempre em meu coração. Mas a injúria, essa negra injúria... escrevo-a na areia como um voto, para que, se depressa daqui se apagar e desaparecer, mais depressa, ainda, desapareça e se apague de minha lembrança."

Assim é, meu amigo. Aprende a gravar na pedra os favores que receberes, os benefícios que te fizerem, as palavras de carinho, simpatia e estímulo que ouvires. Aprende, porém, a escrever na areia as injúrias, as ingratidões, a perfídias e as ironias que te ferirem pela estrada agreste da vida.

Aprende a gravar, assim, na pedra; aprende a escrever, assim, na areia... e serás feliz!

Terminada a narrativa da lenda persa, o meu hóspede levantou-se vagaroso, reajustou a faixa que lhe apertava a cintura, e disse-me sem a menor sombra de afetação:

-- Quero, meu amigo, aproveitar o tempo regando os canteiros deste belo jardim. Veja! As plantas estão secas e definhando. Precisam de muita água.

Continua... 

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