sábado, 15 de abril de 2017

ESPAÇO Literário

Malba Tahan: O mestre-escola


Continuação da postagem de 14abr2017


Quando cheguei de volta à sala, tive a surpresa
de encontrar o meu hóspede em companhia de
um desconhecido
EM SEUS olhos claros brilhava uma grande alegria.

-- Não faltava mais nada! -- discordei com veemência -- Onde estaria eu no dia em que permitisse, em minha própria casa, o trabalho de um hóspede? Falemos linguagem singela e nua. Já não basta o que fizeste hoje? A jardinagem ficará para depois; dela encarregarei o meu ajudante. Vamos saborear, agora, qualquer gulodice, que já anda bem alto o sol e o Ramadã ainda não começou.

Convidei-o a voltar comigo à sala; abri a terceira janela e encostei a porta. No centro do tapete deixei o vistoso narguilé de prata, que refulgia como uma joia.

Voltando-me para o meu hóspede num tom não isento de cerimônia, disse-lhe:

-- Tem paciência, meu amigo. Ficarás sozinho por algum tempo. Vou preparar nossos manjares.


E encaminhei-me para o compartimento, na ala esquerda da casa, onde se achavam o armário com os comestíveis, os cestos com frutas e as caixas de farinha e cebola. Retirei um prato com peixe frito, bolos de nozes, pão fresco, limões e tâmaras cristalizadas. Acendi o fogo e pus água para ferver. Nesses pequenos afazeres e indispensáveis arranjos, demorei-me algum tempo.

Quando cheguei de volta à sala, trazendo a bandeja com licor, tive a imensa surpresa de encontrar o meu hóspede em companhia de um desconhecido. Achavam-se ambos refestelados aconchegadamente, de pernas cruzadas, e conversavam como velhos amigos, gesticulando e bracejando com remetidas fantasiosas. O recém-chegado era magro, de cabelos grisalhos, olhos mortiços e fisionomia abatida.Trajava-se com extrema modéstia. Em sua túnica esfiapada multiplicavam remendos de vários feitios.

Vendo-o aparecer, Zualil, sempre atencioso, disse ao companheiro: 

-- Eis aí, ó respeitável taleb, o nosso bom e generoso amigo, dono desta hospitaleira vivenda. 

E, a seguir, voltando-se para mim, acrescentou com meio sorriso, inculpando-se da presença do intruso:

-- Espero que não te aborreças com este novo hóspede. Chamei-o para servir-nos de companhia na refeição. Ele ia passando e eu o convidei. Fiz mal?Aprovas o meu gesto?

E procurava ler no meu rosto a impressão de suas palavras.

Fiquei estarrecido na escada com a bandeja de licor na mão. O egípcio pusera para dentro de minha casa, sem me consultar, o primeiro beduíno que avistara da janela, cruzando a estrada. A continuar daquela maneira, dentro de poucas horas a minha casa estaria transformada numa turbulenta hospedaria ou num caravançará enxameado de forasteiros.

Entretanto, cumpria-me o dever de homologar o convite feito. Não vi, no momento, solução mais oportuna para o caso. Disse, pois, com urbanidade convencional, encarando-o com tênue sombra de dissabor: 

-- O convidado de meu hóspede é sempre bem-vindo.

E, a seguir, com expressões corriqueiras, saudei o desconhecido a quem Zualil concedera o tratamento de "respeitável taleb":

-- A paz sobre ti, ó forasteiro. Aqui partilharás do sal de minha toalha.

Retribuindo a amistosa saudação que eu proferira meio constrangido, o recém-vindo respondeu (a sua voz era metálica mas não me pareceu desagradável):

-- Queira Alá cobrir com suas inestimáveis bênçãos os dignos moradores desta casa. Que a misericórdia do Onipotente afaste deste lar acolhedor as tentações e erros.

E, à guisa de apresentação, ajuntou risonho e mesureiro:

-- Chamo-me Iezid Chakalid e exerço a árdua proifissão de mestre-escola. Tenho por hábito não recusar os convites atenciosos e as ceias apetitosas.

-- Pois confirmo e reitero o convite formulado pelo meu amigo Zualil. -- declarei -- Consentes, ó taleb, em tomar parte em nosso repasto?

-- Com omaior prazer! -- anuiu sem cerimônia o mestre-escola -- sinto-me profundamente honrado com o vosso convite.

Momentos depois distribui sobre rica toalha os diversos pratos que havia cuidadosamente preparado, desde os bifes de carneiro com cebolada até as pastas açucaradas, feitas de amêndoas e canela. 

O mestre-escola não se fez de rogado. Devorou, com invejável apetite, todos os acepipes que lhe foram oferecidos e, durante o largo tempo que durou a refeição, não cessou um só instante de tagarelar, declamar e discutir.

Lamentou o destino do sobrinho mais velho que se casara com uma dançarina; arengou sobre as plantas que afirmara conhecer em seus menores segredos; discorreu por conceitos religiosos e remédios capazes de curar, em dois dias, a sarna de um camelo; dissertou sobre pedras preciosas e também sobre a maneira mais segura de se empregar a bússola no deserto. Falou, com extraordinária eloquência, do maravilhoso tanque existente no Paraíso, segundo a crença dos muçulmanos: 

-- Afirmam os sábios -- disse-nos o mestre-escola -- que os justos, antes de entrarem no Paraíso, se desalteram no tanque do Profeta. Esse reservatório, segundo a descrição mais perfeita e verídica, é um quadrado tão extenso que a mais ativa caravana gastaria dois anos para contorná-lo andando dia e noite sem parar. A água, doce como o mel e fresca como a neve, exalando um perfume mais intenso do que o almíscar, é conduzida ao tanque por dois canais que parte do prodigioso Cawthar.  Aquele que se aproxima do tanque, cujas bordas são de âmbar, tropeça em finíssimas taças de ouro que ali estão atiradas aos milhares. Tendo, uma só vez, provado da água maravilhosa do Cawthar, o justo nunca mais sofrerá as torturas da sede, ou melhor, ficará para sempre saciado.

O egípcio, que meditava, coçando o queixo, perguntou ao mestre-escola se o Paraíso dos muçulmanos, tantas vezes mencionado no Alcorão, era o mesmo Éden do qual fora expulso Adão.

O taleb inspirado, como se discursasse na mesquita, prosseguiu: 

-- Pretendem os metazalitas e outros sectários que essa feliz morada, o jardim das eternas delícias, foi criado muito tempo depois da humanidade e, por conseguinte, não é o mesmo que serviu de morada a Adão e sua esposa Eva, a nossa mãe. Mas os ortodoxos contrariam essa doutrina e admitem que o verdadeiro Paraíso que serve de abrigo aos crentes foi criado antes do mundo, posto acima dos céus, logo abaixo do trono de Deus. Ensina porém o Alcorão (na sua eterna e incriada sabedoria) que o jardim celeste repousa na tranquila mansão do sétimo céu, entre flores inebriantes e sombras deliciosas.

A terra dessa região celestial é, segundo alguns, da mais fina flor de trigo ou do mais puro almíscar, ou, como asseguram certos comentadores, de açafrão: as pedras que rolam em suas ensombradas alamedas são pérolas e jacintos; as paredes dos palácios rebrilham marchetadas de oiro e prata; mais ricos e deslumbrantes, pelas pedrarias que encerram, são os troncos de todas as árvores dentre as quais se destaca a Tuba, ou Árvore da fortuna, eternamente carregada de frutos maduros e saborosos, e que estende seus ramos deliciosos até a morada dos muçulmanos. 

O Paraíso é todo entrecortado por inúmeros regatos. Nem todos são de água fresca e cristalina. Em muitos só corre leite, e que leite delicioso! Em outros circula vinho puro e gelado, que não embriaga. Os córregos de água cristalina deslizam marulhantes sobre um chão de rubis; os de leite serpenteiam por finíssimas esmeraldas e, finalmente, os de vinho têm seus leitos escavados no ouro maciço.

O ar que ali se respira é uma espécie de bálsamo formado com o aroma do arrayan, do jasmim, do azahar e de mil outras flores.

...

Seria longo e fastidioso repetir aqui as indicações que o mestre-escola nos forneceu quando descreveu, com todos os pormenores, o céu de Alá. Era tal o ímpeto de sua loquacidade que não nos oferecia brecha para interrompê-lo.

Finda a refeição, preparou-se Zualil para partir. Vestiu a túnica, ajeitou o turbante, prendeu ao ombro o albornoz e ocultou o punhal sob a faixa.

-- Ainda é cedo -- declarei medianamente cortês, vendo-o pronto para seguir viagem.

-- A jornada que empreendo é longa --- respondeu-me com certa melancolia. -- Longa e fadigante. Preciso partir. Quero, porém, retribuir de qualquer forma a generosa hospitalidade que recebi nesta casa. Ofereço-te, meu amigo, três coisas igualmente preciosas. Mas, dessas três coisas, só poderás escolher uma. As três coisas que te ofereço são: um segredo, um conselho e uma lenda. Vamos! Dize-me: que preferes ouvir?


Continua...

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