segunda-feira, 17 de abril de 2017

ESPAÇO Literário

Malba Tahan: O burriqueiro surdo


Continuação da postagem de 15abr2017



... e respondeu-me: "As melancias
ainda estão verdes..."
FITEI-O cheio de assombro. Aquele homem singular pretendia pagar as gentilezas e atenções que recebera em minha casa com a moeda mais desvalorizada do mundo: segredos, lendas e conselhos!

Qualquer outro, em minha situação, diria ao forasteiro: "Que me importam as tuas lendas, os teus segredos ou os teus conselhos. Mal avisado vai quem se preocupa com tais baboseiras. Dispenso o teu pagamento. Podes seguir o teu caminho que eu nada mais desejo de ti". 

Julguei, entretanto, indelicado de minha parte tratá-lo assim. Disse-lhe, pois, meio sério e meio risonho:

-- Não há motivo algum para hesitar na escolha. Acabas de pôr à minha disposição um segredo, um conselho ou uma lenda. Que faria eu com o segredo? Nada. Tenho em meu poder centenas de outros que não me proporcionam a menor vantagem e deles não colho um dinar de juros. Guarda, pois, contigo o teu segredo. Não o aceito. Quanto ao conselho, julgo-o mais despiciendo ainda. É a mais comum e amenos valiosa das moedas correntes. Qualquer pasteleiro ignorante, em troca de uma fava seca, oferece-nos uma infinidade de juízos edificantes. Os livros que se amontoam pelas bibliotecas estão repletos de advertências que ninguém segue e recomendações que ninguém ouve. Ora, que faria eu com um conselho a mais a perder-se no tumulto de meus pensares? Prefiro, portanto, a lenda.Aceito-a e desejo ouvi-la.

-- Julgo muito acertada a escolha --- opinou com entusiasmo o mestre-escola. -- A justificação que a precedeu foi magnífica. Vamos ouvir a lenda adorável e profunda que esse nobre amigo vai narrar!

E ajuntou pesaroso:

-- Que pena não termos aqui dois ou três músicos para acompanhá-lo!

-- Iallah! -- acudiu risonhamente o meu hóspede. -- Que pressa é essa? A lenda que pretendo contar-te, como retribuição pelas boas horas que aqui passei, intitula-se "As sete pontas do quadrado" e é uma das histórias mais assombrosas do mundo. Deveria ser narrada para uma multidão que compreendesse, no mínimo, cinco mil quatrocentos e trinta e nove pessoas! Repara bem: essa lenda notável, o maior tesouro literário do mundo, deveria ser ouvida - repito - por 5.439 pessoas! Sei, porém, que esta casa não comporta os cinco mil quatrocentos e trinta e nove ouvintes. Por esse motivo, estou disposto a fazer uma concessão toda especial. Contarei a lenda logo que possas reunir aqui, nesta sala cinco ouvintes.

Iezid, o mestre-escola, riu gostosamente.

-- Pela glória de Salomão! Que extraordinária condescendência! O nosso ilustre e eloquente amigo Zualil concede o privilégio excepcional de narrar aqui, para cinco convidados, a lenda que deveria ser ouvida por 5.439 pessoas! Foi notável a redução feita no total exigido.

-- Torna-se, pois, necessário convidar mais três pessoas? -- insisti com bom humor.

-- De certo que sim -- confirmou Zualil -- vai procurar pelos arredores, ao longo da estrada, no caravançará junto à ponte, nas casas vizinhas, três conhecidos teus e traze-os aqui. Logo que os cinco estiverem reunidos, darei início à lenda.

Pela segunda vez assaltou-me o desejo de despedir o hóspede sem lenda e sem mais conversa. Que capricho tolo! Exigir que o dono da casa saísse a procurar pela vizinhança três pessoas que estivessem, naquela hora da manhã, disposta a ouvir uma narrativa fantasiosa. O melhor seria optar pelo conselho e abandonar a lenda.


-- Reunir cinco pessoas? -- acudiu o mestre-escola olhando fito no egípcio -- É facílimo. Conheço muita gente neste bairro.

E puxando-me pelo braço animou-me sibilante: 

-- Vamos, meu amigo. Estou interessado em ouvir a lenda das "Sete pontas do quadrado". Deve ser muito curiosa. E digo-te com seriedade: até hoje ninguém conseguiu traçar essa figura que a tal lenda nos promete: um quadrado de sete pontas. Deixa os ouvintes por minha conta. Trago aqui uma legião de curiosos.

Aquelas considerações do taleb convenceram-me. Resolvi atender à exigência do egípcio e saí, acompanhado do mestre-escola, em busca dos ouvintes que deveriam completar o total exigido.

Eis o que sucedeu:

Tomada a resolução, não mais refleti sobre a exigência frívola e infantil formulada pelo singular egípcio. Vesti-me num abrir e fechar de olhos, enrolei na cabeça um turbante qualquer, à cintura prendi minha bolsa de passeio e, seguido pelo taleb Iezid, deixei a casa e fui para a estrada de Bagdá. Que pretendíamos naquela manhã de sol? Realizar tarefa urgente? Concluir rendoso trabalho? Nada de útil; nada de aproveitável. A nossa intenção era encontrar três pessoas que se dispusessem, naquela hora, a ouvir em nossa companhia, a lenda intitulada "As sete pontas do quadrado", que o extraordinário Zualil me ofereceu como retribuição pelas atenções recebidas.

Não muito longe, antes de passarmos pelo primeiro grupo de casas, paramos sob uma esplêndida figueira que estendia, em redor de seu tronco nodoso, um largo tapete de sombras. O sol já ia quase a pino.

À pequena distância surgiu um modesto burriqueiro levando pela rédea o seu muar num toque-toque cadenciado de homem feliz que não se preocupa com o desenvolver do tempo.

-- Chama-o -- sugeri sem hesitar ao mestre-escola. -- É bem possível que aquele camarada esteja agora de folga e não se recuse a nos servir.

-- Olá! Olá! -- chamou o taleb com viva insistência -- Pára aí! Escuta, vem cá, burriqueiro!

Mas o rústico não alterou a marcha de seu caminhar. Inteiramente alheio aos apelas continuou, impassível, no mesmo rumo. Aquela displicência surpreendia-nos. É lá possível que possa ocorrer tal coisa? O taleb foi-lhe ao encalço. Defrontaram-se, afinal. Fiquei de longe como simples espectador da cena a observá-los. Percebi que ambos discutiam com gestos estabanados. Pelo que pude perceber, o mestre-escola insistia no covite; o burriqueiro recusava com decisão, ora apontando para o céu, ora abrindo os braços, em desalento, como um caravaneiro fadigado. Decorrido algum tempo, o burriqueiro prosseguiu em seu caminho e o taleb voltou a passo lento e de cabeça baixa como quem se sente irremediavelmente arrasado por um fracasso deplorável. 

-- Que houve, afinal? -- perguntei-lhe -- O homem recusou?

O taleb parou diante de mim e encolheu tristemente os ombros sem nada dizer. Em seus olhos transparecia um mau humor irreprimível. Por fim, respondeu-me: 

-- Achei-me, sem querer, envolto em grave equívoco. Percebendo que o beduíno insistia em não atender aos meus chamados, segurei-o pelo ombro, fi-lo parar e gritei-lhe de cara a cara: "Preciso agora de ti, ó irmão dos árabes." Arregalou os olhos, mediu-me muito sério da cabeça aos pés e respondeu-me num tom de lástima: "As melancias ainda estão verdes. Dentro de quinze dias passarei aqui". Aquela resposta, sem nenhuma relação com o meu pedido pareceu-me gracejo de mau gosto. Repliquei com azedume: "Não me interessam as tuas melancias. Guarda-as para a tua sobra. Estás com muita pressa? Queres prestar-me um pequeno serviço? Será de meia hora no máximo e receberás generosa recompensa" Tornou o burriqueiro com ar estúpido, erguendo os braços: "Não o vi ainda, mas o imã da mesquita é irmão de meu cunhado". Surpreendeu-me de novo tão disparatada réplica. Estaria diante de um demente? Pretenderia o imbecil zombar de mim? Isso não pode ficar assim -- disse de mim para mim com inabalável firmeza. -- E pela terceira vez, já meio nervoso e irritado, interpelei aos berros o burriqueiro: "Deixa em paz o imã da mesquita! Nada pretendo do irmão de teu cunhado! Preciso de ti agora. Ganharás cinco dinares e terás direito à ceia. É só para ouvir uma lenda. Ouvir uma lenda... nada mais". Fitou-me muito sério, com a máscara de rancor no rosto pálido e desculpou-se abrindo os braços: "Adoeci em Mossul e acordei dois dias depois com as botas vermelhas do joalheiro!". Aquela frase sugeriu-me a única explicação aceitável para o desentendimento. O burriqueiro era surdo. Deploravelmente surdo. Suas respostas, aparentemente sem nexo e sem propósito, só poderiam satisfazer a certas perguntas que ele imaginava ou admitia que eu tivesse proferido. É claro que um surdo não pode servir de ouvinte. O egípcio não o aceitaria. Deixei-o, pois, seguir tranquilo.

-- Meu caro mestre-escola -- observei arrastando as palavras com grave entono -- Tudo isso que acabas de contar, em teu singular encontro com o burriqueiro, merecia o qualificativo de "espantoso". Procura analisar com atenção o episódio. Interpelas um burriqueiro surdo e ouves frases sem nexo, respostas incongruentes. Parece-me que seria altamente interessante esclarecer, à luz da realidade, o seguinte: -- Haverá pergunta à qual o burriqueiro responderia: "Não o vi ainda, mas o imã da mesquita é irmão de meu cunhado?" Que pergunta seria essa? Para a terceira frase não encontro justificativa alguma:"Acoeci em Mossul e acordei dois dias depois com as botas vermelhas do joalheiro". Não seria curioso apurar a que indagações poderiam satisfazer esses informes tão extravagantes?

Ia o mestre-escola gaguejar uma explicação fantasiosa para o enigma do burriqueiro surdo, quando vimos surgir, a pequena distância, caminhando para o nosso lado, com passos leves e rápidos, duas mulheres. Velavam-se ambas com os seus espessos haics. Uma delas, a mais alta, arrastava pela mão uma criança morena e quase nua. Trazia a outra, no braço, um grande cesto a transbordar de frutas, peixes e verduras.

-- Convidemos aquelas mulheres -- recomendei em voz baixa ao mestre-escola. -- É bem possível que elas não sejam surdas e possam atender ao nosso apelo. O pequeno completará o número de ouvintes exigido pelo egípcio.

-- Bem lembrado -- anuiu o taleb -- um auditório com duas jovens beduínas e um inocente garotinho será muito agradável ao egípcio. 

Isto dito, caminhou decidido, em linha reta ao encontro das embuçadas.

Ocorreu, porém, um acidente lastimável. Ao atravessar a estrada, o mestre-escola, na precipitação com que se dirigia para as beduínas, tropeçou num galho seco e foi ao chão. A jovem que conduzia o pequenito, ao ver o meu amigo estatelado na areia, riu gostosamente. A outra levou a mão aos olhos, num gesto que denotava susto e aflição. E enquanto o mestre-escola se levantava do desastrado trambolhão e sacudia os braços para se livrar da terra, as filhas de Eva apressaram o passo e afastaram-se de nós.

-- Não poderemos detê-las mais -- lamentei. -- Já vão longe. Que pena!

E indaguei solícito ao companheiro:

-- Machucou-se?

-- Nada -- explicou o taleb com expressão que demonstrada certa alegria e altivez -- A queda foi proposital. Ao me aproximar das duas jovens embuçadas, reconheci-as. A mais alta (a que trazia o garotinho) chama-se Samira e é casada com um malabarista; e a outra...

Fez uma ligeira pausa e concluiu como se revelasse grave segredo de sua vida:

-- A outra pretendo pedir em casamento dentro de uma semana. Chama-se Edna. É minha futura noiva. (Se Alá quiser!)

Aquela declaração deixou-me no simum da confusão. Se o mestre-escola reconhecera as duas jovens, por que não as convidara? como explicar e justificar a queda diante de sua amada, em plena estrada?

-- Seria indelicado convidar moças de minha amizade para ouvir lendas contadas por estrangeiro desconhecido. aproveitei a oportunidade para certificar-me do amor de minha eleita. Atirei-me ao chão simulando uma queda. Se Edna risse de mim é porque eu teria parecido ridículo diante de seus olhos. Ora, o verdadeiro amor é cego para o ridículo e para os defeitos. Só tem olhos para as atitudes nobres, para os gestos dignos , para as qualidades que exaltam. E Edna não riu. Com gesto natural lamentou a minha queda. Posso, pois, confiar em seu amor.

Achei que não seria oportuno discutir, naquela ocasião, com o mestre-escola. Percebi que nele latejava o ardor imaginativo dos apaixonados. Admiti como verdadeira a teoria de que o namorado, rolando por terra de pernas para cima, diante de sua amada, poderia colher prova segura do verdadeiro amor.

Vendo-me pensativo, o mestre-escola, que era um incorrigível palrador, pôs-se a discorrer sobre o amor: 

-- Grande coisa é o amor, grande e absoluto bem para a vida e para a morte! Torna leve o que é pesado; esclarece o que nos parece sombrio e apaga as tristezas de nossos corações. Aligeira os sofrimentos que nos torturam e faz desaparecerem as mágoas que nos entenebrecem a existência. O amor quer ser livre e alheio a todos os interesses materiais. Para dominar a vida procura colocar-se acima da própria vida. Nada mais doce, nada mais forte, nada mais sublime do que o amor. O Amor é o acabamento com que Deus achou acertado dar por finda a perfeição de sua obra.

Cortei as considerações sentimentais do noivo de Edna dizendo:

-- Tratemos, sem perda de tempo, de obter os três ouvintes para a lenda. Deixemos para mais tarde essas digressões sobre o amor. Não te esqueças de que o egípcio está em minha casa a nossa espera. Em vez de apelarmos para os passantes desconhecidos, que a esta hora escasseiam, mais eficiente e mais seguro, a meu ver, seria convidarmos pessoas de nossa amizade. Aqui perto mora o corretor Chafid Bechara. É meu amigo. Vamos procurá-lo. Será o nosso primeiro ouvinte.

O taleb aceitou, mais uma vez, a minha sugestão e seguimos para a casa do corretor Bechara.

Vou contar o que de estranho nos ocorreu.


Continua...





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