sexta-feira, 21 de abril de 2017

ESPAÇO Literário

Malba Tahan: O matemático, o botânico e o mendigo 


Continuação da postagem de 17abr2017



NÃO MUITO longe, numa pequena casa, semi-oculta entre viçosos limoeiros, residia o corretor Chafid Bechara. Era homem corpulento, alto e direito de tronco, de um moreno cor de barro, rosto redondo e olhos vivos. Recebeu-nos em sua sala de trabalho. Amontoavam-se pelo chão amostras de mercadorias, sacos de cereais e caixas a transbordar de sementes.

Mais de uma vez eu tivera a oportunidade de oferecer a Bechara transações bem vantajosas. 

-- que negócio temos para hoje? -- perguntou-me com indisfarçável bom-humor -- algum terreno para vender? Uma boa casa para alugar?

Apressei-me em responder:

-- Não cogito, no momento, de negócio algum. A nossa visita tem objetivo inteiramente diverso. 

E sem mais preâmbulos, pois o tempo me parecia escasso, contei-lhe, tintim por tintim, tudo o que ocorrera em minha casa desde a chegada do egípcio, as singularidades de meu hóspede e a promessa da lenda surpreendente ("As sete pontas do quadrado") que merecia ser ouvida por 5.439 pessoas.


E rematei a parlenda com o convite:

-- Precisamos de ti, meu caro Bechara. Serás um dos cinco ouvintes. Vamos para casa. O eloquente Zualil aguarda a vossa chegada para iniciar a narrativa.

Surpreendeu-nos o corretor com uma estrepitosa risada.

-- Que ingenuidade a tua! -- proclamou, em tom de menosprezo, sacudindo os ombros -- Andas pelas ruas, importunas os amigos, perdes um tempo precioso, e tudo para satisfazer o capricho de um hóspede imbecil. E querem, ainda, que eu colabore nessa galhofa ridícula? Que fantasia! Tenho mais que fazer. Julgas então que eu deixaria minha casa, abandonaria meus interesses, para ir ouvir sandices e baboseiras de um aventureiro que pretende falar sobre "as sete pontas de um quadrado"?

Fez pequena pausa. O mestre-escola, com impaciência mal reprimida, ouvia impassível as arrogantes e indelicadas palavras do corretor. 

Aquela recusa desatenciosa do Bechara irritou-me.  Sem conter as expansões de minha revolta, revidei com energia:

-- Surpreende-me a tua maneira sórdida e material de encarar a vida. Triste daquele que só se preocupa em ganhar dinheiro, que se torna escravo do ouro. Precisamos, de quando em vez, abrir uma janela para o sonho e para a fantasia. Ignoras o valor das lendas? Há lendas que encerram profundos ensinamentos, sábios conselhos e judiciosas advertências. O povo árabe tornou-se notável por seus contos maravilhosos que o mundo inteiro lê e admira. Só mesmo os espíritos tacanhos, envenenados pelo mais ignóbil utilitarismo, seriam capazes de negar o relevante papel que as lendas têm desempenhado no aperfeiçoamento da humanidade. Aquele, pois, que exalta as lendas edificantes e as divulga, realiza obra altamente meritória. Vimos aqui solicitar um diminuto auxílio, um pequeno obséquio de tua parte e somos repelidos por ti com agressiva má vontade.

A minha réplica, pronunciada com decidida energia, calou fundo no espírito do corretor. Ficou a meditar em silêncio durante algum tempo. Reconheceu, de certo, a leviandade que praticara e tornou benevolentemente:

-- Não tomes por grosseria ou desatenção a minha recusa. Os graves deveres de minha árdua profissão prendem-me aqui. Não passo de mísero escravo de minhas obrigações. Respondo, como bem sabes, não unicamente por mim, mas por todos aqueles que confiam em mim. Afastar-me do trabalho seria descuidar-me dos interesses alheios. Dessa falta jamais serei acusado. Não quero, porém, que tu e o teu amigo (e apontou para o mestre-escola) me tomem por imprestável. Vou chamar dois auxiliares de minha confiança que irão, com o maior prazer, ouvir a lenda do egípcio.

E Bechara saiu por uma pequena porta que mal se distinguia no fundo da sala. Passados rápidos instantes, repareceu acompanhado de dois homens de aparência distinta e corretamente trajados.

Um deles, alto e esguio, era um tipo realmente digno de atenção. Fisionomia simpática, sorridente, picado de bexigas, tinha a testa larga e olhos muito azuis. O outro, baixinho, já outoniço, era completamente calvo e tinha a pele do rosto encarquilhada por uma infinidade de rugas que subiam e desciam em todos os sentidos.

Proferidas as saudações de praxe (salã aleikumm! Aleikim assalã!), Bechara informou:

-- Este aqui (e apontou para o cavalheiro alto de olhos azuis) é o meu calculista Derak. Faz contas e resolve problemas com extraordinária rapidez. Se pretendo vender ou comprar alguma coisa, assaltam-me sempre dúvidas e incertezas. Qual será o preço justo? Que lucro poderei obter nesta ou naquela transação? Recorro, em tais circunstâncias, ao talentoso Derak, o matemático, que tudo esclarece, calcula e elucida com absoluta precisão.

O matemático, lisonjeado pelos honrosos elogios do chefe, inclinou ligeiramente o rosto em sinal de agradecimento.

Feita ligeira pausa, o corretor achou que lhe competia apresentar-nos o outro, o tipo baixinho:

-- Este outro que aqui está é o notável botânico Esbem Ketum. As plantas que crescem pelos cantos do mundo não têm segredos para ele. Para esta razi retorcida, ou para aquela semente sem cor, é capaz de apontar as propriedades medicinais, a idade, a maneira de aproveitar e os atributos mágicos. É autor de quinze volumes sobre a linguagem das flores, assunto em que é eminentíssimo.

-- E esses vossos ilustres auxiliares -- acudiu, com sofreguidão, o mestre-escola -- estarão dispostos a ouvir a a lenda que vai ser narrada pelo misterioso egípcio? O xeique exigiu cinco ouvintes,mas declarou que a lenda das "sete pontas do quadrado" é tão assombrosa que devia ser ouvida por cinco mil quatrocentos e trinta e nove pessoas.

-- Teremos nisso o maior prazer -- retorquiu prontamente o calculista -- Se no decorrer da narrativa surgir algum problema, empenharei todos os meus esforços no sentido de resolvê-lo. Ouço, por exemplo, aludir ao número 5.439. Exprime esse número um produto notável. Se multiplicarmos 777 por 7, vamos obter esse total indicado: cinco mil quatrocentos e trinta e nove. Para os cristãos o número sete goza de virtudes e atributos especiais. Perguntaram certa vez a Jesus, filho de Maria: "Senhor, quantas vezes poderá pecar meu irmão contra mim que eu lhe perdoe? Até sete vezes?". Respondeu Jesus, com sabedoria: "Não te digo que até sete vezes, mas que até setenta vezes sete".

Vendo que aquela palestra se alongava interminavelmente com cálculos e contas que não eu não compreendia, achei mais prudente cortá-la, e disse nervoso:

-- Voltemos sem perda de tempo para casa. Não devemos abusar da paciência de quem aguarda o nosso regresso.

Deixemos a residência do corretor Bechara. Éramos quatro: o mestre-escola, o matemático, o botânico e eu. Faltava apenas um para completar o total exigido pelo narrador.

Não foi difícil encontrá-lo.

Ao passarmos junto de um muro coberto de hera, que se erguia um pouco depois da casa do corretor, demos com um jovem magro, pobremente vestido, que descansava sentado numa pedra, com o rosto apoiado nas mãos. Vestia uma blusa, mais esfrangalhada do que a túnica de um mendigo. Pela barba de quinze dias, pelas mãos calosas e pelos pés deformados, parecia pessoa de baixa extração.

Saudei-o atenciosamente e perguntei-lhe:

-- Queres ir, agora, em nossa companhia ouvir uma lenda?

O rapaz arrancou algumas folhinhas de hera e esmagou-as entre os dedos. Quedou-se a olhar para mim numa expressão aflitiva e respondeu-me:

-- Só iriei ouvir a lenda se me deres, antes de mais nada, duas fatias de pão.

-- Terás o pão que quiseres -- declarei com ar risonho para incutir ânimo ao faminto.

E, puxando-o pelas vestes esfarrapadas, apontei:

Durante a caminhada o ilustre Esber Ketum, o botânico, prendeu-nos a atenção deliciando-nos com preciosas informações alusivas a todas as plantas e árvores que encontrávamos. Encantou-nos ao discorrer sobre as flores. Algumas indicações conservei em minha desbotada memória:

-- Não é só pelo expressivo arranjo de suas pétalas, pelo inebriante perfume que exalam e pelo colorido com que se enfeitam que as flores nos atraem. Apresentam-nos outros atributos com que se impõem ao nosso estudo e à nossa admiração. Uma tem propriedades medicinais; outra recorda um episódio famoso da história. Muitas apresentam certas funções misteriosas dignas da atenção dos sábios. Há flores que exprimem pensamentos e anseios do coração. Os antigos pagãos (queira Alá esclarecer esses infiéis!) consagravam a seus deuses e honravam seus heróis com diferentes flores. Os ídolos eram enfeitados com flores. Nas flores vão os poetas buscar inspiração. Têm sido elas cantadas pela gente simples do povo. Canta é, para as albas bem formadas, a maneira gentil de exaltar, aplaudir, elogiar, enaltecer e sonhar.

O teu sorriso é uma flor,
Vivo com ele no peito;
Sorriso de amor-perfeito,
Senão de perfeito amor!

-- "Não me esqueças! Não me esqueças!"
Clama a rosa em meu jardim.
-- Eu é que não digo nada
A quem se esquece de mim


ao ouvir esses versos tão delicados, lembrei-me das trovas que o egípcio cantara em minha casa. E pus-me a recordá-las:

Saudade, flor que desperta
Tristeza no coração;
Saudades dos que se foram
Dos que não voltam mais, não!

Não choro por me deixares
Que o jardim mais rosas tem;
Choro por não encontrares,
Quem te queira tanto bem!

Ocorreu nesse momento um episódio que nos causou profunda surpresa. O jovem da túnica esfrangalhada, que se conservara num mutismo de maníaco, abeirou-se de mim como um ébrio, passeou-me os olhos dos pés à cabeça, segurou-me pelo braço e ganiu com indizível aflição:

-- Com quem aprendeste essa canção? Onde a ouviste?

-- Ora essa! -- exclamei tomado de indisfarçável espanto -- Que vês de estranho ou surpreendente nessa canção?

E contei-lhe (pois não via motivo para ocultar a verdade) que ouvira aqueles versos de um egípcio chamado Zualil, meu hóspede. E acrescentei, fitando-o meio grave e meio alegre:

-- Ele está em minha casa e logo que lá chegarmos vai nos deliciar com a narrativa de uma prodigiosa lenda.

Ouvidas essas palavras o rapaz deu um salto para o lado, arrancou o turbante, atirou-o ao chão e sem pronunciar palavra ou o menor gesto de despedida, desatou a correr como um beduíno perseguido por um bando de panteras negras do deserto.

Ficamos estupefatos. Para a estranha atitude do jovem não achávamos explicação satisfatória.
...o rapaz deu um salto para o lado, arrancou do turbante,
atirou-o ao chão e, sem pronunciar palavra, desatou a correr...
-- É um maníaco! -- opinou o mestre-escola com ar compungido.

-- Na vida desse moço -- arriscou o matemático -- existe um drama. Resta descobrir a relação entre a tragédia que o envenena e a canção que o perturba.

Depois de um minuto de circunspecção, opinou o botânico: 


-- Não adianta comentar o caso. Todas as conjecturas feitas a tal respeito sairão inúteis e talvez erradas. O que se apura é, em suma, o seguinte: um jovem de aparência simples e humilde é convidado a tomar parte numa reunião. Aceita o convite e dirige-se, com um grupo de amigos, para o local marcado. Em caminhou ouve, casualmente, uma canção. Arraca do turbante e foge de nós numa corrida alucinada.

-- Que faremos agora? -- ponderou o mestre-escola -- Lá se foi o nosso quinto ouvinte. Estamos novamente reduzidos a quatro e o egípcio exigiu cinco.

-- Não nos preocupemos com isso -- acudiu o matemático -- De cinco para quatro a diferença é só de uma unidade. E não será difícil obter o quinto ouvinte.

Seguimos rapidamente para casa. Recostado ao portão avistei um homem modestamente vestido.

Era um cego que eu costumava encontrar esmolando no mercado ou no pátio da mesquita. Saudei-o com simpatia e perguntei-lhe:

-- Esperas alguém, meu amigo?

Respondeu-me o cego:

-- A pessoa que se achava nesta casa foi obrigada a partir e pediu-me que aqui ficasse de vigia, até o dono regressar.

A inesperada declaração do cego deixou-me estupidificado. Caiu-me a alma aos pés. O meu hóspede partira e deixara um cego vigiando a minha casa. Um ímpeto de cólera apoderou-se de mim. Para atender um desejo do aventureiro eu andara, como um palhaço, a procurar "ouvintes" para a tal lenda. Durante a minha ausência ele desaparecera e deixava-me em situação ridícula diante de pessoas que haviam confiado em mim.

-- O tal egípcio não passa de um tratante! -- repisei revoltado. -- As minhas desconfianças não era, afinal, infundadas.  

E já ia despejar sobre o meu hóspede uma série de terríveis invectivas quando o mestre-escola me puxou pelo braço e apontou para uma casa que ficava no extremo da rua.

-- Lá vem ele!

E tinha razão. Era Zualil, o egípcio, que caminhava apressado como se viesse a alguma importante missão.


Continua...

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