segunda-feira, 24 de abril de 2017

ESPAÇO Literário

Malba Tahan: O guardião cego  


Continuação da postagem de 21abr2017



"A pior cegueira não é aquela que anuvia os olhos,
 mas sim a outra - a que obscurece a alma".

QUANDO Zualil se aproximou do portão, onde eu me achava em companhia dos quatro homens, não pude dominar a minha exasperação. Exprobrei-lhe a forma incorreta e leviana com que procedera durante a minha ausência.

-- Para atender à tua exigência descabida -- disse-lhe com desagrado -- fui com o mestre-escola em busca de três ouvintes para a tal lenda que pretendias narrar; trouxe comigo dois sábios famosos (e apontei para os auxiliares do corretor Bechara); assegurei-lhes que estavas a nossa espera. E qual não foi o meu espanto ao verificar que havias ido, como um cameleiro em dia de folga, vaguear pelos arredores. E o mais grave, ainda, é que esta casa, entregue aos teus cuidados, deixaste, inteiramente abandonada, ou melhor, sob a vigilância inútil de um cego. Não me parece que este homem (e apontei para o cego) que vive mergulhado nas trevas da cegueira, seja o vigia mais indicado para zelar pela moradia e pelos bens de um amigo.


O egípcio ouviu impassível as acres invectivas que eu proferia com estouvado desabrimento. E disse, arrastando a voz com a serenidade de um derviche:

-- Sinto discordar de ti mais uma vez. Não pratiquei leviandade alguma nem aceito a acusação de imprudência ou descaso. Increpas um amigo antes de ouvir as razões e os motivos que o levaram a proceder da forma que te parece errada ou censurável. Vou contar-te o que sucedeu e verás se devo ou não ser inteiramente absolvido da falta por que me condenas.

-- Achava-me aqui, neste portão, a tua espera quando vi passar um velho marceneiro que eu conhecera. Era um homem bom e digno que me auxiliara em viagem. Pareceu-me aflito. Chamei-o e perguntei-lhe se precisava de alguma coisa. Com voz angustiada, respondeu-e que saíra de casa em busca de remédios para o filho mais moço que adoecera de repente. Disse-lhe então: "Conheço a Medicina; tenho grande prática na cura de moléstias crônicas e agudas. Irei socorrer teu filho". Alegrou-se o pobre pai. Havia, porém, uma dificuldade. Como deixar abandonada a casa de meu amigo? Nesse momento avistamos este cego que passava apalpando o chão com o seu pesado bordão: "Aquele homem - pensei - poderá substituir-me enquanto vou socorrer o enfermo." Abordado por mim e informado de tudo, o cego prontificou-se a servir-me. "Podes partir tranquilo - disse-me - e não te preocupes com a casa que ficará sob meu cuidado". Não tive, pois, dúvida alguma em deixar tua casa vigiada pelo cego. Era pessoa que me inspirava confiança. Ninguém desempenharia melhor tão delicado encargo. O cego, apesar das trevas que o rodeiam, percebe a vida, ouve o que se passa em redor. Faltando-lhes o sentido da vista, apura e desenvolve todos os outros. Reconhece as pessoas que dele se aproximam; os lugares ponde passa; as coisas mais simples que o rodeiam. Tem por norma a prudência, aliada à cordura e à moderação. É cauteloso no agir e no falar. Sabe como se defender; orienta-se com segurança, pois a sua bússola é a inteligência esclarecida pela luz do raciocínio. Na incerteza do terreno, evita pisar em falso. Há cegos mais cautelosos do que o vidente mais precavido.

E como eu o fitasse com obstinada desconfiança, ele prosseguiu:

-- Queres a prova de que este cego merecia a confiança que nele depositei? Ele nos vai dizer quais foram as pessoas que, durante a nossa ausência, passaram por esta rua.

Respondeu o cego baixando o rosto e falando pausadamente:

-- Notei que cruzaram esta rua um burriqueiro surdo, duas mulheres (uma delas conduzia uma criança), um pescador e dois músicos.

Acudiu Zualil com entusiasmo:

-- Aí está a prova! Nada lhe passou despercebido! Estava sempre atento e vigilante. Quem melhor poderia zelar pela segurança de tua casa? Afastei-me daqui, é verdade, mas assim o fiz para socorrer uma criança em perigo de vida. Salvei-a. Estou satisfeito. Que juiz seria capaz de me condenar?

Nesse ponto Dorak, o matemático, observou, dirigindo-se ao egípcio:

-- A tua forma nobre e correta de proceder só pode merecer elogios de nossa parte. Dirão os irrefletidos que confiaste num cego. A pior cegueira, a meu ver, não é aquela que anuvia os olhos, mas sim a outra - a que obscurece a alma.

E voltando-se para o mestre-escola (que se achava a seu lado) interpelou-o:

-- Conhece a história do burro amarelo e os cegos de Bagdá?

E a seguir, numa consulta aos presentes, indagou:

-- Querem ouvi-la?

-- Sim, sim -- respondemos em coro.

E, na verdade, quem não gostaria de ouvir a história do burro amarelo e os cegos de Bagdá?

-- Entremos primeiro - disse eu logo - Nada de cerimônias.

Levei todos os amigos, inclusive o cego, para a minha sala. Convidei-os a se sentarem.

E bem acomodados em macios tapetes, puderam ouvir a narrativa do matemático.

O ilustre calculista assim começou:
Continua... 

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