quinta-feira, 6 de abril de 2017

MARCELO Migliaccio

Existe esquerda dentro da PM?



ENTRO no Uber numa tarde de sábado. Vejo que o motorista é um homem muito forte, de pele negra. Sempre bato um papo com os motoristas mas naquele dia não estava a fim de conversar. Ele segue naquela velocidade de cruzeiro que às vezes irrita quem está com pressa. Para não ficar muito antipático, uns 300 metros adiante puxo assunto.

-- O pessoal come muito essas balas aqui?

Com uma voz mansa e uma entonação gentil e atenciosa de quem fala com a própria avó de 90 anos, o homem com braços de halterofilista responde:

-- Mais é criança que gosta. Ou então o pessoal que vem da madrugada...

Não lembro como a conversa chegou até a profissão dele.

-- Sou capitão da Polícia Militar. Completo a minha renda aqui no Uber.

A associação foi imediata diante daquele corpanzil.


-- Você é do Batalhão de Choque, né?

-- Sim, senhor -- respondeu o motorista no mesmo tom gentil e manso que agora contrastava com as imagens na minha mente dos homens do choque distribuindo cacetada nas manifestações populares.

Tomei coragem.

-- Sabe, amigo, eu sempre quis encontrar algum de vocês num lugar que não fosse uma zona de conflito onde pudéssemos conversar com calma. Às vezes, vejo seus colegas fazendo ginástica na praia e penso que seria o momento ideal, mas nunca tentei, fiquei sem graça de abordar.

Ele está interessado, vejo pelos seus olhos no retrovisor. E prossigo:

-- Acho que seria muito legal se vocês do choque e os estudantes universitários pudessem conversar numa boa, trocar ideias com calma, porque muitos são da mesma faixa etária e vivem a mesma realidade no Brasil. O problema é que os dois grupos só se encontram na hora do conflito. No dia em que o choque mudar de lado nós consertamos esse país, nesse dia o povo coloca essa corja de ladrões para fora e toma o poder.

-- É verdade. Mas é difícil. A Polícia Militar tem uma hierarquia muito rígida.

-- Você sabe o que aconteceu com aquele policial do choque que se recusou a reprimir a manifestação de professores estaduais?

-- Não foi só um, foram 15, e eu era um deles. Ficamos 15 dias presos no quartel.

-- Sério!?

-- Como é que eu vou bater em professor? Não dá.

É difícil descrever a emoção que senti vendo um policial dizer aquilo. Ele prosseguiu, com a mesma fala mansa:

-- Agora não nos escalam mais para manifestações. Quando tem alguma coisa assim, mandam a gente para outros trabalhos, reforçar UPPs por exemplo. É um absurdo nós, funcionários públicos, reprimirmos nossos colegas que protestam para receber salários, estamos todos com salários atrasados por causa desses políticos que acabaram com o estado do Rio.

-- Qual é a porcentagem de pessoas que pensam como você dentro da Polícia Militar? Chega a 10%?

Ele pensa um pouco.

-- Acho que uns 20%. Mas é difícil politizar a tropa, a maioria dos soldados nunca leu nada na vida. Eu costumo sempre mandar os soldados lerem, lerem qualquer coisa para ver se pegam o hábito. Indico até livros de guerra porque pelo menos eles estarão lendo. Mas é muito complicado.

-- Você já pensou em entrar na política, ampliar seus horizontes, tentar mudar as coisas, ser um contraponto ao Bolsonaro entre os militares?

-- Não sei... já pensei mas... não sei. Detesto esse Bolsonaro. Outro dia, na véspera da eleição passada, participei de um debate em que estava o filho dele, candidato a prefeito. Eu sabia que ele e o pai recebem dinheiro da Taurus (fabricante de armamento que fornece ao governo do Rio). Perguntei então o que ele achava da péssima qualidade das armas usadas pela polícia, que falham e provocam a morte de muitos policiais. Ele ficou todo embaraçado diante de uma platéia cheia de policiais. Foi engraçado.

-- E você não está marcado entre os oficiais por ser de esquerda?

-- Estou sim, querem me mandar até para o morro do Alemão comandar uma UPP.

-- Mas isso é mandar você para a morte! Estão atacando a polícia direto lá.

-- É, mas não sei o que vai acontecer. Talvez até as UPP acabem antes disso...

A corrida chega ao final e me despeço do capitão. Desço do carro com uma ponta de esperança, ainda que seja uma pontinha tão pequena que quase não dá para enxergar. (Rio Acima em 6abr2017) 

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