segunda-feira, 29 de maio de 2017

MALBA Tahan



FORA logrado, decerto. Enquanto pensava assim,  eis que a atenção do narrador é atraída por cantarolar alegre de alguém no jardim. Era Zualil. "Reconheço que não passo de um hóspede importuno, pois já devia ter prosseguido a minha jornada", disse-lhe com um grande sorriso o singular visitante. "Penalizou-me, porém, acordar-te ao romper do dia. Notei que estavas sob peso de grande fadiga. Levantei-me ao primeiro chamado do muezim. Ao preparar-me para a prece resolvi dar pequeno arranjo à sala... Chamou-me a atenção este belíssimo narguilé de prata. Não posso ver uma peça de tão grande valor artístico coberta de pó e cheia de manchas. Resolvi, pois, deixá-lo bem limpo e em condições de ser admirado"

"Quando cheguei de volta à sala, tive a surpresa de
 encontrar o  meu hóspede em companhia de um desconhecido."
Percebeu o narrador estar em presença de um homem singular, um ser humano extraordinário, acima da média dos demais homens. Arrependido, sentiu vergonha de seus pensamentos e pediu desculpas por isso. Zualil disse-lhe que todas as aparências depunham contra ele e não se sentia ofendido pelo mau juízo feito por seu anfitrião.

E apontando para o narguilé, agora limpo e sem manchas, pergunta se seu interlocutor já lera alguma vez as legendas que nele aparecem: "Aprende a escrever na areia". 

Como as histórias nunca terminam, o conto anterior continua em outro: a história sobre a legenda do narguilé, contada por Zualil, o visitante singular. Postamos aí  "Os dois amigos", em 14abr2017.  A legenda gravada no narguilé é a deixa para essa outra narrativa.

O Narrador retira-se para a cozinha a fim de preparar o desjejum, deixando o hóspede na sala. Na volta, vê este em companhia de um desconhecido com quem conversa alegremente.

"Espero que não te aborreças com este novo hóspede! Chamei-o para servir-nos de companhia na refeição. Ele ia passando e eu o convidei. Fiz mal? Aprovas o meu gesto?"

Ficou evidente que ele - o narrador - não gostou nada. "A continuar daquela maneira, dentro de poucas horas a minha casa estaria transformada numa turbulenta hospedaria ou num caravançará enxameado de forasteiros". No entanto, não viu outra solução senão concordar, homologando o convite feito. 

Era um mestre-escola o convidado do convidado. Seu nome era Iezid Chakalid e "tinha por hábito não recusar os convites atenciosos e as ceias apetitosas." Devorou com apetite os diversos pratos que o narrador havia cuidadosamente preparado, não cessando, um só instante, de tagarelar, declamar e discutir. Falou com extraordinária eloquência do maravilhoso tanque existente no paraíso, segundo a crença dos muçulmanos. "O paraíso é todo entrecortado por inúmeros regatos. Nem todos são de água fresca e cristalina. Em muitos só corre leite, e que leite delicioso! Em outros circula vinho puro e gelado que não embriaga..."

Conforme prometera, chegava a hora de partir. Zualil, como prova de gratidão pelas gentilezas e atenções recebidas, oferece ao amigo três coisas, porém só podia escolher uma delas: um conselho, um segredo ou uma lenda.

"Fitei-o cheio de assombro. Aquele homem singular pretendia pagar as gentilezas e atenções que recebera em minha casa com a moeda mais desvalorizada do mundo: segredos, lendas e conselhos!". Qualquer outro em sua situação dispensaria tal pagamento. "Podes seguir o teu caminho que eu nada mais desejo de ti". No entanto, julgou indelicado de sua parte tratar Zualil, o homem singular, dessa maneira.

Desprezou o conselho e o segredo, optando por escutar a lenda. Mas não era assim tão simplesmente escutar a lenda. "A lenda que pretendo contar-te, como retribuição pelas boas horas que aqui passei, intitula-se "As sete pontas do quadrado" e é uma das histórias mais assombrosas do mundo." Tão assombrosa e fantástica que deveria ser contada para uma plateia de cinco mil quatrocentos e trinta e nove ouvintes. "Repara bem: Essa lenda notável, o maior tesouro literário do mundo, deveria ser ouvida por 5.439 pessoas!". No entanto, como a casa não comportava a multidão de cinco mil quatrocentos e trinta e nove pessoas, fez uma concessão, reduzindo esse número para apenas cinco ouvintes.

Caberia então ao anfitrião e narrador, acompanhado do mestre-escola, reunirem somente mais três pessoas disposta a escutar a fabulosa lenda "As sete pontas do quadrado", o maior tesouro literário do mundo. 

Saíram então a procurar pelas ruas mais três pessoas, deixando aquele homem singular em sua casa. 
Arregalou os olhos, mediu-me muito sério da cabeça aos pés e
 respondeu-me num tom de lástima: "As melancias ainda estão verdes..."

Logo adiante surgiu um modesto burriqueiro, que, pelas respostas sem sentido, parecia ser surdo. Em "O burriqueiro surdo", narramos essa história. Esse homem, sendo surdo, logicamente, não servia para escutar a notável lenda "As sete pontas do quadrado", cabendo aos dois - o narrador acompanhado do mestre-escola - seguirem em frente à procura de mais três ouvintes. 

Seguiram adiante, foram até a residência do corretor Chafid Bechara, que, por sua vez, lhes indicou seus auxiliares, sendo eles um botânico e outro matemático. Estavam aí em número de quatro, faltando apenas mais uma pessoa para ouvir a notável e fantástica lenda "As sete pontas do quadrado", digna de ser ouvida por uma multidão de 5.439 pessoas.




GREGÓRIO Fortunato, vítima de seu próprio sucesso


"DEPOIS daquela noite terrível que a família Vargas passou em claro, se defendendo como podia do ataque integralista, Getúlio compreendeu que tinha de organizar uma guarda do palácio. Não segundo o modelo comum das guardas pretorianas , para aparar os golpes da cúpula militar - se tivesse pensado nisso, teria evitado muitos dissabores - mas numa guarda pessoal, para sua proteção e da família.


Quando Getúlio incumbiu Bejo Vargas de dar os primeiros passos neste sentido, este lembrou-se logo do tenente Gregório Fortunato. Naquela manhã, após a fuga dos integralistas para os cerros cobertos de florestas que circundam o Rio de Janeiro, Bejo, auxiliado por Gregório, desalojou os atacantes que alvejaram o palácio da copa das árvores. Muitos deles tinham ficado escondidos entre as ramagens - não tiveram tempo de descer - e esperavam a escuridão da noite para escapar. Bejo e Gregório, auxiliados por Severino Góis, puseram fim a este sonho apeando um por um dos galhos a tiro de 45, como quem caça jucus.

Gregório era o homem de confiança de Bejo Vargas, desde o tempo em que servia como tenente no 14º de Corpo de Provisório, em São Borja. Auxiliara o coronel Bejo na formação do Corpo, recrutando soldados nos municípios vizinhos, especialmente em São Luís, sua terra natal. Bejo mandou-o para lá justamente por causa de seus laços familiares e de amizade, o que deveria favorecer o recrutamento. Contam que numa de suas remessas frequentes de recrutas, Gregório teria mandado o seguinte bilhete ao seu comandante, pelo cabo da patrulha: "Coronel Bejo. Estou remetendo 5 voluntários de São Luiz. Não se esqueça de me devolver os maneadores pelo portador. Ten. Gregório".


É claro que se trata de uma anedota maldosa, inventada pelos seus inimigos, que naquela época já não eram poucos. O Corpo Provisório de São Borja marchou para a frente paulista em 1932, e com ele o coronel Bejo e o tenente Gregório.

Getúlio nutria uma grande amizade pelo Bejo, que era o seu irmão mais moço. Ele tinha dado provas insofismáveis de lealdade, como naquela manhã do ataque integralista, aparecendo com um batalhão providencial para socorrê-lo, e também na derrubada de Flores da Cunha; mas não foram poucos os problemas que ele criou.

Bejo entregou ao Gregório a tarefa de organizar o núcleo inicial da guarda. Mas logo surgiu um desentendimento com dona Darcy. Murmuravam que Getúlio costumava manter uma ou outra ligação amorosa eventual. Segundo um dos irmãos Cardoso, integrantes da guarda pessoal, suspeitava-se que algumas saídas que ele fazia à tarde, de automóvel e acompanhado de Gregório, tinham por destino um palacete na Gávea. Talvez fosse se encontrar com a Adalgisa Neri, esposa de Lourival Fontes, diretor do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), ou outra dama qualquer; ou fosse simplesmente espairecer. Aranha devia ter ouvido qualquer coisa sobre isso, pois no final de um despacho com Getúlio, disse-lhe: "Andam dizendo por aí que a Adalgisa Neri é tua amante." Respondeu Getúlio: "Qual nada! Isso é o Lourival Fontes que anda espalhando para se engrandecer."

Oswaldo tinha grande intimidade com Getúlio, sendo um dos poucos que lhe davam o tratamento amistoso de "tu". Essas supostas aventuras amorosas de Getúlio teriam sido a causa aparente da separação de d. Darcy, que ocorreu mais tarde. Quando ela ficou sabendo desses passeios à tarde, não cogitou de se informar se a companhia de Gregório fazia parte ou não das suas atribuições como chefe da guarda. Apesar da grande força de Bejo junto ao irmão, ele não pôde impedir que o seu antigo tenente fosse mandado de volta para São Borja. O comando da guarda foi entregue então a um oficial do exército, o coronel Vanique.

Parece que houve influência militar em todas essas manobras: conhecimento de d. Darcy, culpa de Gregório e sua exoneração. Talvez os militares pretendessem emprestar um caráter mais técnico à Guarda, ou simplesmente exercer um controle direto sobre ela. Se pensaram assim, escolheram o homem errado, porque Vanique foi um fracasso total. Deixou-se levar pelo alcoolismo e teve de ser afastado. Bejo encontrou-se numa situação muito cômoda para solicitar o retorno de Gregório.


Gregório foi de fato o organizador da guarda pessoal, e o precursor de métodos de proteção aos chefes de Estado, que somente mais tarde foram empregados por nações mais adiantadas. Quando Getúlio se deslocava para assistir as solenidades em um lugar qualquer, ele - Gregório - distribuía previamente por toda a área os seus homens, ocultos sob todos os disfarces possíveis: varredores de rua, recolhedores de lixo, pessoal consertando rede elétricas, de telefones, etc." (Rubens Alves Vidal in Os Vargas, páginas 166 a 168).


ALCINO João do Nascimento foi o pistoleiro contratado para a execução do crime. Climério Euribes de Almeida, o intermediário, primeiro procurando José Antônio Soares, que alegou já ser velho (50 anos) para o serviço. Foram envolvidos também e condenados Nelson Raimundo, que estava de motorista de táxi, e João Valente de Sousa.

Mas a responsabilidade maior do crime recaiu em Gregório Fortunato. O Anjo Negro alegou em sua defesa terem sido os mentores intelectuais da trama o general Ângelo Mendes de Morais, os deputados Euvaldo Lodi e Danton Coelho, e Benjamim Vargas, irmão caçula de Getúlio, que queriam apenas dar um "susto" em Lacerda.

Como chega a ser até natural em casos assim, a culpa acabou por recair na parte mais fraca, na arraia miúda: Gregório e mais quatro. Os tubarões se eximiram sob as mais variadas alegações, inclusive de cunho preconceituoso de raça e social. O deputado Danton Coelho sequer foi processado por ter a Câmara dos Deputados negado autorização. 

Preso, Gregório resistiu ao máximo em assumir sozinho a culpa pelo crime que matou Vaz e feriu Lacerda, só o fazendo depois de ler uma manchete falsa do jornal Tribuna da Imprensa, em que anunciava a fuga de Bejo Vargas para o Uruguai, que "abandonava assim seus amigos na hora do perigo".

Ora, se isso não representava uma confissão indireta de culpa da parte de Bejo Vargas, ao ponto de Gregório se sentir abandonado pelo chefe, o que mais seria? E os opositores de Vargas sabiam disso, caso contrário não teriam tido essa ideia, a de fabricar uma edição falsa de jornal, que surtiria os efeitos desejados: fazer Gregório assumir sozinho o crime.

Benjamim Vargas, ou Bejo Vargas, foi o idealizador da guarda pessoal do irmão, e seu principal organizador em 1938. O verdadeiro chefe da equipe, sendo Gregório seu fiel escudeiro.

Bejo era do tipo valentão, sangue quente, daqueles que não leva desaforo pra casa. Getúlio teria reunido os familiares no Palácio Guanabara e, encarando o irmão caçula, dissera: "pela segunda vez, Bejo, tu me tiras do governo." Essa era a forma sutil que Getúlio encontrou para dizer que sabia do envolvimento do irmão no episódio funesto.

Gregório, semi-analfabeto e negro, acabou sendo vítima de seu próprio sucesso. Chegou a ter quarenta ternos, e incomodava a tanta gente importante por ter acesso direto ao presidente. Muita gente boa deveu favores ao Nego; muitos coronéis e generais deveram promoções a ele; muitos empresários e políticos tiveram aberta por Gregório a porta do gabinete presidencial. Por essas e outras era muito requisitado, e ele atendia por lisonja, quando na verdade era apenas usado.

Os interrogatórios, levados a efeito pelo IPM da "República do Galeão", objetivavam encontrar uma maneira de responsabilizar o presidente. Não o conseguindo, contentaram-se em chegar a seu principal guarda-costas, aquele que era culpado até pelas saídas furtivas de Getúlio Vargas. 

Mas como um oficial da Aeronáutica foi morto, em vez do verdadeiro alvo, Carlos Lacerda? O povo ficou sabendo que algum tempo antes o brigadeiro Eduardo Gomes, adversário derrotado por Getúlio em duas eleições, destacou alguns oficiais da FAB para acompanhar dia e noite a Lacerda, pois temiam um atentado contra ele. Essa situação ocorria naturalmente à revelia do ministro da Aeronáutica, brigadeiro Nero Moura, que sabia mas não tinha como coibir tal afronta aos regulamentos militares. A Aeronáutica na verdade possuía dois comandantes, sendo um deles quem realmente mandava na Força. Naquela ocasião o guarda-costa de Lacerda era o major Vaz, que substituía na escala o major Gustavo Borges, escalado em cima da hora para uma viagem a serviço.


"No Departamento de Polícia Técnica, dia 22 de setembro de 1954, ao prestar depoimento, Bejo Vargas procurou, habilidosamente, empurrar a responsabilidade das ações da Guarda Pessoal para cima do Nego. A essa altura, conforme afirmou, nem sabia das pessoas que integravam o corpo de segurança palaciano.

Após identificar-se, teve a cara-de-pau de afirmar que conhecera Gregório somente em 1927, quando este o procurou pedindo ajuda por estar doente. Nessa época o Nego imaginava ter contraído tuberculose e Bejo, farmacêutico, era quem respondia pela Farmácia Vargas, instalada na antiga rua Sete de Setembro, atual Avenida Presidente Vargas, em São Borja. Disse também que Gregório, em 1932, serviu sob suas ordens num Batalhão de Provisórios do Rio Grande do Sul; participou da Revolução Constitucionalista e chegou ao posto de segundo-tenente.

Terminada a luta, foi para Porto Alegre, onde arranjou emprego de contínuo na Alfândega. Quando, em 1938, a Guarda Presidencial foi formada, após o "putsch" integralista, Gregório e outros gaúchos foram convocados a integrá-la. Disse que o pessoal da GP compunha-se de antigos sargentos, cabos e praças que tinham servido no Corpo Provisório que lutou em São Paulo, sob as ordens do coronel Eurico Gaspar Dutra.

Disse mais: o recrutamento atendeu ao critério da lealdade e da confiança que os recrutados mereciam dele. Explicou que Gregório, em princípio, era apenas um membro da equipe, sendo mais tarde escolhido para chefiá-la, mediante portaria do então chefe de Polícia do Distrito Federal, coronel Filinto Mülller.

Explicou que a guarda terminou sendo dissolvida a 29 de outubro de 1945, fim do primeiro governo Vargas, e que na sua reconstituição, quando seu irmão voltou à Presidência, em 1950, não teve a menor participação. Com relação a seu conhecimento com Climério, explicou ter sido recrutado para integrar o Batalhão de Provisórios em 32, mas, face às trabalhadas em que se envolvera, não recordava se o havia punido ou dispensado.

Quando organizou a guarda em 38, cuidou de saber de Gregório por que trouxera Climério do Rio Grande, e este lhe respondera que se tratava de um pobre homem, agora regenerado. Que a primeira notícia que teve do crime na Tonelero foi na manhã imediata pelos jornais. Foi quando tomou conhecimento da participação de Climério no atentado, conforme as declarações do motorista Nelson e do Alcino. Logo depois esteve no Catete, tendo pedido informações sobre o caso a várias pessoas, inclusive a Gregório, e este lhe dissera não saber de nada, além do que divulgavam os jornais.

Que o declarante se satisfez com a explicação, pois até então não o julgava envolvido no crime, nem sabia que Climério, um dos personagens do atentado, participava da Guarda; que no dia seguinte o declarante seguiu para Petrópolis e só ao retornar, dia 8, foi que Gregório confessou seu envolvimento na trama.

Disse também, estar a par do empenho do governo em descobrir os responsáveis pelo atentado; disse ignorar que a imprensa acusasse Getúlio por crime de favorecimento, pois não lia os jornais que o atacavam; lia preferencialmente o vespertino Última Hora. Explicou que no dia 8 deixou sua casa em Petrópolis após receber telefonema do major José Acioly, para que viesse; era urgente, fatos graves se sucediam. O depoente ordenou que seu motorista se apressasse, e na raiz da Serra notou que um outro carro fazia sinais de faróis. Pararam. Era Gregório num automóvel dirigido pelo motorista Artur. Bejo passou para esse carro e o Anjo Negro disse que o presidente estava uma fera. Considerava-se ludibriado, pois lhe garantira ter "a Guarda na mão", e pouco depois elementos que a ela pertenciam estavam em todos os jornais como envolvidos na tentativa de assassinato de Carlos Lacerda e na morte do major Rubens Vaz.

Acentuou o declarante que somente aí, prometendo falar a verdade, como se estivesse diante de um padre, afirmou que mandara executar o crime; a confissão, sempre em voz baixa, chocou grandemente o declarante, daí ele não se recordar direito do que mais lhe disse o Nego" "(...) Mas lembrava de ter indagado se havia algum mandante ou instigador, além dele, e não obteve resposta."

Depois de tantas mentiras, Bejo disse uma verdade: "o presidente perguntou-lhe se sabia do movimento de Gregório, respondeu afirmativamente", e Vargas, demonstrando indignação, gritou que "os tiros no pé do Lacerda e no major Vaz foram tiros nas costas do Governo". Pouco depois chegava Oswaldo Aranha, e a ele dirigiu-se Getúlio, perguntando se admitia o envolvimento de Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal, no atentado da Tonelero. Aranha sacudiu a cabeça afirmativamente. Getúlio, então, decidiu dissolver a Guarda e convocou o general Caiado de Castro, a fim de prender o Anjo Negro.

O depoente teve a desfaçatez de, após a reunião com o presidente, encontrar-se pessoalmente com Caiado de Castro e com o major Ene, chefe de segurança do palácio, aos quais denunciou o ex-amigo. (...) Transformado em bode expiatório, só lhe restava um caminho: assumir a mentira como sendo verdade, pois sabia que Ângelo Mendes de Morais, Euvaldo Lodi, Danton Coelho e o próprio Lutero jamais contariam como a trama se iniciara. (José Louzeiro in O Anjo da Fidelidade, páginas 405 a 408)
(BLOGUE do Valentim em 28maio2016)

domingo, 28 de maio de 2017

MALBA Tahan

JÚLIO César de Melo e Souza, antes de morrer, pediu que seu enterro fosse feito num caixão de terceira classe, sem homenagens, flores ou coroas. A humildade foi uma constante na vida desse homem que adotou o pseudônimo de Ali Iezid Izz-Edim ibn Salim Hank Malba Tahan, o famoso escritor árabe. 

Homem singular -- nas palavras que ele tanto gostava de utilizar em suas obras --, Melo e Souza, formado em Engenharia Civil,  preferiu dedicar-se ao magistério e à literatura, mesclando a Matemática às divertidas histórias da Arábia medieval, mesmo sem nunca ter visitado o Oriente Médio.

Quando o professor Melo e Souza decidiu criar o escritor Malba Tahan (Crente de Alá e de seu santo profeta Maomé) não quis criar apenas um pseudônimo, mas fazer com que ele parecesse real. O primeiro livro escrito como Malba Tahan, Contos de Malba Tahan, logo na primeira página, aparece a ilustração de um árabe, com turbante e de longas barbas brancas, escrevendo. Assim, durante muitos anos o público acreditou que Malba Tahan realmente fosse esse árabe de longas barbas brancas e turbante. Júlio Cesar e Malba Tahan passaram a ser então duas pessoas diferentes, havendo aí uma fusão entre o real e o fictício. Por esse motivo, Julio César de Mello e Sousa foi autorizado pelo Presidente Getúlio Vargas a identificar-se livremente com o nome Malba Tahan, constando em sua carteira de identidade.


Malba seguiu seus estudos por Cairo (Egito) e Istambul (Turquia) até receber uma vultosa herança de seu pai e resolver viajar pelo mundo, passando pela China, Japão, Rússia e Índia, onde teria observado e aprendido os costumes e lendas desses povos. Teria estado, por um tempo, vivendo no Brasil. Morreu em batalha em 1321 na Arábia Central, lutando pela liberdade de uma minoria dessa região. Seus livros teriam sido escritos originalmente em árabe e traduzidos para o português pelo também fictício professor Breno Alencar Bianco.

Recentemente o  BLOGUE do Valentim dedicou muitas páginas a essa personalidade singular, que, em nosso conceito, foi o mais original escritor brasileiro de todos os tempos. Para a homenagem extraímos tais páginas da obra "Mil histórias sem fim - volume 2", cuja característica original é que uma história nunca termina, ou seja, ela continua numa nova, e esta, em mais uma e mais uma, prendendo indefinidamente a atenção do leitor.

Assim, em 11abr2017, iniciamos com "O viajante desconhecido" de nome Zualil Delach, um libanês radicado no Egito. 

Observador rigoroso das leis do Islã, após a prece, promete ao narrador a baraka, pois, segundo crença geral, dois homens sozinhos, sendo um deles desconhecido ao outro, quando rezam juntos, forçosamente virá ao encontro do anfitrião a felicidade, a baraka. Entrementes, por duas vezes o anfitrião-narrador surpreende Zualil olhando para um valioso narguilé de prata, que ornamentava uma das paredes, surgindo aí ligeira onda de desconfiança, que lhe negreja o coração. Estaria o visitante sendo sincero?

O narrador pede então que seu visitante se identifique. É aí que postamos, em 12abr2017, "A vida aventurosa do misterioso visitante", em que o viajante relata a sua vida repleta de aventuras, que resumimos a seguir:

Zualil dedicou-se no Egito ao comércio de jóias e especiarias, no entanto a vida errante exercia sobre ele grande atração. Fez-se então criador de carneiros, porém tornou a ficar pobre em virtude uma peste que assolou a região. Forçado a sobreviver, aceitou o emprego de zelador de marabu (espécie de capela na cultura muçulmana), função em que não se demorou por muito tempo. Instigado por alguns se arvorou a exercer a medicina, o que o fez com grande habilidade e eficiência. Um grande chefe marroquino, curado de grave enfermidade, concedeu-lhe uma das filhas em casamento como forma de gratidão. Tornou-se assim novamente rico e possuidor de enorme coleção de pedras preciosas. Mas, desiludido com a medicina, passou a exercer outras formas de ganhar a vida, partindo para o Cairo com a intenção de vender todas as suas valiosas gemas e com o lucro obtido dedicar-se ao plantio de algodão. Ao chegar ao Egito, acabou por envolver-se em intensas lutas políticas, tendo sido preso e logrado fugir da prisão, passando a viver como fugitivo e perseguido político. Temendo que suas gemas caíssem em poder de seus inimigos, confiou-as a seu servo leal, o paupérrimo e famélico Mustafá Nachib, que ficou incumbido de lhas devolver em data e local combinados. Ocorreu, entretanto, que no prazo combinado Zualil caiu doente e quando chegou a Bagdá (onde combinaram encontrar-se) não mais localizou o servo Mustafá.

Ora! Como era ingênuo, sendo isso toda a verdade, o visitante Zualil, dizendo-se xeique, que ao final confia todos os seus pertences a um servo faminto. É claro que, uma vez em poder das preciosas gemas, Mustafá desapareceu e passou a viver uma existência de príncipe, pensava consigo o narrador-anfitrião.

Pedindo pouso, o narrador acolhe - embora com alguma desconfiança - o visitante em sua casa, onde pernoita com a promessa de seguir jornada na manhã seguinte. 

Manhã do dia seguinte. Na narrativa "Um homem singular", ao acordar nota a ausência do hóspede, imaginando então que havia partido cedo sem ao menos se despedir. Porém, num estranho pressentimento, ao dirigir o olhar à parede percebe a inexistência do precioso narguilé. Fora roubado! Como fora ingênuo! Afinal, o visitante, contando toda aquela história mirabolante, repleta de aventuras, não quisera senão ludibriar a sua boa fé. Tolo!

sexta-feira, 26 de maio de 2017

BLOGUE do Valentim há um ano!

O ESCRIBA era ainda um sargento novinho em Anápolis quando ouvia curioso, pela primeira vez, os antigões conversarem sobre o célebre tenente Bandeira. O militar, segundo pudia compreender, fora condenado por crime passional, estando preso em Unidade da Aeronáutica. Hoje saciei um pouco a curiosidade que ardia em meu espírito já se iam mais de 30 anos. Compartilho com meus amigos, registrando no BLOGUE do Valentim uma das versões que circulam na internet sobre esse célebre crime ocorrido na década de 1950.


O Crime do tenente Bandeira


CRIME mesmo que deu o que falar em todo o Brasil, até se tornar um caso célebre, foi certamente aquele a quem os jornais e revistas denominaram “O Crime da Lagoa”, “O Crime do Citroen”, “O Crime do Sacopã”. Foi um crime que dominou os noticiários por longo tempo, permanecendo ainda na mídia por vários anos, na realidade até o raiar do novo milênio. Em pleno 2006, ainda se falava do rumoroso caso. 


As primeiras notícias davam conta de que no dia 6 de abril de 1952 Afrânio Arsênio de Lemos, bancário do Banco do Brasil, foi encontrado morto dentro de seu carro, um Citroen negro, na ladeira do Sacopã, localizada na Lagoa Rodrigo de Freitas. Figura carimbada no eixo Copacabana-Leblon, Afrânio acabara de chegar de Bauru, interior de São Paulo, onde passara suas férias, quando recebe um chamado telefônico misterioso, voz de homem, convocando-o para um encontro. Logo ele saía ao encontro da morte.



Quando na manhã seguinte a polícia comparece ao local do crime, encontra Afrânio deitado no fundo da parte da frente do carro, todo ensanguentado, com a cabeça apoiada em uma almofada que estava sobre o banco de direção, logo se descobrindo que fora abatido com três tiros de revólver. Logo também sua identidade é revelada, fato confirmado por seu irmão, Aluizio Mendes, funcionário do Ministério da Aeronáutica.

Após os procedimentos de praxe, a polícia inicia as investigações, sendo a vingança, afastada a versão de latrocínio, a hipótese que toma maior vulto, porquanto uma das primeiras descobertas da polícia é que Afrânio era chegado num rabo de saia, quase sempre visto com mulheres diferentes. Aliás, o bancário tinha dois violentos amores: carros e mulheres. E não tarda, um nome de mulher – Marina – começa a correr de boca em boca, isso porque, dentro da carteira da vítima, encontrou-se um retrato de uma jovem com a seguinte dedicatória: “Este sorriso te pertence”, assinado por uma certa Marina.

Em um primeiro momento, Marina fora tomada como a esposa do bancário, fato logo desmentido, ao se descobrir tratar-se de uma antiga namorada. Logo também se descobriria que ele era casado e separado da esposa. Assim, em seguida, o foco das atenções se desloca para a esposa abandonada e para um médico amigo da família, tido como seu amante, os primeiros suspeitos. Ismênia Tuneis, a ex-esposa, assim que cercada pelos repórteres, desmente tudo. Realmente fora casada com Afrânio durante dois anos. Mas, por incompatibilidade de gênios, se separaram, continuando, porém, amigos. Também o médico era íntimo da família e não seu namorado ou companheiro. A polícia, após algumas investigações, tem que abandonar essa pista que parecia promissora. E tudo volta à estaca zero.




quarta-feira, 24 de maio de 2017

BLOGUE do Valentim há um ano!

Gregório Fortunato, o homem que foi morto no dia do aviador


O CASO que envolveu Gregório Fortunato, nascido a 24 de maio de 1900, é, para mim, um dos mais enigmáticos -- e ao mesmo tempo emblemático -- da historiografia brasileira.

Chefe da guarda pessoal do presidente Getúlio Vargas, Gregório -- o preto Gregório, como costumavam chamá-lo os racistas de todas as épocas -- entrou tristemente para os livros de História quando na madrugada de 5 de agosto de 1954 foi morto o major-aviador Rubens Florentino Vaz, que fazia segurança ostensiva ao jornalista Carlos Lacerda, o verdadeiro alvo, que saiu baleado no pé esquerdo. Em inquérito levado a efeito pela Aeronáutica Gregório foi considerado o mandante do crime. O episódio foi a gota d'água para que o Getúlio Vargas viesse a cometer suicídio na manhã de 24 de agosto daquele ano.

terça-feira, 23 de maio de 2017

UMA VÍRGULA faz muita diferença

MUITO já se falou acerca da importância da pontuação para a escrita. Sem a pontuação, cujo elemento mais abundante é a vírgula, certamente muita confusão ocorreria, visto que a língua escrita não tem os recursos de entonação de voz da língua falada. E nesta, quando paira alguma dúvida de entendimento, logo se faz correção. Ademais, se faz necessária a pausa para a respiração.


A clássica frase: ‘Moro só, com um criado’, do romance “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, sem vírgula, ficaria assim: ‘Moro só com um criado’. Como se vê, uma vírgula muda o sentido da frase.

Um zombador, falando, poderia mudar o sentido de uma pergunta: ‘Esse cachorro é seu, Parente?’ para ‘Esse cachorro é seu parente? Já escrevendo, não poderia sobrevir dúvida, desde que pontuasse corretamente a oração.

Sobre a vírgula, excelente a campanha dos 100 anos da Associação Brasileira de Imprensa.

“Vírgula pode ser uma pausa... ou não. 

Não, espere. 
Não espere.

Ela pode sumir com seu dinheiro. 

23,4. 
2,34. 

Pode criar heróis.

Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.


Ela pode ser a solução. 

Vamos perder, nada foi resolvido. 
Vamos perder nada, foi resolvido. 

A vírgula muda uma opinião. 

Não queremos saber. 
Não, queremos saber. 

A vírgula pode condenar ou salvar. 

Não tenha clemência! 
Não, tenha clemência! 

Uma vírgula muda tudo. ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da sua informação”. 

domingo, 21 de maio de 2017

CLÁSSICOS do Valentim

João Nogueira: Maria Rita


POR ONDE andará Maria Rita
Que andava gingando com laço de fita
Por quem tenho grande admiração.
É que eu preciso saber onde anda essa pequena
Dos olhos redondos, da pele morena
Que é para acalmar meu coração.

Agora, eu chego no samba, meu peito se agita
Porque sente a falta de Maria Rita
Cabrocha bonita, corpo escultural.
Por isso, eu preciso saber qual o seu paradeiro
Bem antes que chegue o mês de Fevereiro
Sem ela, pra mim, não vai ter Carnaval. 

sexta-feira, 19 de maio de 2017

LIVRO sobre Alcino será lançado em junho

FOLCLÓRICO, irreverente, problemático e artilheiro: características que se encaixam em Alcino Neves dos Santos Filho, maior ídolo da história do Clube do Remo, que a partir do mês de junho terá sua história contada em um livro.


A obra “Alcino Negão Motora, a história do Gigante do Baenão” é de autoria do jornalista Mauro Tavernard e vai apresentar várias histórias sobre a vida do ex-jogador, que com gols e fatos, ficou marcado na história do Leão Azul.

“A expectativa é a melhor possível e o Alcino foi escolhido pelas histórias e o tom folclórico. Com o tempo, vi que o nome dele é muito maior. Há histórias na internet sobre ele que não são verídicas”, disse o autor do livro.

O livro irá custar R$ 39,90 e será lançado no dia 13jun., mas o torcedor já pode adquirir na pré-venda, pelo mesmo preço, e receber em casa, a partir do dia seguinte ao lançamento.

“Que a torcida vá em peso no dia 13jun., para prestigiar o livro. Espero que gostem deste trabalho feito por mim e pela minha equipe, que foi feito com muito carinho”, concluiu.

Informações pelo telefone: (91) 98057-1784.  (REMO100porcento, Belém)

quarta-feira, 17 de maio de 2017

FELIZ vida nova, Jacqueline!

MAIS uma vez, e desta vez de público, manifesto minha alegria. Jacqueline, uma de minhas filhas, e seu noivo Bruno, tomaram uma decisão de coragem. Vivem agora lado a lado formando uma família. Além de esposos, são, a partir deste último dia 12, um para o outro companheiros, amigos. Esse companheirismo e essa amizade virão necessariamente acompanhadas de fidelidade, lealdade, amor, compreensão. Nem sempre o sol brilhará, sabemos, e nesses dias nebulosos haverá de prevalecer o diálogo franco, para, no final, o amor prevalecer.

Diz a Palavra de Deus: "Feliz o homem que tem uma boa mulher" (Eclesiástico 26, 1). O inverso é necessariamente verdadeiro e muito feliz também será a mulher que tem, a seu lado, um bom homem. 

Felicidade a você, minha filha Jacqueline! E, claro, a você, meu genro Bruno!


quarta-feira, 10 de maio de 2017

ESPAÇO Literário

Malba Tahan: Mustafá, o servo leal


Continuação da postagem de 04maio2017


ALLAHUR abkbar! (Deus é grande!) Retomo, agora a minha narrativa já mais de uma vez interrompida. A lenda do "Burro amarelo, bem amarelo", referida com tanta eloquência e oportunidade pelo erudito calculista Zoraik, foi ouvida em meio do maior silêncio. Duas ou três vezes assaltou-me o desejo de interpelar o narrador e isso acontecia sempre suas palavras feriam pontos delicados de nossa doutrina. Contive-me, porém, e conservei-me imóvel e silencioso, como um túmulo, entre o bom cego e o mestre-escola.

Coube a Zualil, o egípcio, que era, na verdade, o caid el-markahn, a grata incumbência de fazer o elogio do narrador. O nosso amigo, pondo-se de pé rapidamente, ajeitou o turbante,meditou alguns instantes de mãos na cintura, com desembaraço e simpatia, e assim falou:

-- É fácil coroar com rutilantes elogios as narrativas que nos divertem, educam e encantam. Tal é o caso da lenda do "burro amarelo", que acabamos de ouvir. Envolve sábios conceitos, inesquecíveis ensinamentos e judiciosas conclusões. Leva-nos a meditar sobre terríveis malefícios da cegueira espiritual que, embora não atinga os olhos, fecha para sempre o coração. Aquele que não enxergar, por ter cegado para o mundo, tropeça pelas estradas; aquele que é obliterado pela cegueira espiritual, e repele a Lei divina, não pode ter paz na vida, e rola pelos abismos do desespero. Guiemos os cegos de espírito pelas veredas do bem e da verdade. O guia para eles será a salvação. Quero finalizar esta rápida apreciação recordando os versos de um cego - versos nos quais o poeta exalta o poder do amor materno:

Não choro a minha cegueira
Choro a falta do meu guia;
Minha mãe, quando era viva,
Eu era um cego que via

E as palavras de Zualil tinham aquela consonância agradável que o leve sotaque egípcio tornara mais sugestiva.

-- Que lindos versos! -- comentei alçando a voz para que todos me ouvissem. -- E terão, como as encantadoras trovas da "Flor da Saudade", a força mágica que pertuba os homens?

-- força mágica? -- estranhou Zualil arregalando os olhos -- Qahyat en-nébi! Como descobriste força mágica em meus versos?

Era meu dever esclarecer a dúvida. Recapitulei, portanto, ao egípcio, com todas as minúcias, o singular episódio que ocorrera quando voltávamos da casa do corretor Bechara. Contei que um jovem, pobremente vestido, aceitara o convite para ouvir a lenda das "Sete pontas do quadrado". Exigira, apenas, como pagamento duas fatias de pão.E vinha o mendigo, muito tranquilo a meu lado, quando me ouviu declamara os versos da "Flor da saudade":

Saudade, flor que desperta
Tristeza no coração;
Saudades do que se foram
Dos que não voltam mais não!

Com palavras mal articuladas, indagou o rapaz qual era o autor daqueles versos. Respondi como devia, pois não me pareceu justo ocultar a verdade. Operou-se, nesse instante, a força mágica dos versos. O desconhecido atirou por terra o turbante e fugiu a correr como um louco. E tal foi o ímpeto de sua fuga que julgamos impossível tentar evitá-la.

A revelação daquele caso -- que para nós não passava de um banal acidente de rua -- causou em Zualil um abalo indescritível. Cobriu-se-lhe o rosto de alegria. Todo seu corpo tremia. Tive a impressão de que a tatuagem que lhe cobria o dorso da mão esquerda tornara-se mais azulada.

Sacudiu-me pelo ombro com convulsiva energia e interpelou-me febricitante, numa agiração que só um ataque de loucura poderia justificar:

-- Que rapaz foi esse? É mesmo certo que fugiu ao ouvir o meu nome? Onde estava? Ualalu! Quero saber a verdade! O rapaz era moreno? Trazia um punhal na cintura? Como estava vestido?

Assediado pelas aflitivas perguntas do egípcio, senti-me confuso e estonteante. O mestre-escola veio em meu auxílio, e com a maior calma, como se estivesse diante de um discípulo, forneceu ao conturbado egípcio todos os informes exigidos.

Ocorreu, nesse momento, uma cena inesperada que nos deixou no espírito indelével lembrança.

Zualiu, com a face iluminada de intensa alegria, perdeu a compostura e pôs-se a pular nomeio da sala e a gritar como um possesso agitando os braços:

-- Estamos ricos! Louvado seja o sapientíssimo! Estamos ricos!

Havia no estupendo homem o que quer que o arrebatava da realidade para o mundo fictício das alegrias estonteantes.

-- Infeliz amigo! -- deplorei com sincera lástima -- Assaltou-o perigoso ataque de demência! Ouve falar da fuga de um mendigo e conclui que vai receber todas as riquezas do gênio de Aladim!

Olhei para o mestre-escola, para o calculista e para o botânico. Li nas fisionomias que todos eles compartilhavam da minha opinião em relação ao estado mental do egípcio. O cego não se moveu. Permaneceu como estava, sentado no tapete, com a cabeça baia apoiada nas mãos.

Ao notar a estranheja com que recebíamos as suas exaltadas manifestações de alegria, achou Zualil que era seu dever esclarecer aquela cena que tivera por origem a "Flor da saudade". Passeou a mão pela fronte, pelos olhos e impando de satisfação, contou-nos o seguinte:

-- As informações que ouvi dos amigos trouxeram-me a convicção de que esse jovem que fugiu desatinadamente ao ouvir o meu nome -- revelado por causa dos versos -- é o meu servo Mustafá. Como já tive ocasião de contar, em Damasco, sob ameaça de morte, confiei todos os meus haveres a Mustafá e ordenei que seguisse para o Iraque. Combinamos um encontro em certo recanto desta cidade; não nos foi possível, porém, comparecer no dia marcado, e desencontrei-me do homem que conduzia o meu tesouro. Passaram-se muitos meses. Nunca mais o encontrei. Julguei-o morto ou desaparecido. Já havia perdido a esperança de recuperar toda a minha fortuna quando sou avisado de que Mustafá se acha nesta cidade e que foi informado de meu paradeiro. É certo que, dentro em pouco, virá procurar-me.

-- Deixemos de sonhos e devaneios -- objetei com um gesto incrédulo -- Não creio que Mustafá apareça nesta casa! Admitamos que era ele, precisamente, o mendigo que vimos fugir pela estrada. Pela situação miseranda em que o encontramos, faminto e andrajoso, implorando fatias de pão, não devia trazer consigo tesouro algum! é lá admissível que um homem que tem em seu poder várias dezenas de rubis e mancheias de brilhantes, passe privações pelas estradas de Bagdá!? A verdade é outra. Mustafá fugiu porque não desejava avistar-se com o seu amo. Não pretende prestar contas do tesouro que lhe foi confiado.

Zualil franziu o rosto numa negação e recriminou sem titubear, resforçando-se por ser claro e decidido:

-- Duvidas da integridade e das boas intenções de Mustafá? Não acreditas na lealdade do humilde servo? A fuga é perfeitamente justificável. No momento em que recebeu a notícia de minha presença nesta casa, trazia em seu poder o cinto que contem as gemas preciosas. Sem revelar o segredo, correu para ir buscá-lo. Para maior segurança, deixara o tesouro bem oculto em lugar secreto. Fiquem certos de que dentro de alguns momentos ele aparecerá aqui.

E já mais calmo, sempre confiante, o egípcio prosseguiu com gesto bem composto:

-- Grandes males advém para o mundo da falta de mútua confiança entre os homens. Esforcemo-nos por acreditar naqueles que nunca fizeram por desmerecer de nossa confiança. Evitemos os juízos temerários; as suposições caluniosas e infundadas.  Arranquemos de nossos corações todas as suspeitas, inveja e rancor e tudo mais que possa abalar a caridade e diminuir o amor fraterno.

E, depois de ligeira pausa, acrescentou sem se dirigir a nenhum de nós:

-- Logo que Mustafá chegue, entrarei na posse de todo meu tesouro e serei um dos homens mais ricos desta cidade. Quero, pois, demonstrar que sou generoso com os amigos.

Dirigindo-se ao matemático Dorak, declarou jubiloso com um clarão de simpatia na face:

-- Vais receber, meu amigo, quinze mil dinares-ouro e vinte camelos de boa raça. O mesmo presente darei ao mestre-escola, ao preclaro botânico e ao cego que nos acompanhou!

E a seguir voltou-se para mim e disse avigorando a frase com intencional demora:

-- Ao dono desta casa, que tão gentilmente me acolheu, oferecerei, como prova de minha gratidão, trinta mil dinares-ouro e quarenta camelos de boa raça. O dobro precisamente! Lembras-te do que te disse? Estás com a baraka! A fortuna veio ao teu encontro! 

Aquele homem singular, que na realidade nada tinha de seu, imaginava-se riquíssimo e distribuía promessas de ouro por todos nós. Era de admirar a delicadeza de sua sensibilidade e o incomparável primor de seu idealismo.

Fez-se largo silêncio.

De repente, o cego ergueu-se às apalpadelas e declarou, num gesto de espanto, com voz trêmula:

-- Atenção, meus amigos! Alguém acaba de chegar! Ouço passos no jardim!

Corri alvoroçado para a porta que tinha serventia para o jardim, descerrei-a e olhei para fora.

O quadro que caiu sob meus olhos deixou-me estarrecido.

Junto à escada, com sua djalaba esfrangalhada, de joelhos, com o busto inclinado e apoiando as palmas das mãos na terra, estava o jovem que fugira de nós pela estrada. Era Mustafá, o servo fiel. Magro, andrajoso, rosto macerado por grandes sofrimentos, a sua figura inspirava piedade. A cair de fome, exausto de fadiga, viera restituir o tesouro que o xeique o havia encarregado de guarda. O olhar de suas pupilas fundas era o único ponto animado de sua fisionomia quase enegrecida pelo sol do deserto.

Não me ocorrem aqui palavras com que possa descrever a alegria de Zualil. Vimo-lo atirar-se aos braços de Mustafá e chorar como uma criança.

Aquela cena deixou-nos emocionados.

O mestre-escola, sempre sereno e judicioso, ponderou que seria mais acertado limitar, naquele momento, as expansões naturais de alegria. Fazia-se mister, no primeiro momento, socorrer o famélico Mustafá antes que o keif da jornada o abatesse para sempre.

E assim fizemos. Merecia o dedicado servo as nossas atenções. Procurei cercá-lo de todas as honras, pois pesava-me na consciência o feio crime de ter duvidado de sua inquebrantável lealdade.

Aquele jovem era, para mim, uma autêntica figura de lenda. Atravessara o deserto, enfrentara os tremendos gasus, livrara-se dos beduínos e aventureiros, sofrera inenarráveis privações, mas não esmorecera e não claudicara, num só momento, no cumprimento do dever.

Depois de reconfortado com fina e abundante merenda, retirou Mustafá o cinto que trazia oculto sob a túnica. Continha o prodigioso cinto, pela sua parte interna, lindíssima coleção de rubis e brilhantes. Aquelas gemas, vendidas em Bagdá, dariam mais de duzentos mil dinares.

Como eram lindas aquelas pedrinhas vermelhas! Pareciam gotas de sangue cristalizadas. Era um prazer segurá-las e senti-las pesar na concha da mão. 

O único que não desejou sopesar as pedras preciosas foi o cego.

Disse afinal Mustafá, dirigindo-se placidamente a seu amo, o xeique Zualil:

-- Infelizmente não me foi possível trazer a coleção completa. Fui obrigado a desfazer-me de um rubi. Trago aqui oitenta e nove, quando na realidade, ao partir para Damasco, havia recebido noventa.

-- Não importa! sobreveio atencioso o egípcio -- Seria irrisório tomar-se em consideração tão insignificante perda. É possível até que tenha se desprendido durante a viagem.


Fim! 

domingo, 7 de maio de 2017

HÁ 20 anos!

Gol de técnico vale? Remo 3, Paysandú 1,  o último do tabu 33.


"Tabuzão" porque antes,
nos anos 70, houve o "tabuzinho",
 com apenas 23 jogos invicto
 contra o PSC
VÉSPERA de jogo entre PSC e Santos, leio nos jornais que o nosso arquirrival Paysandú fazia quinze jogos que não sabia o que era perder. Doutra vez, seu goleiro fazia não sei quantos jogos sem tomar gol,  e o jornalista, para dar uma dimensão maior ao número, transformou em minutos.

Parece que só eu percebo, faz exatamente vinte anos, a conduta tendenciosa e recalcada de alguns cronistas paraenses nas vezes em que estes se esforçam em divulgar dados estatísticos para os quais antes não se dava a menor importância. Com a paixão prevalecendo sobre a imparcialidade (oh! essa qualidade tão apreciada e cada vez mais rara nos bons profissionais do ramo!), existem aqueles que escrevem com as cores berrantes do clubismo. Passou a ser muito comum - e faz duas décadas que esse fenômeno vem ocorrendo -, exatamente depois daquela sequência memorável em favor do Clube do Remo, muita gente boa da mídia esportiva do Pará exaltar estatísticas e números com dados favoráveis ao time do Paysandú Esporte Clube. O time listrado está a tantos jogos sem perder; seu goleiro está a tantos jogos sem tomar gols; sua defesa..., seu público torcedor etc, etc. Muito pouco importa que, nos números propalados, estejam contabilizados jogos contra times sem expressão ou mesmo amistosos contra equipes semi-amadoras. Existe uma forçação de barra, uma preocupação indisfarçável em divulgar números e feitos, de forma a compensar em parte o notável vexame sofrido vinte anos atrás.  Não há como comparar. Te dizer!

Mas há nessas coisas uma razão séria.  Faço aqui uma comparação:

Sabem o caso do presidiário que, depois de cinco anos recluso, é libertado da prisão? Sua libertação é motivo de grande festa com seus amigos e parentes. Mas, passado um dia, ninguém fala mais no assunto, e falar sobre a cana braba que o indivíduo levou é como falar de corda em casa de enforcado. Vira um tabu: não se fala mais nesse assunto constrangedor.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

REMO e Paysandú: sai neste domingo o campeão do Pará!

Neste domingo, 7 de maio, será a finalíssima do campeonato paraense de futebol de 2017. Havendo empate, a decisão sairá em cobranças de tiros livres da marca do pênalti 





quinta-feira, 4 de maio de 2017

ESPAÇO Literário

Malba Tahan: O burro amarelo, bem burro e bem amarelo  


Continuação da postagem de 24abr2017


... surgiram três panteras
negras, que investiram
ameaçadoras
AO REPOUSAR, como de costume, na soberba varanda de seu palácio, em Bagdá, o califa Harun Al-Raschid foi assaltado por um sonho impressionante.

Sonhou o bom monarca que se achava a deambular sozinho por uma região deserta e sombria. De súbito, surgiram três panteras negras que investiram ameaçadoras. Seus uivos ferozes abriam sombras no silêncio da tarde.

O monarca, vivendo a agitação do estranho sonho, pensou em fugir daquela região sinistra. Era impossível. A seus pés abria-se, escavado nas pedras, um abismo trevoso onde a morte implacável espreitava o viandante incauto. Já as feras se aproximavam arquejantes do rei quando um cavalheiro, poderosamente armado, veio, destemido, em seu auxílio.

O temerário guerreiro tomou o rei em seus braços possantes e o arrebatou dali. Com indizível assombro, observou o rei que as vestes e as pesadas armaduras do djin salvador apareciam cheias de inscrições e figuras matemáticas.

Ao despertar, na manhã seguinte, o Emir dos Árabes, sentindo a nitidez marcante de seu sonho, recordava-se muito bem do cavalheiro que o livrara das panteras; revia-o com sua túnica cheia de números, com seu escudo prateado, onde rebrilhavam arabescos feitos de letras e algarismos. 

Teria aquele sonho, fora do mundo misterioso dos sonhos, alguma significação? A inquietação, com o bater aflitivo de suas asas negras, invadiu o espírito do rei.