quinta-feira, 4 de maio de 2017

ESPAÇO Literário

Malba Tahan: O burro amarelo, bem burro e bem amarelo  


Continuação da postagem de 24abr2017


... surgiram três panteras
negras, que investiram
ameaçadoras
AO REPOUSAR, como de costume, na soberba varanda de seu palácio, em Bagdá, o califa Harun Al-Raschid foi assaltado por um sonho impressionante.

Sonhou o bom monarca que se achava a deambular sozinho por uma região deserta e sombria. De súbito, surgiram três panteras negras que investiram ameaçadoras. Seus uivos ferozes abriam sombras no silêncio da tarde.

O monarca, vivendo a agitação do estranho sonho, pensou em fugir daquela região sinistra. Era impossível. A seus pés abria-se, escavado nas pedras, um abismo trevoso onde a morte implacável espreitava o viandante incauto. Já as feras se aproximavam arquejantes do rei quando um cavalheiro, poderosamente armado, veio, destemido, em seu auxílio.

O temerário guerreiro tomou o rei em seus braços possantes e o arrebatou dali. Com indizível assombro, observou o rei que as vestes e as pesadas armaduras do djin salvador apareciam cheias de inscrições e figuras matemáticas.

Ao despertar, na manhã seguinte, o Emir dos Árabes, sentindo a nitidez marcante de seu sonho, recordava-se muito bem do cavalheiro que o livrara das panteras; revia-o com sua túnica cheia de números, com seu escudo prateado, onde rebrilhavam arabescos feitos de letras e algarismos. 

Teria aquele sonho, fora do mundo misterioso dos sonhos, alguma significação? A inquietação, com o bater aflitivo de suas asas negras, invadiu o espírito do rei.


Só um sábio, divinamente inspirado no Livro do Saber Sem Limites, seria capaz de elucidar aquela dúvida e desvendar o mistério. 

Mandou, pois, o rei que viesse à sua presença o esclarecido taleb Farid Ben-Farid, que se destacava entre os grandes ulemás (Alá, porém, é mais sábio!). 

Interrogado pelo monarca, assim falou o eminentíssimo xeique: 

-- Esse sonho, ó Rei do Tempo, apresenta a meu ver, explicação clara e simples. Mais simples do que o riso da inocência e mais clara do que a água da fonte do Zemzém. As três panteras negras que investiram ameaçadoras simbolizam, sem dúvida, os inimigos daquele que administra o Estado: a imprevisão, a desorganização e a dissipação. Se o administrador é incapaz de prever, incapaz será também de organizar com eficiência os serviços públicos. Não poderá, portanto, agir com segurança a fim de evitar as despesas inúteis, os gastos improdutivos, os desvios criminosos - as dissipações, enfim.

-- E como poderá o rei supervisionar os múltiplos e complexos problemas administrativos?

Cumpria ao ulemá esclarecer o soberano. E fê-lo em tom claro e em termos bem precisos:

-- É fácil. Basta conhecer os recursos básicos do país, suas riquezas, suas possibilidades, suas populações. Todos esses elementos importantíssimos são expressos, em última análise, por meio de números. Um número dirá quantos estrangeiros vivem nesta ou naquela cidade; indicará outro número qual a produção máxima do trigo e das tâmaras; outros números mostrarão, por meio de certos cálculos, que relação poderá existir entre o preço do camelo e a massa de peregrinos que se dirigem à Cidade Santa. Os valiosos dados, que tanto interessam ao bom administrador, nada mais são do que números inteiros ou quebrados, medindo grandezas ou exprimindo relações. Já houve, em longínquo país, um filósofo que disse: "Os números governam o mundo". Poderíamos imitar esse pensador e concluir esta belíssima legenda: "Sem os números não é possível fazer prosperar o Estado". O singular djin, com o seu albornoz enfeitado de números e fórmulas matemáticas, enfrentando com destemor as feras e galgando os abismos, queria apenas exaltar essa grandíssima verdade. A salvação e a segurança do rei estão unicamente nos números.

Encantado com as eloquentes palavras do judicioso ulemá, mandou o rei reunir todos os seus vizires (que eram em número de sete) e emitiu em tom sério esta resolução:

-- Determino que sejam contratados os mais hábeis calculistas, escribas e talebs. Precisamos, com a maior urgência, calcular tudo, medir tudo, avaliar tudo. Antes de mais nada é mister contar, um a um, todos os habitantes (crentes e infiéis) que vivem no País dos Árabes.

O ilustre e estimado vizir Amil Amin, homem pesado e já grisalho, ao ouvir aquela decisão do rei, ponderou com irrepreensível compostura:

-- Rei magnânimo e justo, queira Alá prolongar por muitos e muitos anos a vossa preciosa existência. Posso assegurar que seria quase impossível fazer um arrolamento de todos os habitantes do nosso belo país. Essa tarefa está muito acima de nossas possibilidades e iria exigir grande sacrifício de tempo e dinheiro.

Acudiu com voz grave o jovem Dahriman (outro vizir da corte) que era apontado como um dos homens mais inteligentes do país:

-- Peço perdão, ó Emir dos crentes, mas devo observar que o meu ilustre colega Amil Amin deixou-se envenenar por deplorável pessimismo. Labora em equívoco ao inventar dificuldades e ao criar tropeços que só existem na imaginação dos incapazes. Conheço um artifício muito simples que permitirá calcular, em dois ou três dias, a população de Bagdá.

-- Como farás isso, ó vizir? -- indagou o rei, abrindo os lábios num riso de intenso júbilo.

-- É muito simples, ó Sucessor do Profeta -- explicou sem titubear o digno ministro --, conto primeiro os cegos;no dia seguinte (se Alá quiser!) contarei os que não são cegos. A soma desses dois números erá a população total exata, sem erro e sem incertezas.

-- Pela glória de Maomé! -- exultou o monarca -- Quero que apliques, sem demora, o teu admirável processo. Estás autorizado a iniciar hoje mesmo o recenseamento de nossa gloriosa capital.

No dia seguinte o poderoso califa mandou vir a sua presença o vizir Dahriman e interrogou-o em presença de sua numerosa corte.

-- Alá sobre ti e ao redor de ti, ó vizir! Quantos cegos vivem à sombra de nossas mesquitas?

O digno secretário do rei, compreendendo que era alvo de todas as atenções, meditou durante alguns instantes e respondeu solene:

-- São precisamente mil e duzentos e quarenta e sete!

interpelou-o novamente o rei:

-- E como chegaste a esse resultado tão perfeito?

Exigia o Emir um explicação. E essa explicação formulou-a o vizir Dahriman nos seguintes termos:

-- foi muito simples. Mandei pintar um burro de amarelo. Esse burro, pelas mãos de um beduíno, foi conduzido lentamente pelas ruas da cidade. O beduíno era precedido por uma guarda do palácio que batia fortemente, sem cessar, num grande tambor. Acompanhei o burrinho revestido da pintura cor de ovo, levando a meu lado um escriba. Logo na primeira rua, antes da mesquita, um mercador de tapetes que estava junto à porta de sua casa exclamou alvoroçado: "Por Alá! Que será aquilo?" Voltei-me para o escriba e ordenei: "Toma nota: Esse homem é cego. Pois será possível que el não veja que este animal é um burro, bem burro, pintado de amarelo, bem amarelo?" Um pouco adiante, perto do suk, uma velha que vendia maçãs bradou assustada: "Pelas barbas de Maomé! Que será aquilo?" Disse outra vez ao escriba: "Assinala mais essa. A infeliz é cega, pois não tem olhos para ver que esse pobre animal, que vai tranquilo diante de nós, é um burro, bem burro, pintado e amarelo, bem amarelo!" E assim, um por um, fui contando todos os cegos de Bagdá. E o total foi exatamente esse: 1.247.

Ao ouvir aquela estranha narrativa, o califa Harun al-Raschid fez-se escarlate de indignação; cruzou lentamente os braços e, num tom que denunciava contrariedade e nervosismo, proferiu com impetuosa energia:

-- O teu suposto artifício, ó vizir, não passa de uma leviandade insultuosa ou de uma pilhéria ridícula! O cálculo feito pelo sistema que adotaste afronta a evidência. A pilhéria exige resposta; a leviandade não deve ficar impune. Vou, pois, mandar reunir todos os cegos que vivem nesta cidade e determinarei que os infelizes sejam contados como as tâmaras de uma tamareira. Se o teu cálculo estiver certo, isto é, se o total foi aquele mesmo (mil duzentos e quarenta e sete) receberás uma boa recompensa, mas se a prova for contra ti, serás impiedosamente castigado!

E o velho ulemá, assumindo uma atitude prudente e conciliadora, dirigiu-se respeitoso ao monarca e assim falou:

-- Não creio, ó Príncipe dos Crentes, que meu nobre e distinto colega Dahriman tenha tido a intenção leviana de gracejar sobre assunto tão sério. Os atos do governo não podem servir de alvo às facécias dos humoristas. Só um mau patriota seria capaz de atirar a lama do ridículo sobre a face da autoridade. Posso, pois, assegurar que o jovem e talentoso vizir Dahriman, com o seu esquisito sistema, quis apenas proporcionar uma sábia e profunda lição de moral aos nobres, xeiques e ulemás.

-- Lição de moral? Pela sagrada face da Caaba! Se uma caravana de loucos tivesse entrado, com estrondo, no salão real, não teria, certamente, causado maior surpresa ao rei e aos vizires. A declaração do sábio era assombrosa. Os vizires da corte entreolharam-se espantados. Como descobrir ensinamentos morais no estranho sistema do burro bem amarelo?

O respeitável FArid-ben-Farid, depois de rápido momento de reflexão, prosseguiu solene:

-- Que pretendia o vizir Dahriman, ao pôr em prática o seu prodigioso artifício do burro pintado? Combater, sem intenção suspeitosa, o pessimismo de um colega. O pior cego, ó Rei dos Árabes, é aquele que não quer ver. Quase todos os homens sofrem os males terríveis da cegueira. Um é cego para a justiça; outro é cego para a bondade; outros, enfim, são cegos para o trabalho, para a virtude ou para o amor. O derrotista é cego; o vingativo é cego; o covarde é cego também. Como conar e calcular os cegos num mundo em que há tantas consciências que se arrastam nas trevas de uma eterna cegueira? Fala-nos Jesus, filho de Maria, de um pobre cego que ia, por perigosa estrada, guiando outro cego. O que guiava era cego, o que ia guiado cego era também. Mas qual dos dois vos parece que era mais cego: o guia ou o guiado? Muito mais cego era o guia. Porque o cego que se deixava guiar via e conhecia que era cego, mas o que se fez guia do outro tão fora estava de perceber e conhecer que era cego, que cuidava poder emprestar olhos. O primeiro era cego uma vez;o segundo, duas vezes cego; uma vez porque o era, outra vez porque o ignorava, isto é, não via a própria cegueira. E a cada momento encontramos, pelas estradas da vida, homens que são cegos duas, três, vinte vezes. Cegos pela falta de caráter; cegos pela ignorância; cegos pelo coração.

E o venerando ulemá, na mesma ordem de ideias, perorou com lentidão num tom de iluminado:

-- O vizir Dariman, usando de engenhoso artifício, mostrou que os cegos são mais numerosos do que imaginamos e que bem deplorável é a cegueira dos intolerantes, que não desejam conhecer a realidade e fecham os olhos para todas as belezas da vida.

Impressionado com as sábias palavras de seu bom conselheiro, o generoso califa Harun al-Raschid mostrou-se penetrado de equidade e clemência. Determinou que fosse conferido ao jovem Dahriman valioso prêmio - um cofre de bronze repleto de ouro e pedrarias. Diz a lenda (e nessa parte não há traço de exagero) que esse cofre era tão pesado que o tal burro amarelo (bem amarelo!) não o podia carregar.

Continua...

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