domingo, 7 de maio de 2017

HÁ 20 anos!

Gol de técnico vale? Remo 3, Paysandú 1,  o último do tabu 33.


"Tabuzão" porque antes,
nos anos 70, houve o "tabuzinho",
 com apenas 23 jogos invicto
 contra o PSC
VÉSPERA de jogo entre PSC e Santos, leio nos jornais que o nosso arquirrival Paysandú fazia quinze jogos que não sabia o que era perder. Doutra vez, seu goleiro fazia não sei quantos jogos sem tomar gol,  e o jornalista, para dar uma dimensão maior ao número, transformou em minutos.

Parece que só eu percebo, faz exatamente vinte anos, a conduta tendenciosa e recalcada de alguns cronistas paraenses nas vezes em que estes se esforçam em divulgar dados estatísticos para os quais antes não se dava a menor importância. Com a paixão prevalecendo sobre a imparcialidade (oh! essa qualidade tão apreciada e cada vez mais rara nos bons profissionais do ramo!), existem aqueles que escrevem com as cores berrantes do clubismo. Passou a ser muito comum - e faz duas décadas que esse fenômeno vem ocorrendo -, exatamente depois daquela sequência memorável em favor do Clube do Remo, muita gente boa da mídia esportiva do Pará exaltar estatísticas e números com dados favoráveis ao time do Paysandú Esporte Clube. O time listrado está a tantos jogos sem perder; seu goleiro está a tantos jogos sem tomar gols; sua defesa..., seu público torcedor etc, etc. Muito pouco importa que, nos números propalados, estejam contabilizados jogos contra times sem expressão ou mesmo amistosos contra equipes semi-amadoras. Existe uma forçação de barra, uma preocupação indisfarçável em divulgar números e feitos, de forma a compensar em parte o notável vexame sofrido vinte anos atrás.  Não há como comparar. Te dizer!

Mas há nessas coisas uma razão séria.  Faço aqui uma comparação:

Sabem o caso do presidiário que, depois de cinco anos recluso, é libertado da prisão? Sua libertação é motivo de grande festa com seus amigos e parentes. Mas, passado um dia, ninguém fala mais no assunto, e falar sobre a cana braba que o indivíduo levou é como falar de corda em casa de enforcado. Vira um tabu: não se fala mais nesse assunto constrangedor.


Não é exagero dizer que a história do confronto entre esses dois rivais do futebol paraense possui dois períodos: antes do grande tabu e depois dele.  E olhem que essa sequência vitoriosa a favor do Remo não é uma excepcionalidade, pois antes o Clube Mais Querido já a havia ensaiado. E tal sequência de jogos invictos - apenas um ensaio, comparada a esta última - ocorreu na década de 1970, na era Alcino, de 1973 a 1976, com 23 jogos sem vitória do grande rival. 

Voltando ao grande tabu.

O fato é que os torcedores nossos rivais bicolores não se conformam até hoje com o que se passou de janeiro de 1993 a maio de 1997, período em que se passou aquela sequência de 33 partidas, um sofrimento quase interminável. Encerrado, finalmente o calvário, qualquer sequenciazinha de algumas minguadas partidas em que não perdem para o Remo já se torna razão mais que suficiente para sorrisos e fogos.

Não se enganem, meninos! Nenhuma estatística ou dado numérico no futebol comporta feito tão expressivo, ao menos chega perto, desse grande recorde azulino diante de seu rival e que passou a ser conhecido como "Tabu 33"!  Não há similaridade.

As provas incontestes de quanto incomodava os nossos rivais essa invencibilidade inédita do Clube do Remo são as notícias de jornais que abaixo postamos:

Foi há 20 anos, no dia 7 de maio de 1997, o derradeiro jogo que fecharia o maior Tabu do mundo, em se tratando de dois grandes rivais de uma mesma cidade ou estado. A sequência inédita de invencibilidade iniciou-se com um despretensioso 0 a 0 em 31 de janeiro de 1993. De fato, não se tem notícia de que tenha havido feito igual entre Internacional e Grêmio, Bahia e Vitória, Sport e Santa Cruz, Ceará e Fortaleza, Avaí e Figueirense, Goiás e Vila Nova, para ficar no âmbito nacional. Se formos para o campo internacional, aí mesmo que não acharemos números semelhantes. 

Veja também:




A coisa estava tão feia para o Paysandú e seus torcedores que teve até deputado apelando para que o Remo perdesse. O clássico não tinha mais graça, correndo o risco de a rivalidade perder seu encanto construído em oitenta anos, até então.

Leia a notícia abaixo:
Deputado Zeno Veloso faz apelo público para que  o Remo perca, 
sob pena de a rivalidade perder a graça
 (colaboração: Rocildo Oliveira, via Facebook)
Pois Sua Excelência tinha que ter paciência, pois não seria ainda, nesse sete de maio, que seu  dramático apelo seria atendido.


Nessa noite, o time do Clube do Remo deu mais uma prova de superação e raça, como inspira seu mascote - um Leão de garras aduncas. Como tempero adicional, vivia pequena crise, estando sem técnico. Foi então que a diretoria azulina decidiu improvisar na função os seus jogadores mais guerreiros, raçudos e dotados de liderança, dois verdadeiros leões em campo: Agnaldo e Belterra, que também entraram em campo para jogar contra o maior rival azulino, acumulando responsabilidades. 
Agnaldo, jogador e treinador


O grande rival iniciou a melhor a contenda, tendo assinalado o primeiro tento. Tudo indicava para seus torcedores que essa agonia indescritível finalmente teria seu fim. Esqueceram porém de combinar com o Leão. Eis que Agnaldo e Belterra põem o time para o ataque e dão formação de cinco atacantes. Em apenas onze minutos, o Leão Azul vira o jogo, incendiando a torcida azulina no Mangueirão. Coube a Agnaldo, o "Seu Boneco",  começar a reação memorável, ele próprio assinalando o tento de empate com um belo cabeceio. Logo depois Zé Raimundo vira o jogo, incendiando enlouquecendo de vez a massa azul presente no estádio Mangueirão. Edil dá o golpe de misericórdia, fazendo 3 a 1 Remo, ao finalzinho do jogo. Que jogo! Uma partida de futebol digna de entrar para a história azulina, que, de fato, entrou, pois essa foi a 33ª peleja desse tabu inesquecível, memorável, insuperável.

Todavia, semelhante sequência, penosa para o rival listrado e gloriosa para a nossa história, já incomodava demais a muita gente ao ponto de um chefe de equipe esportiva de rádio falar abertamente no assunto.

Como tudo que principia um dia chega ao seu termo, finalmente chegava a hora e a vez de nosso eterno rival dar fim ao prolongado sofrimento, e finalmente o torcedor listrado dar vazão a seu grito de alegria, preso na garganta desde 30 de janeiro de 1993, e ter a oportunidade de iniciar tudo do zero. E isso foi no dia 7 de junho de 1997, um sábado. Maktub! Estava escrito! No minuto 34 (e esse era jogo 34) foi marcado um penal a favor do Remo, que o goleiro do Paysandú - Claudecir - defendeu. Esse era um sinal de que esse sábado não era dia do Remo e assim o rival, finalmente, saiu de campo vencedor depois de ficar 33 jogos sem vencer seu mais tradicional adversário, um número de dois dígitos que, a partir daí, se eternizaria.

É como se o Clube do Remo, chegado ao místico jogo 33, resolvesse ceder aos apelos dramáticos do nobre deputado. Perdeu esse, mas voltou a vencer o jogo seguinte, 6 de julho, sagrando-se pentacampeão paraense desse ano.

Os jornais do dia seguinte muito bem registram para a posteridade a festa, a imensa alegria dos nossos rivais listrados, ocasião em que teve até marmanjo chorão e outro fugindo com a bola de jogo:

O fim de quatro anos de sofrimento fez com que a torcida do Paysandú
 comemorasse como se seu time tivesse conquistado um título
 (colaboração: Rocildo Oliveira, via Facebook)
O texto que melhor retrata essa alegria é o adiante, de autoria da jornalista Syanne Neno, então a serviço de O Liberal. Prestem atenção e vejam o quanto foi honesta e sincera essa profissional., dando vazão a seu lado de torcedora, que ficou "bêbada" de felicidade:
A para a jornalista Syanne Neno, valeu a pena o
 torcedor bicolor esperar tanto tempo perdendo para o Remo

 (Colaboração de Rocildo Oliveira, via Facebook) 
De fato foi muito honesta a jornalista na peça acima. Nada de hipocrisia, pois os dois gols do bicolor retirava das costas alvi-azuis um peso imenso, um fardo quase insuportável. A crônica, porém, em que a jornalista - uma bicolor assumida - fala em cicatriz deixa evidente a todos - sem entrelinhas - a dor, a imensa dor que sentiam nossos eternos fregueses durante os 33 jogos anteriores, que finalmente chegava a seu termo. Eis acima a prova documental, caros bicolores, que atesta o quanto vocês sofreram,  que já não aguentavam mais tanta gozação dos azulinos. 

Restou, desde então, um estigma - não uma cicatriz apenas -  a lembrar-lhes ad eternum o sofrimento desses quatro anos, cinco meses e 25 dias, o duro castigo imposto pelo Leão Azul, sem dó nem piedade, em que a equipe listrada não soube o que era uma vitória sequer. Disso (do número fatal, que é a idade de Cristo) certamente não se deram conta ao festejarem como se tivessem conquistado uma copa do mundo, conforme historia a jornalista em sua coluna. 

Passada a euforia, a ficha finalmente cai. Nenhum torcedor do Paysandú quer falar mais nisso, uma vergonha, um grande estigma que, para eles, o tempo se encarregaria de apagar. 



Qual nada! Permaneceu indelével recalque em cada alma bicolor.

Depois desse jogo 33, veio então a seguinte anedota, de tantas outras piadas em que a torcida azulina deitava e rolava em cima de seus pobres rivais:

Gol de técnico vale? 

Ave, Clube do Remo, o filho da Glória e do Triunfo!

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