domingo, 28 de maio de 2017

MALBA Tahan

JÚLIO César de Melo e Souza, antes de morrer, pediu que seu enterro fosse feito num caixão de terceira classe, sem homenagens, flores ou coroas. A humildade foi uma constante na vida desse homem que adotou o pseudônimo de Ali Iezid Izz-Edim ibn Salim Hank Malba Tahan, o famoso escritor árabe. 

Homem singular -- nas palavras que ele tanto gostava de utilizar em suas obras --, Melo e Souza, formado em Engenharia Civil,  preferiu dedicar-se ao magistério e à literatura, mesclando a Matemática às divertidas histórias da Arábia medieval, mesmo sem nunca ter visitado o Oriente Médio.

Quando o professor Melo e Souza decidiu criar o escritor Malba Tahan (Crente de Alá e de seu santo profeta Maomé) não quis criar apenas um pseudônimo, mas fazer com que ele parecesse real. O primeiro livro escrito como Malba Tahan, Contos de Malba Tahan, logo na primeira página, aparece a ilustração de um árabe, com turbante e de longas barbas brancas, escrevendo. Assim, durante muitos anos o público acreditou que Malba Tahan realmente fosse esse árabe de longas barbas brancas e turbante. Júlio Cesar e Malba Tahan passaram a ser então duas pessoas diferentes, havendo aí uma fusão entre o real e o fictício. Por esse motivo, Julio César de Mello e Sousa foi autorizado pelo Presidente Getúlio Vargas a identificar-se livremente com o nome Malba Tahan, constando em sua carteira de identidade.


Malba seguiu seus estudos por Cairo (Egito) e Istambul (Turquia) até receber uma vultosa herança de seu pai e resolver viajar pelo mundo, passando pela China, Japão, Rússia e Índia, onde teria observado e aprendido os costumes e lendas desses povos. Teria estado, por um tempo, vivendo no Brasil. Morreu em batalha em 1321 na Arábia Central, lutando pela liberdade de uma minoria dessa região. Seus livros teriam sido escritos originalmente em árabe e traduzidos para o português pelo também fictício professor Breno Alencar Bianco.

Recentemente o  BLOGUE do Valentim dedicou muitas páginas a essa personalidade singular, que, em nosso conceito, foi o mais original escritor brasileiro de todos os tempos. Para a homenagem extraímos tais páginas da obra "Mil histórias sem fim - volume 2", cuja característica original é que uma história nunca termina, ou seja, ela continua numa nova, e esta, em mais uma e mais uma, prendendo indefinidamente a atenção do leitor.

Assim, em 11abr2017, iniciamos com "O viajante desconhecido" de nome Zualil Delach, um libanês radicado no Egito. 

Observador rigoroso das leis do Islã, após a prece, promete ao narrador a baraka, pois, segundo crença geral, dois homens sozinhos, sendo um deles desconhecido ao outro, quando rezam juntos, forçosamente virá ao encontro do anfitrião a felicidade, a baraka. Entrementes, por duas vezes o anfitrião-narrador surpreende Zualil olhando para um valioso narguilé de prata, que ornamentava uma das paredes, surgindo aí ligeira onda de desconfiança, que lhe negreja o coração. Estaria o visitante sendo sincero?

O narrador pede então que seu visitante se identifique. É aí que postamos, em 12abr2017, "A vida aventurosa do misterioso visitante", em que o viajante relata a sua vida repleta de aventuras, que resumimos a seguir:

Zualil dedicou-se no Egito ao comércio de jóias e especiarias, no entanto a vida errante exercia sobre ele grande atração. Fez-se então criador de carneiros, porém tornou a ficar pobre em virtude uma peste que assolou a região. Forçado a sobreviver, aceitou o emprego de zelador de marabu (espécie de capela na cultura muçulmana), função em que não se demorou por muito tempo. Instigado por alguns se arvorou a exercer a medicina, o que o fez com grande habilidade e eficiência. Um grande chefe marroquino, curado de grave enfermidade, concedeu-lhe uma das filhas em casamento como forma de gratidão. Tornou-se assim novamente rico e possuidor de enorme coleção de pedras preciosas. Mas, desiludido com a medicina, passou a exercer outras formas de ganhar a vida, partindo para o Cairo com a intenção de vender todas as suas valiosas gemas e com o lucro obtido dedicar-se ao plantio de algodão. Ao chegar ao Egito, acabou por envolver-se em intensas lutas políticas, tendo sido preso e logrado fugir da prisão, passando a viver como fugitivo e perseguido político. Temendo que suas gemas caíssem em poder de seus inimigos, confiou-as a seu servo leal, o paupérrimo e famélico Mustafá Nachib, que ficou incumbido de lhas devolver em data e local combinados. Ocorreu, entretanto, que no prazo combinado Zualil caiu doente e quando chegou a Bagdá (onde combinaram encontrar-se) não mais localizou o servo Mustafá.

Ora! Como era ingênuo, sendo isso toda a verdade, o visitante Zualil, dizendo-se xeique, que ao final confia todos os seus pertences a um servo faminto. É claro que, uma vez em poder das preciosas gemas, Mustafá desapareceu e passou a viver uma existência de príncipe, pensava consigo o narrador-anfitrião.

Pedindo pouso, o narrador acolhe - embora com alguma desconfiança - o visitante em sua casa, onde pernoita com a promessa de seguir jornada na manhã seguinte. 

Manhã do dia seguinte. Na narrativa "Um homem singular", ao acordar nota a ausência do hóspede, imaginando então que havia partido cedo sem ao menos se despedir. Porém, num estranho pressentimento, ao dirigir o olhar à parede percebe a inexistência do precioso narguilé. Fora roubado! Como fora ingênuo! Afinal, o visitante, contando toda aquela história mirabolante, repleta de aventuras, não quisera senão ludibriar a sua boa fé. Tolo!

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