segunda-feira, 29 de maio de 2017

MALBA Tahan



FORA logrado, decerto. Enquanto pensava assim,  eis que a atenção do narrador é atraída por cantarolar alegre de alguém no jardim. Era Zualil. "Reconheço que não passo de um hóspede importuno, pois já devia ter prosseguido a minha jornada", disse-lhe com um grande sorriso o singular visitante. "Penalizou-me, porém, acordar-te ao romper do dia. Notei que estavas sob peso de grande fadiga. Levantei-me ao primeiro chamado do muezim. Ao preparar-me para a prece resolvi dar pequeno arranjo à sala... Chamou-me a atenção este belíssimo narguilé de prata. Não posso ver uma peça de tão grande valor artístico coberta de pó e cheia de manchas. Resolvi, pois, deixá-lo bem limpo e em condições de ser admirado"

"Quando cheguei de volta à sala, tive a surpresa de
 encontrar o  meu hóspede em companhia de um desconhecido."
Percebeu o narrador estar em presença de um homem singular, um ser humano extraordinário, acima da média dos demais homens. Arrependido, sentiu vergonha de seus pensamentos e pediu desculpas por isso. Zualil disse-lhe que todas as aparências depunham contra ele e não se sentia ofendido pelo mau juízo feito por seu anfitrião.

E apontando para o narguilé, agora limpo e sem manchas, pergunta se seu interlocutor já lera alguma vez as legendas que nele aparecem: "Aprende a escrever na areia". 

Como as histórias nunca terminam, o conto anterior continua em outro: a história sobre a legenda do narguilé, contada por Zualil, o visitante singular. Postamos aí  "Os dois amigos", em 14abr2017.  A legenda gravada no narguilé é a deixa para essa outra narrativa.

O Narrador retira-se para a cozinha a fim de preparar o desjejum, deixando o hóspede na sala. Na volta, vê este em companhia de um desconhecido com quem conversa alegremente.

"Espero que não te aborreças com este novo hóspede! Chamei-o para servir-nos de companhia na refeição. Ele ia passando e eu o convidei. Fiz mal? Aprovas o meu gesto?"

Ficou evidente que ele - o narrador - não gostou nada. "A continuar daquela maneira, dentro de poucas horas a minha casa estaria transformada numa turbulenta hospedaria ou num caravançará enxameado de forasteiros". No entanto, não viu outra solução senão concordar, homologando o convite feito. 

Era um mestre-escola o convidado do convidado. Seu nome era Iezid Chakalid e "tinha por hábito não recusar os convites atenciosos e as ceias apetitosas." Devorou com apetite os diversos pratos que o narrador havia cuidadosamente preparado, não cessando, um só instante, de tagarelar, declamar e discutir. Falou com extraordinária eloquência do maravilhoso tanque existente no paraíso, segundo a crença dos muçulmanos. "O paraíso é todo entrecortado por inúmeros regatos. Nem todos são de água fresca e cristalina. Em muitos só corre leite, e que leite delicioso! Em outros circula vinho puro e gelado que não embriaga..."

Conforme prometera, chegava a hora de partir. Zualil, como prova de gratidão pelas gentilezas e atenções recebidas, oferece ao amigo três coisas, porém só podia escolher uma delas: um conselho, um segredo ou uma lenda.

"Fitei-o cheio de assombro. Aquele homem singular pretendia pagar as gentilezas e atenções que recebera em minha casa com a moeda mais desvalorizada do mundo: segredos, lendas e conselhos!". Qualquer outro em sua situação dispensaria tal pagamento. "Podes seguir o teu caminho que eu nada mais desejo de ti". No entanto, julgou indelicado de sua parte tratar Zualil, o homem singular, dessa maneira.

Desprezou o conselho e o segredo, optando por escutar a lenda. Mas não era assim tão simplesmente escutar a lenda. "A lenda que pretendo contar-te, como retribuição pelas boas horas que aqui passei, intitula-se "As sete pontas do quadrado" e é uma das histórias mais assombrosas do mundo." Tão assombrosa e fantástica que deveria ser contada para uma plateia de cinco mil quatrocentos e trinta e nove ouvintes. "Repara bem: Essa lenda notável, o maior tesouro literário do mundo, deveria ser ouvida por 5.439 pessoas!". No entanto, como a casa não comportava a multidão de cinco mil quatrocentos e trinta e nove pessoas, fez uma concessão, reduzindo esse número para apenas cinco ouvintes.

Caberia então ao anfitrião e narrador, acompanhado do mestre-escola, reunirem somente mais três pessoas disposta a escutar a fabulosa lenda "As sete pontas do quadrado", o maior tesouro literário do mundo. 

Saíram então a procurar pelas ruas mais três pessoas, deixando aquele homem singular em sua casa. 
Arregalou os olhos, mediu-me muito sério da cabeça aos pés e
 respondeu-me num tom de lástima: "As melancias ainda estão verdes..."

Logo adiante surgiu um modesto burriqueiro, que, pelas respostas sem sentido, parecia ser surdo. Em "O burriqueiro surdo", narramos essa história. Esse homem, sendo surdo, logicamente, não servia para escutar a notável lenda "As sete pontas do quadrado", cabendo aos dois - o narrador acompanhado do mestre-escola - seguirem em frente à procura de mais três ouvintes. 

Seguiram adiante, foram até a residência do corretor Chafid Bechara, que, por sua vez, lhes indicou seus auxiliares, sendo eles um botânico e outro matemático. Estavam aí em número de quatro, faltando apenas mais uma pessoa para ouvir a notável e fantástica lenda "As sete pontas do quadrado", digna de ser ouvida por uma multidão de 5.439 pessoas.

Continua...


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