segunda-feira, 19 de junho de 2017

CLÁSSICOS do Valentim

Chico Buarque: Deixa a menina





quinta-feira, 15 de junho de 2017

MALBA Tahan e seus contos maravilhosos!

O depositário do rei





-- SENHOR cádi, -- murmurou Iussuf, pálido e trêmulo de espanto -- juro pelo túmulo do Profeta! Juro pelo Alcorão! O que digo é verdade! Antes de partir para Meca, deixei em vosso poder um saco de couro com mil e novecentos dinares de ouro. E vi perfeitamente, ó cádi, quando guardastes o meu dinheiro ali, no grande cofre que ainda está naquele canto!

-- Estás delirando, ó infeliz -- replicou o cádi. -- Juras como um insensato sobre o que há de mais sagrado para os muçulmanos! Estás com certeza envenenado pelo haxixe e tens a mente presa a miragens enganadoras. Ali, naquele cofre, guardo apenas as pequenas migalhas que possuo. Achas então que eu, o cádi de Basra, seria capaz de conservar em meu poder um dinheiro que não fosse meu? É uma infâmia que lanças, inconsciente, sobre mim!

E como Iussuf insistisse na afirmativa, o governador interrompeu-o com severidade:

-- Repito-o, ó insensato, não guardei dinheiro algum! E se algum dia voltares à minha presença, com essa ideia tola e descabida, a exigir um dinheiro que nunca me entregaste, mando-te recolher para sempre à prisão dos loucos! Vai-te daqui, ó comedor de haxixe!

Iussuf, quase a chorar de desespero, retirou-se do palácio do cádi. Considerava perdido o seu dinheiro. Se perseverasse na ideia de recuperá-lo iria acabar os seus dias no fundo e um prisão. O desonesto governador de Basra tinha nas mãos a força e o poder.

Profundamente abalado pelo rude e impiedoso golpe que acabara de sofrer, sentindo-se ao desamparo, sem ter a quem apelar, roubado, dilapidado e ainda sob ameça de prisão, vendo diante de si a sombra da miséria, pôs Iussuf a caminhar sem rumo pelas ruas de Basra.

Ao se aproximar da mesquita de Otmã cruzou casualmente com um rico xeique que acabara de sair do famoso templo maometano. Ostentava o nobre belíssimo turvante cor-de-cinza. Seus trajes eram de seda. Em seus dedos rebrilhavam gemas de alto valor. Mal acabara de avistar o desventurado Iussuf, o xeique parou abrindo os braços num gesto largo e afetuoso. Exclamou arrebatado:

-- Alá seja louvado! Até que enfim, encontrei o meu bom amigo e protetor!

Iussuf encarava o desconhecido sem compreender o sentido daquelas exclamações de júbilo. 

-- Não te lembras mais de mim, ó peregrino? -- falou o xeique, abraçando carinhosamente Iussuf. -- Eu sou aquele Hussein Et-Tay, o velho mendigo que, há três anos, generosamente auxiliaste. Procurava-te, ansiosamente, para agradecer-te o que fizeste por mim. Segui o teu conselho. Fui ao califa e contei-lhe tudo. O Emir dos Crentes declarou que os sacos haviam sido retirados por ordem sua do tesouro, unicamente para que ele pudesse ajuizar, com segurança, acerca da minha honestidade. E, como estava, então, certo de que eu procedera com a máxima correção e dignidade, ordenou que eu fosse indenizado de todo o meu dinheiro; restituiu-me as minhas propriedades; deu-me belos presentes e nomeou-me para o lugar de tesoureiro do califa. Sou hoje, graças ao teu auxílio, o homem mais rico de Bagdá.

Notando, porém, o rico hussein que Iussuf parecia triste e  abatido, perguntou-lhe:

-- Que te aconteceu, ó irmão dos árabes? Por que estás tristonho e preocupado?

Iussuf contou, então, ao generoso xeique a desonestidade do cádi e a situação de miséria em que se achava.

-- Por Alá! -- exclamou o bom Hussein. -- O teu caso é muito simples de se resolver. Amanhã, ao cair da tarde, depois da terceira prece, irás à casa do cádi e -- como se nada tivesse acontecido -- reclamarás novamente o teu dinheiro. Eu estarei lá nessa ocasião; deverás, porém, fingir que não me conheces.

E eis o que aconteceu:

No dia seguinte o cádi recebeu a visita de Hussein El-Tay, tesoureiro do sultão Harun-al-Raschid.

-- O que me traz aqui, senhor cádi -- começou o xeique -- é um assunto da maior importância. O nosso gloriosos Emir Harun-al-Raschid (que Alá sempre conserve!) deseja fazer uma peregrinação a Meca. Não quer, porém, partir sem deixar, sob a guarda de uma pessoa digna e honesta, os seus imensos tesouros, as suas arcas cheias de lavores e tapeçarias. Lembrei o vosso nome porque a justa fama da vossa honestidade, do vosso belo caráter, já está espalhada pelo país inteiro. Inútil será dizer que o califa aprovou desde logo a minha indicação. Declarou-me: "Não quero partir sem deixar nas mãos do honesto cádi de Basra, o íntegro Machome El-Hadjazi, não só os tesouros, como o governo de Bagdá!". E, foi por isso, que aqui vim para consultar-vos e saber se vos sentis com coragem para prestar ao nosso generoso califa esse inestimável serviço.

O cádi, surpreendido por tão extraordinário oferecimento, desmanchou-se em salamaleques, mesuras afetadas e gestos de gratidão.

-- Sinto-me profundamente honrado -- disse ele ao xeique -- com as generosas palavras que a meu respeito proferiu o Comendador dos Crentes. Tudo tenho feito por merecer a confiança que em mim depositou o nosso grande soberano.

Estas palavras era ditas quando surgiu à porta do salão o jovem Iussuf.

-- Senhor cádi, -- exclamou, respeitoso -- o meu nome é Iussuf Abdallah Ben-Nahin. Há três anos, antes de partir para Meca, deixei em vosso poder, confiado aos vossos cuidados, um saco de couro com mil e novecentos dinares-ouro. E agora...

-- Pois não, meu filho! -- exclamou o cádi, risonho e amável. -- Lembro-me perfeitamente do teu nome. Iussuf Abdallah Ben-Nahim, o fabricante de móveis. Muitas vezes pensei: "quando virá aquele bom peregrino buscar o dinheiro que deixou sob minha guarda? Queira Alá que ele volte cheio de vida e feliz. Queira Alá que nada de mal lhe aconteça". Sinto-me feliz pelo teu regresso. 

E o cádi, no mesmo instante, abrindo o grande cofre, tirou de dentro um saco de couro que parecia bem pesado e, a conter ouro, encerraria uma bela quantia.

-- Aqui está -- continuou, entregando o valioso depósito a Iussuf -- o teu dinheiro. Eu seria incapaz de ficar com um dinar que não fosse meu. Alá me livre de praticar semelhante infâmia.

O rico Hussein observava com a maior atenção todos os gestos e palavras do cádi.

Sem saber como explicar aquela extraordinária mudança, o peregrino, de pois de agradecer ao cádi, retirou-se muito contente com o seu dinheiro.

Momentos depois o rico xeique de Bagdá deixou também o palácio do cádi e Basra.

Passaram-se meses.

Vendo o cádi que o califa não mandava chamá-lo, foi procurar o rico Hussein, que ainda se achava em Basra, a comprar tapetes para os palácios do sultão.

O judicioso xeique, ao receber o cádi, perguntou-lhe o que desejava.

-- Quero saber -- respondeu este -- quando devo seguir para Bagdá, a fim de guardar os tesouros do nosso sultão Harun-al-Raschid, Emir dos Crentes.

-- Senhor cádi -- acudiu o velho Hussein -- devo dizer-vos que meditei melhor no caso. Se, para devolver o pequeno pecúlio de um peregrino, foi preciso que vos prometesse os tesouros do califa e o governo de Bagdá, que não seria preciso prometer-vos, futuramente, para obter de vós a devolução dos tesouros do sultão, quando eles já estivessem bem seguros em vosso poder? 

CLÁSSICOS do Valentim

Chico Buarque: Partido alto, 1972




DIZ QUE deu, diz que dá
Diz que Deus dará
Não vou duvidar, ó nega
E se Deus não dá
Como é que vai ficar, ó nega
Diz que Deus diz que dá
E se Deus negar, ó nega
Eu vou me indignar e chega
Deus dará, Deus dará

Deus é um cara gozador, adora brincadeira
Pois pra me jogar no mundo, tinha o mundo inteiro
Mas achou muito engraçado me botar cabreiro
Na barriga da miséria nasci batuqueiro
Eu sou do Rio de Janeiro

Jesus Cristo inda me paga, um dia inda me explica
Como é que pôs no mundo esta pobre coisica
Vou correr o mundo afora, dar um canjica
Que é pra ver se alguém se embala ao ronco da cuíca
E aquele abraço pra quem fica

Deus me fez um cara fraco, desdentado e feio
Pele e osso simplesmente, quase sem recheio
Mas se alguém me desafia e bota a mãe no meio
Dou pernada a três por quatro e nem me despenteio
Que eu já tô de saco cheio

Deus me deu mão de veludo pra fazer carícia
Deus me deu muitas saudades e muita preguiça
Deus me deu pernas compridas e muita malícia
Pra correr atrás de bola e fugir da polícia
Um dia ainda sou notícia 

domingo, 11 de junho de 2017

MALBA Tahan e seus contos maravilhosos!

O depositário do rei


Alá vos livre de ser
depositário do rei!
NA VELHA cidade Basra, no bairro denominado Haiessalã, vivia outrora um fabricante de móveis chamado Iussuf Abdallah Ben-Nahim.

Um dia, depois de ter ouvido na mesquita de El-Akbar uma prédica do imã sobre os deveres dos bons muçulmanos, resolveu Iussuf fazer, pela primeira vez, uma peregrinação a Meca -- a cidade santa -- a predileta de Allah. 

Sem perda de tempo preparou-se Iusuf para a fadigante jornada. Vendeu os móveis que possuía, pagou aos credores, arrendou a casa -- tendo conseguido obter, com a liquidação completa de seus bens, dois mil dinares-ouro.

Que destino dar àquele dinheiro? Era bem certo que não poderia levar consigo, tais os perigos por que ia passar, aquele ouro precioso. De que recursos valer-se para deixar, em segurança, guardada até o seu regresso de Meca, a bela quantia em que se resumiam todos os seus haveres?


Procurou o imã, e este, com a prudência que a sabedoria e a experiência soem ditar, aconselhou-o a que deixasse o dinheiro guardado com o cádi, isto é, o juiz da cidade. 

Exercia este em Basra as funções de governador e era representante direto do sultão Harum-al-Rashid, califa de Bagdá. Homem poderoso, rico, cheio de prestígio, o cádi Mahomed El-Hadjazi estava naturalmente indicado para servir de depositário. O dinheiro de um peregrino estaria, por certo, bem guardado dentro dos pesados cofres do digno juiz de Basra.

Iussuf achou de bom alvitre o conselho do imã e seguiu sem perda de tempo para a casa de Mahomed El-Hadjazi, levando em um saco de couro os seus dois mil dinares.

A temida e respeitada autoridade muçulmana morava, por esse tempo, em um grande palácio na praça Sahat-Ali.

Ao atravessar essa praça, avistou Iussuf andrajoso mendigo, de rosto e aspecto de homem vencido pela doença e pela miséria. Era de causar dó a figura do ancião. O infeliz estendia a mão aos transeuntes, implorando humilde um óbulo e a todos os que o auxiliavam dizia, como se resumisse o seu mais sincero agradecimento:

-- Alá vos livre de ser depositário do rei! 

Iussuf achou estranho aquele voto do pedinte, e não podendo dominar a curiosidade, chamou-o a um canto da praça e interrogou-o: 

-- Pela glória de Mafoma, ó muçulmano! Por que dizes a todas as pessoas que te auxiliam:"Alá vos livre de ser o depositário do rei."? Achas, então, indigno ou indesejável o ambicionado emprego de zelador dos tesouros de um soberano?

-- Senhor -- respondeu o mendigo -- o voto que sempre formulo representa um desejo sincero. Não posso desejar que aconteça às pessoas dignas e piedosas a mesma infelicidade que assaltou.

-- Como pode ser isso? -- perguntou Iussuf. -- Conta-me a tua história. Mui vivo é o meu desejo de conhecer a causa de tua desdita.

Atendendo ao pedido de Iussuf, o velho mendigo narrou o seguinte:

"Meu nome é Hussein Et-Tay. Sou filho do famoso Mahmud Et-Tay, o poeta nômade, a quem os árabes do deserto apelidaram "El-Arey" -- o coxo. Muitos anos vivi em Kalaa-Abu, nas margens do Eufrates, onde possuía grande plantação de alhos, cebolas e lentilhas; quando chegava a época da colheita, os meus escravos carregavam os camelos e iam vender nas cidades próximas os belos produtos das minhas terras. Assim, graças à vontade Alá (exaltado seja o Altíssimo!), os meus negócios corriam bem e a minha prosperidade era notável. 

Certo dia, porém, um velho amigo da minha família, ao regressar de um passeio de Bagdá, disse-me: 'Amigo Hussein, o grão-vizir Gafar pediu-me que lhe indicasse uma pessoa honesta, de inteira confiança, capaz de exercer o cargo de zelador do sultão. Lembrei o teu nome, citei as tuas qualidades, e o grão-vizir aceitou prontamente a minha indicação. Deixarás esta vida obscura e trabalhosa de agricultor, e irás servir no palácio do nosso grande califa. Passarás a ter uma existência brilhante, uma vida suave e grata aos olhos de Alá!'

E assim foi. Meses depois, recebi uma ordem em que o grão-vizir me chamava a Bagdá, para onde pressurosamente me transportei com a família, deixando as minhas propriedades entregues a um procurador. Na grande cidade do califa passei a executar as funções de zelador dos tesouros do sultão.

A princípio tudo correu bem. O meu cargo era realmente de grande responsabilidade, mas eu procurava desempenhá-lo a contento de todos. O generoso califa Harun-al-Rashid (que Alá sempre o conserve!) distinguia-me profundamente, honrando-me com sua amizade.

Um dia, porém, notei tomado de grande surpresa que havia desaparecido de um dos cofres do tesouro um saco cheio de moedas de ouro. O desespero, praga que até então minha alma não conhecera, invadiu-a toda, brutalmente. Era eu o único responsável! Tudo fiz para descobrir o paradeiro do roubo. Nada consegui. Como não quisesse confessar ao califa o ocorrido, vendi as minhas propriedades e com o dinheiro que obtive nessa venda coloquei no cofre outro saco igual ao que fora furtado. Inútil será dizer-lhe que, desse dia em diante, redobrei cuidados e vigilância. Mal podia dormir, tal a preocupação e o desassossego em que vivia. Uma angústia de todos os instantes me estiolava a saúde e me embranquecia os cabelos.

Para maior desgraça minha, decorrido algum tempo, novo roubo foi praticado no tesouro do sultão. Dessa vez desaparecera um saco cheio de ouro em pós. Desvairado, arranquei as barbas e chorei copiosamente. Não havia o menor vestígio do roubo, nem a mais leve indicação que me que me pudesse levar à descoberta do audacioso ladrão. Não querendo passar por desonesto, nem deslustrar a confiança ilimitada que o emir dos crentes depositava em mim, vendi todas as roupas, móveis, jóias e escravos que possuía, e conseguir adquirir outro saco igual ao desaparecido cheio do precioso metal.

Vi-me, porém, depois desse segundo roubo, reduzido ao extremo da miséria; não tinha mais nada de meu. Esmagado pelo infortúnio, mas acomodado à minha negra sorte, tomei uma resolução terrível. Dirigi-me ao califa, pedi-lhe licença por um ano, e afastei-me de Bagdá desaparecendo para sempre. Abandonei a família e os amigos. E agora, sem teto e sem rumo, vivo como um molambo humano a mendigar pelas ruas de Basra, à espera de que Alá, o Onipotente, escreva no livro do destino o termo dos meus dias infelizes."

E o mendigo, depois de uma pausa, prosseguiu: 

"Eis porque, senhor, a ninguém desejo a desgraça que a mim me feriu."

Sinceramente penalizado coma triste sorte do bom Hussein, disse-lhe Iussuf:

-- Fizeste mal, meu amigo, em ocultar a verdade ao grande califa. Quando um homem está inocente, e não tem na consciência a mácula do pecado não deve recear a verdade, qualquer que seja ela. Acho que deves procurar o califa e contar-lhe o sucedido. Estou certo de que o emir dos crentes, generoso e justo, saberá corrigir o mal e punir os verdadeiros culpados.

Iussuf tirou de seu dinheiro cem dinares de ouro e entregou-os ao mendigo:

-- Aqui está -- disse -- um pequeno auxílio para a tua viagem até Bagdá. Deves partir sem perda de tempo.

O velho Hussein, os olhos cheios de lágrimas, beijou as mãos do bondoso Iussuf, e, tomando o seu pesado bordão, partiu pelo caminho de Alá.

Depois de meditar algum tempo no estranho caso do velho Hussein, Iussuf dirigiu-se ao palácio do cádi.

O digno magistrado recebeu o peregrino imediatamente, fazendo-o entrar para um rico e luxuoso salão, cheio de alfaias e tapeçarias.

-- Senhor! -- exclamou o jovem, inclinando-se, respeitoso -- meu nome é Iussuf Abdallah Ben-Nahim. Sou fabricante de móveis no bairro Haiessalã. Tenciono fazer, pela primeira vez, a peregrinação a Meca, e, antes de partir, venho pedir-vos que guardeis em vosso poder os mil e novecentos dinares que este saco encerra. Virei buscá-los quando regressar da cidade santa.

-- Não vivo senão para bem servir os súdidos de meu país. -- respondeu o cádi. -- O dinheiro de um peregrino é sagrado. Saberei, meu bom Iussuf, guarda com religioso cuidado o teu precioso pecúlio.

E, recebendo do peregrino o saco cheio de ouro, foi depositá-lo em um grande cofre que ficava no fundo do salão.

Na madrugada seguinte, Iussuf partiu -- com uma grand caravana -- pela estrada de Hail, em demanda à cidade dos Sete Minaretes.

Três vezes as águas do Eufrates já haviam subido quando Iussuf regressou de sua piedosa peregrinação. O seu primeiro cuidado, ao chegar a Basra, foi procurar o cádi, a fim de reaver o seu precioso dinheiro.

Qual não foi, porém, a sua surpresa quando, ao chegar à presença do poderoso magistrado, tendo declarado o seu nome e o fim de sua visita, dele ouviu as seguintes palavras: 

-- Devo dizer-te, ó peregrino, que seria incapaz de ficar com um dinar que não fosse meu. Alá me livre de praticar semelhante infâmia. Há, porém, meu amigo, um engano lamentável da tua parte. Não te conheço, e, posso jurar, é a primeira vez que ouço o teu nome!


Continua...

segunda-feira, 5 de junho de 2017

CLÁSSICOS do Valentim

Gonzaguinha: Com a perna no mundo




ACREDITAVA na vida
Na alegria de ser
Nas coisas do coração
Nas mãos um muito fazer
Sentava bem lá no alto
Pivete olhando a cidade
Sentindo o cheiro do asfalto
Desceu por necessidade

Ó Dina
Teu menino desceu o São Carlos
Pegou um sonho e partiu
Pensava que era um guerreiro
Com terras e gente a conquistar
Havia um fogo em seus olhos
Um fogo de não se apagar

Diz lá pra Dina que eu volto
Que seu guri não fugiu
Só quis saber como é
Qual é
Perna no mundo sumiu

(Bis)


E hoje
Depois de tantas batalhas
A lama dos sapatos é a medalha
Que ele tem pra mostrar

Passado
É um pé no chão e um sabiá
Presente  é a porta aberta
E futuro é o que virá

Mas e daí,


 ô ô ô e á
O moleque acabou de chegar

 ô ô ô e á
Nessa cama é que eu quero sonhar, 

ô ô ô e á
Amanhã bato a perna no
Mundo,

ô ô ô e á
É que o mundo é que é meu lugar!

domingo, 4 de junho de 2017

MALBA Tahan e seus contos maravilhosos!

A dívida de Ben-Thulum


AHMED Ben-Thulum, chefe de notável dinastia que reinou durante muitos anos no Egito, tinha por vezes lembranças e ideias tão extravagantes que deixam perplexos os vizires e cortesãos de sua corte.

Um dia, como se encontrasse na varanda de seu belo palácio de Alepo, a admirar o movimento contínuo do populacho, na famosa e secular praça de Sultaniyé, dele se acercou o judicioso Abdul-Mahomed, seu conselheiro e amigo, e disse-lhe:

-- Só existe força e poder em Alá, o Altíssimo! Não há criatura humana capaz de vencer a fatalidade. O que nos aconteceu ou vai acontecer-nos já está escrito -- maktub! -- no livro do destino!

-- Acreditas então, meu amigo, -- observou o sultão com certa ironia -- que são irrevogáveis os decretos do destino? Embora professe com sinceridade a religião de Maomé (com ele a oração e paz!) e me considere fervoroso muçulmano, não sou fatalista intransigente. Estou convencido de que os reis, por exemplo, podem alterar facilmente, graças à força de que dispõem, o destino de uma criatura! Queres uma prova, segura e irrefutável, do que assevero?

E, como Abdul Mahomed ficasse silencioso, a fitá-lo com mostras de não pequena admiração, o soberano prosseguiu:

-- Vou já alterar radicalmente a vida de um homem qualquer do povo. Estás vendo aquela fonte lá embaixo, no meio da praça de Sultaniyé? Pois bem, ao primeiro homem que, a partir deste instante, for saciar a sede ou fazer abluções naquela fonte, mandarei dar duzentos dinares de ouro e transportá-lo, ainda hoje, para Antioquia! Verás se sou ou não capaz de modificar o destino, bom ou mau, de uma criatura de Alá!

Os cortesãos que se achavam em palácio, informados do novo capricho do sultão -- afluíram à varanda, aguardando curiosos o curso daquele desígnio.

Momentos depois, um velho mercador sírio que vinha descuidado pela rua de Bab-Nerab, na ignorância completa do que se passava no palácio, dirigiu-se vagarosamente à fonte de Sultaniyé e depois de lavar o rosto e as  mãos bebeu regaladamente um pouco da água clara e límpida que ali corria. 

O orgulhoso monarca, que tudo observara, deu as necessárias ordens a um de seus oficiais, e o velho mercador foi imediatamente levado à sua presença.

Disse-lhe, então, sem mais preâmbulos, o caprichoso sultão: 

-- Vais receber, ó muçulmano, duzentos dinares de ouro e, por minha conta, uma escola do palácio vai conduzir-te, hoje mesmo, para Antioquia!

Notaram, porém os vizires e nobres muçulmanos presentes que o sírio não parecia surpreendido nem preocupado com as decisões caprichosas e inesperadas do califa. Inclinou-se humilde e, como se quisesse dar prova de profunda gratidão, beijou duas vezes a terra junto aos pés do soberano.

-- Por Alá! -- exclamou o sultão. -- Não estás, ó mercador, contente com o belo pecúlio que acabas de receber? Consideras inoportuna esta viagem até Antioquia?

-- Contente estou, ó rei generoso -- respondeu o velho traficante. -- Há dois anos que esperava ansioso por este chamado de Vossa Majestade!

-- Como assim? Contavas, então, como coisa certa receber esse dinheiro?

-- É verdade! -- continuou o ancião. -- Meu nome é Khalil Nahib e sou mercador em Antioquia. Tenho pequena tenda nas margens do Oronto, junto ao velho Serralho. Há dois anos vendi ao jovem Harun, o filho mais moço de Vossa Majestade, uma partida de joias no valor de duzentos dinares de ouro. Como não dispusesse, no momento, dessa importância, disse-me o nobre e generoso Harun que viesse recebê-la em Alepo, no palácio real. Há dez meses que vivo nesta cidade, e muitas vezes tenho tentado falar a Vossa Majestade, mas sou sempre impedido pelos guardas e porteiros deste palácio. Hoje, finalmente, baldadas todas as esperanças, resolvera voltar para Antioquia com alguns amigos e viajantes. Quando ia, porém, agora, atravessar a praça de Sultaniyé, depois de ter feito as abluções usuais na velha fonte, de mim se aproximou um guarda que me conduziu, aqui, à Vossa Majestade. Eis porque não foi surpresa para mim receber, juntamente com a quantia de duzentos dinares, uma ordem de regresso para Antioquia! Os dinares me eram devidos e precisamente para Antioquia ia eu!

-- Louvado seja o Onipotente! -- exclamou o sultão. -- O caso singular que acaba de ocorrer com este velho mercador vem mais uma vez provar que os homens, sejam escravos ou reis, nada podem contra o destino! Estava escrito -- maktub! -- que este mercador haveria de receber o dinheiro que eu lhe devia -- e fui eu próprio quem lhe pôs nas mãos a valiosa quantia!

E concluiu atemorizado:

-- Queira Alá, o Exaltado, seja esta a última dívida que a fatalidade me obrigue a pagar!

(Céu de Allah, 11ª edição, 1957)


sexta-feira, 2 de junho de 2017

MALBA Tahan


LOGO adiante deram com um jovem magro e muito mal trajado, que, pela barba de quinze dias, mãos calosas e pés deformados, parecia ser pessoa muito pobre. Indagado se aceitaria ir à casa do narrador ouvir uma lenda, o rapaz concorda se lhe dessem duas fatias de pão. "Terás o pão que quiseres", prometeu com ar risonho para incutir ânimo ao famélico. Anexando-se ao grupo, eram naquele momento em número de cinco. 
Éramos, naquele momento, em número de cinco. Não havia tempo a perder.
 Seguimos a passos largos pela estrada.

Ocorre que, ao ouvir uma trova, o jovem paupérrimo tornou-se muito agitado e, não sossegando, quis saber de quem o narrador havia escutado os versos. "Com quem aprendeste esta canção?".  Não compreendendo nada, mas não vendo razão para ocultar a verdade, o narrador disse ao jovem que ouvira da boca de Zualil. Diante disso, o rapaz sai correndo como um beduíno perseguido por um bando de panteras negras do deserto, deixando a atônitos a todos. "Ficamos estupefatos. Para a estranha atitude do jovem não achávamos explicação satisfatória". Para o mestre-escola, o rapaz é um maníaco; já para o matemático, na vida do moço existe um drama. Resignados com a perda de um ouvinte, voltam para casa na esperança de no meio do caminho encontrarem o quinto ouvinte.

Chegando a casa, mais uma surpresa: Zualil estava ausente, deixando um homem cego para vigiar a casa. "A pessoa que se achava nesta casa foi obrigada a partir e pediu-me que aqui ficasse de vigia, até o dono regressar." A inesperada declaração do cego deixou o narrador e dono da casa estupidificado. Se hóspede partira e deixara um cego vigiando a casa. "O tal egípcio não passa de um tratante! As minhas desconfianças não eram, afinal, infundadas!", indigna-se o narrador.


Mas há explicação para tudo e Zualil, logo retornando, tem uma para justificar sua ausência, deixando em seu lugar uma pessoa deficiente visual. 

Essa história contamos em "O guardião cego", postada neste blogue em 24abr2017. Sobre cegueira e todos os tipos de cegos, o matemático Zoraik aproveita para contar a história "O burro amarelo, bem burro e bem amarelo", que postamos em  04maio2017. 

Ao todo postamos dez histórias de Malba Tahan. Finalizamos com "Mustafá, o servo leal", em 10maio2017, em que o rapaz magro e faminto aparece de posse das pedras preciosas. Ele as devolve a seu dono, o egípcio Zualil, que estava dizendo a verdade o tempo inteiro.
Continha o prodigioso cinto, pela sua parte interna,
 lindíssima coleção de rubis e brilhantes


Esse era um homem singular. E o narrador se identifica na 36ª história: é o douto e sisudo vizir Abu-Mussa.