domingo, 4 de junho de 2017

MALBA Tahan e seus contos maravilhosos!

A dívida de Ben-Thulum


AHMED Ben-Thulum, chefe de notável dinastia que reinou durante muitos anos no Egito, tinha por vezes lembranças e ideias tão extravagantes que deixam perplexos os vizires e cortesãos de sua corte.

Um dia, como se encontrasse na varanda de seu belo palácio de Alepo, a admirar o movimento contínuo do populacho, na famosa e secular praça de Sultaniyé, dele se acercou o judicioso Abdul-Mahomed, seu conselheiro e amigo, e disse-lhe:

-- Só existe força e poder em Alá, o Altíssimo! Não há criatura humana capaz de vencer a fatalidade. O que nos aconteceu ou vai acontecer-nos já está escrito -- maktub! -- no livro do destino!

-- Acreditas então, meu amigo, -- observou o sultão com certa ironia -- que são irrevogáveis os decretos do destino? Embora professe com sinceridade a religião de Maomé (com ele a oração e paz!) e me considere fervoroso muçulmano, não sou fatalista intransigente. Estou convencido de que os reis, por exemplo, podem alterar facilmente, graças à força de que dispõem, o destino de uma criatura! Queres uma prova, segura e irrefutável, do que assevero?

E, como Abdul Mahomed ficasse silencioso, a fitá-lo com mostras de não pequena admiração, o soberano prosseguiu:

-- Vou já alterar radicalmente a vida de um homem qualquer do povo. Estás vendo aquela fonte lá embaixo, no meio da praça de Sultaniyé? Pois bem, ao primeiro homem que, a partir deste instante, for saciar a sede ou fazer abluções naquela fonte, mandarei dar duzentos dinares de ouro e transportá-lo, ainda hoje, para Antioquia! Verás se sou ou não capaz de modificar o destino, bom ou mau, de uma criatura de Alá!

Os cortesãos que se achavam em palácio, informados do novo capricho do sultão -- afluíram à varanda, aguardando curiosos o curso daquele desígnio.

Momentos depois, um velho mercador sírio que vinha descuidado pela rua de Bab-Nerab, na ignorância completa do que se passava no palácio, dirigiu-se vagarosamente à fonte de Sultaniyé e depois de lavar o rosto e as  mãos bebeu regaladamente um pouco da água clara e límpida que ali corria. 

O orgulhoso monarca, que tudo observara, deu as necessárias ordens a um de seus oficiais, e o velho mercador foi imediatamente levado à sua presença.

Disse-lhe, então, sem mais preâmbulos, o caprichoso sultão: 

-- Vais receber, ó muçulmano, duzentos dinares de ouro e, por minha conta, uma escola do palácio vai conduzir-te, hoje mesmo, para Antioquia!

Notaram, porém os vizires e nobres muçulmanos presentes que o sírio não parecia surpreendido nem preocupado com as decisões caprichosas e inesperadas do califa. Inclinou-se humilde e, como se quisesse dar prova de profunda gratidão, beijou duas vezes a terra junto aos pés do soberano.

-- Por Alá! -- exclamou o sultão. -- Não estás, ó mercador, contente com o belo pecúlio que acabas de receber? Consideras inoportuna esta viagem até Antioquia?

-- Contente estou, ó rei generoso -- respondeu o velho traficante. -- Há dois anos que esperava ansioso por este chamado de Vossa Majestade!

-- Como assim? Contavas, então, como coisa certa receber esse dinheiro?

-- É verdade! -- continuou o ancião. -- Meu nome é Khalil Nahib e sou mercador em Antioquia. Tenho pequena tenda nas margens do Oronto, junto ao velho Serralho. Há dois anos vendi ao jovem Harun, o filho mais moço de Vossa Majestade, uma partida de joias no valor de duzentos dinares de ouro. Como não dispusesse, no momento, dessa importância, disse-me o nobre e generoso Harun que viesse recebê-la em Alepo, no palácio real. Há dez meses que vivo nesta cidade, e muitas vezes tenho tentado falar a Vossa Majestade, mas sou sempre impedido pelos guardas e porteiros deste palácio. Hoje, finalmente, baldadas todas as esperanças, resolvera voltar para Antioquia com alguns amigos e viajantes. Quando ia, porém, agora, atravessar a praça de Sultaniyé, depois de ter feito as abluções usuais na velha fonte, de mim se aproximou um guarda que me conduziu, aqui, à Vossa Majestade. Eis porque não foi surpresa para mim receber, juntamente com a quantia de duzentos dinares, uma ordem de regresso para Antioquia! Os dinares me eram devidos e precisamente para Antioquia ia eu!

-- Louvado seja o Onipotente! -- exclamou o sultão. -- O caso singular que acaba de ocorrer com este velho mercador vem mais uma vez provar que os homens, sejam escravos ou reis, nada podem contra o destino! Estava escrito -- maktub! -- que este mercador haveria de receber o dinheiro que eu lhe devia -- e fui eu próprio quem lhe pôs nas mãos a valiosa quantia!

E concluiu atemorizado:

-- Queira Alá, o Exaltado, seja esta a última dívida que a fatalidade me obrigue a pagar!

(Céu de Allah, 11ª edição, 1957)


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