domingo, 11 de junho de 2017

MALBA Tahan e seus contos maravilhosos!

O depositário do rei


Alá vos livre de ser
depositário do rei!
NA VELHA cidade Basra, no bairro denominado Haiessalã, vivia outrora um fabricante de móveis chamado Iussuf Abdallah Ben-Nahim.

Um dia, depois de ter ouvido na mesquita de El-Akbar uma prédica do imã sobre os deveres dos bons muçulmanos, resolveu Iussuf fazer, pela primeira vez, uma peregrinação a Meca -- a cidade santa -- a predileta de Allah. 

Sem perda de tempo preparou-se Iusuf para a fadigante jornada. Vendeu os móveis que possuía, pagou aos credores, arrendou a casa -- tendo conseguido obter, com a liquidação completa de seus bens, dois mil dinares-ouro.

Que destino dar àquele dinheiro? Era bem certo que não poderia levar consigo, tais os perigos por que ia passar, aquele ouro precioso. De que recursos valer-se para deixar, em segurança, guardada até o seu regresso de Meca, a bela quantia em que se resumiam todos os seus haveres?


Procurou o imã, e este, com a prudência que a sabedoria e a experiência soem ditar, aconselhou-o a que deixasse o dinheiro guardado com o cádi, isto é, o juiz da cidade. 

Exercia este em Basra as funções de governador e era representante direto do sultão Harum-al-Rashid, califa de Bagdá. Homem poderoso, rico, cheio de prestígio, o cádi Mahomed El-Hadjazi estava naturalmente indicado para servir de depositário. O dinheiro de um peregrino estaria, por certo, bem guardado dentro dos pesados cofres do digno juiz de Basra.

Iussuf achou de bom alvitre o conselho do imã e seguiu sem perda de tempo para a casa de Mahomed El-Hadjazi, levando em um saco de couro os seus dois mil dinares.

A temida e respeitada autoridade muçulmana morava, por esse tempo, em um grande palácio na praça Sahat-Ali.

Ao atravessar essa praça, avistou Iussuf andrajoso mendigo, de rosto e aspecto de homem vencido pela doença e pela miséria. Era de causar dó a figura do ancião. O infeliz estendia a mão aos transeuntes, implorando humilde um óbulo e a todos os que o auxiliavam dizia, como se resumisse o seu mais sincero agradecimento:

-- Alá vos livre de ser depositário do rei! 

Iussuf achou estranho aquele voto do pedinte, e não podendo dominar a curiosidade, chamou-o a um canto da praça e interrogou-o: 

-- Pela glória de Mafoma, ó muçulmano! Por que dizes a todas as pessoas que te auxiliam:"Alá vos livre de ser o depositário do rei."? Achas, então, indigno ou indesejável o ambicionado emprego de zelador dos tesouros de um soberano?

-- Senhor -- respondeu o mendigo -- o voto que sempre formulo representa um desejo sincero. Não posso desejar que aconteça às pessoas dignas e piedosas a mesma infelicidade que assaltou.

-- Como pode ser isso? -- perguntou Iussuf. -- Conta-me a tua história. Mui vivo é o meu desejo de conhecer a causa de tua desdita.

Atendendo ao pedido de Iussuf, o velho mendigo narrou o seguinte:

"Meu nome é Hussein Et-Tay. Sou filho do famoso Mahmud Et-Tay, o poeta nômade, a quem os árabes do deserto apelidaram "El-Arey" -- o coxo. Muitos anos vivi em Kalaa-Abu, nas margens do Eufrates, onde possuía grande plantação de alhos, cebolas e lentilhas; quando chegava a época da colheita, os meus escravos carregavam os camelos e iam vender nas cidades próximas os belos produtos das minhas terras. Assim, graças à vontade Alá (exaltado seja o Altíssimo!), os meus negócios corriam bem e a minha prosperidade era notável. 

Certo dia, porém, um velho amigo da minha família, ao regressar de um passeio de Bagdá, disse-me: 'Amigo Hussein, o grão-vizir Gafar pediu-me que lhe indicasse uma pessoa honesta, de inteira confiança, capaz de exercer o cargo de zelador do sultão. Lembrei o teu nome, citei as tuas qualidades, e o grão-vizir aceitou prontamente a minha indicação. Deixarás esta vida obscura e trabalhosa de agricultor, e irás servir no palácio do nosso grande califa. Passarás a ter uma existência brilhante, uma vida suave e grata aos olhos de Alá!'

E assim foi. Meses depois, recebi uma ordem em que o grão-vizir me chamava a Bagdá, para onde pressurosamente me transportei com a família, deixando as minhas propriedades entregues a um procurador. Na grande cidade do califa passei a executar as funções de zelador dos tesouros do sultão.

A princípio tudo correu bem. O meu cargo era realmente de grande responsabilidade, mas eu procurava desempenhá-lo a contento de todos. O generoso califa Harun-al-Rashid (que Alá sempre o conserve!) distinguia-me profundamente, honrando-me com sua amizade.

Um dia, porém, notei tomado de grande surpresa que havia desaparecido de um dos cofres do tesouro um saco cheio de moedas de ouro. O desespero, praga que até então minha alma não conhecera, invadiu-a toda, brutalmente. Era eu o único responsável! Tudo fiz para descobrir o paradeiro do roubo. Nada consegui. Como não quisesse confessar ao califa o ocorrido, vendi as minhas propriedades e com o dinheiro que obtive nessa venda coloquei no cofre outro saco igual ao que fora furtado. Inútil será dizer-lhe que, desse dia em diante, redobrei cuidados e vigilância. Mal podia dormir, tal a preocupação e o desassossego em que vivia. Uma angústia de todos os instantes me estiolava a saúde e me embranquecia os cabelos.

Para maior desgraça minha, decorrido algum tempo, novo roubo foi praticado no tesouro do sultão. Dessa vez desaparecera um saco cheio de ouro em pós. Desvairado, arranquei as barbas e chorei copiosamente. Não havia o menor vestígio do roubo, nem a mais leve indicação que me que me pudesse levar à descoberta do audacioso ladrão. Não querendo passar por desonesto, nem deslustrar a confiança ilimitada que o emir dos crentes depositava em mim, vendi todas as roupas, móveis, jóias e escravos que possuía, e conseguir adquirir outro saco igual ao desaparecido cheio do precioso metal.

Vi-me, porém, depois desse segundo roubo, reduzido ao extremo da miséria; não tinha mais nada de meu. Esmagado pelo infortúnio, mas acomodado à minha negra sorte, tomei uma resolução terrível. Dirigi-me ao califa, pedi-lhe licença por um ano, e afastei-me de Bagdá desaparecendo para sempre. Abandonei a família e os amigos. E agora, sem teto e sem rumo, vivo como um molambo humano a mendigar pelas ruas de Basra, à espera de que Alá, o Onipotente, escreva no livro do destino o termo dos meus dias infelizes."

E o mendigo, depois de uma pausa, prosseguiu: 

"Eis porque, senhor, a ninguém desejo a desgraça que a mim me feriu."

Sinceramente penalizado coma triste sorte do bom Hussein, disse-lhe Iussuf:

-- Fizeste mal, meu amigo, em ocultar a verdade ao grande califa. Quando um homem está inocente, e não tem na consciência a mácula do pecado não deve recear a verdade, qualquer que seja ela. Acho que deves procurar o califa e contar-lhe o sucedido. Estou certo de que o emir dos crentes, generoso e justo, saberá corrigir o mal e punir os verdadeiros culpados.

Iussuf tirou de seu dinheiro cem dinares de ouro e entregou-os ao mendigo:

-- Aqui está -- disse -- um pequeno auxílio para a tua viagem até Bagdá. Deves partir sem perda de tempo.

O velho Hussein, os olhos cheios de lágrimas, beijou as mãos do bondoso Iussuf, e, tomando o seu pesado bordão, partiu pelo caminho de Alá.

Depois de meditar algum tempo no estranho caso do velho Hussein, Iussuf dirigiu-se ao palácio do cádi.

O digno magistrado recebeu o peregrino imediatamente, fazendo-o entrar para um rico e luxuoso salão, cheio de alfaias e tapeçarias.

-- Senhor! -- exclamou o jovem, inclinando-se, respeitoso -- meu nome é Iussuf Abdallah Ben-Nahim. Sou fabricante de móveis no bairro Haiessalã. Tenciono fazer, pela primeira vez, a peregrinação a Meca, e, antes de partir, venho pedir-vos que guardeis em vosso poder os mil e novecentos dinares que este saco encerra. Virei buscá-los quando regressar da cidade santa.

-- Não vivo senão para bem servir os súdidos de meu país. -- respondeu o cádi. -- O dinheiro de um peregrino é sagrado. Saberei, meu bom Iussuf, guarda com religioso cuidado o teu precioso pecúlio.

E, recebendo do peregrino o saco cheio de ouro, foi depositá-lo em um grande cofre que ficava no fundo do salão.

Na madrugada seguinte, Iussuf partiu -- com uma grand caravana -- pela estrada de Hail, em demanda à cidade dos Sete Minaretes.

Três vezes as águas do Eufrates já haviam subido quando Iussuf regressou de sua piedosa peregrinação. O seu primeiro cuidado, ao chegar a Basra, foi procurar o cádi, a fim de reaver o seu precioso dinheiro.

Qual não foi, porém, a sua surpresa quando, ao chegar à presença do poderoso magistrado, tendo declarado o seu nome e o fim de sua visita, dele ouviu as seguintes palavras: 

-- Devo dizer-te, ó peregrino, que seria incapaz de ficar com um dinar que não fosse meu. Alá me livre de praticar semelhante infâmia. Há, porém, meu amigo, um engano lamentável da tua parte. Não te conheço, e, posso jurar, é a primeira vez que ouço o teu nome!


Continua...

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