sexta-feira, 30 de junho de 2017

QUASE revolucionário!


ARNALDO Pacobahyba é um oficial daqueles que começou a carreira militar como sargento. Depois do curso de formação regulamentar no Galeão, mandaram-no permanecer no Rio de Janeiro, lotado nos Afonsos como mecânico de voo de C-47. Nunca foi militar exemplar, um bom soldado; ao contrário, era do tipo contestador e isso lhe custou muitos dissabores. Fazia o básico e o suficiente, mas, resmungão, era considerado indisciplinado por seus superiores, sendo punido várias vezes. Considerava a farda apenas como um mero ganha-pão, com a diferença do uniforme, fazer continência e dizer “sim, senhor” e “não, senhor”. Poderia ser um professor, alfaiate ou motorista de ônibus. Por pouco sua carreira não acabou nos primeiros cinco anos obrigatórios. 

Chegou formalmente a ser excluído, porém, por um cochilo de seus superiores, que deixaram passar um erro administrativo, acabou voltando à Força por meio de uma decisão ministerial. A partir daí, procurou ser mais atento, mais zeloso com a carreira, evitando o confronto direto com os oficiais, comandantes e chefes, aqueles que tinham sobre o praça o dom de vida e de morte, e também a praticar o respeito formal aos suboficiais, seus encarregados. Uma vez reincluído, passou efetivamente a exercer sua especialidade de formação: mecânico de voo. Assim, primeiro voou como mecânico-aluno, depois como mecânico-auxiliar e, finalmente, exercendo a função a bordo de primeiro-mecânico, perfazendo as rotas aéreas costumeiras, primeiro as nacionais e depois as rotas internacionais atribuídas ao seu esquadrão aéreo. Mas, nada de glamour, e por rotas internacionais, em vez de Washington, Londres, Paris, leia-se: Paramaribo, Georgetown e Caiena. Foi num desses voos, já como segundo-sargento antigo, que Arnaldo chegou, involuntariamente, a envolver-se numa espécie de rebelião, uma tentativa de derrubada do governo então instalado, que, caso o episódio tivesse obtido êxito, a historiografia o consideraria hoje como uma revolução. Mas esta só veio oito anos depois.

Era época de carnaval. O novo presidente assumira há duas semana, com um discurso ousado. Em suas promessas de campanha dizia que implantaria a indústria de base no país, e que o Brasil passaria a fabricar automóveis (sim!, mas o Brasil não fabrica hoje nem bicicleta!) e que – olha que absurdo! – mudaria a capital federal para o centro geográfico do país. Um louco!

Para Arnaldo, cuja rotina era indiferente a essas questões políticas, a atividade aérea era um serviço bem prazeroso, mas só nos primeiros dias de missão. Esse trabalho perigoso envolvia transporte de tropa, de carga e missões de apoio ao Exército. Sua aeronave, vez por outra, também transportava civis, quando havia disponibilidade para isso, e não raras vezes religiosos e indígenas pelo interior a dentro. Ele e seus colegas tinham que cuidar de todo o apoio técnico necessário: combustíveis, fonte de força, pesar a carga e passageiros, cuidar do amarramento da carga e equipamentos a bordo, fazer relatórios, relacionar passageiros… Enfim, muita responsabilidade, trabalho duro. Por primeiros dias, entenda-se os primeiros quatro dias. No quinto dia em diante, depois de percorrer o Brasil de sul a norte, pousando em aeródromos precários e destacamentos de pouca estrutura de apoio, a vontade que tinha era uma só: voltar pra casa. O procedimento nesses locais ermos era abastecer o avião com o combustível armazenado em barris, sobrando pouquíssimo tempo para ir ao sanitário e visitar o radiotelegrafista para dar posição da aeronave, repassando dados técnicos de horas de pouso e decolagem, origem, destino.

De volta ao Brasil, depois daquela missão em Georgetown, estavam para pousar no primeiro local minimamente estruturado, por sinal, até sede de Zona Aérea: a provinciana Belém. Essas instalações ainda eram as mesmas deixadas pelos norte-americanos ao término da Guerra. E por estrutura, entendia-se também a existência de rancho organizado, onde podiam os aeronavegantes de então alimentar-se decentemente, além de ser dotada de todo o apoio técnico com sargentos especialistas, e hospedagem. Um feijãozinho com arroz, um frango guisado, tudo bem quentinho, era um luxo nessas missões fora-de-sede longas. O que lhe valia muito eram as diárias que recebia depois de três meses. De trinta dias, permanecia em média em sede apenas seis. Esse dinheiro complementava o magro soldo e com essa diferença aos poucos Arnaldo fazia um pé-de-meia que lhe permitiria, mais tarde, quem sabe dentro de cinco anos, finalmente comprar uma casinha simples, talvez em Marechal ou Campo Grande. 

Ia pensando dessa forma, números e cifras na mente. Primeiro Belém, depois escala em três destacamentos de interior, sertão a dentro, até, finalmente, chegar no dia seguinte à civilização: Rio de Janeiro. Faltava apenas uma jornada com um pernoite. A missão completaria seu décimo dia. Doía-lhe a saudade da esposa, Celina, e dos filhos, o travesso João e a adorável Aninha, cinco e dois anos. Era só suportar mais dois dias.

A reunião de comando prosseguia com o chefe da Intendência a discorrer sobre o último balancete mensal.

Que tenho a ver com esses números? Arnado prossegue em suas reminiscências…

Esses praças especializados, pés em Belém, tomadas as providências técnicas e operacionais necessárias à operação do velho C-47, sobra da guerra, só então puderam seguir destino ao refeitório, onde lhes esperava suculento almoço. O comandante, major P. Vitor, e o segundo piloto, tenente Ezequias, cumprindo o protocolo regulamentar, seguiram direção ao prédio do comando, para apresentar-se ao comandante da Base Aérea. Já haviam almoçado antes no refeitório especial, da época dos norte-americanos construtores da Unidade.

Enquanto caminhavam direção ao local onde o avião estava estacionado, seu colega o jovem Duran cantarolava a marchinha do carnaval desse ano.

“Quem sabe, sabe / Conhece bem / Como é gostoso / Gostar de alguém”


“Saudades do Rio, hein Duran!”, dizia Arnaldo a seu colega mais novo, “Eu também”.

Seus comandantes, fazia mais de hora, que não davam as caras. Teria ocorrido algo?

A ausência prolongada dos dois aviadores somente depois foi explicada. Nesse ínterim, Arnaldo, Duran e Ferreira notavam um movimento excepcional. Sabiam que a Base Aérea de Belém, com seus velhos e guerreiros CA-10 Catalina, que equipavam o 2º Esquadrão de Aviação, exigia um efetivo monstruoso, tanto de militares como de funcionários civis, e estes se incumbiam de funcionar a garagem, a hidráulica, a olaria, a carpintaria, a horta, a pocilga… Um mundo à parte. Ocorre que, além desse movimento intenso de rotina, havia algo de diferente, um mistério que logo se explicaria.

No rancho, em conversa com colegas sargentos de Belém, ficaria sabendo que um major maluco e um capitão tinham roubado um avião. “Roubaram um avião!?”, perguntou escandalizado com tamanha ousadia. “Sim, você não leu os jornais?. Ah, claro, vocês estavam em voo. Saíram dos Afonsos e rumaram Brasil a dentro em direção ao Norte, fazendo três escalas, obrigando o sargento-chefe a lhes abastecer a aeronave, além de danificarem as estações-rádio, até que se aquartelaram num lugarejo chamado Jacareacanga, um fim-de-mundo que fica entre o Pará e o Amazonas.”

O líder era um tal major Veloso, aviador e engenheiro, de cuja figura Arnaldo guardava vaga lembrança dos tempos em que perambulava pelo prédio do Ministério da Aeronáutica, nas salas do Gabinete do Ministro, em busca de convencer as autoridades sobre o erro administrativo de que fora vítima cinco anos antes, que culminara na sua expulsão. 

Dois caminhões aproximaram-se do C-47. Soldados despejavam de seu interior muitos fuzis, caixas de munições e outros apetrechos de campanha. Um tenente de infantaria dirigiu-se a eles com ordem de carregar o avião com o conteúdo tirado dos jipes. Desavisados, ficaram um a olhar o outro, até que o tenente lhes mostra uma mensagem-rádio. Era uma mensagem vinda do Gabinete do Ministro. 

Uma sensação de angústia pairou sobre o espírito de Arnaldo, pois algo lhe dizia antes – e agora tinha certeza – que o seu Rio de Janeiro teria de esperar. Antes disso, tinham notado o movimento de um automóvel de representação, que estacionou em frente ao prédio do comando. Souberam que o carro conduzia o brigadeiro comandante da Zona.

Sim, o brigadeiro Cabral estava lá. Essa era a razão da demora dos dois oficiais, comandante e co-piloto do C-47.

“Rapazes, mudou tudo! Nossa proa não é mais o Sul e sim o Oeste. Não vamos mais ao Rio, mas pra Santarém e outros destacamentos próximos”, confirmou o major P. Vitor o que sua tripulação, resignada, já sabia. 

A aeronave reabastecida, equipada e carregada, decola com a missão de dar combate a Veloso e seus companheiros de ideais. Tropa armada a bordo preparada para ocupar os aeródromos da área, antecipando-se às ações de Veloso.

Algo falava a Arnaldo que isso tudo não acabaria bem. Bem que dizia Celina: “Não tenho bom pressentimento, bem”. “Bobagem, não vai acontecer nada. Esse avião, apesar de velho, é muito bom.” Os acidentes aéreos eram mais frequentes nessa época.


O que ninguém sabia é que o comandante da aeronave, grande amigo de Veloso, não possui a mínima intenção de cumprir o que lhe foi ordenado. Mas não deixou isso claro de imediato. Em cada destacamento secundário, foi deixando os homens e seus equipamentos, conforme fora ordenado. Mal a aeronave pousa em Santarém, ao abrirem a porta, esta é cercada por Veloso, o capitão Lameirão, e o grande combatente Cazuza, todos fortemente armados. A essa altura os ocupantes do C-47 se resumiam apenas à própria tripulação, pois a tropa de infantaria fora distribuída nos destacamentos secundários.

Arnaldo e seus amigos são surpreendidos pela decisão de P. Vitor, que aderiu de imediato aos ideais da revolta, aliando-se aos homens a quem, por dever de ofício, devia combater.

E agora? Como ficava o restante da tripulação?

O co-piloto, tenente Ezequias, negou-se a participar. Arnaldo pensava o que fazer. Teve ímpetos de aderir imediatamente aos ideais da rebelião, sendo ele próprio um rebelde por natureza. O presidente era necessariamente um louco. Onde já se viu algo semelhante: transferir a capital para o meio do nada!

No entanto, a cautela já lhe era amiga e, pensando na esposa, nos pequeninos, nas consequências… E se esse movimento malograr? Responderia a IPM, seria certamente expulso da Força, talvez seria… (talvez não, certamente seria torturado). “Não”, foi a sua resposta seca. Duran seguiria o colega mais antigo, qualquer que tivesse sido a sua decisão. Veloso, que estava próximo, lhe diz então: “Pense melhor, sargento, porque primeiro a gente toma esses aeródromos daqui desta região, mas depois, com certeza, toda a aviação nacional vai aderir, depois o próprio Exército e também a Marinha, forçando esse presidente que está aí a renunciar. Nós é que vamos dar as cartas neste país.” P. Vítor olhava fixamente para o sargento como forma de intimidá-lo, gesto que resultou inócuo. 

Diante da negativa irrevogável, ele e seus colegas ficaram presos em Santarém. Dois dias depois, conseguiram fugir de barco com destino à Belém.

O destino da rebelião, que, depois de duas semanas, foi sufocada por uma tropa de mais de seiscentos homens, tendo à frente o próprio comandante da Primeira Zona, acabou dando razão à decisão de Arnaldo e seus colegas. O líder da rebelião foi preso e transportado para Belém, onde permaneceu preso respondendo a inquérito policial-militar. P. Vitor e os outros voaram no C-47 para a Colômbia.

Mais tarde, Arnaldo, pedindo licença do voo, dedicou-se a preparar-se a concurso para oficial, vindo a formar-se dois anos depois. Foi classificado em Belém, exatamente no cenário onde, anos atrás, esteve involuntariamente envolvido naquela célebre rebelião.

Ia pensando o capitão Pacobahyba nesses fatos marcantes, que testemunhara e participara há quase vinte anos, mas que ainda lhe estavam frescos na memória, enquanto a bendita reunião prosseguia. Escrevia, rabiscava, desenhava no caderno à sua frente. Olha discretamente o relógio de pulso. A torturante reunião caminhava para duas horas… duas horas. (CAPITÃO Valentim, 22jun2017) 

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