segunda-feira, 24 de julho de 2017

MALBA Tahan e seus contos maravilhosos!

A lenda roubada

(Continuação da postagem de 23jul2017)
Ao aproximar-se do muro viu o corpo de um homem caído...

RESPONDEU-ME com a sua irritante displicência estirando as pernas:

-- Com algumas modificações, um colorido mais perfeito na forma, ampliada na sua trama e melhorada no seu desfecho, acrescida de cinco ou seis peripécias, suavizada por pequenas poesias, enriquecida com quinze ou vinte provérbios e algumas citações eruditas, ficará mais ou menos razoável. Cerceada e expungida das nódoas, plebeísmos e lamentáveis senões que a empanam, passará para o rol das "toleráveis".  Assim, como está, semi-nua e abobalhada, pouco vale, é fraca, anêmica e inexpressiva. Poso no entanto, comprá-la para incluí-la (depois de retocada) em meu repertório! Quanto queres pela ideia? 


E tendo proferido tais palavras, o xeique El-Hassina tomou de sua bolsa. Ouvi um suave tilintar de moedas.



Pus-me a pensar. Que fazer? Não estava habituado a vender lendas e negociar com ideias. Aquela proposta deixara-me surpreso.



A noite vinha chegando devagarinho com sua caravana de sombras; no céu lucilavam as primeiras estrelas. A lâmpada de Tarik lampejava a poucos passos de mim.



Vendo-me indeciso, o xeique El-Hassina arvorou um rosto mau e insistiu impaciente, torcendo entre os dedos a ponta do haic

-- Vamos! Resolve logo! Quando queres por essa ideia da lenda esquecida? Estás em dúvida sobre o valor da tua lenda? Esperas algum conselho de tua trôpega inteligência? Convence-te de que ninguém é bastante competente e sensato para se aconselhar a si mesmo.

Já me dispunha a explicar que a "Lenda Esquecida" eu destinara ao xeique Malik, meu amigo e protetor, e que não pretendia negociá-la, quando uma violenta pancada na cabeça atirou-me por terra. O golpe foi tão forte que perdi os sentidos.

Quanto tempo estive ali desacordado junto à fonte de Ziyadat? Não sei. Não chego a calcular.

Quando dei acordo de mim achava-me deitado sobre um largo divã, no meio de uma confortável tenda.

A meu lado, com o rosto inclinado, um ancião fitava-me risonho. Tinha os olhos claros e expressivos, e longas barbas que se derramavam pela brancura da seda.

-- Até que enfim abriu os olhos! -- exclamou dirigindo-se a um jovem que o acompanhava -- louvado seja Alá! O nosso protegido está salvo.

Contou-me o bondoso ancião que ao regressar de madrugada de uma viagem, em companhia dos filhos, parara junto à fonte de Ziyadat, onde pretendia fazer suas abluções. Ao aproximar-se do muro viu o corpo de um homem caído numa vala. "Está ferido", disse um dos rapazes. "Pois é nosso dever socorrê-lo imediatamente", declarou o velho, "Vamos levá-lo para a nossa tenda!"

Puseram-me num camelo, prenderam-me com cordas e levaram-me, na mesma hora, para a tenda do ancião. Fui aí socorrido e carinhosamente tratado. 

O bondoso Soraidj (assim se chamava o dono da tenda) interrogou-me sobre os motivos que me levaram a envolver-me numa rixa com caravaneiros do deserto.

-- Não me envolvi em rixa alguma -- expliquei. E contei-lhe, com todos os pormenores, a minha aventura com os dois sacripantas junto à fonte de Ziyadat.

-- Foi então um roubo! Um verdadeiro saque! -- comentou o sábio.

-- Roubo, não! -- protestei levantando a voz -- Foi apenas uma agressão estúpida! De mim não roubaram nada! Não trazia comigo um único dinar! 

-- Estás engando -- contraveio o judicioso Soraidj -- Roubaram-te coisa mais preciosa do que o ouro. Roubaram-te uma ideia! Aquele miserável  Tarik, cúmplice do indigno El-Hassina, abateu-te naquele momento com intenção criminosa. Ficaste abandonado na estada enquanto os dois ladrões iam oferecer ao xeique a tua "Lenda Esquecida". Mas esse crime não ficará impune. Farei com que o nosso governador seja informado desse atentado e castigue os dois infames salteadores de estrada. Atacam covardemente um pobre viajante para roubar uma lenda. Que torpeza!

E, depois de meditar alguns instantes, o digno ulemá ajuntou austeramente:

-- Não te preocupes, meu amigo, com esse caso. A tua "Lenda Esquecida" mudou apenas de título. Passou a ser agora a "A Lenda Roubada"! E os culpados serão punidos.

-- Sinto discordar de vossa opinião -- repliquei -- Não quero que El-Hassina e o tipo de barba roxa sofram a menor contrariedade. Deve-se ser inexorável com o pecado, porém humano com o pecador. Sou muito grato a esses homens pelos três grandes e inolvidáveis serviços que prestaram.

-- Como assim? -- estranhou o sábio -- Que serviços foram esses?

Respondi:

-- Primeiro: por causa da pancada brutal que sofri tive a honra de ser recebido em vossa tenda e ser vosso hóspede. Segundo: resultou da referida agressão um capítulo trágico, que veio a tornar viva e emocionante uma lenda que era apenas curiosa. Terceiro: em consequência do golpe na cabeça, desferido com violência, recuperei a memória perdida. Sinto-me, portanto, capaz de narrar, do princípio ao fim, a famosa "Lenda Esquecida".

-- Que maravilha! -- exclamou o ancião com um sorriso largo e reconfortante -- Conta-nos essa história assombrosa, pois ela, decerto, encerra episódios emocionantes que educam pelo exemplo e instruem pela experiência! Vou chamar meus filhos e amigos. Todos nós ouviremos com prazer essa bela narrativa. 

E, para atender ao pedido daquele homem bondoso, que me havia salvo a vida, contei a mais prodigiosa lenda até hoje aparecida pelos mundos sem fim da fantasia.
Malba Tahan
Essa lenda, bem digna de ser escrita com letras de rubi nas sagradas colunas de Omm-el-Quora, é a seguinte: 

Continua...



domingo, 23 de julho de 2017

MALBA Tahan e seus contos maravilhosos!

A lenda esquecida


IA EU, naquela tarde, quase a correr em demanda do palácio do xeique Malik Balbud, um dos homens mais generosos da Pérsia. Era a hora do por-do-sol. O céu, para os lados do poente, aparecia abaçanado por nuvens de cor de chumbo. Camponeses com foices e cestos ao ombro iam tornando, vagarosos, para os seus casebres. Pastores e cameleiros deambulavam em busca de rebanhos. Ao passar pela fonte de Ziyadat divisei dois viandantes sentados à margem da estrada. Não me pareceram beduínos de baixa classe; pareceram-me, antes, pessoas da mais fina e culta sociedade. Um deles trazia, presa ao ombro, uma capa ricamente bordada. Os olhos eram muitos vivos e a expressão do rosto trigueiro infundia simpatia. Quanto ao outro, pareceu-me um tipo mal-encarado. Ostentava uma barba de um vermelho escuro, quase roxo. Era alto, corpulento e mantinha a seu lado uma pesada mal de couro. Desagradou-me o seu olhar oblíquo e mau. Observei que estavam ambos prevenidos com magníficas lanternas de óleo.

O homem da barba cor de vinho ergueu-se pesadamente e veio bamboleante ao meu encontro. O outro (que me pareceu mais moço) deixou-se ficar sentado, as pernas cruzadas e o corpo reclinado sobre o muro da fonte.

-- Amigo! -- disse o barba-roxa inclinando-se num rápido salã -- poderás dizer-nos onde fica a soberba residência do xeique Malik Balbud?

-- Estás com muita sorte, ó irmão dos árabes! -- respondei com bom humor -- É para lá exatamente que eu vou. Posso conduzir-vos sem dificuldades ao palácio de Malik. Seguiremos por esta estrada até à porta de Iklil; aí chegando, tomaremos para a esquerda. A casa do generoso xeique Malik, com seu pavilhão torreado, é a terceira depois da mesquita de Otmã. 

O tipo que me interpelara voltou-se para o companheiro, respirou fortemente e, depois de um silêncio, comentou num gesto admirativo:

-- Estás ouvindo? Era precisamente o que eu supunha: à esquerda de Iklil, a terceira vivenda depois da mesquita! Confere!

E acrescentou, com sobranceria, impertinente, distilando as palavras:

-- Mas o que irá fazer esse sevandija, com seu turbante sujo e mal arranjado, à casa do xeique Malik? Sempre julguei que o nobre islamita selecionasse, com certo cuidado e finura, aqueles que deveriam compartilhar de sua mesa e amizade!

Confesso que não gostei. A insinuação era grosseira. Repliquei, pois, rijamente, com um acento amargo de despeito:

-- Vou ao palácio de Iklil a convite do próprio xeique Malik Balbud. Esse príncipe deseja que eu proporcione alguns momentos de alegria a seus convidados narrando-lhes uma lenda original, de enredo emocionante.

Ao ouvir aquelas palavras, o homem da barba roxa expandiu-se numa casquinada.

-- Pelo túmulo de Mafoma! -- chalaceou fitando-me com ar de soberano desprezao -- Pelo nome de Alá! Que ingenuidade!

-- Ingenuidade? -- estranhei asperamente -- Por que?

-- Ora -- tornou o desconhecido com um riso de escarninho -- não sabes então que aquele jovem (e apontou para o companheiro que ficara recostado ao muro) é um dos mais notáveis contadores de história do mundo? Já ouviste falar no célebre Abul-Isak Ibn El-Hassina, apelidado "O Eloquente"? Ei-lo! Ali está, modestamente sentado, emprestando sua celebridade a este lugar, um dos vultos mais gloriosos do Islã, o famoso e tão elogiado Abul-Isak Ibn El-Hassina!

E com as mãos na cintura, numa atitude petulante, o grosseirão interpelou-me, com voz pastosa e grossa, olhando-me de mau cenho da cabeça aos pés.

-- E pretendes tu ainda, ó mísero cameleiro fanfarrão, competir em lendas, fábulas, contos e fantasias com Abul Isak Ibn El-Hassina, a maior notabilidade da Pérsia? Desiste dessa insensatez! Volta para a tua choça, põe-te a roer a tua rosca, pois uma verdadeira glória -- um autêntico xeique el-Medah, o inigualável Abul Isak Ibn El-Hassina, -- surgiu diante de ti! Hoje, no palácio do generoso Malik, só ele (e apontou outra vez para o jovem), só ele, o talentoso Abul Isak Ibn El-Hassina, repito, é que irá deliciar os presentes com suas maravilhosas e surpreendentes narrativas.

Aquelas arrogantes palavras e a insistência atrevida com que repetia o nome do companheiro deixaram-me estarrecido.

-- Em parte tens razão, meu caro Tarik, -- observou o jovem El-Hassina intervindo no caso com displicência -- até certo ponto as tuas considerações são justas, oportunas e aceitáveis. Esse bom caravaneiro (e torceu para o meu lado o polegar da mão esquerda) não poderá competir com um profissional de minha força, do meu talento e prestígio. Ele será o primeiro a reconhecer as múltiplas e ponderáveis razões que o impossibilitam de figurar, a meu lado, num torneio de narrativas. Conheço milhares de lendas, histórias encantadas em prosa e verso; fábulas edificantes com desfechos e ensinamentos admiráveis; alegorias prodigiosas; parábolas impressionantes; jogos; enigmas; poemas comovedores. Sou capaz de distrair um auditório de príncipes; tenho recursos para prender a atenção de uma assembleia de sábios; disponho de artifícios e anedotas que farão rir uma multidão de cameleiros ignorantes e entorpecidos. Já tenho tomado parte em dezenas de torneios concorrendo com os maiores narradores do mundo e não topei, até hoje, com um só que fosse capaz de me igualar e, muitos menos, me sobrepujar. Todos os prêmios, nesse memoráveis torneios, foram conquistados sem dificuldades por mim!

O vaidoso xeique fez, nesse ponto, uma pequena pausa. Ergueu, depois, ligeiramente o busto e prosseguiu sentencioso, entufado de vaidade:

-- Tudo isso, ó Tarik, é pura expressão da verdade. Mas o mundo é cheio de surpresas que afrontam a evidência. O que o homem sabe é pouco; o que deseja saber é muito, e o que nunca chegará a saber é infinito. Uma formiguinha tonta, arrastada pela correnteza, é capaz de vencer um elefante bravio. Inocente criancinha, a brincar na praia, saltando na areia, seria capaz de acordar uma baleia surda que estivesse a dormir no fundo do mar. Há casos verídicos que se inscrevem na História com as tintas do inacreditável. Quem sabe se um desses episódios incríveis não se prepara agora, nesta curva da estrada, ao lado desta tranquila fonte, diante de nós? Quem sabe se esse modesto caravaneiro (outra vez indicou-me com o polegar), que o capricho do destino trouxe ao nosso encontro, não é sabedor de uma história, assombrosamente perfeita, capaz de ofuscar, com seu brilho, todas as lendas que formam o meu vasto e precioso repertório?!

Sorri orgulhoso para o jovem El-Hassina e aventurei compenetrado, afetando grande franqueza:

-- Posso garantir, ó xeique El-Medah, que a história que pretendo contar, esta noite, aos convidados do nobre Malik, envolve os episódios mais curiosos de minha vida. Resume a narrativa de caso verídico, ocorrido há pouco na tenda de um mercador.

-- E que título darias a essa história? -- indagou El-Hassina fitando-me com curiosidade e fazendo um ligeiro trejeito com a cabeça.

Senti-me envaidecido por merecer a atenção daquele homem ilustre e respondi sem hesitar:

-- " Lenda Esquecida"!

-- Como título -- desdenhou o jovem com a desenvoltura de uma criança -- como título (repito) não é dos piores. Uma pessoa pouco avisada ou inculta poderá chegar ao extremo de julgá-lo original. Pois bem, façamos uma combinação. Contarás, agora mesmo, diante de mim e de meu fiel ajudante Tarik a tua singular "Lenda Esquecida". Se essa lenda, pela forma, ideia e ensinamentos que envolve, for realmente digna de um príncipe, eu me darei por vencido. Desistirei de comparecer, nesta noite, ao palácio de Malik Balbud. Tenho tanto mérito que não ponho em dúvida reconhecer e proclamar o mérito alheio. Irás sozinho e todos os ambicionados prêmios serão teus. Se, ao contrário, tua lenda for fraca, sediça, pueril e sem interesse, incapaz de emocionar um auditório seleto, preferível será que voltes para a tua mansarda. Receberás de mim, a título de auxílio, a quantia de dez dinares. Aceitas esta proposta?

-- Aceito -- confirmei embaraçado por invencível timidez.

-- Conta-nos, pois, a "Lenda Esquecida". Antes de ouvi-la não será possível julgá-la.

Tarik, o homem da barba roxa, bateu com força os isqueiros e acendeu uma das lanternas. Sentei-me na pedra, junto à fonte e iniciei a narrativa. Contei minuciosamente aos dois viajantes o episódio da lenda esquecida sem nada ocultar. Recordei, de início, a minha corrida pela estrada, o amistoso convite para a ceia, o receito de ser traído pela minha desbotada memória, descrevi as figuras que eu mesmo gravara na árvore para que pudesse, em qualquer momento, recordar-me do enredo que inventara. Falei-lhes da minha angústia ao verificar que não podia mais interpretar a legenda e da singular lembrança que, logo depois, os símbolos intraduzíveis sugeriram, dando origem a uma nova lenda em torno da lenda esquecida.

El-Hassina e seu companheiro de barba roxa ouviram em silêncio a minha narrativa. Tive a certeza de que a lenda esquecida lhes causara ótima impressão. Aguardei com serenidade a decisão do contador de histórias. Teria o pretensioso xeique encontrado algum mérito na lenda que ele próprio fizera empenho em ouvir?

Para arrancá-lo do silêncio, interpelei-o com um leve tom de ironia:

-- Iallah! Qual é a sua notável e definitiva opinião sobre a "Lenda Esquecida"?



quarta-feira, 19 de julho de 2017

DONA Sizenanda!

“ALÔ!…

Dona Sizenanda!? Desculpe a demora em atender…
Em que tenho a honra de servi-la?…
Brigadeiro quem?!…
Não, nunca ouvi falar…
Sei… Não entendi, dona Sizenanda, onde entro…
Ainda não entendi…
Se puder ajudar…
No rancho…
Compreendo. Vou procurar o tenente. Fico honrado com a lembrança do meu nome, dona Sizenanda. Mas veja que não sou nenhum Machado de Assis…
De nada.”

Sizenanda Tabosa de Oliveira, a secretária do comandante da base aérea, com seu metro e setenta de altura, embora já passada dos quarenta, ainda é o que se chama de “mulher bonita”. Aquele corpo esbelto, pernas torneadas, silhueta insinuante, cabelos soltos até à altura dos ombros ou mesmo presos davam a ela uma condição peculiar própria de mulheres cuja idade é muito difícil de ser definida. Completando seus encantos, os óculos de grau sobre os olhos esverdeados lhe dão um ar de mulher intelectual, quando em outras constituem desvantagem. Também, mas não só, por esses atributos era cobiçada pelos homens e invejada pelas mulheres.

Alguns poderiam lhe dar trinta e cinco, outros quarenta, quarenta e cinco ou até mais anos de idade. Sua idade real? Esse era um segredo muito bem guardado que ninguém se atrevia a perguntar, e o pessoal da seção de pessoal civil nada sabia de oficial sobre ela, pois pertencia ao quadro de pessoal do comando aéreo, que a movimentou de forma não oficial para a unidade em que se encontra há doze anos. Sua ficha de identificação, para os curiosos, bisbilhoteiros e fofoqueiros que existem em todo canto, não estava em arquivo.

Somente nos últimos cinco anos estava a serviço do comandante da unidade. Antes, emprestava seus serviços (e sua graça) ao esquadrão de pessoal. Por essa época, o capitão Pacobahyba, ainda como primeiro-tenente, era o chefe do setor, de forma que ambos já são velhos conhecidos.

Havia nesse tempo um datilógrafo, o cabo Carvalho. Ocorria que, por duas ou três vezes, Carvalho foi ao esquadrão de pessoal e entrou na sala do chefe para perguntar alguma coisa, tirar uma dúvida ou deixar um recado. Sizenanda, que nessa época se ocupava de processos de medalha, também estava lá. Nessas raras ocasiões, a título de gozação, ele, gozador, vinha com esta:

“Você, Carvalho, por acaso não é compositor de samba?” Como o cabo Carvalho ficava sem resposta diante da inusitada pergunta, ele continuava: “Por que estão cantando teu samba, sem tua autorização”. E, batucando na mesa, cantava um samba de duplo sentido:

Esse samba é do Carvalho
Não te metas nesse embrulho
Tás cantando um samba de outro, dizendo que é teu
Tás querendo achar barulho
(Esse samba de quem é?)
Esse samba é do Carvalho…

De soslaio, notava um sorriso no rosto de Dona Sizenanda. Ficou satisfeito com o resultado.

Agora, Pacobayba, quando chega para os despachos de rotina com o comandante, sempre lhe indaga com um sorriso cordial: “O mar está, ou não está, pra peixe, dona Sizenanda?”. Era uma forma sutil de ganhar um sorriso da bela secretária e antiga amiga., que o fazia de forma cordial — e não de maneira insinuante — à pergunta que o oficial lhe fazia e que não exigia resposta. Outra vez lhe disse o capitão, com o olhar na parede que ficava às costas da secretária: “Sabe, dona Sizenanda, esses dois quadros aí?” — e não esperava resposta. –“Um é uma paisagem noturna e outro retrata o dia, sol, um lindo campo, riacho, uma maravilha. Pois esta segunda paisagem bem indica quando a gente entra na sala do homem, e o outro quadro representa a situação de quando a gente sai do recinto”. E dona Sizenanda sorria às anedotas do capitão. “Ganhei o dia”, pensava de si para si o oficial.

Mas essa concessão era para poucos, contados nos dedos de uma só mão.

A competente secretária era assim, um amor de pessoa e a eficiência em ação. As aparências, entretanto, enganavam os incautos e qualquer indício de gracejo masculino era reprimido com firmeza, deixando sem chão o galanteador temerário. Se o infeliz insistisse na graça, o caso poderia chegar aos ouvidos do zero-um, e o tal nunca mais se ajeitava, isso se não fosse severamente punido disciplinarmente. O fato é que nunca ninguém chegou a tal ponto.

Logo terminada a reunião, o comandante pede a dona Sizenanda que localize o tenente Paolo, que, por dar expediente no mesmo prédio, em cinco ou seis minutos estava lá. Que chamasse também o major Hipólito.

Que queria o coronel Horário com o tenente intendente mais moderno da unidade?

A um olhar de dona Sizenanda, o jovem oficial, saindo do gabinete do comandante, lhe satisfaz a curiosidade: “Brigadeiro Viana Calmon, a senhora já ouviu falar?”. A secretária diz que não com um movimento de cabeça. “Esse brigadeiro vem a Belém hoje. Pernoita e amanhã vai haver um almoço festivo em sua homenagem. Coronel Horário mandou que eu lhe faça um discurso”

Experiente, a secretária percebe que havia ali um pedido de ajuda. Dona Sizenanda, assim que o tenente sai, pega o aparelho telefônico e disca um número de três algarismos.

Finalmente alguém atende.

“Alô, capitão Pacobahyba, bom dia. É a dona Sizenanda…
Não, não há problema, capitão…
Capitão, vou direto ao assunto. O brigadeiro Viana Calmon está vindo amanhã de visita a esta base…
Viana Calmon!…
Esse brigadeiro, pelo que pude saber, serve num comando com sede no Rio. Apurei que sempre serviu na área do Rio e de São Paulo. Nunca esteve por aqui. Agora, está indo para a inatividade, e resolveu viajar pelo Nordeste e Norte para conhecer essas regiões…
Ocorre que o comandante escalou o oficial mais moderno da unidade, que é justamente o tenente Paolo, para fazer um discurso em homenagem a essa autoridade…
É que ele (coitado!) não acha palavras e – bem – eu pensei…, pensei que o senhor pudesse ajudar. O senhor escreve tão bem, capitão…
O senhor não espere que ele vá lhe procurar. É muito tímido. Peço que o senhor o procure. Pode ser no rancho, agora pelo horário de almoço…
Sim, no rancho. O homem chega hoje à noite e amanhã o comandante deve homenageá-lo com um almoço festivo no rancho, nessa ocasião o tenente Paolo vai fazer o discurso, o comandante do grupo de comando vai entregar uma placa e essas coisas, como é toda vez que vem alguma autoridade de lá…
Muito obrigada, capitão!”

E no horário de almoço, o capitão Pacobahyba combina as ações com o tenente Paolo. Este, em princípio sem entender como é que surge do nada essa ajuda. Sabia que fora escalado por ser o mais moderno, do mesmo quadro que o brigadeiro. Sim, era uma homenagem, mas não entendia se era, ou não era, merecida. Bem, o comandante devia ter lá suas razões. Na verdade, esse tal brigadeiro, Calmon Viana, nunca nem servira na localidade, sempre serviu no eixo Rio-São Paulo, mas agora, como despedida, resolve saber como é a Força no Nordeste e no Norte do país.

Por orientação de Pacobahyba, ele e a dona Sizenanda entram em contato com a secretária desse brigadeiro, procurando saber dados que embasem o discurso. Quando se formou, onde serviu, comendas, quais os cargos mais relevantes…
(CAPITÃO Valentim em 11jul2017)

sexta-feira, 14 de julho de 2017

MEMÓRIAS azulinas!

O clássico da sobrevivência: O dia em que o Leão rebaixou o Paysandú



Rocildo Oliveira, via Facebook

O CLÁSSICO da sobrevivência movimentou a cidade naquela já distante semana de outubro de 1989. Acusações de tentativa de suborno, por parte do atacante Rildon contra o diretor listrado Israel Vasconcelos, apimentou mais ainda o clima de rivalidade na morena Belém do Pará. 

Ao Remo, do tranquilo e competente Carlinhos Silva, o empate já bastaria, já para o bicolor, do irrequieto Givanildo Oliveira, um outro resultado que não fosse a vitória levaria o listrado paraense para o limbo do futebol brasileiro, para a terceira, para a última divisão do futebol nacional.

E naquele domingo, 29out1989, lá estávamos a compor aquela multidão de 33.487 torcedores, que se dividiam entre a certeza da vitória e a sequência na competição ou a dúvida da derrota e o primeiro rebaixamento para terceira divisão do brasileiro de Clubes. Edimilson, o grilo, uma das muitas revelações azulinas, marcou primeiro e fez explodir o povo de azul marinho, que na arquibancada daquele gigante de concreto cantava e, a cada minuto ia tendo a certeza que outras tardes de domingo viriam, que o sonho de conquistar o Brasil permanecia mais vivo do que nunca. Essa alegria contrastava com a melancolia do lado alvi-celeste, que viu ainda o seu time, através do zagueiro Eduardo, empatar o jogo, e acender a esperança de uma recuperação que não veio.

E quando Jerônimo Alves, árbitro goiano, assinalou o final da partida, uma alegria infinda tomou conta da entusiasta massa azulina, que vibrava com a passagem do Mais Querido para a fase seguinte da competição. Do outro lado, choro e sofrimento marcavam a passagem do arquirrival  para a terceira divisão do futebol brasileiro.

Inesquecível!!

Diretor do rival listrado tentando subornar jogador ou árbitro não chega a ser novidade. 

terça-feira, 11 de julho de 2017

A INVENÇÃO do camelo!

NO MOMENTO em que o comandante entra na sala de reunião, e, a oficialidade ali representada fica em pé, posição de sentido, o subcomandante faz a apresentação regulamentar.

Geralmente mais sisudo, nessa ocasião em particular era visível a figura do coronel um tanto mais bem-humorada, risonho até. Ao iniciar, porém, deixou claro a todos que a presença deles no recinto se estenderia um pouco além. “Já pedi ao chefe do Rancho que mande um taifeiro servir cafezinho e água. Deve trazer também bolachas”, disse, bonachão. Para um bom entendedor, meia palavra basta. Era como quem diz: “não tenham pressa.”.

Começando os trabalhos, fazia um relato de tudo o quanto havia ocorrido de importante nos últimos dois ou três dias. Logo em seguida, o oficial mais moderno lia a ata da última reunião.

Como é natural, sua confortável poltrona fica à cabeceira da longa mesa. Na poltrona imediata à sua direita, se posiciona o subcomandante, tenente-coronel Dacildo, enquanto a da esquerda, vaga, era reservada ao próximo oficial a ser sabatinado e, que, eventualmente, também tenha assuntos imediatos a tratar com o comandante, desde que não fosse sigiloso.

Nesse dia, o próprio comandante, quebrando a rotina que ele mesmo havia definido, principiou-se a elogiar a postura do tenente Barreto. Esse oficial subalterno, quando de serviço de oficial-de-dia, comandou meia-volta volver na guarnição de serviço, que normalmente ficava formada no pátio da bandeira em frente ao prédio do comando. Com isso, os sargentos, cabos e soldados ali escalados ficaram de frente para a sombra, e não contra o sol, como usualmente se perfilavam. Nesse instante, coronel Horácio estava em seu gabinete, a observar a postura do oficial e da tropa pela janela principal. “O verdadeiro comandante é aquele que cuida do bem-estar da tropa. E essa qualidade eu constatei na atitude do tenente Barreto. Que o comandante dele, aqui presente, retransmita ao seu subordinado as minhas palavras”.

Todos aprovaram tanto a atitude do tenente quanto as palavras elogiosas, raras, por sinal, do comandante, o coronel Horácio. Louvado seja!

De fato, o comandante, excepcionalmente, estava de bom-humor. Haveria alguma explicação para isso? Alguma boa notícia, talvez?

Logo em seguida o primeiro oficial, o mais antigo após o subcomandante, tomou assento à cadeira à esquerda, junto ao comandante.

O primeiro a tratar foi o major Hipólito, do grupo de comando. Após os cumprimentos iniciais deste oficial, entrega a coronel Horácio um ofício para sua apreciação e chancela. O comandante, sem ao menos referir-se ao mérito, devolve-o, enfatizando sobre o uso correto da pontuação. “Não faça como aquele item de material, que me trouxeram para inclusão na carga da Unidade, que saiu assim: ‘Cadeira para datilógrafo sem braços’. Ora, como o datilógrafo iria exercer seu ofício? Com os dedos dos pés? Cadê a vírgula, meu filho”.

Todos se olham discretamente. Ora, se era assim com o major Hipólito, um major antigo quase tenente-coronel, e – pior! – na presença de gente mais moderna, imagina com os demais, reles mortais! Esse era o Horácio de sempre.

De doze oficiais chefes de grupos e esquadrões, o capitão Arnaldo Pacobahyba seria o antepenúltimo a despachar, vez que a ordem de despachos seguia a sequência hierárquica. Havia apenas dois mais modernos que Arnaldo. O bloco de rascunho, que a secretária, a competente dona Sizenanda, havia posto em sua frente, assim como nos demais lugares destinados a todos os demais oficiais, teria boa utilidade.

Este oficial, o capitão Pacobahyba, quando obrigado a ouvir, se o assunto não lhe dizia muito, se pegava a rabiscar, desenhar alguma coisa, já que era dotado de dons artísticos, mas uma parte de seu cérebro continuava atenta ao que se passava. Assim, em caso de emergência, ou seja, uma pergunta ou questionamento, Pacobahyba imediatamente respondia ou comentava, mostrando que não estava desatento às palavras de seu comandante ou de seus colegas ali presentes. Os colegas de sua esquerda e da direita se acumpliciavam tacitamente do pequeno delito do colega.

Seguia a reunião. Geralmente, era permitido a cada um deles opinar sobre que se estava tratando no momento. Embora sabendo que o comandante previamente já tinha opinião formada sobre quase tudo, e que, dificilmente, acataria a quem pensasse diferente, sempre, ao menos um, pedindo permissão, dizia algo, que fosse complementando ou mesmo questionando o sabatinado da vez.

“Perda de tempo”, pensava de si para si o capitão Arnaldo Pacobahyba, “isso só prolonga mais o sofrimento”.

O que se discutia agora? Ah sim. Transferência interna do funcionário Calixto Wilson, depois de vinte anos lotado na seção de cópias. Abrira uma vaga na tesouraria, vez que um antigo sacador fora descoberto em uso de fraude, sendo, após inquérito administrativo, excluído a bem do serviço público. Na opinião do capitão Pacobahyba, esse assunto não era para ser discutido em reunião, bastando um simples despacho do chefe de Pessoal com o próprio comandante. Ocorre que, querendo parecer democrático, Horácio leva o assunto para discussão, pedindo o parecer a cada um dos participantes. Havia ali um propósito oculto, próprio dele, e era exatamente estudar a fala e o que pensa cada um de seus oficiais. Falavam até que, logo após a saída deles, o comandante pegava um caderninho da gaveta e fazia as suas anotações, em geral, registrando observações negativas.

Por unanimidade, a movimentação interna de Calixto Wilson foi aprovada. Ainda que houvesse opinião contrária, era preferível aprovar de pronto um assunto banal como esse somente para não prolongar o suplício de todos. Ele próprio, contrariando o seu pensamento de que time que está ganhando não se mexe, acabou por concordar. Seria o único voto vencido e ficaria exposto às anotações desfavoráveis do comandante, por essa razão o melhor mesmo era não contrariar o que – sabia – já estava decidido pela autoridade máxima ali presente.

O animal, que Arnaldo Pacobahyba rascunhava no caderno, ia tomando forma. Pensaria no que desenhar na folha seguinte do bloco depois de concluído o rascunho de que se ocupava.

Chegando a sua vez, apresentou um relatório com o movimento de saída e entrada de itens que haviam sido enviados a outras unidades, por transferência, ou recebidos dos órgãos técnicos centrais. Nenhum comentário adicional era necessário, julgava. Perguntado se tinha outro assunto a discutir, respondia simplesmente: “Nada mais, senhor”. Devia ter as suas razões para pouca conversa e nenhum sorriso.

Finalmente encerrada a tal reunião de máxima importância, mal aberta a porta e alguns se encaminham, quase correndo, à toalete. Alguns nem conseguiam chegar lá, eis que vinham se prendendo na sala. Outros, mais jovens, acendiam um cigarro. Lafaiete, um capitão bem humorado, aludiu a uma boa e gelada cerveja para alegrar o ambiente, depois daquela bela dose de tortura psicológica.

O capitão Pacobahyba, de volta, agora sobe a passos largos a escada que dá para a chefia da Seção de Suprimento Técnico.

O comandante, coronel Horácio, costumava reunir com seus principais oficiais duas vezes por semana. Para que tanta reunião, meu Deus? Deixou em cima de sua mesa o bloco, o tal bloco da reunião. Não obstante o conteúdo do bloco, era um oficial cônscio de suas obrigações. No entanto, o tal bloco continha apenas rabiscos sem sentido e desenhos toscos, e no caso desse dia era justamente o camelo. Pacobahyba, para matar o tempo, fazia quando o desenrolar da reunião não lhe queria dizer coisa alguma. Fazer o quê? Não concordava com muita coisa do que era discutido e decidido, mas já estava na Força há tempo para saber que de nada adiantava suas ponderações quando, de fato, as decisões já estavam tomadas na cabeça do comandante. Conhecia o vaidoso comandante, e qualquer palavra a mais que não fosse um “sim, senhor” poderia ser considerada como indisciplina ou, pior, insubordinação. Ele, o comandante, trazia, desde que era tenente, o espírito envenenado pela carreira, que seguia de forma obstinada; primeiro queria ser capitão; uma vez nesse posto, almejava a promoção a major; quando acostumado ao tratamento diferenciado que a tropa dispensava a oficial superior, todos os seus movimentos foram em direção à patente de tenente-coronel; e uma vez coronel, ambicionava voltar à base aérea para comandá-la, sabendo ser esse cargo essencial para o prosseguimento da carreira. Assumindo como titular da base aérea, todas as suas ações, desde o primeiro dia no comando, voltam-se para o primeiro posto de oficial-general, as cobiçadas estrelas. As duas — e por vezes três reuniões semanais, incluindo até o sábado — faziam parte dessa estratégia, ainda que (todos sabiam disso) tinham também por fim mostrar toda a sua autoridade, ainda que tiranizando os oficiais, ao mesmo tempo em que afagava a tropa. Como acréscimo, determinou formatura geral diária, e não só uma por semana como antes. Essa solenidade iniciaria o expediente; depois, formaturas internas em cada grupo e esquadrão no início da parte vespertina e outra ao final do expediente, às cinco da tarde. “Sabem o camelo”, costuma dizer o velho capitão como anedota, “o camelo, todo feio, é fruto de uma reunião, ao passo que o cavalo, todo certinho, todo bonito, foi feito por conta da espontaneidade”. Pacobahyba contava essa anedota toda as vezes que a paciência já estava por um fio. E nesse dia, a anedota vinha acompanhada da respectiva ilustração material, que desenhara no bloco.

Queixava-se no íntimo também de seus colegas oficiais. São uns bajuladores, em sua maioria, isso é que são. E, em sua mente, passavam a desfilar um a um deles. Mas sua insatisfação era maior para consigo mesmo, porque, afinal de contas, tantas vezes dizia “sim” quando na verdade queria dizer “não”, entrava no gabinete de comando com uma ideia e saia com as ideias e decisões do comandante. Era sempre assim. Por isso, insatisfeito com a vida que levava, até que a bendita promoção chegue. Teria ainda que realizar o curso de aperfeiçoamento, por essa razão pisava em ovos.

Toca o telefone e ele deixou que tocasse até que desistisse. Estava velho e cansado.

Considerava-se antigo, já tendo, na verdade atingido o tempo que lhe permitia pedir transferência para a reserva, a tão sonhada aposentadoria. No entanto, essa decisão pessoal, que lhe daria mais tempo para descansar, divertir-se ao lado da família e usufruir finalmente a vida, estava no momento fora de seus planos vindouros, ao menos nos próximos três, quatro anos. Um de seus erros era ter feito concurso para oficial muito tarde. Agora, tinha de agir com a razão e não com a emoção. Já que esperou até agora, teria que ir levando em banho-maria aquela pesada rotina até ser promovido ao posto de major e, uma vez major, sim, aí poria em prática a decisão de finalmente aposentar-se. E aí, adeus base aérea, adeus seção de suprimento e seus velhos problemas. Adeus, povo escamão e enrolão que mal se incumbia do básico, incluindo aí – e principalmente – seus próprios auxiliares, alguns dos responsáveis pelo seu problema de úlcera. Esse pessoal aí — e olhava para baixo pela vidraça — contribuía também para seus grandes aborrecimentos e frustrações. Mas, para não se aborrecer, o oficial é obrigado a fingir que não vê e ao final dá por tudo feito e satisfatório. Fazer vistas grossas, empurrar com a barriga e pisar em ovos passou a ser a sua rotina, e isso tudo não lhe deixa satisfeito. Oh promoção que não chega!

Ignora, por instantes, o telefone que toca…

Olha novamente pela janela de vidro e vê lá embaixo alguns de seus auxiliares. Gentil, primeiro-sargento, metido a escritor, mas um escritor fracassado; Olegário Mariano, segundo-sargento, bajulador de primeira e malandro por excelência; Juvêncio Longo, suboficial, e seu eterno problema conjugal que finge desconhecer; Zuleiko…, bem Zuleiko até que não compromete, exceto pela sua condição toda especial, o seu jeito afetado… deixa pra lá; e João Pereira, terceiro-sargento já antigo, esse — coitado! — muito trabalhador, é verdade, uma exceção à regra geral do setor, embora o excesso de trabalho tenha por fim esconder um grande drama familiar que o atormenta há alguns anos… Bem! Paciência, pelo menos esse trabalhava por si e pelos outros. Havia ainda mais dois cabos e um soldado. Essa era a sua equipe até um mês atrás.

E eis que lhe chega Florindo há quase trinta dias. Sangue novo, alguém disposto a arregaçar as mangas. Esperanças de melhoras, enfim. E é exatamente ele agora que se aproxima da sala. Esse novinho, recém-formado, somando a João Pereira, é promessa de bom trabalho e mais empenho, garantindo a eficiência do setor, apesar dos outros. Ele nem ao menos suspeita que virá a carregar, juntamente com o colega e os dois cabos e um soldado, nas costas o setor chefiado por Pacobahyba.

O subalterno bateu à porta e, sob uma palavra de autorização, entra no recinto. Perfila-se imediatamente com um bom-dia, posição de sentido e uma continência padronizada.

— Sargento Florindo apresenta-se, senhor capitão!

O telefone toca pela terceira vez. Deve ser importante.

O capitão, fazendo um sinal e apontando a cadeira à frente de sua mesa, pede a Florindo que sente, enquanto ele tira o fone do gancho. (CAPITÃO Valentim em 29jun2017)

segunda-feira, 10 de julho de 2017

ESTOU lendo este livro!


GRANDE iniciativa de Mauro Tavernard, que é sobrinho-bisneto do eterno poeta azulino Antonio Tavernard, autor do hino do Clube do Remo. O jornalista traz ao conhecimento das novas gerações a história da maior lenda azulina: o grande Alcino Neves dos Santos Filho, o Alcinão da Portela, o Negão Motora, o Gigante Alcino... 

... o maior centroavante que o Norte já conheceu.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

EM REDE social jornalista da Globo faz denúncia



Sérgio Serra, ex-presidente do Paysandú (fonte: Internet)

"MEU irmão, Sérgio Serra, acaba de renunciar à presidência do Paysandu Sport Clube (time de futebol de Pará), depois de um episódio traumático que nos abalou a todos. No domingo à noite, ele passeava numa praça em Belém com a esposa, Cristina (sim, minha xará), e o filho mais velho, Gustavo, de 14 anos, quando dois homens numa moto se aproximaram. Um deles, com o rosto encoberto pela camisa, encostou o revólver no rosto do meu irmão e disse o seguinte: “Eu já sei onde tu moras. Se o Paysandu descer pra série C, eu acabo contigo, com a tua mulher e com esse teu filho maluco”. Detalhe, Gustavo, meu sobrinho, é um adorável adolescente autista, um tesouro que temos em nossa família.



Abaladíssimo, meu irmão tomou a única decisão possível numa situação como essa, a renúncia. Como muitas outras coisas no Brasil, o futebol (com poucas exceções), pra mim, há tempos virou coisa de bandido. Já está a tal ponto contaminado que não há o que reformar, recuperar, restaurar, tamanha a putrefação. E dou ênfase: tal como outras tantas coisas no Brasil. Quando meu irmão informou à família que iria se candidatar à presidência do clube, todos lamentamos.


terça-feira, 4 de julho de 2017

CLÁSSICOS do Valentim

Originais do Samba: Do lado direito da rua Direta


DO LADO direito da rua Direita
Olhando as vitrines coloridas eu a vi
Mas quando quis me aproximar de ti não tive tempo
No movimento imenso da rua eu lhe perdi

Do lado direito da rua Direita
Olhando as vitrines coloridas eu a vi 
Mas quando quis me aproximar de ti não tive tempo 
No movimento imenso da rua eu lhe perdi

E cada menina que passava...
para seu rosto eu olhava
E me enganava pensando que fosse você... 
e na rua Direita eu voltarei pra lhe ver